..Editado
conforme Novo Acordo Ortográfico Brasileiro
J
O S E M A R B O S I
A
L É M
D
O
D
E S C O N H E C I D O
A
desonestidade pode nos levar à (a) riqueza,
mas
nunca à (a) felicidade.
DEDICATÓRIA
Este
livro é dedicado a todos os
Terráqueos
que, de alguma forma,
contribuem
para a defesa de nossa
Mãe
Natureza, quiçá, nossa Deusa.
Concepção
da capa:
Lucas
Leal Bosi
Revisão
Ortográfica:
Márcio
Magno Ribeiro de Melo
PREFÁCIO
UM
LEMBRETE E... UMA CATÁSTROFE
O
LEMBRETE
Para
uma rápida elucidação, vamos nos concentrar na era da "invenção"
dos ideogramas, que, praticamente, deram início à escrita: os
hieróglifos – hiero: sagrado; glyfus: escrita –, que são as
primeiras "marcas" semânticas criptográficas de um
inovador “ABCDário” - criado por um ignoto gênio
da literatura “pós pedra lascada e muito bem polida”. Dizem os
estudiosos do assunto, desta prima expressão gráfica de diversos
idiomas dispersos, que era assim mesmo que empregavam os símbolos;
suprimiam tudo que não fosse necessário à compreensão do texto.
Ponteiros
e marretas, arcaicos, fizeram mãos calejadas deixarem mensagens em
desenhos cuidadosamente elaborados, ao custo de muitas gotas de
sangue, nas duras rochas. Esculpiam para que, num futuro improvável,
outros povos conseguissem decifrar, através daqueles sinais cunhados
pelas batidas resvaladas em lascas de pedras – que a muitos cegaram
–, a história do desenvolvimento humano.
Inúmeras
dessas páginas, que adornavam as bordas dos quadros de figuras
excêntricas, se desgastaram nas intempéries da natureza. Outras
tantas foram destruídas por serem consideradas, na época,
portadoras de conteúdo pagão e conterem sacrilégios. Porém,
muitas delas se preservaram das maldições nos memoráveis templos
da antiguidade. Escaparam das lutas bárbaras desbravadas pelo poder
e foram lidas, com algumas incorreções, após milênios, que, de
seus autores, nem os cabelos restavam nas tumbas violadas.
Todo
esforço e risco empreendidos na transliteração de tais códices
pétreos se prendiam a dois fatores essenciais: o primeiro – de
alguns raros interessados em resgatar uma cultura perdida –, e o
segundo – de muitos gananciosos à procura de inscrições que
revelassem tesouros enterrados nos túmulos e sarcófagos, camuflados
nos inumeráveis corredores misteriosos das pirâmides e dos
monumentos.
Não
pense o moderno Leitor que o nosso episódio se desenrola no
subterrâneo de um passado longínquo; esboçamos apenas, numa
pincelada, a lembrança de que devemos quase todo o nosso
conhecimento universal ao eminente autor desses entalhes à mão
livre, que, embora esdrúxulos e cujo discernimento de lê-los e
escrevê-los ficou restrito a poucos, atravessaram eras
conturbadíssimas.
A
CATÁSTROFE
Para
exercitar nossos neurônios empoeirados, retrocederemos, embaralhando
o tempo, para muito distante daqui... Há uns dezenove, trinta e
oito, quarenta e sete, sessenta e cinco milhões de anos.
Animais
pastam livremente. Outros disputam a sobrevivência na cadeia
alimentar. A natureza é fértil e virgem. De repente, os prodigiosos
dinossauros se assustam. Marsupiais correm desorientados. Mamutes em
debandada atropelam-se. Pássaros voam sem direção. A bicharada,
enlouquecida, estoura numa fuga desesperadora.
Uma
chuva de enormes meteoros incandescentes desaba do Universo. Arrasa
florestas, desvia rios, extermina lagos, transfigura o panorama
natural.
Os
pobres animais não têm nenhuma defesa e são abatidos cruelmente,
ante o inimigo mortal.
Um
gigantesco meteoro, descontrolado, surge a toda velocidade. Choca-se
com força em águas profundas do oceano que, amortecendo o impacto,
faz com que as areias das profundezas venham à superfície e formem
um incomensurável deserto, sem vida, na crosta terrestre. Com o
abalroamento, abrem-se rachaduras no solo jorrando lavas para o
espaço, que retornam solidificadas, elevando colossais cordilheiras
e penhascos pontiagudos.
Depois
do cataclismo reina um silêncio mortuário sobre o Planeta
fumegante, que acabara de mudar, ab-ruptamente, a carta geográfica
da era mesozoica.
-
Será que, a princípio, Deus não gostou daquilo que criou?!
A
chuva de meteoros percorre mais alguns milhões de anos pelo Universo
infinito, até encontrar outro Sistema de seres vivos. Um povo
civilizado e evoluído comemora, com uma grande festa, a virada de
mais um milionésimo em seu calendário.
Subitamente,
o dia fecha-se em noite. Do alto do céu desponta a tempestade
torrencial de meteoros e, novamente, a mesma cena lacerante se
repete. Desta vez, são enormes blocos de montanhas, algumas em brasa
viva, que penetram pelo solo adentro levando para o fundo o que
deparam pela frente. Homens, mulheres e crianças tombam, alvos das
pedras velozes e impiedosas. Enquanto uns correm à procura de
abrigo, outros saem numa fuga louca, em disparada, com suas
espaçonaves que cortam o céu e desaparecem rápidas por entre as
nuvens.
Vários
planetas não suportam a colisão brutal das volumosas pedras e
explodem em chamas. Despedaçados, passam a compor a imensa chuva que
prossegue em sua queda livre pelo espaço sideral. Uma espessa nuvem
de poeira cobre toda a paisagem.
Bem,
caro Leitor, esse foi um passado remotíssimo, o que nos outorga a
pensar que somos um simples "recém-nascido" perante as
“eternas” gerações desconhecidas.
E,
por falar em passado, pousemos, em definitivo, na nossa genuína
história... No momento presente.
I
- OS ESCOLHIDOS
O
dia ainda nem amanhecera em Vila Velha e uma nave interplanetária,
brilhante, aporta no céu. Desce abaixo das nuvens. Estaciona –
estável – no espaço. Duas criaturas, de dentro dela, espreitam as
casas abaixo com um radar infravermelho. Numa tela panorâmica
visualizam toda a cidade. Sondam, vasculham as residências, cujos
moradores ainda dormem na penumbra da madrugada.
De
repente, ao focalizarem uma casa amarela, com dois pés de murta no
quintal, repletos de flores brancas, os sensores disparam um alarme.
Os dois seres se movimentam agitados, entre sombras, em atenção aos
sinais de alerta dos equipamentos. Trocam um diálogo indecifrável e
executam detalhes programados... de um plano estritamente
confidencial.
Dentro
da casa vigiada a rotina do dia começa normal e corriqueira.
–
Acorda, Rodrigo, está na hora do colégio – convoca o pai.
Todo
dia é a mesma ladainha: o despertador toca feito maluco, até quase
cair da escrivaninha, e Rodrigo prossegue em seu sono tranquilo. Só
desperta com os cutucões do pai, e resmungando:
–
Ainda é cedo. Só mais um pouquinho.
Aliás,
acordá-lo passara a ser uma tarefa árdua; porque, depois de
acordado, o difícil era tirá-lo da cama. Requeria muita paciência
e força. Ainda tarefa atribuída ao pai era alimentar o peixinho de
estimação, embora Rodrigo, para obtê-lo, jurou que o trataria
direitinho. Agora, nem parar em frente ao aquário e conversar com
seu lebiste preto e amarelo, não para mais – sacrifício que só
fizera nos três primeiros dias.
Conclusão:
Rodrigo sai da cama sempre atrasado, mal-humorado e exaltado. Entra
em ação a correria desenfreada e cotidiana do lar: café derramado
sobre a mesa, biscoitos espalhados, pingos de geleia construindo
trilhas na toalha branca. E, no final, Rodrigo engole o copo de leite
com chocolate num só fôlego. Emoldura uma cara assanhada. Suspira
lambendo o bigode cremoso. Entorta o pescoço e desfere um sonoro
arrotão. Em represália, leva uma bronca, logo cedo, dos pais.
No
banheiro espreme o tubo de pasta de dentes deixando escorrer além da
escova. Do cabelo penteia só o topete, atrás permanece todo
eriçado. A mãe, protetora instintiva, defende o rebento:
–
Ele é uma criança ainda... Só tem dez anos.
O
pai, Jaime Brosso, é obrigado a envolver-se nessa ciranda, pois a
lerdeza de Rodrigo faz com que ele se atrase para o serviço.
Para
Jaime, hoje seria o retrato de todos os outros dias, não fosse o
sentimento enigmático que acordara com ele. Girava por sua cabeça,
feito um radar de submarino, uma sensação de alerta. Seu
subconsciente detectara o sensor da nave que emitia um fino "bip",
mas, para ele, aquilo era um aviso de perigo, um recado do
sobrenatural, que lhe transmitia a nítida impressão de haver
alguém, malévolo, dentro de casa e que o observava o tempo todo.
Jaime estava tão sugestionado que até um vulto chegava a se
desenhar atrás dele e, quando desvirava, não via ninguém.
–
"Não posso ficar nessa dúvida" – pensou.
Decidiu
averiguar em todos os cômodos. Disfarçadamente, enquanto amarrava
os sapatos, se agachou para olhar debaixo das camas.
–
"Quem você desejava ver? Papai Noel?" – perguntou-se,
caindo na real comicidade da posição em que se encontrava. Mesmo
assim, foi à suíte, limpou os óculos enquanto inspecionava o boxe
e a banheira.
–
"Deve ser fruto de algum sonho inacabado" – respondeu
para os seus cadarços. – "É melhor eu esquecer isso e
apressar Rodrigo.”
–
Mexa-se, Rodrigo, saia dessa moleza. Acelera, filho – incentiva
Jaime, vindo do quarto para a copa, refugando as ideias frívolas e
demonstrando naturalidade.
Rodrigo
vestia o uniforme com rapidez, exceto o tênis.
–
Tá apertado, mãe – resmungava ele.
Enfiava
o pé fazendo o maior esforço. Abria a boca e colocava a língua
toda para fora, como se isso ajudasse a encurtar a “chulapa” que
crescia a cada dia.
–
Xiii!... Começou a chover – avisou a mãe, que completa quase
dando uma ordem para Jaime. – Leva Rodrigo de carro hoje... com
essa chuva não vai ser fácil esperar o ônibus. E você, Rodrigo,
pega o seu guarda-chuva.
–
É chuva rápida... Sem trovão... Logo passa – respondeu confiante
Jaime, pois não pretendia tirar o carro da garagem. Já que, justo
hoje, iria parar no centro de Vitória, onde é quase impossível
conseguir uma vaga para estacionar.
Foi
só ele terminar de proferir as palavras e a chuva, como que por
mágica, foi diminuindo.
–
Tudo pronto? – inquiriu Jaime para Rodrigo, que, num abrir de
braços, se oferece para a inspeção final. – Então vamos zarpar
– liderou o pai, ajeitando o relógio no pulso. – Estamos em cima
da hora.
Jaime
se dirige para a esposa:
–
Ah, Amor, após a aula de Rodrigo vou passar no banco para...
comprarmos o melhor lugar do mundo.
A
esposa, carinhosamente, o abraça num afago, dizendo:
–
O melhor lugar do mundo, para mim, é ao seu lado. Você sabe disso.
–
Nossa!... Despertou inspirada hoje, mulher! – Jaime a beija e saem
abraçados até ao portão.
Rodrigo,
na despedida, aproveita e despeja o seu chamego com a mãe. Jaime
aguarda a sua vez. Depois de muitos abraços e beijos, Rodrigo se
afasta e se posta de vigia. Já é um vício de todas as manhãs:
cruza os braços e presta atenção ao pai. Hoje, só para chateá-lo,
Jaime procurou inovar. Acariciando os cabelos da esposa, lisonjeou-a,
afetivo e charmoso:
–
Até logo, minha Flor. Saiba que eu...
–
Flor? – interrompeu Rodrigo. – Você nunca chamou mamãe de minha
Flor, pai!
–
Hoje eu chamei. Só para dizer que... nem toda gota de orvalho... que
sou eu, tem a felicidade de encontrar em seu caminho uma flor... que
é a sua mãe – a mãe, como sempre, delicadamente beijou-o na boca
em agradecimento.
–
Aí, hein!... Hoje vocês dois estão se ganhando na lábia, né? –
palhetou Rodrigo.
–
Vamos, Rodrigo, senão a gente vai se atrasar mesmo – explanou
Jaime, encerrando o papo-furado.
Quando
saíram o sol já enxugava o asfalto. Na rua, o que se via, eram os
alunos de todos os colégios da redondeza com suas mochilas às
costas. Pais e mães num tagarelar incessante de conselhos e
preocupações. Naquele tumulto de vozes, volteia em Jaime o mesmo
pressentimento.
–
"Estou sendo... monitorado. Alguém está me perseguindo.”
Olhou
para as pessoas ao redor, sobre os muros das casas vizinhas, e nada.
Ninguém com ar suspeito. Jaime, abandonando a esquisitice, ajeitou a
pesada mochila de Rodrigo no ombro. Chegaram ao ponto de ônibus e,
por sorte, veio o 500 – Terminal Itacibá –, que os
conduziria direto para a cidade. Depois que embarcaram, descobriram
que a sorte não fora tanta assim; porque o ônibus que passara antes
quebrara logo no quarteirão seguinte. Com isso, os passageiros
vieram todos para o ônibus deles, lotando-o. Após trinta minutos de
aperto, devido ao engarrafamento por toda a extensão da ponte,
desembarcaram e foram caminhando calmamente. Jaime carregava a
mochila de Rodrigo até próximo ao colégio, o resto do trajeto era
ele. Só para contar vantagem com os colegas, vangloriando-se de que
a trouxera sozinho. Encilhado com a mochila às costas, gorda, dura,
tal qual bolsa de viagem, Jaime comenta com ar de repreensão:
–
Você deve trazer muita tralha desnecessária aqui dentro, filho.
–
Não, pai, só os cadernos das matérias de hoje.
–
Daqui a alguns meses não vou mais aguentar todo este peso...
principalmente se meu joelho piorar.
–
Deixa de ser molenga, pai. Eu carrego essa mochila com facilidade.
–
Tá bom, super-homem... da preguiça – chateia-o Jaime.
De
novo, a estranha sensação de estar sendo seguido infiltra-se no
cérebro de Jaime. Um sinal evocativo, místico e inexplicável o
perturba. Suas funções normais sofrem uma interferência
desconcertante. Rodrigo o chama e afugenta suas ideias relutantes.
–
Pai, estou com cara de quem acordou agora? – perguntou esfregando
as mãos no rosto.
–
Não, filho – respondeu Jaime, esquecendo a cisma. – Você está
com cara de quem ainda está dormindo – arrematou com uma
gargalhada.
Rodrigo
continuou limpando os olhos e, rindo, se dava tapinhas para
despertar.
–
Veja bem, Rodrigo - reatou Jaime –, vê se não esquece: hoje é
aniversário de Maria Lúcia. À noite iremos à festa. Está
lembrado?
–
Claro que estou, pai! Ontem você já me falou isso. Informou também
que vai me buscar no colégio e nós vamos almoçar fora; porque você
não vai trabalhar à tarde e quer aproveitar para ir ao banco e
também comprar o presente dela. Tá bom?
–
Tá ótimo, filhão, decorou direitinho. E a lição de casa? Sabe
assim também?
–
Claro que sei. Estudei pra caramba ontem... – como a agudeza de
espírito de Jaime duvidou, Rodrigo acrescentou: – Pergunta pra
mamãe!
Perto
do colégio, Rodrigo, como sempre, pede a mochila ao pai e a coloca
nas costas.
–
Ah, garoto, hein!... Traz essa mochila, pesadona e sem reclamar!
Rodrigo
notou o tom de gozação de Jaime e nem contestou. Só olhou para ele
atravessado, como se fosse estrábico.
Essa
caminhada até ao colégio era benéfica para ambos. Eles podiam
brincar e conversar futilidades, totalmente descontraídos, sem ter
nenhum abelhudo para atrapalhar. Despediram-se como de costume e
Rodrigo ouviu a mesma recomendação do pai:
–
Presta atenção nas aulas, hein, filho!
Quando
Jaime se despediu de Rodrigo, a impressão de estar sendo observado
desapareceu. Parece que foi desligado um interruptor e seus neurônios
foram liberados. Jaime ajeitou os óculos e saiu direto para o
trabalho a passos largos. Ansioso para que a tarde chegasse,
concentrou-se num serviço pendente e que faria o tempo passar
despercebido: gráficos estatísticos. Montava-os em vários tipos.
Ao concluí-los recolheu-se ao banheiro e escreveu uma poesia. Um
passatempo que praticava onde quer que lhe penetrasse a inspiração
em sua anêmica veia poética.
Hoje
iria ao banco acertar um empréstimo para realizar a aspiração do
casal. Já postergara por demais o compromisso que havia assumido
consigo mesmo: construir uma casa de campo. Só assim quebraria a
rotina dos finais de semana.
Teria
sido um expediente quase padrão, não fosse o tumulto provocado pelo
assalto à agência bancária do prédio em frente. Aliás, o que já
é uma incoerência habitual, os clientes se acostumarem a conviver
com esse tipo de desregramento. O fato é que todos torcem para que,
quando estiverem em um banco, não venham os assaltantes e os façam
de reféns, usando-os como escudos humanos.
Passava
pouco do meio-dia quando Jaime saiu. Ao avizinhar-se do colégio,
Rodrigo já o aguardava do lado de fora com ares famintos. Quando o
viu, ergueu a mochila e veio precipitado, reclamando:
–
Vamos almoçar logo, pai. Estou morrendo de fome. Não aguento nem
mais um minuto sem colocar alguma coisa mastigável na boca. Hoje eu
como mais de seiscentas gramas.
–
Filho, se diz: seiscentos gramas. Grama, no seu caso, é substantivo
masculino. Porque da maneira como pronunciou, você vai almoçar
capim. Ou prefere grama de jardim... Bem ou malpassada, senhor?
–
Aaah!... Pai, eu quero é comer e não saber o gênero correto –
aborreceu-se Rodrigo com a ironia de Jaime.
–
Calma, filhão, deixa de ser rabugento. Com fome você fica
nervoso?... Ou brigou com a namorada?
–
Oh! pai... para com isso, eu não tenho namorada.
–
Tá bom, cara, não avacalho mais – desculpou-se Jaime tomando-lhe
a mochila.
Para
harmonizar os ânimos entraram num acordo: almoçariam em um
restaurante instalado no meio do percurso, entre o colégio e o
banco. Realmente Jaime constatou que o rapazinho estava mesmo com
muita fome. Devorou mais de meio-quilo e, de sobremesa, uma tigela de
salada de frutas com cobertura de creme de leite.
Jaime
Brosso não sabia o porquê, mas hoje tudo acontecia a seu favor. No
banco não esperou muito e foi prontamente atendido. Acertou as
minudências do empréstimo facilmente. O gerente, sorridente e
atencioso, aceitou todas as suas condições e exigências sem
questionar. Nem solicitou documento extra. Jaime não entendia se era
o seu dia de graça ou o do gerente. Pois adentrou ao banco pensando
que, para ver tudo concretizado, teria o dissabor de retornar ali, no
mínimo, de cinco a sete vezes. Saíram do banco e foram a uma
perfumaria. Rodrigo escolheu o presente da prima, já que Jaime é
alérgico a tal prazer.
–
Bem, Campeão, agora embarcaremos para casa. Já está tudo acertado:
financiamento aprovado, presente comprado, e eu carregado, com essa
mochila do lado... vou ficar bastante cansado.
–
Eta-ferro!... Que bobeira, hein, pai? – reprovou Rodrigo.
–
Filho adorado, se eu estiver errado, espero ser perdoado.
Jaime
sempre gracejava assim com Rodrigo. Entretanto, o filho nunca formava
dupla com ele na brincadeira. Era inimigo das rimas. Dirigiram-se
para o ponto do ônibus. Jaime, com o pensamento frouxo, sem nenhuma
aporrinhação para remoer, sentia um alívio ao emoldurar a futura
casa de campo, quando, inesperadamente, bateu novamente a mesma
sensação de alerta. Só que desta vez bem mais contundente. Teve
até a impressão de que fora tocado nas costas. Voltou-se ligeiro.
Nada. Esquadrinhou em círculo. Tudo na maior regularidade. Os
pedestres passavam conversando naturalmente.
–
"Caramba! Tenho certeza que alguém está me bisbilhotando.”
Num
encadeamento de fatos obscuros sua sagacidade foi direcionada para o
céu. Divisou uma nuvem incomum que pairava sobre sua cabeça. Uma
nuvem branca. Era quase brilhante. O céu não tinha mais aspecto de
chuva e a tarde se desenhava ensolarada de verão. Jaime ainda não
acreditava, mas, lá do alto, a nuvem os acompanhava. Pararam no
semáforo e a bendita nuvem parou também. Jaime viu uma faísca, de
cor azulada, sair de dentro dela.
–
"Foi reflexo do sol; só pode!" – pensou convicto.
Olhou
o relógio da Praça Pio XII. Marcava quatorze horas exatas. Por
costume, conferiu com o seu no pulso. O semáforo fechou para os
carros. Atravessaram a rua e pegaram a calçada oposta. Seguiram pela
Avenida Beira-Mar rumo ao ponto de ônibus. Rodrigo não se
apercebera da nuvem. Jaime achou por bem nem comentar tamanho
descabido. Enquanto o ônibus não chegava, Jaime recostou-se no
parapeito da mureta que cercava a calçada do mar. Pôs-se a
percorrer, com o olhar, o Porto de Vitória. Suas águas, devido à
maré baixa, apresentavam-se mais sujas de lixo e fedorentas que de
costume. Rodrigo gostava de examinar, minuciosamente, os guindastes
que descarregavam os contêineres dos navios. Jaime, cabreiro, fez
uma sondagem dissimulada para o céu. A nuvem hospedara-se, sozinha,
branca como algodão, de forma perfeita – bem acima deles.
–
"Perfeita demais para uma simples nuvem" - pensou já se
recriminando. – “Deixe de tolice, Jaime!... Não faz o menor
sentido você se apoquentar com isso.”
Resolveu
esquecê-la. Olhou para os navios atracados no porto sem se incomodar
com a nuvem. Contou dezenas de caminhões que saíam pelo cisbordo de
um cargueiro. Um pequeno barco, a remo, chegava ao embarcadouro. O
catraieiro trazia as pessoas que preferiram atravessar, de Vila Velha
para Vitória, pela baía, ao invés de darem a volta, de ônibus,
pela Ponte Florentino Avidos. Mal desviou os olhos da nuvem e Jaime
percebeu que seu corpo começara a elevar-se do chão.
–
Rodrigo! – chamou num susto incompreendido.
–Pai!
– respondeu Rodrigo com os olhos esbugalhados, impregnados de
pavor.
Só
então Jaime atentou que Rodrigo também subia junto com ele.
–
Segure-se em mim, filho – gritou agitado diante do imprevisto.
Jaime
agarrou-se ao parapeito e Rodrigo grudou no seu pescoço aos berros.
–
Pai! Pai, o que é isso?
–
Não sei, filho – respondeu Jaime fazendo um esforço sobre-humano
para sustentar-se na mureta.
–
Ajuda aqui! – berrou Jaime para o catraieiro, todavia ele
girou seu barco e regressou em remadas tranquilas.
–
Socorro! – suplicou para três senhores que conversavam a
uns cinco passos deles, entretanto todos se comportaram como se não
houvesse ninguém ali, muito menos em apuros.
Jaime
sentiu mãos invisíveis, com uma força descomunal, arrancando seus
braços do parapeito.
–
Ei! Você... Careca! – berregou, ofensivamente, pois havia
três papeando no ponto, contudo, nenhum deles se moveu.
Jaime
e Rodrigo flutuaram feito dois balões de gás levados pelo vento.
Não puderam esboçar mais reação nem resistência física. Jaime
viu seus sapatos dependurados no ar e a cidade se distanciando
rapidamente. Rodrigo, agarrado a ele, olhos arregalados, tremia todo.
Estavam sendo içados por uma energia misteriosa. A gravidade não os
afetava. Seus corpos subiam como dois pêndulos soltos. O temor de
Jaime duplicou-se, pois agora torcia para que aquela fonte maligna
não se dissolvesse de vez, porque se despencassem daquela altura
seria uma fatalidade, espatifar-se-iam lá embaixo, diretamente na
calçada. Alguns indivíduos contemplavam justo em sua direção,
como se nada de anormal estivesse em andamento. Outros, alheios ao
desespero dos dois, admiravam a paisagem do porto – enquanto eles
eram tragados para a nuvem. Gritaram novamente com a esperança de
que talvez alguém ouvisse. Porém, mesmo empregando toda a extensão
das cordas vocais, a voz não ecoou. Saiu abafada, apenas um
sussurro.
Chegavam
perto da nuvem. Uma porta metálica, triangular, surgiu e abriu-se
verticalmente, mostrando uma passagem negra. Tudo escureceu numa
fração de segundo. Ficou tão escuro que tanto fazia manter os
olhos abertos ou fechados – o breu era total. Silêncio absoluto.
Jaime sentiu o pulsar do coração de Rodrigo, que permanecia
agarrado ao seu pescoço. Foi tocado no ombro por mãos estranhas e
pisou um chão macio. Rodrigo, ainda pendurado no pai, reclama:
–
Pai, não estou aguentando mais me segurar.
–
Filho, largue-se devagarinho.
Logo
Rodrigo exclama:
–
Tem chão aqui, pai!
–
Tudo bem... fique quieto, filho. Não se mexa – recomenda Jaime
ainda incrédulo com o que acabara de suceder.
–
Estou com medo, pai. Tá escuro demais.
–
Calma, filho. Eu não sei o que está acontecendo, mas o melhor que
podemos fazer agora é aguardarmos com cautela.
Na
cabeça de Jaime uma alucinação inundava seu intelecto ativo.
Rodava, sorteando numa roleta sem ponteiro, inúmeros palpites
prematuros, que sem tardança eram descartados tamanha a
impossibilidade de serem reais. Num rompante obsessivo veio uma
hipótese verossímil, meio lógica, meio louca também, porém, a
única aceita; mesmo assim, numa disputa irracional, num debate de
inconformidade.
–
"Morrer é assim?... Escuro... deve ser o Purgatório!... O
Purgatório é destinado aos pecadores sensatos cumprirem uma
penitência amena... providencial... só depois é que ingressam no
Paraíso. No céu só deve ter anjos... Querubins... Serafins,
sentados nas nuvens, tocando harpas e trombetas. Minha vida não foi
de transgressões exorbitantes... devo ter apenas alguns pecadilhos
para serem expurgados. Mas Rodrigo é uma criança! Que pecado teria
ele para me acompanhar?... Bem, é bastante desobediente. Será que
arrotar é pecado?... O que será que Rodrigo está imaginando a
respeito disso?... Melhor nem perguntar. Sendo só a escuridão e
este sossego como sacrifício... tudo bem. Caramba! Rodrigo tem medo
de escuro. É um castigo e tanto pra ele!... Não vejo nem as minhas
mãos! Como é que os anjos enxergam? Por quanto tempo teremos que
esperar? Assim dá agonia...”
Neste
instante Jaime é desviado de sua meditação inconveniente num
sobressalto, pois alguém o ampara pelo braço e, forçosamente, o
senta. Rodrigo surpreende-se:
–
Pai, você está sentando?
–
Es..estou, filho.
Rodrigo
estranha e indaga:
–
Em quê?! Por quê?
Jaime
não quis aterrorizar o filho, mas, desconfiado de que houvesse
alguém ali, correu o braço ao seu redor, porém não tocou em
ninguém. Contornou o assento com a mão e, pelo tato, confirmou:
–
É um... tamborete, filho.
–
Estou com medo, pai.
–
Calma, filho, coragem. Não devemos nos mexer. Pode ser perigoso.
Vamos aguardar mais um pouco.
As
ideias complexas e subjetivas de Jaime retornaram hostilizantes.
–
"Onde estão os outros que morreram antes de nós?... Existem
Purgatórios separados?... Não acredito!... Bilhões e bilhões de
cristãos que já morreram pelo mundo afora e cada um aufere
tratamento personalizado?!... Só sendo Deus mesmo para ter tudo sob
controle.”
Veio-lhe
do nada, numa inquietação instigante, uma dúvida afoita:
–
"Morremos do quê? Eu não estava em tratamento de saúde... nem
internado. Rodrigo tinha uma saúde de ferro... Mas se morremos...
Lembro-me agora... nós estávamos na calçada. O sinal fechou e
atravessamos... Espere!... Será que nos atropelaram na calçada e
não vimos a morte chegar? Muitos já morreram assim. Inocentes...
sobre a calçada. O susto me fez esquecer esse pormenor. A calçada...
só me recordo até ali. Meu Deus!... Calculo que ainda nem avisaram
em casa..."
De
repente um facho de luz, rápido, pela esquerda, se fez ver. Logo
sumiu. As suposições de Jaime espantaram-se. Rodrigo cochichou no
ouvido do pai:
–
Viu, pai? Foi um relâmpago?
–
Vi, filho. Se não ouvirmos o barulho do trovão... não foi.
Escureceu
e parece até que ficou mais escuro que antes. Jaime pensou em gritar
de novo, pedir socorro. Contudo, avaliou os acontecimentos e ajuizou:
–
"Vou deixar o silêncio em paz. Pelo tamanho de nossos pecados,
só esse cagaço paga por todos.”
Rodrigo
repetiu seu refrão quase chorando:
–
Pai, estou com muito medo, pai. Não vejo um pingo de claridade.
–
Filho, eu estou aqui - falou Jaime, pausadamente, no intuito de
encorajá-lo. – Não vou sair sem você.
Outro
lampejo. Muito veloz. Um barulho demorado. Uma porta emperrada que se
abre se fez ouvir. Algumas batidas espaçadas e um pequeno estalo. Em
seguida, lentamente, no fundo da sala, acendeu-se um farol tênue. O
recinto foi clareando devagarinho. Começaram a distinguir dois
vultos esguios a curta distância. O luzeiro passou a focalizar na
direção deles. Ofuscados, esquivaram-se para o lado e se deparam
com um ambiente inusitado. Encontravam-se bem no meio de uma sala
espaçosa, com vários equipamentos recheados de botões, telas e
teclados. Rodrigo notou com clareza e articulou baixinho:
–
Pai, tá vendo?
–
Estou, filho - Jaime suspirou aliviado, achou bom, pelo menos não
estavam mortos. Passados alguns segundos, não achou tão bom assim,
pois, nesse caso: que lugar seria este?
O
facho diminuiu de intensidade e quase apagou. Os dois vultos, na
obscuridade, debatiam como se decidissem algo sobre eles. Jaime
espreitou para ouvir, mas era tudo enrolado, um zumbido confuso em
que não se concatenava uma sílaba sequer. Logo a conversa terminou.
O silêncio reinou novamente.
Os
dois, em passos sincronizados, lado a lado, dirigiam-se para eles. Só
então Jaime percebeu que havia um longo corredor a ser percorrido. O
foco de luz iluminava o caminho à frente daquelas duas criaturas,
deixando todo o corpo, e principalmente o rosto, às escuras. Jaime
apostaria que aqueles dois vultos, embora envoltos numa grossa
sombra, eram duas pessoas.
–
"Ou seriam os anjos que vieram nos recepcionar?" –
sofismou temeroso. – "Não, não são anjos... não têm
asas!" – e emendou. - "Tampouco diabos... não têm
chifres!"
Os
personagens enigmáticos pararam na penumbra. Antes que Jaime pudesse
pensar em esboçar algum protesto ou questionamento, o da direita,
quase sem sotaque, assegurou-lhe:
–
Vocês foram os escolhidos. – Pelo deslocamento do pescoço, Jaime
notou que a criatura olhara diretamente para ele e enumerou. –
Primeiro, pela sua humanidade. Segundo, por sua vontade. Terceiro,
pelo seu raciocínio lógico. E quarto, por sua coragem de enfrentar
o imprevisível.
Jaime
controlou ao máximo a sua ansiedade. Portou-se como se estivesse
conversando com um novo vizinho que chegara de madrugada, sem mudança
e de aspecto indefinido.
–
Eu agradeço as suas gentis palavras, mas gostaria de saber por que
estamos aqui e... quem são vocês - expôs Jaime, o mais moderado
possível.
–
Irão saber – respondeu o da esquerda com voz forte e macia. –
Saberão tudo a nosso respeito, entretanto... sem pressa. O ser
humano está acostumado a se vincular demais com as horas.
–
"Pronto - pensou Jaime, novamente, diante da cena semirreal –,
estamos mortos mesmo. No céu é só a eternidade que perdura. Tempo
é detalhe insignificante. Não tem valor. Não passa. Portanto,
ninguém precisa ter pressa alguma. Não se vai a lugar nenhum!... Só
lamento o sofrimento daqueles que ficaram. Como estarão agora? Será
que já foram avisados?"
O
da esquerda manuseava, atentamente, uma série de telas em que um
questionário imperativo, numa sequência exaustiva e repetitiva,
exigia resposta objetiva. O da direita anexou um equipamento repleto
de saliências sobre uma mesa que flutuava – pois não tinha pés –
e Jaime certificou-se disto discretamente. A criatura, com certo ar
de orgulho, enunciou:
–
Eu disse que vocês foram os escolhidos. Agora conhecerão um outro
mundo, uma outra civilização. Muito além do desconhecido.
Sentou-se
perto da mesa volitante e deu um toque numa caixinha quadrada.
Retirou uma lâmina de dentro dela. Colocou seu dedo sobre um painel
luzente. Deu mais outro toque e fitou, velando o vazio. Surgiu uma
imagem em três dimensões, explicitando no ar um alto-relevo
uniforme, quase palpável. Rodava em câmera lenta numa apresentação
de seus contornos perfeitamente iguais. Era um local esquisito para
Jaime, que, em seu processo mental revolto, nunca presumira que o
Reino de Deus fosse uma cidade estranhíssima. O que ele via, saindo
daquele “retroprojetor moderno”, eram milhares de morros
íngremes, todos lisos e metálicos, sem vida, formando enormes
cadeias de montanhas, idênticas e pontiagudas que, numa vista aérea,
prolongavam-se até o final do horizonte. Cada qual ostentava uma
bandeirola colorida no topo.
–
Vejam de onde viemos – mostrou o da esquerda.
–
Bisam Joreso - completou o da direita. – Uma Comunidade do Planeta
Claus, pertencente a um plano universal não conhecido por vocês,
pois não saíram do primeiro estágio evolutivo na astronáutica.
A
aflição fizera com que Jaime nem prestasse atenção e argumentou
irrefletido:
–
Ainda não sei se estamos vivos ou mortos... Que lugar é este e o
que pretendem conos..co... - pasmado, Jaime se deu conta do que lhe
desvendaram e apatetou-se. – Vocês... são de outro Planeta? Foi
isso que... ventilaram?
–
Foi, pai, e de outro “plano universal” – reafirmou Rodrigo,
surpreendendo Jaime por sua calma e frieza.
–
Sim, somos do Planeta Claus – corroborou o da direita desligando o
filme.
O
da esquerda aproximou-se de Jaime. Trazia uma capa azul-celeste caída
sobre os ombros. A sua vestimenta multicolorida cintilava mais que
purpurina. Era tão colada ao corpo que quase fazia parte da pele.
Quando ele entrou mais na claridade, Jaime pôde ver o rosto dele com
nitidez, e não gostou. Rodrigo também não; Jaime notou pela
contração de suas mãos em seu braço. Não que seu aspecto fosse
repugnante, nem muito longe da estética humana, havia até um ar de
segurança e confiabilidade em sua fisionomia, porém era um
alienígena interplanetário, portanto, passível de atitudes
inesperadas.
Jaime
decompôs os traços faciais do elemento: olhos sagazes, em risco.
Cílios e sobrancelhas, imperceptíveis. O nariz, orelhas e lábios
ele classificaria de: semelhantes. Dentes pequenos. Cabelos
abundantes e bem ajeitados. O que mais lhe despertou a atenção foi
a pele. Não era uma pele flexível. Não se viam os poros nem os
pelos. Parecia feita de material plástico. Muito vermelha e lisa.
Totalmente esticada. Não evidenciava uma ruga ou estria. Até
refulgia no reflexo da luminosidade. Jaime comparou-a a uma pele de
maçã. O outro se chegou à luz também. Tinha as mesmas
características do primeiro, com exceção da pele e dos cabelos.
Ele era marrom e quase careca. Se quisesse poderia contar quantos
fios ainda lhe restavam no “couro cabeludo”. O "Pele de
Maçã" estendeu a mão para Jaime em sinal de paz. Jaime
levantou-se lentamente e, com receio, imitou-o.
–
Sua mão é muito grande – observou ele fixando seu olhar no de
Jaime.
Jaime
notou que a mão dele era minúscula. Todavia, isso não lhe causava
vexame. Reteve firme a mão de Jaime e fez uma face benfazeja. Uma
onda de energia infiltrou-se da cabeça aos pés, por dentro de
Jaime. Uma convulsão coerente lhe lançou uma descarga elétrica
sistemática. Seus membros paralisaram-se de imediato. Uma força
pujante expandiu-se numa aura incandescente que lhe circundava.
Embora não soubesse o que estava por vir, um pressentimento benévolo
o persuadia a confiar. A criatura largou a mão de Jaime denotando
saber o que sucedera ali. Tudo voltou à calmaria. Jaime, numa
quietude tranquilizante, avaliou-se ótimo.
A
criatura dirigiu-se para Rodrigo com um leve sorriso e a mão
estendida. Jaime fez um gesto de precaução que foi logo assimilado
pelo extraterrestre.
–
Com uma criança, o cumprimento é inofensivo – salientou. – Não
carece analisá-lo a priori.
Rodrigo
olhou para o pai e depois cumprimentou o forasteiro naturalmente.
Jaime
sondou para fora da nave. Tudo se media numa imensidão de vazio.
Logo suspeitou que planejavam concretizar alguma experiência, pois
entreolharam-se por duas vezes, gesticularam e no final concordaram
em algum ponto. Mexeram em uma série de botões e alavancas de
vários aparelhos da sala.
–
Por favor, venha até aqui – pediu o "Pele de Maçã"
para Jaime. – Nós aspiramos lhe confidenciar um pouco do poder
tecnológico que existe entre o céu e a Terra, como filosofam vocês
– e riu-se sem emitir ruído.
Jaime
encaminhou-se vagarosamente para ele. Rodrigo sentou-se no tamborete.
O chão era tão macio que Jaime quase não sentia seus pés tocá-lo.
Por baixo, saía uma fumaça branca que se resguardava sempre
rasteira.
–
Coloque a sua bolsa aqui – apontou o "Pele de Maçã"
para a mesinha que flutuava, agora já perto de Jaime.
Quase
que automatizado Jaime removeu a mochila das costas e a deixou cair
sobre a mesinha, que se afastou sozinha, indo parar num canto isolado
da sala.
–
Venha para este círculo e fique imóvel por alguns segundos, por
favor – instruiu, educadamente, o "Pele de Maçã".
Havia
uma marca luminosa no chão. Jaime estacionou sobre ela. O "Pele
de Maçã" apertou mais alguns botões e explicou para Rodrigo:
–
Não fique atemorizado. Não vai acontecer nada de mal com o seu pai.
Ajeitou-se
em frente a uma máquina e começou a contar:
–
Três... dois... um. Quieto agora.
Um
aparelho tremeluziu uma sucessão de luzes coloridas que incidiam
focos luminosos no corpo de Jaime. Raios em curtos-circuitos eram
disparados em todas as direções. Um clarão forte, violeta escuro,
invade a nave como um espírito que desce e envolve Jaime num casulo
resplandecente. O ambiente tornou-se turvo. Um suor frio corre pelos
seus braços e pernas. Pensou que iria desmaiar. Porém, mãos ao seu
redor o amparavam de pé, ou ele... levitava. Seu coração bateu
forte. No seu joelho direito, além do calor, penetrou um estilete
anestesiante por baixo da pele. Sentiu uma fisgada no peito. Os olhos
esquentaram. Por uma fração de segundo ficou fora de si.
Esforçava-se para se mexer, porém permanecia estático. Decorrido
um período impreciso, o "Pele de Maçã" desligou a
máquina. Uma cintilação fosfórica pousou sobre Jaime, colorindo-o
de vermelho e ofuscando-o.
–
Pronto. Acabou – o estrangeiro pensou e adicionou soberbo. –
Digamos... a sua correção corporal, sem dor, nem sangue – e deu
um sorriso brando.
O
vigor físico sobressaltava em disposição para Jaime, porém sua
visão continuava turva.
–
Não estou vendo. O que houve? – perguntou levando a mão à cabeça
zonza.
–
Tire seus óculos – disse o alienígena prazerosamente, com o olhar
expectante por uma surpresa.
Jaime
tirou os óculos. As imagens destacaram-se nítidas, sua visão fora
ampliada além do normal, distinguia os pequenos símbolos dos
equipamentos mais distantes.
–
Em nosso Sistema esse apetrecho é inútil. São encontrados apenas
em museus. Você não precisará mais deles – cientificou
satisfeito o adventício espacial que acendeu uma das telas da
máquina e numa escrita, que mais pareciam hieróglifos, fez a
leitura dos itens:
–
Você teve a miopia e o astigmatismo totalmente corrigidos. Uma
artéria pequena, contudo importante para o bom funcionamento do
coração foi desobstruída e o seu joelho direito, que tinha um
problema sério no menisco, foi operado.
Após
ler o relatório o "Pele de Maçã" se lembrou de algo.
–
Ah!... esta ressalva é a vasectomia... que preservei intacta. A
máquina detectou como defeito, entretanto mandei desconsiderar. Ela
é muito jovem, tem certos detalhes, íntimos, que não conhece –
acariciou uma de suas lâmpadas carinhosamente.
Jaime
nem se prontificou em decifrar tudo aquilo de imediato, atordoado com
o bombardeio de raios que recebera, apenas colocou seus óculos no
bolso e sentou-se, num tamborete, ao lado de Rodrigo; que, suspicaz,
fitava o extraterreno.
Depois
de refeito, Jaime pensou acerca do que o "Pele de Maçã”
descrevera. No coração ele nunca sentira nada, mas o joelho
direito, o forasteiro tinha razão, inchava a qualquer esforço, e
ele vivia adiando a consulta ao médico. A vasectomia, de tão
antiga, quase já esquecera dela. E de fato, agora enxergava com
perfeição. Intrigado, desejando inteirar-se de todo o mistério,
interpelou curioso:
–
Vocês curaram a minha visão e o meu joelho com essas... lâmpadas?
O
"Pele de Maçã" prontamente delongou-se na elucidação.
–
Não, não são vulgares lâmpadas, são raios filtrados num
microcristal e supervisionados por máquinas inteligentes, que
localizam qualquer tipo de falha de um organismo vivo; revelam a
moléstia e, se autorizadas, executam, instantaneamente, o
tratamento. Cada segmento elabora gradualmente a dosagem, de acordo
com a necessidade de cada órgão.
O
"Marrom", com um olhar sereno, condescendeu:
–
Nós estamos em viagem de pesquisa pelo seu universo e escolhemos
vocês dois para estudarmos melhor a vida fora do nosso Sistema
Comunitário.
O
"Pele de Maçã" prosseguiu o assunto do "Marrom",
tranquilamente, como se soubesse o que ele iria dizer:
–
Para vocês terem uma noção. Estamos aqui há doze horas e ainda
não angariamos um resultado satisfatório. Demoramos mais de
quarenta minutos para reciclar a sua língua. Muitas palavras
complicadas, diferentes e inúteis, pois têm o mesmo significado.
Agora
o "Marrom" tomou a vez e relatou inconformado:
–
Verbos repetitivos aos montões. Sua língua não é condensada como
a de Claus, em que cada objeto tem apenas um nome.
O
"Pele de Maçã", num gesto-chave, atestou:
–
Aqui ninguém se conhece e isso é surpreendente para nós, pois, ao
nascermos, somos anunciados para todos os Planetas do Sistema
Comunitário. - O "Pele de Maçã" sondou o "Marrom"
e admitiu meio sem jeito: – Bem, eles ainda não alcançaram a
nossa tecnologia, nem tiveram oportunidade para isso, já que o
Planeta Terra é uma criança comparado ao Planeta Claus. Não é
Peifil?
–
Finalmente descubro o nome de alguém – propagou Jaime como se já
estivesse familiarizado com eles só para descontrair Rodrigo, que,
por vezes, grudava em seu braço, manifestando insegurança e medo.
–
Ah!... desculpem-nos. Esquecemos o trivial dos Terráqueos. A
primeira providência que vocês tomam, quando se defrontam, é...
O
"Pele de Maçã", o mais tagarela, se apressou espevitado
nas apresentações:
–
Meu nome é Dailen e este é o meu amigo Peifil... nos conhecemos há
mais de mil e quinhentos anos.
–
O quê? Quantos anos? – indagou Jaime com cara assombrada e ar de
quem não engoliu a pilhéria.
–
Para você pode representar muito, mas quando o ser humano dominar a
ciência plena da vida verá que isso é apenas a tenra juventude.
–
Juventude... – resmungou Rodrigo em discordância. – Ele é quase
careca! Não pode ser jovem!
–
Isso é hereditário, rapazinho, não tem como remediar. Não é
Peifil? – propalou Dailen chateando o companheiro. – Aliás, a
idade exata dele é: dois mil novecentos e quarenta anos. Eu é que
tenho só mil e quinhentos e trinta.
Jaime
ainda conjeturava com argúcia que haveria um estupendo equívoco com
a idade deles. Investigou desconjuntado:
–
Esse período... que vocês intitulam de ano, como ele é medido?
–
Incrivelmente igual ao seu – respondeu Dailen. - Isso foi o que nós
averiguamos de mais extraordinário no seu Planeta. A medida do tempo
de vocês é idêntica a nossa, até parece que alguém copiou. No
caso, vocês plagiaram, porque nós somos mais antigos – concluiu
com trejeitos acusatórios para achincalhá-los.
–
Pela maneira como vocês nos trouxeram para dentro desta nave e pelo
que fizeram comigo, deu para notar. Porém... quanto tempo mais? –
especulou Jaime numa curiosidade transparente.
–
É até difícil de avaliar – disse Dailen. – O Planeta Claus,
pelos nossos registros, perdura há mais de duzentos e cinquenta
bilhões de anos.
–
Duzentos e cinquenta bilhões?!! – Jaime gelou.
–
Isso mesmo, Terráqueo – confirmou Peifil. – Não chegamos a uma
data exata, porque um pouco da nossa história foi perdida em várias
chuvas de meteoros que caíram sobre o nosso espaço.
Dailen
intrometeu-se na sequência:
–
A última foi recentemente... quer dizer, há uns vinte e cinco
milhões de anos. Alguns Planetas desintegraram-se com os impactos.
Mas nossa raça sobreviveu. Os mais antigos divulgavam que esse fato
já ocorreu por cinco vezes, e, este último, foi o mais devastador,
porque aconteceu justo no meio de uma festa. Dado a nossa evolução
tecnológica, muitos fugiram em suas espaçonaves e nunca mais
retornaram. Deduzimos duas hipóteses: ou morreram, ou encontraram um
outro sistema habitável e ficaram sem condições de regressar, pois
as naves daquela época ainda utilizavam um combustível líquido
para a propulsão inicial.
–
Em nosso Planeta também se desencadeou um fenômeno parecido...
antes da presença do homem – comentou Jaime, inocente.
Dailen
lançou um olhar indefinido para Peifil, que persistiu impassível e
recuperou a narrativa:
–
Hoje não nos causaria estrago algum, pois temos um dispositivo de
segurança espacial que, num relance, todo o Planeta fica protegido
por ondas. Nada consegue ultrapassar... sem explodir ou evaporar-se.
–
Calma, Peifil, assim você vai assustar os nossos amigos, cujos nomes
nem sabemos ainda – e deu uma longa piscadela para seu companheiro
sem disfarçar.
–
Seus nomes são fora do comum para nós – apregoou Jaime. –
Logicamente os nossos também aparentarão... esquisitice para vocês.
Eu sou Jaime Brosso e este é o meu filho, Rodrigo.
–
Já sabíamos – declarou Dailen desafetado. – E nós não
estranhamos porque em Claus alguns já adotaram esses nom... - como
Jaime fez uma expressão bestificante, Dailen retomou em tom menos
empolgante. – Nossos radiotelescópios detectaram os sinais das
ondas eletromagnéticas do seu Planeta... há mais de cinco anos.
Assim, aprendemos o básico de sua língua. Hoje, quando chegamos
aqui, nós só fizemos uma reciclagem para unir a palavra à coisa
física. Isso foi bastante dificultoso.
Jaime
percebeu que eles sabiam muito mais a respeito da Terra do que
evidenciaram a princípio. Entretanto, se sabiam ou não, para ele
não importava. Seu desassossego era como sair dali.
–
Jaime Brosso, estou notando que você está apreensivo – constatou
Peifil –, todavia não há motivo para isso.
–
Realmente estou preocupadíssimo com o nosso destino – respondeu
circunspeto.
–
Vou lhe contar uma particularidade – asseverou Peifil –, nós
observamos vocês desde quando acordaram até saírem daquela loja de
perfumes, ainda há pouco.
–
O quê? E nos...
–
Calma, Jaime. Apenas sabemos que você tem 34 anos, foi campeão de
caratê na mocidade, é um ginasta amador... Ah, recorda a chuva...
de hoje cedo? – Jaime sinalizou com a cabeça que sim. – Como
adivinhou que pararia logo?
–
Chuva de verão geralmente é assim... vem grossa e não dura muito –
e preencheu a pergunta anterior. – E nos vigiaram o dia todo?
–
Vigiando não é bem o termo, Jaime... analisando e pesquisando, sim
– corrigiu Peifil educadamente.
–
O modo de vida, o transporte, o tratamento pessoal, as cidades, o
meio ambiente – completou Dailen confirmando a seriedade e a lisura
empregada no procedimento.
–
Como? – questionou Jaime sem consentir que Peifil respirasse.
–
Com isso. – Peifil exibiu um pequeno monitor.
–
Daqui de cima? Como funciona? – inquiriu Jaime distinguindo a sua
imagem focalizada e decompondo toda a comoção de perseguição que
sentira pela manhã.
–
Com ultrassensores espiões... contudo isso é sigilo absoluto
– complementou Peifil.
–
Claro, somos crianças ainda. Não saímos do primeiro estágio
evolutivo – ironizou Jaime.
–
Falando em criança. Muito inteligente o seu filho – enalteceu
Peifil referindo-se a Rodrigo.
–
Vocês o seguiram também? Para quê? – indagou Jaime surpreendido.
–
Claro que sim. Apreciamos o estudo e a brincadeira no intervalo do
recreio.
Rodrigo
ficou envergonhado e empertigado com o elogio.
–
Assim vocês acabam sabendo mais sobre meu filho do que eu – Jaime
passou a mão no cabelo de Rodrigo, que aproveitou e:
–
Pai, posso perguntar uma coisinha para eles? Posso?
Jaime,
estranhando o pedido interesseiro de Rodrigo, concedeu temeroso:
–
Claro que sim, filho.
–
Vocês assistiram ao jogo de futebol? – interrogou Rodrigo de
estalo.
Peifil
olhou para Dailen e como se já o culpasse por alguma coisa, reprimiu
risonho:
–
Eu avisei para você Dailen... que não ia dar certo.
–
Mas deu certo, Peifil! – retorquiu Dailen fazendo careta de criança
sapeca que praticou uma travessura sadia.
–
Foi bem no instante do gol, não foi? – investiu Rodrigo com
malícia e imitando a careta de Dailen. – Aquela bola que pegou
efeito.
Peifil,
com voz de juiz, conciliou escrupuloso:
–
Francamente, é quase impossível enganar uma criança. Dailen só
quis dar uma ajudazinha, Rodrigo.
Jaime
não aguentou ser apenas ouvinte.
–
Não disse que vocês sabem mais do que eu? Conta pra mim, filho.
–
Foi uma bola que eu chutei, pai. Pensei que ia passar longe do gol,
mas ela fez uma curva, bateu na trave e entrou. Como eles mencionaram
que me viram no...
Jaime,
incrédulo, interrompeu Rodrigo.
–
Vocês desceram no campo do colégio? Bem no meio do futebol? E ainda
por cima direcionaram a bola?
–
Não fisicamente – apressou-se Dailen.
–
Como efetuaram essa façanha?! – Jaime estupefato.
–
Infelizmente... esse é mais um segredo – explicou Peifil.
–
Foi só um divertimento sem maldade – defendeu-se Dailen. – Não
sucedeu nada de mais. Ninguém desconfiou... nem se feriu.
–
Deixa, pai - antecipou-se Rodrigo –, eu não conto pra ninguém.
Também não adianta... não vão acreditar mesmo! – expressou-se
na maior naturalidade.
–
Isso, rapazinho!... Mostre para seu pai que você está crescendo! –
exclamou Dailen sentindo-se perdoado pela peraltice impensada.
–
Já que é assim, tudo bem – aquiesceu Jaime diante da resposta
relaxante de Rodrigo.
II
- A VIAGEM PARA CLAUS
Dailen
olha para fora e faz um sinal de que está tudo em ordem. Vira-se
para Peifil, e como se Jaime e Rodrigo fossem conhecer algo
extremamente incomum, diz:
–
Peifil, esmiúce para eles o nosso roteiro até Claus.
–
Roteiro até Claus?! Vão nos levar par...
–
Jaime, já avisamos para não se preocupar.
Peifil
aciona um dos aparelhos localizados em sua frente. Um holograma, no
formato de um enorme mapa cosmográfico, além Sistema Solar, se
reproduz no ar. Ele, tal qual professor universitário, exalta em
minúcias:
–
Bem, ilustres cavalheiros, nosso itinerário é o seguinte: vamos
subir até a constelação de Yjar, passaremos pela nebulosa de
Calinudei, que ainda está em formação. Após transpormos o Sistema
de Dacirro Laifoba, alcançaremos as três estrelas irmãs,
conhecidas por Venea, Laineli e Railem.
Para
onde Peifil apontava, uma luz amarelada refletia no mapa, traçando o
percurso. Ele continuou narrando:
–
Iremos até ao Planeta Rilam, que tem as luas mais belas, conhecidas
como Izal e Aral, vizinhas da estrela Delalnai. Teremos que passar
ainda por mais dois Planetas do Sistema de Galudaia, que são: Laveda
e Dulácia. Então encontraremos o Sistema de Raioleu, cuja
temperatura é muito baixa, só tem gelo. Depois de passarmos pelo
Planeta de Oslen, viraremos à direita.
–
Oslen é o último Planeta do lado oeste deste universo – retrucou
Dailen.
–
O Planeta Claus é tão longínquo assim? – perquiriu Jaime mesmo
sem saber o que significavam todos aqueles nomes sem cabimento.
–
A distância maior, entre o seu universo e o nosso, é o Grande
Vazio.
–
Grande Vazio?!! – exclamou Jaime por achar o termo sem miolo.
–
Chamamos assim porque não existe nada na imensidão do Grande Vazio,
apenas um vasto espaço negro e silencioso – elucidou Peifil.
Dailen
prolongou o assunto:
–
O Grande Vazio era um mistério para nós. Somente quando o SETI... o
Setor Especializado em Tecnologia Interplanetária sintonizou os
sinais de rádio de seu Planeta, é que nós descobrimos que o Grande
Vazio não era o final do nosso universo visível e habitável, que
após ele havia outro mundo... e cremos que coabitamos com outros
mais. Esta foi a primeira vez que o atravessamos – informou Dailen,
patenteando certo temor pela frieza, impalpável, da região
“ciscósmica”.
–
Onde estamos agora? – perscrutou Jaime com uma voz arrependida, não
coadunando com uma cadeia de “universos” independentes,
extragalácticos, separados por uma cerca plana... um enorme vazio
oco.
Dailen
checou o mapa flutuante.
–
Para vocês terem uma vaga ideia... esta é a nossa espaçonave – e
evidenciou uma marca luzidia que se movimentava serelepe entre as
diversas linhas coloridas. – Já deixamos o seu Sistema Solar para
trás.
Rodrigo
segurou no braço do pai, demonstrando saber sua exata posição no
espaço sideral.
–
Nesse momento nos aproximamos dos Planetas Adreudo, Orbun, Roehit e
Vadi, no extremo da quinta galáxia... limítrofe do Grande Vazio.
Digitalizamos essa cartografia com todas as efemérides e
classificamos os astros por sua atração gravitacional de acordo com
sua importância no... o que emblemamos de: Cosmo Invisível.
Peifil
prosseguiu sinalizando o roteiro:
–
Assim que cruzarmos o Grande Vazio navegaremos para o Sistema de
Naiaton. Pararemos apenas para pegarmos alguns donativos, destinados
ao Planeta Iur Senbur. Entregaremos a carga em quarenta segundos e
partiremos rumo ao nosso Planeta, onde ambicionamos tirar umas boas
férias em noites pândegas, isso se o Rei Ojes e a Rainha Ariam
permitirem.
–
O quê? – indagou Jaime abismado. – Vocês têm Rei e Rainha?
–
Por que o espanto, Jaime? – inquiriu Peifil com um sorriso
incompreensível.
–
Nada – respondeu Jaime quase como um pedido de desculpa, e
completou. – Nunca imaginei que esbarraria com monarquistas tão
distantes da Terra.
Dailen,
concentrado na conversa, apoiou Jaime:
–
Você tem razão, Jaime. Em seu Planeta é um regime em decadência,
contudo, em Claus será o eterno.
Peifil
puxou uma gaveta da mesa que voejava e preveniu com sobriedade:
–
Escutem atentamente, por favor: vocês serão submetidos agora a um
teste de superação. O que irão presenciar não é para
elaborarem... teoremas indecifráveis, e sim para admirarem –
apertou alguns botões e do piso liso emergiram quatro poltronas
equipadas com máscaras, capacetes e cilindros.
–
Para começar – falou pausadamente Dailen –, sentem-se aqui,
coloquem estes óculos escuros, o capacete e fechem bem os olhos.
–
Aviso importante – preveniu Peifil –: permaneçam com os olhos
fechados até que um de nós peça para abri-los. Entenderam?
–
Acho que sim - respondeu Jaime e caçoou. – Temos outra escolha?
Dailen,
que não podia ver um gracejo em andamento, foi esperto na
intromissão.
–
Têm sim. A outra escolha é: obedeçam e relaxem – e deu uma
gargalhada gostosa, auxiliando Rodrigo que se embaraçava com o
capacete.
Pela
pressa com que Dailen se aprontou, Jaime notou que ele estava ansioso
para desbravar o que viria. Assim, procurou uma galhofada simpática
para aliviar a tensão.
–
Confesso que a minha curiosidade ainda é maior que o meu medo.
–
Sabemos que não é verdade – discordou Dailen. – Curiosidade,
para nós, é palavra que não existe. Você tem é ânsia pelo
desconhecido. E não podemos mais retardar.
–
Prontos? – perguntou Peifil examinando toda a sala numa derradeira
e minuciosa inspeção.
–
Pronto – confirmou Jaime sacudindo os ombros e advertindo Rodrigo
que se ajeitava na poltrona. – Campeão, você ouviu o comandante?
Nada de abrir os olhos.
–
Certo, pai. Nem estou mais com medo.
Jaime
sentiu que Rodrigo gostou do entretenimento. Ele era fascinado pelo
espaço, permanecia estático, vasculhando o céu, à noite, com sua
luneta, em busca de um ponto incerto. Fecharam os olhos aguardando os
acontecimentos. Um cinto de segurança os envolveu, automaticamente,
na altura do peito. Uma aceleração impetuosa foi crescendo e os
empurrando contra o encosto da poltrona. Subitamente o sol penetrou
pela sala adentro. Tamanha foi a claridade, que todos apertaram os
olhos na tentativa de se defenderem daquele brilho. A sensação de
Jaime era a de que não saíra do lugar, no entanto, pelo movimento
vibratório do corpo, pressentia estar sendo arremessado para o
espaço a uma velocidade espantosa. Após alguns segundos, a
luminosidade retrocedeu, suavizou para branda. Jaime suspeitou que
haviam cruzado o Grande Vazio, pois passou a ver astros siderais
indescritíveis. Talvez batatas gigantes, peras deformadas ou
berinjelas voadoras. Um era cheio de furos, por onde saía, em jatos,
fumaça de todas as cores, constituindo um arco-íris disforme ao seu
redor. Outro, preto, tostado igual carvão, com centelhas ainda
efervescendo por suas rachaduras. Passavam agora por constelações,
luas, sóis e muitos asteroides sem formas definidas. Seus olhos
conservavam-se fechados e, mesmo assim, via normalmente. Queria
inteirar-se, buscar esclarecimentos, entretanto, como lhe recomendara
Peifil: era apenas para admirar.
Jaime
não seria capaz de especificar, com exatidão, por quantos minutos
ficou assistindo ao que se passava em sua frente, com variações
incríveis a cada fração de segundo. A paisagem era tão irreal que
equivalia a um jogo de vídeo game, no qual milhares de estrelas,
circundadas de halos galácticos, refulgiam num universo virtual,
envolto em nebulosas dispersas.
–
"Rodrigo deve estar adorando” – pensou Jaime. – “Viciado
nos jogos do jeito que ele é, com certeza, já fez tal comparação.”
– E monologou com o seu capacete: – "Será isso a velocidade
da luz? Ou até mesmo... superior?"
Como
não sabia a resposta, deleitou-se com o panorama circular, de beleza
mirífica, no novo cenário que se vislumbrava ao infinito – e pela
primeira vez – vendo de olhos cerrados.
–
Detectores programados para a desaceleração.
Jaime
reconheceu a voz de Dailen, que vinha do seu lado esquerdo.
Inesperadamente tudo escureceu. Jaime não viu mais nada.
–
Gerenciadores de voo desligados.
Era
Dailen novamente.
–
Há alguma coisa errada com o marcador do tempo, Dailen! –
exclama Peifil com espanto, e prossegue. – Impossível!...
Recomeçou do momento em que entramos no Grande Vazio pela primeira
vez?!
–
Deve ser o resultado do que... – Dailen silencia e em
seguida desafoga: – Peifil!... O Grande Vazio é mesmo um
Divisor do Tempo! Sua travessia é nula... sem efeito cronométrico!
–
Será, Dailen? O cientista Samjir Soebo publicou essa teoria muito
antes da descoberta do... – Peifil interrompeu a frase. –
Ninguém lhe deu atenção. Foi severamente criticado. Comunicaremos
ao SETI esse engano imediatamente.
Jaime
julgou que os dois estavam inventando histórias fantásticas só
para testarem sua sagacidade, não se associou ao paradoxo,
supostamente inverossímil.
–
Preparação para flutuar em Naiaton iniciada. – Peifil agora
conferia. – Recebendo os donativos no compartimento de carga.
Um, dois, três... finalizando... vamos em frente, Dailen.
A
nave volta a se movimentar com velocidade. Um longo silêncio
expectante. Jaime ouviu um pequeno barulho. Tudo sossegou de novo.
–
Flutuação concluída para a escala em Iur Senbur – diz
Dailen.
–
Vou para o compartimento monitorar a descarga – informou
Peifil. – Quando estiver preparado, me envie o sinal.
Jaime
ouviu a voz de Peifil se distanciando e não aguentou:
–
Ei, Dailen!... É você que está aí? Podemos abrir os olhos?
–
Agora podem. Estou dando os últimos retoques no encerramento do
programa espacial.
Jaime
abriu os olhos, porém, ainda com os óculos escuros e o capacete,
não adiantou quase nada.
–
Podemos tirar o capacete e os óculos, Dailen?
–
Claro. A esplendorosa viagem já terminou. Vencemos de novo o Grande
Vazio – desabafou relaxado.
Jaime
retirou os óculos. A claridade da sala tornou-se fraca demais. O
brilho daquela luz intensa ainda residia em sua mente. Suas pupilas
demoraram a se adaptarem ao recinto, mas Rodrigo já estampava uma
alegria larga nos lábios.
-
Legal pra caramba!... Você não achou, pai?
Jaime,
mesmo sem saber se Rodrigo enleara-se na mesma alucinação que ele,
concordou com aqueles olhos que refletiam felicidade e assombro.
Pressupôs que Rodrigo nem se lembrava mais de casa, tampouco se
incomodava com o retorno.
Houve
uma mudança perceptível na paisagem lá fora. Agora não eram
apenas nuvens, terras alongavam-se no ângulo esquerdo.
–
Terra à vista! – gritou Jaime à moda Cabral.
–
Calma, companheiro! – alertou Dailen. – Não é a sua Terra. É
um Planeta em nada parecido com o seu. Sabe qual a temperatura lá
fora?
–
Nem imagino.
–
Para ser exato, está fazendo um calor de 67 graus... à sombra.
–
Nossa!... e o povo daqui, como é? – Jaime dirigiu-se para uma
escotilha da nave.
Jaime
nem ouviu a resposta de Dailen, porque o que seus olhos viram foi uma
cena de piedade dantesca. Caricaturas deprimentes se moviam. Seres
maltrapilhos, de constituição e aspectos horripilantes, vagavam.
Muitos com os braços compridos e de baixa estatura. Outros
corcundas, com protuberâncias por todo o corpo. Ao longe surgia,
assustadoramente, um grupo de seres cadavéricos com partes cobertas
de pelos, sustentando-se sobre quatro patas. Logo abaixo, dois,
totalmente mutilados, arrastavam-se feito minhocas asquerosas pelo
chão sujo. Raríssimos, ditos normais, se distinguiam naquele meio,
em quase todos, sobressaltava uma anomalia descomunal sobre uma
estrutura física inacabada.
–
Quem são essas criatu... essas pessoas? – interrogou Jaime,
condoído, sem desligar-se da cena monstruosa.
–
Jaime, não sei se devo... – Dailen, com receio, pensou e depois
decidiu. – Bem, não tem problema você saber, afinal está conosco
nesta viagem e é nosso hóspede.
Dailen
contorceu o nariz e colocou na entonação um sentimento desgostoso
de culpa:
–
Esses indivíduos são esquivos. Ninguém sabe ao certo de onde
vieram. Dizem que os primeiros foram do Planeta de Gane que, para se
livrar de seus criminosos, trouxe todos para este lugar. Como é um
Planeta muito quente, em uma posição ruim e desprotegida do Sistema
Comunitário, ninguém se opôs. E como os direitos são iguais,
outros Planetas aderiram ao mau exemplo. O pior é que a população
está sem controle de crescimento, isso é ruim para qualquer
Planeta... o seu também – apontou o indicador para Jaime.
–
Bem, no meu estão pensando no caso – escapuliu Jaime sem coragem
de questionar se aquilo eram assomos de seres humanos ou se, pelo
menos, supostos animais racionais.
Num
súbito de pressa louca, Peifil precipita-se estabanado na sala,
assustado e suando a cântaros. Fala ofegante numa língua
desconhecida. Dailen começa a suar também.
-
"Deve ser o idioma de Claus" – inferiu Jaime.
Eram
vocábulos curtos, porém, pela expressão do rosto, Jaime traduziu
que algo de errado acontecia e que alguma decisão urgente precisava
ser tomada. Dailen aperta uns botões e avoluma-se uma tela sobre a
mesa que flutuava. Ele digita um comando premente, pois, após cada
procedimento, fica ansioso, fitando o visor como quem almeja uma
resposta imprescindível. Nas paredes da espaçonave, luzes piscam
aleatoriamente em diversos pontos, alertando o perigo. Jaime,
aquilatando-se inválido, acomodou-se ao lado de Rodrigo, que
transparecia avaliar corretamente a situação.
–
Eles estão com algum problema, não é pai?
–
Acho que sim, filho.
De
repente ocorre um deslocamento e toda a nave balança desordenada.
Pela primeira vez, Jaime e Rodrigo sentiram uma pequena turbulência,
seguida de uma descompressão. A nave inclina e ameaça cair. Peifil,
exaltado, grita termos de ordem. Dailen digita ligeiro. Aguarda e
responde com a mesma veemência. O semblante de ambos é de
desespero. O suor rola pelas faces. Peifil, apavorado, corre para o
canto esquerdo da sala e mexe em uma placa vermelha com pinos
brancos. As luzes internas oscilam num pisca-pisca giratório,
alternando as cores. A nave se estabiliza em trepidação constante.
Peifil, mesmo todo suado, certifica mais sereno para Jaime e Rodrigo:
–
Vamos sair dessa, não se inquietem. Não temos armas para atacar,
contudo eles não conhecem nosso poder defensivo – e determina para
Dailen:
–
Dailen, aja depressa. Eles pretendem nos segurar.
Dailen,
agora rodeado por três atenciosas mesas flutuantes, esquematiza a
defesa emergencial. Peifil prossegue:
–
Todavia, não terão sucesso... seus sefitap! – grita
para ofender seus agressores.
–
Soriecapart! – acrescenta Dailen do mesmo modo e com
ar zangado, detalhe que Jaime ainda não presenciara nele.
Jaime
não podia ficar plantado, feito um poste sem lâmpada.
–
Rodrigo, me espere quieto aqui.
–
Tá bom, pai.
Jaime
correu para a janela. Mil faróis piscavam sob a nave. Uma máquina,
repleta de holofotes, lançava de um canhão, correntes de raios que
atacavam em conjunto. A nave se defendia emitindo um escudo luminoso
em ondas, rechaçando o ataque. Era uma batalha de luzes medindo
forças no espaço.
–
Mais forte, Dailen. Utilize a carga extra – decreta Peifil.
Dailen
digita com tanta agilidade nos teclados que seus dedos quase
desaparecem.
–
Carga suplementar chegando, Peifil, e... entra.
O
escudo luminoso da nave expandiu-se numa auréola rosada dominante.
Como um balão que se desprende das cordas, a nave subiu ondulante.
Jaime perdeu o equilíbrio e saiu capengando, indo estatelar-se perto
de Rodrigo.
Dailen
e Peifil espreitam alguma coisa no teclado misterioso. Entreolham-se
e sorriem. Para Jaime transpareceu que tinha dado certo o que
planejaram. Peifil e Dailen puseram-se de costas um para o outro. E
num passo de dança festiva, trançavam os pés, primeiro o direito,
depois o esquerdo e encostavam os cotovelos, no mesmo jeito dos pés;
retratando para Jaime uma comemoração, ensaiada, dos jogadores de
futebol quando fazem um gol decisivo.
–
Esses infelizes não têm juízo mesmo – repudiou Peifil. – Nós
não os largamos aqui por conta da sorte, porque alguns são
inocentes, resultado de um progresso não estruturado. Viemos ajudar
e somos recebidos com traição. Não sei como eles desenvolveram a
tecnologia da atração "autodinâmica molecular". -
Ajeitou os escassos fios de cabelos e completou, balançando a
cabeça, pensativo. – Ainda bem que a nossa nave é
interplanetária, se fosse uma nave local certamente teriam êxito.
Temos que avisar ao Sistema Comunitário Dailen, senão quem aqui
chegar vai ser capturado.
–
Vou providenciar isso agora mesmo – concordou Dailen.
Peifil
retirou de um bolso, que Jaime não reparara existir em sua
vestimenta, um aparelho minúsculo e conversou demoradamente, em
vocábulos fragmentados. Mesmo sem entenderem, Jaime e Rodrigo
ficaram "escutando" o monólogo. Rodrigo engraçava-se com
a dicção de Peifil.
Jaime
olhou para fora e muitas naves os escoltavam. Dançavam na frente da
espaçonave. Voluteavam como se fossem bailarinas numa coreografia de
movimentos rítmicos e perfeitamente ensaiados. Mais além, as naves
compuseram um círculo esplêndido, de núcleo visivelmente ondulado,
mole e barrento. A espaçonave, mansamente, avança em sua direção.
Quando cruzam com aquele círculo gosmento, vem a surpresa. A
barreira de segurança foi rompida. Ressaltou uma pintura morta, numa
paisagem árida. Surgiu o que Jaime concebeu ser o Planeta Claus. O
cenário que se desenhou não era muito divergente do terrestre. No
entanto, demonstrava, pelos traços retos e lisos, ter sido feito, em
sua totalidade, cautelosamente, pela mão do homem. Nada ali se
afigurava elaborado pela natureza. Enormes praças, sem árvores nem
gramado. Uma vasta área descampada, estorricada e solitária
perdia-se no horizonte. Até os morros que se erguiam ao longe eram
idênticos – todos pintados de um verde-musgo desbotado.
Jaime
tomou um susto quando se deparou com o céu. Descortinou uma
imensidão, inacreditável, de astros próximos demais, com dimensões
e formas variadas, que pairavam num firmamento vermelho em nuanças
afogueadas. Rodrigo alongou seus olhos e, estupefato, num assombro
exclamou:
-
Nossa, pai!... Quantos!...
No
espaço salpicado de objetos siderais, não se via nenhuma nuvem. Em
todas as direções que a espaçonave lhes permitia ver, comparecia
uma sequência incalculável deles. Os mais distantes refletiam uma
cintilação opaca, os dos arredores variavam na tonalidade rósea ao
roxo forte. No tamanho, uns gigantescos, outros pequenos, tal qual
bola de bilhar. Mais no alto, a abóbada celeste vestia-se de uma cor
abrasante, uma imensa fornalha em plena atividade. Apesar disso, a
temperatura no Planeta bizarro era aprazível. Dailen, risonho,
percebendo todo o encantamento e ânsia dos visitantes, integra-se
extasiado, dissertando:
–
Mundo incomum para vocês... acostumados a contemplarem um céu com
apenas uma lua, nuvens e um monte de estrelinhas longínquas... ou um
sol forte... isso é...
–
Inusitado... harmonioso e arrebatador – embasbacou Jaime.
–
Aqui vocês veem mais de sete mil astros – informou Dailen. –
Estrelas, planetas e satélites. Alguns deles em distância inferior
a sua lua.
–
Que espetáculo, filho!... É uma visão sobrenatural! – exclamou
Jaime instintivamente.
–
Como pode, pai. Tudo isso assim... tão perto?
Dailen,
já que os dois não desgrudavam a atenção do céu, manifestou
desenxabido:
–
Estejam à vontade, Terráqueos. Creiam que também nos espantamos
assim ao avistarmos as florestas, os mares e os rios do seu Planeta.
Diante
do panorama incomensurável, os Terráqueos permaneceram
boquiabertos, prostrados sem palavras. Jaime ainda não se convencera
que tal odisseia estivesse acontecendo. Era uma paisagem cósmica
surreal, alomórfica, digna dos sonhos estapafúrdios que nos
despertam num sobressalto.
–
"Os astrônomos enlouqueceriam, ao verem tanto estudo inédito"
– pensou Jaime em seu íntimo.
Astros
que se assemelhavam a enfeites caídos de uma portentosa árvore de
natal. Jaime sentiu seus olhos molhados por lágrimas de emoção,
pensou no Criador e suspirou fundo, emancipando o espírito.
III
- A VISITA AO REI
–
Chegamos, Jaime – Dailen estendeu a mão dando a entender que
apresentava aos fidalgos Terráqueos o seu território e que era para
tirarem os olhos daquele céu.
–
Já desconfiei – brincou Jaime, embriagando-se mais um pouco da
paisagem.
Peifil
dirigiu-se a Dailen com ar retesado e discorreu meio sigiloso:
–
Houve uma falha anormal nos equipamentos de supervisão dos sensores
externos.
–
Sim, eu notei também, saíram do ar por uma fração de segundo e
retornaram à frequência correta. Algum problema nisso? –
averiguou Dailen.
–
Não, nada. Ainda estou impressionado com o que sucedeu em Iur
Senbur.
Peifil
esfregou as mãos e convidou Jaime e Rodrigo:
–
Chegou o momento de descermos, Terráqueos, tenho que levá-los à
presença de nosso Rei.
–
Seremos mesmo anunciados ao seu Rei?
–
Claro! Por que você ainda não acredita, Jaime?
–
Bem, eu não sou ninguém de... prestígio na Terra. Sou apenas um
sujeito comum. Um reles plebeu.
–
Aqui, Jaime, todos nós temos um mérito indiscutível. Vai se
acostumando com isso. Somos todos iguais... e não necessitamos de
lei para efetivar isso.
A
mesma porta que Jaime viu abrir quando foram sugados para a nave,
agora abria para a sua saída. A nave conservava-se alta do chão.
Jaime não sabia se pousara ou se ainda flutuava. Do lado de fora, um
aparato militar, numa recepção de boas-vindas apoteótica,
agitava-se. Muitas fileiras de pessoas, com vestimentas multicores,
em linha reta uniforme, aguardavam a descida dos dois ilustres
hóspedes. Alguns lançavam olhares curiosos em direção à nave.
Jaime reconheceu-se importante, afinal era um intergaláctico ou um
"extraclausestre", portanto um espécime distinto e
privilegiado. Peifil foi o primeiro a sair. Todos curvaram o pescoço
enquanto ele descia. Depois tocavam em suas vestes, numa saudação
habitual, dedicada apenas a quem regressa de uma longa viagem
vitoriosa.
–
Agora você, Jaime – disse Dailen preparando uma espécie de
aparelhagem de som. – Rodrigo descerá em seguida.
Jaime
não viu rampa nem escada. Dailen, antes que ele indagasse, num leve
sorriso, esclareceu:
–
Pode descer sem medo. É uma escada inteligente, os degraus se
dimensionam em conformidade com o tamanho de cada passo que você
der. Evita quedas.
Jaime
parou na porta. As pessoas não curvaram o pescoço. Estenderam as
mãos e saudaram numa só voz retumbante:
–
Salve, amigo Jaime.
Jaime
estremeceu, mal chegara e todos já sabiam o seu nome. Na Terra ele
mal sabe o tipo físico dos vizinhos. Não deveria mesmo estranhar as
desigualdades por aqui. Jaime desceu os degraus invisíveis. No chão,
todos tocaram em sua roupa. Ele, recém-chegado, aprendiz, sem saber
o que fazer, movia o pescoço num agradecimento respeitoso. Seu
receio era que um deslize, um gesto inadequado pusesse tudo a perder.
Rodrigo apareceu na porta da nave. Avidamente procurou pelo pai.
–
Salve, amigo Rodrigo – bradou uníssona a comitiva.
Ele
foi descendo devagar. Antes de apoiar o peso do corpo, experimentava
com a ponta dos pés se havia degrau ali. Os primeiros da fila
encetaram numa longa risada e difundiu-se o zum-zum-zum.
Dailen,
de cima da nave, acena para a população. Abre e fecha os braços.
Os que estão embaixo correspondem com a mesma coreografia. Iniciaram
uma cantoria. Dailen cantava e a multidão respondia. Devia ser um
jogo, um repente engraçado, porque a cada revide, todos gargalhavam.
O povo repetia e o acompanhava batendo palmas.
Jaime
atentou a imponente espaçonave. Não era mais uma nuvem branca.
Igualava-se a uma fenomenal pedra de diamante, arredondada, cravada
de cristais e coberta de pequenos alvéolos lapidados que brilhavam
incandescentes.
–
Bonita a nave, não é pai? – comentou Rodrigo de pescoço esticado
para cima.
–
É, filho, muito bonita. Estou pensando como isso funciona e qual a
autonomia de voo...
–
Pai, quando vamos para casa? – perguntou Rodrigo, inocentemente,
como se estivessem no bairro contíguo.
–
Eles... eles nos levarão de volta, filho.
Jaime
não sentiu muita firmeza em suas palavras, entretanto não podia
permitir que Rodrigo pensasse diferente. Além disso, não lhe
restava alternativa a não ser sobrepujar seus próprios temores.
–
O Dailen é um galhofeiro – reparou Peifil se chegando aos dois –,
em toda viagem entretém a multidão com seus folguedos. Não é à
toa que é filho de um famoso menestrel. - Expediu algumas ordens, em
sua língua, a inúmeros indivíduos e, prazenteiro, desafogou. –
Vamos para o Palácio do Rei Ojes.
Jaime
estremeceu de novo. Conhecer um Rei de outro Planeta? Nem em sonho
ele presumira isso acontecer um dia.
–
"Dado o conjunto de conhecimento científico do Planeta Claus, o
Rei, com certeza, é a criatura mais antiga e erudita. O todo
onipotente. Opulento" - inferia Jaime.
Peifil
dirigiu-se para um objeto chato, aparentemente de aço, contendo um
painel e cinco assentos em concha, e expôs com ar espirituoso:
–
Veja o nosso carro. Último modelo. Zero-quilômetro. A paixão de
qualquer Terráqueo.
–
Peifil, não duvidarei nem me atemorizarei com nada que você disser
de agora em diante – Jaime deu mais dois passos e indagou. – Cadê
as rodas dessa chapa metálica com cadeiras coladas?! – e vasculhou
debaixo do veículo.
Peifil
nem se importou com o pretensioso chiste.
–
Você senta aqui e Rodrigo no banco de trás. Verão que não
precisaremos de rodas.
Jaime
embarcou e foi envolvido por uma membrana ou força invisível, que
colou suas costas ao assento anatômico. Peifil notou a angústia e a
reação de Rodrigo reclamando:
–
Opa! O que é isso?
–
Não se assustem – avisou Peifil. – É o nosso cinto de segurança
automático. Assim ninguém corre perigo de cair quando subirmos.
–
Subirmos? Não me diga que “isso” voa! – surpreendeu-se Jaime.
–
Claro que voa. Está vendo alguma rodovia? – gozou Peifil. – Mas
“isso” é seguro... sem risco algum.
–
Realmente é... seguro demais – Jaime ficou imóvel, fingindo-se
sufocado.
–
O Palácio é perto... no entanto, vou proporcionar uma viagem de
turismo a vocês – explicou Peifil acionando a máquina.
Aquela
coisa frágil, inexplicavelmente, alça voo. O único zumbido que se
ouve, é o de um ventilador. Jaime, pasmado, deglutia a seco, voava
em um tapete de aço, numa montanha-russa plana, sem trilhos. Peifil,
eufórico, foi roteirizando os monumentos históricos, e para cada um
que apontava, com tanta empolgação, Jaime só via um maciço penedo
edificado. Aqueles relevos análogos poderiam ser tudo, menos
construções apropriadas para o fim que Peifil mencionava.
Confabulou consigo:
–
"A troco de que irei eu discordar? Talvez eles gostem assim.
Avaliem bonito. E gosto eu não discuto nem na Terra, muito menos
aqui. Estou prestes a ser recebido por um Rei. Não posso cometer
gafes. O Rei sempre tem razão... mesmo estando errado. “Sim,
Majestade...” vai ser a minha resposta... sem preâmbulos.
Agirei como um diplomata cortês, pois o Rei deve ser idolatrado por
eles.”
–
Veja, Jaime, lá está o nosso estádio esportivo – Peifil apontou
para a direita desfazendo a meditação reconciliadora de Jaime, que,
ao ver mais uma montanha antiquada, mudou de opinião.
–
Onde, Peifil?... Não vejo nada parecido com um estádio circulado
por arquibancadas... repletas de torcedores...
–
Ah!... Você está procurando um campo de futebol a céu aberto?
–
O que devo procurar então? – redarguiu Jaime.
Peifil
prontificou-se.
–
Em nossas cidades e nas áreas destinadas à agropecuária não temos
nada do lado de fora. É tudo coberto ou subterrâneo. Esqueci de lhe
avisar... acabou de anoitecer em Claus.
–
Isso é a sua noite? Mas está claro como dia!...
–
Sim... a nossa noite não é feita de escuridão como a de vocês. De
dia nós dormimos. Nossos sóis não nos dão liberdade. A
temperatura é elevadíssima. Não temos nem resquício da camada de
ozônio que vi em seu Planeta. A nossa cobertura é composta de um
isolamento térmico, sem o qual morreríamos de insolação. - Peifil
levantou o braço apontando para o céu e continuou. – Nesta
direção, Jaime, bem no final, você vai ver um planeta de cor azul.
Está vendo?
Os
novos olhos de lince de Jaime bateram no zênite daquele céu cheio
de astros e, muito longe, localizaram uma luz azul que se destacava.
–
Estou. Parece muito distante. Antes da... operação eu não o
enxergaria.
–
É o Planeta Crinfasca. Ele ainda preserva uma atmosfera parecida com
a do seu Planeta. Isso porque foi o último a ser conquistado e
nossos sóis não chegam lá com intensidade. É o Planeta do
turismo. Muitos vão lá passar as férias, só para conhecerem a
chuva.
-
A chuva?! – retrucou Jaime admirado.
–
Sim, a chuva. Em Claus não chove há milhões de anos. Aliás,
Crinfasca, é o único Planeta que ainda tem chuva e rios em
abundância. Os antigos governantes postergavam o dilema da mudança
climática para o seu sucessor resolver... gastavam muito em
diligências e estatísticas, mas, de posse dos dados, não
empregavam nenhuma ação concreta relevante... e deu no que deu. Um
superaquecimento incontrolável que... – Peifil, como se houvesse
invadido um assunto que não lhe era concernente, parou de tagarelar,
acertou alguns marcadores no painel e ponderou precavido. – Jaime,
se pudéssemos escolher preferiríamos morar em outro Planeta.
–
E por que não podem? Tecnologia para isso eu vejo que vocês
possuem.
–
Nós acatamos o tratado "intragaláctico". Cada civilização
deve adaptar-se em seu próprio Planeta. Isso é bom, pois evita as
guerras e muitas mortes; porque depois que a produção de armas de
ataque foi proibida reconquistamos a tranquilidade.
–
Como assim? Armas de ataque? – interpelou Jaime sem entender o que
significava.
–
Só podemos construir armas para nos resguardar e não para atacar.
Aqui, o principal culpado pelo crime que uma arma comete é o seu
fabricante, o usuário é coadjuvante. E toda nova tecnologia tem de
ser aprovada pela ALOCSE. É uma equipe de pesquisadores, da qual
participam todos os 1986 Planetas da nossa grande Galáxia
Comunitária.
–
O quê? São os Planetas habitados do seu Sistema? – assustou-se
Jaime com a quantidade.
–
Sim, e a ALOCSE tem a coordenação da segurança de todos eles. A
cada período, não definido, a equipe executa uma inspeção
rotineira. Até hoje não foi encontrada nenhuma arma de ataque.
–
Impressionante!! – exclama Jaime desiludido, tecendo um leve
comparativo com os tentames de desarmamento na Terra.
–
Mas é coerente, Jaime... Se não é permitido matar, para que
consentir a confecção de armas para tal finalidade?
–
Sou obrigado a concordar com você, Peifil.
–
Temos poucas leis, mas todas são cumpridas. Somos fiscais de nós
mesmos. Cada vizinho é um policial responsável pela manutenção da
ordem. Caso você faça algo ilícito e ele não o denunciar, passa a
ser cúmplice no delito e responderá pelo ato, pois ele também tem
um vizinho e assim se fomenta uma corrente protetora. Hoje, a
primeira percepção de sensibilidade que ensinamos e exigimos é o
respeito ao direito do próximo. Se bem que temos leis que só após
muitos equívocos é que foram acertadas. Buscamos a solução na
origem do problema.
–
Como assim... origem do problema? – interessou-se Jaime.
–
Vou lhe citar um exemplo: nossos carros, na época, eram de rodas,
bem similares aos do seu Planeta. Tinham uma velocidade incrível e
desencadeavam muitos acidentes trágicos. Muitas vidas eram
desperdiçadas. Para tentarem estancar essa onda de violência,
elaboraram campanhas fortes... com chavões apelativos. Tipo: Sua
pressa poderá estacioná-lo no hospital. Havia outro: Está
cansado? Que tal descansar no cemitério!... Passavam propagandas
com imagens horríveis...
–
Aposto que ninguém deu atenção – atalhou Jaime com ares de
adivinho.
–
Claro que não. Os imbecis achavam que desastres só ocorriam com os
outros. Matutamos séculos para idealizar uma lei que pudesse ser
cumprida por todos. Partimos para a mesma solução aplicada às
armas... com ajustes, evidentemente. Não poderíamos proibir a
produção de carros, mas sim padronizá-los. Pergunto-lhe: se não é
admissível ultrapassar certa velocidade, para que fabricarmos carros
que corram além dela?
–
Pode ser uma boa ideia...
–
E foi – retomou Peifil. – A lei foi feita para os carros de rodas
e serviu para regulamentar os voadores, que vieram posteriormente.
–
Peifil, alguém pode adulterar os dispositivos do carro...
–
Não, não pode – abreviou Peifil. – Porque infringirá outra
lei, que na ressalva diz: "não é facultado deturpar um
equipamento padronizado”.
-
Lá na Terra ainda se corre só por prazer e muitos morrem por...
patetice – lamentou Jaime.
–
É só uma questão de costume, Jaime. Embasadas nesse fato, outras
leis foram reformuladas; buscando sempre a solução na fonte e não
mais combatendo as falhas intermediárias e lamuriando os efeitos.
–
Teoricamente eu saliento que vocês estão cobertos de razão. Porém,
se alguém desobedecer a lei, o que acontece?
Peifil
contrapôs seco.
–
Morre.
Jaime
estarrecido:
–
Vocês têm pena de morte?
–
Sim. Por que o espanto? Se eu obedeço a uma lei, outro mau elemento
não. Teremos os mesmos direitos? É justo um vagabundo errante
castigar toda a sociedade? No Sistema Comunitário ninguém tem
privilégio. Somos totalmente diferentes em uma gama de pormenores
particulares, porém num procedimento somos uniformes... na ética.
Esta é a essência que deve constituir a verdadeira vida humana.
Como diz nosso Rei: não existem dois rostos iguais, nem dois
sorrisos idênticos, no entanto somos retalhos do mesmo tecido.
Jaime, retrocedemos ao lema prescrito em nossos primórdios: dedo
por dedo, cabeça por cabeça. Quem não quiser se adequar é
sumariamente excluído.
Peifil
fez uns trejeitos de arrependimento, discordou de seus termos e
complementou:
–
Às vezes, os Reis, por indulgência ou por intercessão do Sistema
Comunitário, degredam os malévolos para Iur Senbur... Isso se a
infração não provocou o falecimento de ninguém, geralmente são
propagadores de ideologia antissocial. Porém não sei o que é pior,
ir para lá ou morrer.
–
A pena de morte é muito discutida em meu Planeta.
–
Mas, Jaime, nós não começamos pela pena de morte. Antes usávamos
o reformatório como repreensão. Depois o infrator era exposto em
praça pública. A cada motim, ou tentativa de fuga, tinha a pena
dobrada. Iur Senbur passou a ser o celeiro dos deportados. Nada disso
adiantou, ao invés de se recuperarem os delinquentes se rebelavam
ainda mais. Ninguém muda sua índole da noite para o dia. Índole
congênita ruim não tem remédio... é um aleijão.
–
Não concordo com você, Peifil. Muitos, no nosso Planeta, atingiram
a regeneração plena e hoje são exemplos vitoriosos para que outros
não...
–
Jaime – interrompeu Peifil –, eles não se modificaram. Por força
de alguma circunstância extrínseca estão hibernando. Podem
explodir a qualquer momento. Temos um provérbio: se a planta é
nociva, o melhor a fazer é esmagar todas as sementes. Imagine: a
pequena chama que arde na vela, se tolerarmos que ela se alastre pode
queimar o mundo. No entanto, um pequeno sopro é capaz de extingui-la
no início. Assim também, Jaime, às vezes, precisamos recorrer ao
sopro para guarnecer uma sociedade que vive irmanada.
Mesmo
contrariado, por bom-senso Jaime não se embateu no assunto. Afinal,
em se tratando de opinião cada um evidencia sempre a sua como a mais
racional. E aquele que teima em não aceitar o ponto de vista alheio,
logo será qualificado de teimoso. Peifil continuou:
–
Já que era uma pequena minoria que transgredia as regras,
ocasionando desconforto para a imensa maioria, a equipe de
penalógicos chegou à conclusão de que a volta da pena de morte
seria a única saída.
Jaime
não queria futricar nova polêmica, mas não se controlou:
–
Peifil, algum inocente, por... engano no julgamento, já foi
condenado à morte?
–
Não, ao contrário, evitou que muitos inocentes fossem mortos por
criminosos de aluguel, que, antes da lei, tinham certeza da
impunidade. Após a lei, os assassinatos diminuíram, pois quem
tirava a vida de alguém anuía ao próprio suicídio, porque sabia,
de antemão, que iria morrer.
–
Sinceramente, não sei o que pensar. Alguns alegam que só Deus tem o
direito de tirar a vida.
–
Deus! – exclamou Peifil meio acanhado. – Foi bom você falar
nesse "Homem". No princípio pensávamos que "Ele"
era o Rei do seu Planeta.
–
Rei do Planeta Terra? – Jaime sacudiu a cabeça negativamente.
–
Sim, porque todos asseguravam: "se Deus quiser, eu farei isso".
Eu e Dailen chegamos a nos comunicar com o Sistema, informamos que o
Planeta Terra tinha um Rei: Jesus Cristo, cognominado Deus, que a
maioria temia e amava ao mesmo tempo. Alguns duvidavam e outros nem
acreditavam em sua existência. De que maneira se explica essa
submissão pluralizada?! – patetou Peifil deixando Jaime com o
raciocínio empacado.
Depois
de engolir a indecisão por duas vezes, Jaime assentiu desarticulado:
–
Nascendo adulto e descortinando Deus por esse prisma, Peifil, sou
obrigado a dizer que você chega a ter certa razão.
–
O Sistema estranhou a soberania de um Rei assim. Sugeriu que
investigássemos a fundo. Descobrimos, em um convento, um livro
dourado no qual estudamos... eram três pessoas em uma: Pai, Filho e
Espírito Santo, que no princípio era um Verbo que se fez carne e
habitou o céu e a terra. Essa "terra" e esse “céu”
não decompomos a qual planeta se referia.
–
Nossa, Peifil, vocês fizeram uma confusão! – exclamou Jaime se
segurando para não rir, porque Peifil, sisudo, se esforçava para
decifrar o mistério da Santíssima Trindade.
–
Confesso que nunca em minha vida me defrontei com tantas dúvidas,
Jaime. Pensamos muitas hipóteses, entretanto o poder de decisão não
estava em nossas mãos. O Sistema mandou que esquecêssemos o seu Rei
e finalizássemos a nossa parte conforme o esquema de pesquisa que
nos foi confiado. Mas, já que você tocou nesse "Homem"...
eu gostaria de ouvir uma dissertação sua, Terráqueo.
Jaime
ficou constrangido, com receio de cometer uma heresia. Andava
afastado da Igreja. Não focaria Deus de forma doutrinária
suficientemente clara, a ponto de convencer alguém tão idoso.
Projetou-se num jesuíta catequizando um índio do espaço.
–
"Como descreverei Deus para um extraterrestre?” –
perguntou-se Jaime. Passou a mão na barba pensando por onde estrear
a pregação pastoral interplanetária.
–
Peifil, a história de Deus é muito longa e polêmica... vou tentar
resumir pra você.
Jaime
notou que Rodrigo ainda contava os astros e, distraído, não
compartilhava da conversa.
–
"Assim é melhor, criança atrapalha.”
Jaime
limpou a garganta e principiou pela história dos longos sete dias. A
criação do Universo e tudo o que nele existe – “inclusive o seu
mundo, Peifil” – frisou ele. Registrou, sutilmente, Adão e Eva
no paraíso. Saltou o pecado original por conta própria. Narrou
algumas passagens que ele mesmo considerava lendas. Aventou o dilúvio
enfrentado por Noé, com sua excepcional barca construída sob
encomenda de Deus. Recordou os profetas que anunciavam a vinda do
Messias. Das dez pragas do Egito, só se lembrou de sete. Esqueceu
completamente as Tábuas de Moisés e a Terra Prometida.
Peifil
refletia difuso, a olhos vistos, todavia não ousava intervir.
Jaime
passou direto para o nascimento de Jesus. A fuga para o Egito.
Relatou alguns de seus muitos milagres e de suas profecias. Os doze
apóstolos que o seguiram. Sua morte na cruz. Deu um enfoque especial
à Ressurreição para justificar a vida numa esfera espiritual.
Consagrou o apóstolo Pedro, que disseminou os ensinamentos numa
multiplicação imperiosa da fé por todo o Planeta. Não aludiu que
um dia Ele voltará, sem hora marcada, para arrebanhar suas ovelhas e
nem se atreveu a proferir uma explanação bíblica mais detalhada.
Sem emitir conceito, discorreu na proliferação das mais variadas
igrejas que foram surgindo, oriundas das divergências ideológicas,
de interpretações errôneas e inapropriadas acerca de tudo que fora
escrito sobre o mesmo Deus. Do que declarou não conceber, como dois
filhos têm concepções distintas sobre o próprio Pai.
Jaime
sentiu que abreviara demais a história. Mesmo assim, ajuizou por bem
parar; porque havia uma inquietação incessante de desapontamento no
rosto de Peifil, que rebuscava respostas divinas no espaço. Seu
cérebro girava oscilante em torno de abstrações e critérios
totalmente desiguais daqueles que Jaime aventurava-se a passar, pois
sua testa, tão lisa, agora até franzia.
Para
Jaime, era perfeitamente compreensível a reação de Peifil, pois,
depois de ter vivido dois mil, novecentos e quarenta anos, saber de
supetão que todo o Universo tem um só Dono... é mesmo para não
consentir, nem se conscientizar num repente.
–
Peifil, é praticamente isso que sei – encerrou Jaime.
–
Meio complicado esse seu Deus, Jaime. Talvez fosse um... – parou
fazendo cálculos. – Isso ocorreu há mais ou menos... dois mil
anos – parou de novo. Fitou nos olhos de Jaime com um olhar
pensativo, como se quisesse ver dentro deles; sorriu da própria
dedução, sem, no entanto, externá-la. Subitamente, num gesto de
quem tomou uma decisão sem retorno, esboçou:
–
Jaime, esquecerei essa história de seu Deus, como me foi solicitado
pelo Sistema, senão irei enlouquecer.
Peifil
mexeu em uns botões no painel de comando do carro e logo emergiu uma
pequena tela.
–
Agora vou pôr às claras mais uma atração do nosso Planeta, afinal
são vocês os visitantes. Conhecerão a nossa via expressa... a
magnífica e estupenda: AA... Afluência Aérea.
–
Afluência Aérea? O que é isso? – Jaime questiona especulativo.
–
Calma, falta pouco. Dê só uma olhada lá na frente.
–
Credo!!... – Foi o que saiu da boca de Jaime espontaneamente.
–
Uaaau!!... – Exclamou Rodrigo.
Jaime
amontoou-se em conjeturas aloucadas. Um trânsito aéreo, com
centenas de autoestradas invisíveis, desenhou-se estampado no céu.
Carros circulavam por cima, por baixo, pela direita e pela esquerda.
Mesmo estando tudo materializado em sua frente, ele não atinava como
cada qual sabia sua mão de direção, nos milhares de viadutos
flutuantes. Peifil, dado a absorção dos dois, elucidou de imediato
aquela visão:
–
Não pensem que é um parque de diversões desorganizado. Quando
chega a noite, quase todos saem. A maioria vai para o trabalho,
outros vão passear e o trânsito ostenta-se... superagitado.
–
Peifil, nós iremos penetrar naquele trânsito louco? – inquiriu
Jaime receoso.
–
Claro!... É a única picada para o Palácio – gracejou. - Mas não
se preocupem, quando chegarmos lá vocês vislumbrarão o
funcionamento. É tão simples que até Rodrigo pode assumir o...
–
Eu não! Eu não! – contestou depressa Rodrigo temeroso.
–
É gozação dele, filho. Deve haver algum mistério que não deseja
nos contar – descontraiu Jaime.
Aproximaram-se
da Afluência Aérea e tornaram-se visíveis três cores na tela do
carro de Peifil: vermelha, verde e laranja. As cores piscam
tracejando uma rota que vem acompanhada de uma voz suave e sonora.
–
Jaime, estou sendo informado para onde me levam as cores. É só
escolher e pronto, o resto do trajeto já está esquematizado. Fácil,
não?
–
É, parece...
Jaime
não sabia o que mais dizer. Peifil atestava:
–
Vamos pegar a cor verde, que nos levará ao Palácio do Rei Ojes. O
que vem a seguir é mais fácil ainda. Vê aquelas linhas lá em
baixo?
Jaime
olhou para o solo e as cores não vinham do chão, estavam encravadas
no ar, como um arco-íris com mais de mil cores, trançadas entre si.
–
Es.. estou... – gaguejou Jaime, vendo os carros passarem muito
perto dele.
–
Pois são elas que nos conduzirão. Só posso mandar opções quando
for detectada uma encruzilhada. Caso eu não faça opção, os
sensores de orientação estão programados para executarem o traçado
original. Como eu já delineei o itinerário, posso dormir ao
volante.
–
Como? Você não dirige mais? É tudo automático?
–
Isso mesmo, Jaime... automático. Cada carro tem uma linha exclusiva
de navegação.
–
Voa sem asas... direciona-se sozinho. Como é que tudo isso funciona,
Peifil?
–
Basicamente como uma imantação invertida, Jaime.
–
Imantação?... Polaridades invertidas?... Um enorme ímã quebrado
ao meio, em que as pontas opostas se retraem a partir de determinada
distância?
–
Exatamente. Lógico que com múltiplas adaptações... essenciais
para o eficaz equilíbrio das antipartículas básicas magnetizadas.
–
Então o carro está... boiando e não... voando?
–
Mais ou menos isso, Jaime. Serve tanto para flutuar como para evitar
colisões.
Jaime
não procurou esmiuçar o mecanismo daquele quebra-cabeça utópico.
Admirar o passeio em que carros cruzavam em todas as direções,
sobre um trançado de milhares de linhas coloridas, era mais
emocionante. Rodrigo assistia torcendo para não suceder nenhuma
batida naquele vaivém, aparentemente desatinado. O que diferenciava
do trânsito da Terra eram os condutores conversando sem se
incomodarem com o fuzuê, e os carros se deslocando regularmente, sem
congestionamento.
–
Essa gente sabe que somos de fora, Peifil? – Jaime postou-se
intrigado, já que muitos demonstravam uma nítida bisbilhotice.
–
É só o que estão comentando, Jaime. E sabe o quê? – interrogou
Peifil, maroto.
–
Como vou saber?! – redarguiu Jaime espalmando as mãos.
–
As conversas mordazes são inevitáveis. Vou lhe assegurar só uma
coisa: você está fazendo o maior sucesso com as fêmeas... uma
popularidade invejável.
Rodrigo
avacalhou jocoso:
–
Aí, hein! Vou caguetar pra mãe, pai!
Jaime
nem ligou para a zombaria de Rodrigo. Só ajeitou o colarinho, mas
encafifou-se desconfiado.
–
Peifil, me esclareça uma particularidade... até agora eu não vi
nenhuma mulher...
–
Viu. Ora se viu... e muitas.
–
Como eu faço a distinção?
–
A diferença é pouca... insignificante – lastimou Peifil com ar de
tristeza e semblante carregado em autopiedade. – Nas fotos antigas,
que só encontramos em museus, as mulheres não apresentavam
semelhança alguma com os homens. No entanto, paulatinamente, foram
se modificando, perdendo a formosura, a delicadeza, a suavidade...
Não só as mulheres, os homens também regrediram.
–
Parece que nós estamos tendendo para isso, Peifil – diz Jaime
pensativo.
Peifil
prosseguiu:
–
O uso indiscriminado de algumas drogas... potentes, empregadas no
tratamento de doenças incuráveis... outras tantas utilizadas na
estética e até alucinógenas, acarretaram um desacerto generalizado
na interpretação das nossas peculiaridades sexuais. Alteraram o
metabolismo dos órgãos... e passaram a nascer homens com instinto
feminino e vice-versa. Cada qual se transformou. Hoje coagulamos
assim, quase idênticos... na maneira de se vestir, de andar, de
falar, de agir... porém sem a disfunção sexual, já que, para
corrigir essa distorção, o Sistema Comunitário recorreu à
intervenção preventiva, através dos cientistas.
–
Como assim, Peifil?!
–
Ao nascer, a criança realizava uma bateria de exames para a detecção
do seu grau de potencialidade sexual ambígua. Caso fosse constatado
que, no futuro, ela teria alguma aberração em sua sexualidade, era
submetida a uma intervenção cirúrgica, efetivando a sua
esterilidade para que não procriasse descendentes com os mesmos
desvios.
–
Mas isso não seria intervir na sucessão natural dos fatos, que o
desenv...
–
Natural? – indigna-se Peifil. – Jaime, ninguém gosta de ser
discriminado sem ter culpa. Alguns, numa fuga dissimulada, numa
tentativa de mascararem as próprias anomalias, apregoavam que agiam
assim por “livre escolha”. Porém, para o Sistema Comunitário,
era como se dissessem que optaram por herdarem os traços
degenerativos de suas miscigenações anteriores. Nesses quesitos não
dispomos de opções, tampouco para a função sexual. O Sistema
Comunitário dá liberdade ao povo, mas não eterniza legado
irracional com tendência à repetição, pois se todos agirem dessa
forma... a espécie humana entrará em extinção!
Jaime
cansou de ser contraditório e Peifil amenizou:
–
Porém todas essas pesquisas revelaram-se benéficas, Jaime. Várias
doenças hereditárias foram extirpadas por esse método. A
humanidade precisa ir resolvendo seus entraves marcantes para
garantir a perpetuação e a homogeneidade da espécie em sua
constituição genética.
–
Mas você não mencionou a tal diferença minúscula, Peifil –
desaprovou Jaime, com cara decepcionada.
–
Não existe um modelo padrão, um protótipo específico de mulher,
Jaime... Algumas se destacam pelo pescoço delgado, outras, muito
raro de se encontrar, têm peitinhos. Muito mais escasso... é mulher
bonita, atraente e de cintura fina. Vou lhe contar mais um segredo,
Jaime. Após milênios de experiência, eu deduzi que as mulheres são
todas iguais, só o gemido, naquela hora, é que difere – e desatou
em nova risada contínua.
–
Coitado de você, Peifil... se elas ouvirem isso.
–
Não ouvirão nunca... e tem mais uma confidência: nós não temos
casamento. Estabelecemos um contrato de união por prazo
indeterminado. Dando direito a qualquer um dos parceiros romper o
contrato sem, obrigatoriamente, haver motivo para isso.
–
Nesse ponto nós não estamos tão atrasados. Já conheço casais que
vivem nessas condições – explicou Jaime como se fosse uma grande
vantagem, o que fez com que Peifil gargalhasse mais.
–
Jaime, aconselho a ficar quieto, porque, sendo de fora,
recém-chegado, você não vai distinguir uma fêmea, e se mexer com
um macho ele pode não gostar – Peifil limpou os olhos que
derramavam lágrimas de tanto risos.
–
Claro que vou aquietar-me. Não serei petulante. Nem na Terra eu me
arrisco, quanto mais aqui – arrematou Jaime recolhendo-se no
cantinho.
–
Eu estou rindo, contudo, deveria estar chorando. Não é assim o
chavão popular?
–
Por que diz isso, Peifil?
–
Você não sabe o que, lamentavelmente, acontece com as nossas
mulheres, Jaime. Elas não compartilham com o sofrimento das
Terráqueas – disse Peifil perdendo toda a graça.
–
Desculpe, mas do que você está falando? – perscrutou Jaime sério
também.
–
Elas não reproduzem como as Terráqueas – informou quase
envergonhado Peifil.
–
Não reproduzem...?!
–
Isso mesmo. Devido as nossas mulheres não usarem o processo de
procriação natural, houve, com o passar das gerações, além da
alteração no metabolismo aparente, uma alteração física. O útero
atrofiou e perdeu sua função. Hoje nossos filhos são
“encomendados” em laboratório de úteros artificiais. Apenas é
coletado o óvulo da mulher e o espermatozoide do homem. Aguardamos
nove meses e regressamos à maternidade para retirar o rebento no
berçário. Tive todos os dois assim - esclareceu Peifil num balançar
de cabeça constante.
–
Nossa, Peifil, dito assim, dá a impressão de que ter filho aqui é
sem... afetividade, frio, sem emoção... me desculpe a franqueza,
mas... até sem amor.
Jaime
notou que Peifil perdera-se fixo no nada. Seu raciocínio perseverava
extraviado. Ainda bem que não era necessário dirigir, porque senão
sairia da estrada. Sonhava com alguma esperança adormecida no
passado. Permaneceu absorto, com o olhar sombrio, por um bom tempo.
Jaime cismou como seria a esposa de Peifil e não se atreveu a pensar
muito. Suspeitou que, talvez, eles adivinhassem pensamentos. Aos
poucos a fisionomia de Peifil foi se mostrando serena e harmoniosa, e
desafogou, deplorando reprimido:
–
É o preço sentimental que pagamos, Jaime. Caro. Muito caro.
Infelizmente... pesaroso.
Por
um instante solidarizaram-se via silêncio, explanando concepções
abstratas. Jaime, numa sondagem metódica, consolava-o pela lei da
compensação, alegando que muitas mulheres não morreram na sala de
parto e Peifil persuadindo-o que a Terra era um paraíso para se
viver, apesar dos pesares. Peifil suspirou e bateu uma mão na outra
enunciando:
–
Nosso Planeta conviveu com muitos embaraços, Jaime. Vou lhe contar
um dos maiores e piores que já passamos.
Peifil
mudou de ares. Tomou uma injeção de ânimo e, aos moldes de
professor em férias, exprimiu:
–
Nós enfrentamos um dilema muito grave... há milhares de anos. Nossa
ciência, após solucionar a cura na área patológica, experimentou
uma evolução meteórica. Todos investiam nela... buscando a vida
eterna.
–
Vida eterna?! – balbuciou Jaime apalermado. – Vocês são...
imortais?!
–
Calma, Terráqueo, não chegue à conclusão antes da exposição!...
Nossos cientistas iniciaram estudando os antepassados. Entretanto,
nem todos seguiram o planejamento. Apareceram os cientistas
gananciosos e maldosos... com experiências malucas... extravagantes.
Imagine só você... efetuaram um transplante de cérebro... e
patentearam o óbvio: quem doava o cérebro, continuava a viver, quem
recebia o transplante morria.
–
Não entendi, Peifil. Você não trocou as palavras? – rebateu
Jaime perplexo com o que ouvira.
–
Não, não troquei. O pior não foi só o transplante em si. Veja só,
Jaime: descobrindo isso, quem tinha muito dinheiro e era idoso,
pagava aos cientistas para arranjarem um corpo jovem para o seu
cérebro cansado.
–
Nossa!! Que despautério frígido, Peifil!
–
E com várias vantagens, Jaime. O cérebro velho, em um corpo jovem,
passava a auferir todas as energias que esse novo organismo,
vigoroso, produzia... e se revitalizava. Era toda a experiência de
uma vida, transplantada em um jovem, às vezes até em um
adolescente.
–
Monstruosidade sem tamanho, Peifil. Isso vai contra todas as normas
de conduta... racional... emocional... de qualquer ser vivente –
proferiu Jaime com ar de revolta.
–
Foi uma fase intricada em nosso Planeta, Jaime. Só no nosso não, de
muitos outros. Jovens desapareciam sem deixar vestígios. Alguns
faziam uma plástica facial e desfiguravam a vítima... nunca mais
era reconhecida. Outros nem se importavam com isso; principalmente
para quem já era um fora da lei.
–
Peifil, os cérebros dos jovens... era fácil sumir com eles, mas os
corpos dos velhos, como ocultavam? – Jaime fez uma expressão de
nojo, pressupondo um velho largado no meio da rua, com a cabeça
serrada na altura da testa, cujo tampão rolava oco pela sarjeta
cheia de lixo.
Peifil
recordou meio desalentado.
–
Jaime, naquela época, a lei era regida pelo dinheiro. Para se cremar
um defunto clandestino... bastava corromper alguém.
–
É, Peifil, a lei do vil metal é poderosa em qualquer Galáxia!
–
Porém, não pense você que tudo se desenrolou às mil maravilhas
para esses deturpadores astuciosos. Houve muitos fracassos nos
transplantes feitos às escondidas por pseudomédicos... que
só ambicionavam o dinheiro. A cirurgia transformava-se numa
constatação dramática. O cérebro não funcionava e gerava uma
terceira criatura, sem memória, sem nome... irreconhecível.
–
Na Terra diríamos: castigo de Deus – apregoou Jaime fitando
Peifil, que, com um aspecto tristonho, asseverou:
–
Isso porque os motivos dos transplantes eram banais e injustificados.
Alguns intencionavam trocar de sexo e pediam para implantar seu
cérebro no corpo de uma mulher e o contrário também acontecia,
mulher querendo virar homem. Outros eram pequenos e fracos e
desejavam ser fortes e altos.
–
Francamente, Peifil, é impressionante isso que você está me
contando. Jamais matutei algo tão desarmônico e assombroso
envolvendo a humanidade.
Nesse
momento Jaime se preocupou com Rodrigo, não sabia o que poderia
advir em sua cachola de criança ouvindo isso. Peifil revelou mais:
–
Jaime, as pendengas não pararam nesse nível.
–
Nossa!! Tem mais ainda, Peifil?!
–
Uma desgraceira sempre puxa outra maior, meu caro amigo Jaime Brosso.
Esses... personagens amnésicos, mesmo com as falhas do transplante,
conseguiam procriar. Houve uma variação na identidade dos
cromossomos. Com o passar das gerações, sobreveio uma nova
categoria. Uma casta defeituosa. Muito submissa. Semblantes
melancólicos, carrancudos. Alguns apresentavam discrepância
acentuada do protótipo humano... e se suicidavam. Outros se
camuflavam. Muitos se refugiaram no Planeta Iur Senbur... e aí,
sucumbiu a catástrofe maior... procriaram em disgenesia, pois, com o
hipocampo afetado, não sabiam o que praticavam.
–
Peifil, confesso que não sei o que é disgenesia.
–
Ora, Terráqueo, desconhece sua própria língua?
–
Não usamos, corriqueiramente, todos os nossos termos e os...
raramente utilizados recorremos ao dicionário.
–
Disgenesia é uma alteração na função reprodutora... tornam os
seres infecundos entre a própria raça, mas procriam com indivíduos
de espécies distintas. Assim geraram-se os... monstros de Iur
Senbur. Os primeiros foram aniquilados pelos próprios pais ao
nascerem, mas depois...
–
Nossa, Peifil!... Agora compreendo o espetáculo abominoso que vi
naquele Planeta – Jaime relembrou as imagens horríveis daquele
antro de exilados.
–
Aquilo é apenas o que restou do que estou lhe contando; porque o
início sucedeu há milhões de anos.
–
É Peifil, o preço foi mesmo desastroso.
–
E pensar que poderíamos ter chegado onde chegamos sem ter cometido
tantos lapsos. Quando criaram uma lei rigorosa relativa ao assunto,
os cientistas anunciaram a descoberta da vida eterna.
–
Então vocês têm mesmo vida eterna?! – admirou-se Jaime de olhos
arregalados.
–
Acho que me empolguei – desconversou Peifil consigo mesmo e
retificou: – Apelidaram-na assim. Não é bem “eterna”, Jaime,
é... muito longa. Os cientistas descobriram, através das múmias
das celebridades, uma proteína responsável pela conservação dos
corpos. As pesquisas avançaram nesta direção, no intuito de
preservarem enquanto ainda estavam vivos. Rotularam esses cientistas
de: FACE - Fabricantes de Antivírus das Células do Envelhecimento.
Outros discordavam, afirmavam que isso era um doping animalesco. Nem
sei se valeu a pena, pois muitos enjoam dessa vida fastidiosa.
Jaime
notou que Peifil ficou chateado; para auxiliar o amigo, concluiu
encerrando o fatídico assunto:
–
É, Peifil, agora percebo todos os problemas que vocês enfrentaram
nessa odisseia desenvolvimentista.
Como
um alívio para os dois, surgiu um novo tipo de paisagem que os
Terráqueos não estavam acostumados a ver naquele lugar. Castelos de
contos de fadas enfeitados com luzes em movimento que mais pareciam
entradas de cassinos luxuosos. Pisca-piscas, cachoeiras luminosas,
bonecos festivos e, de um monumento, brotava um show pirotécnico
virtual, esculpindo no céu figuras vistosas dos mais variados tipos
e cores. Ao se aproximarem avistaram uma praça enorme, com uma
multidão em rebuliço a passear e a conversar. Lá de cima já se
ouvia o burburinho indiscernível das vozes em clima de festa.
–
Mil e uma noites, filho! – retratou Jaime para Rodrigo.
–
Parece mesmo, pai. Já vi desenhos desses castelos!
Jaime
sentiu que toda aquela louca conversa com Peifil não abalou em nada
o estado emocional de Rodrigo, pois, distraído com os astros e o
trânsito, ele nem prestara atenção aos descalabros daquele
Planeta.
Os
carros desciam. Paravam. Passageiros e motorista saltavam e os
veículos prosseguiam a viagem, incrivelmente – sozinhos. Peifil,
com ar de quem já observava Jaime, perguntou:
–
Pelo visto notou que chegamos.
–
Que chegamos a um lugar formidável estou vendo. Mas que cidade é
esta?
–
Bisam Joreso... a minha cidade. Lá está o Palácio do Rei Ojes –
mostrou Peifil, apontando para um monte de castelos.
–
É difícil saber qual deles... todos me parecem de igual importância
– os olhos de Jaime perseguiram algum destaque em evidência.
–
Veja, Jaime, aquele que no topo tem... Bem, você não sabe qual é o
nosso símbolo da realeza. Lá na Terra é um aro com pontas, que
vocês chamam de coroa... aqui é uma Pirâmide, o...
–
Pirâmide?! – interrompeu Rodrigo.
–
Sim. Por que esse nome despertou sua curiosidade, Rodrigo? –
retrucou Peifil amistosamente.
Jaime
achou melhor dar liberdade para Rodrigo conversar um pouco, pois a
viagem interplanetária poderia demorar.
–
No Egito, quero dizer, lá na Terra... bem antes de Cristo... alguém
construiu várias pirâmides. Assim, bem longe... na beira de um
deserto... agora a civilização está chegando perto. Antigamente
organizavam escavações. Desenterraram muitos sarcófagos e túmulos
no interior delas, contendo tesouros juntos aos cadáveres. Lendas
contam que podem ser portais secretos deixados por humanoides...
habitantes do espaço. Há muitas especulações... presumem que elas
estiveram alinhadas às estrelas do polo norte e que têm poderes
mágicos... curativos. Foram vocês que construíram?
Jaime
não esperava uma dissertação tão longa e elucidativa de Rodrigo,
muito menos a pergunta final, fora do contexto. Interferiu sem
pleitear licença:
–
Coincidência, filho. Não creio que tenha alguma ligação. Aquilo é
muito antigo. Por ser uma construção geométrica... consideraram
como... impossível de ser edificada pelo povo da época, mas eu
avalio perfeitamente viável, não vejo nada de... extraordinário.
Peifil,
como quem não foi pego de surpresa, apenas aventou:
–
Talvez tenha sido, Rodrigo... talvez.
–
"Agora complicou as coisas" – pensou Jaime. Conjeturou
que seria demais para a cabeça de Rodrigo. Empenhou-se em afugentar
o assunto.
–
Peifil, você mencionou que do lado de fora não existia nada no
Planeta, e nós estamos...
–
E não existe – reafirmou convicto Peifil dissipando a dúvida de
Jaime, que ainda andava às voltas com as pirâmides. – A proteção
é móvel... abaixada quase todas as noites. Aqueles muros que você
vê, no contorno dos Palácios, é a parte da proteção levadiça
que foi recolhida.
Os
muros confinantes perfaziam uma magnífica muralha. O pensamento de
Jaime voou para fora do corpo e toda a paisagem converteu-se num
monte de luzes confusas. Elevou-se extasiado à Terra, e, numa
lembrança repentina, o tempo veio-lhe em reflexão:
–
“O relógio da Praça Pio XII marcava quatorze horas no momento da
abdução.”
Consultou
seu relógio: eram quatorze horas e dez minutos. Pensou que havia
parado, contudo, acompanhou o ponteiro dos segundos e verificou que
funcionava, porém abismou-se:
–
"Está de marcha à ré?!"
O
ponteiro, espantosamente, movimentava-se no sentido anti-horário.
–
"Meu relógio é uma máquina... não pode sofrer influência
externa em seu mecanismo. E como que todos esses acontecimentos
ocorreram em poucos minutos?!” – questionou-se Jaime embaralhado.
–
Não fique almejando saber tudo de uma vez – continuou Peifil
desviando Jaime do embate com o tempo e fazendo com que ele
regressasse ali. – Hoje é um dia de festa para o Rei Ojes e você
é o seu principal convidado.
–
Ele está... nos aguardando? – perguntou meio atordoado Jaime, não
querendo indagar a Peifil o motivo da caduquez de seu cronômetro, já
que em nada lhe auxiliaria obter uma explicação – se é que
Peifil a tivesse.
–
Sim, senhor Jaime Brosso, o Rei está a sua espera com todas as
honrarias de um visitante de outro... universo.
–
Veja só, Peifil: na Terra fervilham controvérsias sobre seres vivos
nas proximidades da Terra. Imagine se irão dar crédito se eu disser
que há vida em outro... mundo... muito além do nosso? – cogitou
Jaime, mesmo sendo incomodante para ele concatenar esse juízo.
Rodrigo,
que parecia não prestar atenção à conversa, intrometeu-se:
–
É pai, lembra daquelas noites que a gente olhava pela janela da sala
procurando discos voadores?
–
Pois é filho, agora estamos aqui, longe de casa e perto de
defrontarmos com o Rei deles.
–
Fique calmo, Jaime – aconselhou Peifil em tom despreocupante. –
Nosso Rei é uma criatura dócil e tranquila, não se aflige com
quase nada. Digamos que é até frio em algumas situações. Mas
desperta interesse nos sentimentos dos outros. Elabora tudo com
esmero. Resolve qualquer pendência com paciência e perspicácia.
Os
elogios de Peifil saíam irrepreensíveis, carregados de profundo
respeito e admiração ao íntegro Monarca.
–
O nosso Rei já foi por duas vezes o Comandante do Sistema
Comunitário. Venceu, por unanimidade, um plebiscito que o perpetuava
no cargo, no entanto o Rei Ojes rejeitou. Foi colocando os indivíduos
certos nos lugares apropriados e depois sugeriu um outro para
substituí-lo. Ele tem esse dom: olha para uma pessoa e sabe do que
ela é capaz. Repito aqui o que ele mesmo professou na justificativa
de sua recusa: "Vou dividir as tarefas, senão detenho o poder
sozinho; se eu morrer, morre o Sistema Comunitário”.
–
Seu Rei não possui o egoísmo de muitos... foi muito racional –
concordou Jaime pensando em como se comportar frente a ele. Para
relaxar, respirou fundo. Passou a mão no cabelo de Rodrigo,
ajeitando-o para trás, e preparou-se, resoluto, para o encontro
marcado.
IV
- A DESCIDA NO PALÁCIO
Do
alto, o suntuoso Palácio com escadarias douradas configurava-se até
pequeno. De perto, Jaime e Rodrigo notaram o seu real tamanho.
Tornaram-se minúsculos e caminharam aturdidos, ante a grandeza do
Palácio com suas imensas e numerosas colunas redondas e lisas. Na
fachada, talhados em madeira de lei, os hieróglifos deviam indicar
que ali era o Palácio Real. Tudo muito asseado e claro. As pessoas
não usavam sapatos, e sim umas sapatilhas multicoloridas comuns a
todos. Porém havia uma discrepância enorme nas vestimentas. Alguns
trajavam conjuntos coloridos, outros desfilavam socialmente
arrumados. Vários grupos dispersos exibiam adereços
espalhafatosos...
–
“Roqueiros relaxados” – pensou Jaime.
Uns
poucos ostentavam um corte de cabelo ousado e trajes minúsculos, com
bainhas desfiadas. Outras usavam roupas tão justas que se mesclavam
como parte integrante da pele, com desenhos que imitavam minhocas
vivas, pois elas se agitavam à medida que a luz transcorria pela
vestimenta.
Andando
aglutinado naquela aglomeração, Jaime reparou que alguns eram
incomuns, desiguais, não tinham os traços perfeitos como os de
Peifil e Dailen, eram muito feios. Arriscou identificar a tal
disparidade que Peifil lhe dissera, mas não conseguiu e procedeu
naturalmente.
–
"Melhor não ser imprudente, podem interpretar mal a minha
indiscrição.”
Uma
escadaria em arco, revestida de pedra crespa, se pôs em sua frente.
Peifil chamou num convite amistoso para ambos.
–
Venham para este lado.
Jaime
não notara uma linha colorida, pintada no chão, que separava os
degraus da escada fixa dos da rolante. Observou os detalhes na
ornamentação do Palácio. Coladas nas paredes, em quadros
decorativos, esculturas reproduziam cenas, talvez lendas, ou
histórias dos heróis do passado glorioso daquele povo. No lado
direito, esculpidos em pedra verde que refletia uma luz cintilante,
vários tipos de pássaros e animais estavam expostos em redomas de
vidro.
Chegaram
a um grande patamar. Ao fundo, num cenário suntuoso, montado em
forma de palco, surgiu um salão com arquibancadas ao redor. À
esquerda, sobressaía uma efígie colossal que, em posição de
reverência, amparava uma Pirâmide entre os braços, na altura do
peito. Ingressaram no salão a passos lentos. Uma melodia consonante
ecoava na cúpula. A temperatura foi arrefecendo. No palco, apenas um
indivíduo sentado num tamborete. Trajava túnica cinza, tinha longos
cabelos brancos, pele queimada, semblante sereno e olhar tranquilo.
Assistia a várias imagens transversais afixadas no ar. Quando viu a
aproximação dos três, fez um gesto com a mão direita e as imagens
fragmentaram-se no ar; outro mínimo movimento e a música cessou.
Jaime segurou na manga da camisa de Rodrigo, dando-lhe um puxão de
leve, pois ele ainda admirava o Palácio.
–
O que foi, pai? – interrogou distraído.
Como
não logrou resposta, ele mesmo procurou por ela. Notou a pessoa no
palco e olhou em sua direção. Peifil antecipou-se uns quatro passos
à frente e comunicou alguma coisa. Para espanto de Jaime, este
personagem conceituou para Peifil em bom Português e num tom
amigável:
–
Peifil, meu caro amigo, na frente de um convidado não devemos
discorrer em língua, senão na dele. Ainda mais sendo dois espécimes
Terráqueos de excelente linhagem – olhou para Jaime.
O
olhar cativante deste personagem não deixou dúvidas; Jaime pôde
ver, através de suas pupilas, que era mesmo o Rei. Peifil anunciou
apressado:
–
Jaime Brosso, este é o nosso Rei Ojes.
–
Desculpe o meu amigo Peifil, Jaime – pronunciou o Rei estendendo a
pequena mão –, afinal, nós não estamos acostumados a receber
hóspedes de outro idioma.
Jaime
presenciou um Rei nobre de sorriso plebeu. Pegou em sua mão e sentiu
uma energia muito maior do que quando apertou a mão de Dailen na
nave, mas, desta vez, sem tremores nem calafrios. Jaime olhou
detidamente nos olhos imperturbáveis do Rei e um brilho cativo
insinuava que sua memória estava sendo revistada. Jaime manteve-se
sossegado, porque, mesmo que revirasse seu cérebro pelo avesso, iria
perceber que em sua consciência não sobrevoava nenhum tipo de
intenção maldosa.
–
Estou honrado em conhecer um Rei de um Planeta... tão distante do
meu. Seus amigos já me contaram algumas... minudências daqui e... e
do Rei também. Confesso que ainda estou confuso e preocupado com o
nosso destino – salientou Jaime sem retirar os olhos dos dele.
O
Rei, com as pupilas refulgindo mais ainda, comentou sem pressa:
–
Realmente, Peifil e Dailen souberam escolher um representante de
talento, digno do Planeta Terra. De caráter hereditário e
integridade impecável. Você é corajoso, honesto e livre de
vestígios maléficos. Aqui, com essas credenciais, você seria um
Rei. Sejam bem-vindos a Bisam Joreso – acrescentou dando uma
gargalhada simpática, soltando a mão de Jaime e dirigindo-a para
Rodrigo.
–
Prazer em conhecê-lo, Rodrigo. Você é um rapazinho bonito e
inteligente. Herdou as qualidades do pai.
Rodrigo
estendeu a mão sem nada dizer. O Rei, para descontraí-lo, aludiu
numa piscadela:
–
Que tal um joguinho de videogame depois, Rodrigo?
Rodrigo
sorriu encabulado. Jaime notou que o Rei adivinhara o seu
entretenimento predileto.
–
É um jogo muito fácil. É moda lá na Terra, não é?
Rodrigo
só balançou a cabeça, afirmativamente satisfeito.
–
Converse com ele, Rodrigo – fustigou Jaime tentando desinibir o
filho.
–
Ele já sabe tudo, pai – respondeu seco Rodrigo.
O
Rei completou soberano:
–
Você é que sabe tudo, Rodrigo.
Peifil
se encantava com as lisonjas do Rei aos Terráqueos e transbordava um
orgulho, indisfarçável, por tê-lo agradado no cumprimento de sua
missão. O Rei retornou ao seu tamborete. Peifil, demonstrando-se
íntimo, sem cerimônia, perguntou-lhe:
–
A sua conversa com Jaime... será agora, Ojes?
–
Claro, meu caro amigo Peifil – e explanou categórico. – Os
incidentes que tivemos na sua ausência não alteraram em nada a vida
de Bisam Joreso. Creio que ainda teremos conflitos maiores de
ativistas subversivos; só estou esperando que aconteçam para poder
medir sua intensidade e as diretrizes a serem adotadas. Todavia, por
prevenção, já demandei ao Sistema Comunitário permissão
irrestrita na aplicação de armas de ataque, se for o caso.
–
Vai conversar com ele aqui ou no salão Real? – indagou Peifil.
–
Aqui mesmo, Peifil. Eu sou o Rei dos habitantes de Claus. Para Jaime
sou apenas uma figura comum, que tem interesse em conhecê-lo.
Peifil
arranjou outro tamborete e o colocou próximo de Jaime. Ligou alguns
equipamentos na parede da esquerda e inquiriu novamente, ao Monarca:
–
A Rainha Ariam já regressou do Planeta Rileco?
–
Não. Inclusive acabei de pedir ao Rei Cochi para hospedá-la durante
esses dias de incertezas. Ainda mais agora que o Sistema Comunitário
nos liberou para termos um Príncipe. Graças ao apoio do Rei Mega
Rori.
–
Bom, muito bom, já extrapolava a oportunidade mesmo. Com licença,
eu vou me ausentar. Precisando... é só avisar.
–
Peifil – disse o Rei –, por favor, mostre para Rodrigo aquele
novo jogo, enquanto eu converso com Jaime.
–
Ah!... sim, Ojes. Venha comigo, Rodrigo.
Rodrigo
hesitou e Jaime também. Ter seu filho longe dos olhos, num Planeta
estranho, ainda não lhe passara pela cabeça. Porém, Jaime
pretendia transmitir coragem e segurança para Rodrigo.
–
Pode ir, filho.
Rodrigo,
desconjuntado, já não ambicionava mais jogar. O Rei, num sorriso
acautelado que denotava saber o que se passava na mente de ambos,
resolveu o impasse:
–
Peifil, transfira o jogo para aquela mesa ali no canto. Já que ele
não gosta de ficar sem o pai por perto.
Rodrigo
mudou de ares. Animou-se todo. E pelo jeito como saiu, comprovou sua
sagaz curiosidade em conhecer o tal jogo.
–
Sente-se, Jaime – solicitou o Rei. – Vamos conversar.
Peifil
saiu acenando para todos. Rodrigo acomodou-se concentrado nos botões
e com fones de ouvido, óculos escuros, sem ligar para mais nada. O
Rei exalou um espesso suspiro e traçou um paralelo universal:
–
Seu Planeta vive, atualmente, o que nós vivemos há milhões e
milhões de anos. Um pouco divergente nas conquistas, porque vocês
desvendaram o seu próprio Planeta, e nós, devido a essa quantidade
enorme de astros, desenvolvemos as conquistas espaciais. Todos
ansiavam saber o que existia em cada um deles. Envergonho-me em
confidenciar que os nossos ancestrais fizeram tudo errado.
Entretanto, era o que conheciam e, convencionalmente, consideravam o
correto. Porém, hoje, a cada passo focamos o mundo por um novo
prisma.
Sintetizou
fazendo um gesto que perdoava os erros cometidos pelos seus
antecessores, e continuou em voz compadecida:
–
Comparei as duas civilizações, em seu progresso social e econômico,
numa época em que alguns fatores se equiparavam. O que mais me
impressionou foi a igualdade de comportamento. Nós também vivíamos
estáveis, sem agitação e sem tecnologia. Tudo subsistia
manualmente. As mulheres eram criadas apenas para os afazeres
domésticos, casar e procriar. Não cobiçavam a emancipação.
Porém, com o passar das gerações, tudo modificou. Elas passaram a
trabalhar em escritórios, fábricas... Emitiam opiniões de
individualismo, liberdade, feminismo...
O
Rei ajeitou-se no tamborete, trançou os dedos entre as mãos, e
prosseguiu prolixo:
–
O responsável pela divisão das tarefas foi muito benévolo:
"trabalharás oito horas, descansarás outras oito e se
divertirás as oito restantes". Quem se oporia à decisão tão
favorável? Porém o próprio homem descompôs a bendita partilha
satisfatória e, estupidamente, sobrecarregou-se ao extremo.
Arrumou
sua vestimenta e reatou:
–
Mas voltemos à economia, que vivia num ponto de equilíbrio
normal... Porém, num enxame, as mulheres engrossaram o mercado de
trabalho. Os empresários aderiram à ideia. Pior, pagavam menos para
elas, que, no afã de propagarem-se "independentes", como
preceituavam, aceitavam os baixos salários. Os empresários
empregavam cada vez mais mulheres, porque, pagando menos, lucravam
mais. Resultado: surgiu uma classe mais pobre, marginalizada,
favelada.
Jaime
balançou a cabeça consolidando a ilação sem parcimônia. Não
ousaria discordar da primeira narrativa do Rei. O Monarca relatou
azucrinado:
–
É estressante trabalhar numa empresa onde seus dirigentes só visam
o financeiro e não se detêm no social. Mas, Jaime, depois vieram as
máquinas que atarefavam o serviço de cinco, dez, quinze pessoas. Os
empresários, novamente, na ambição de lucros incessantes, adotaram
os computadores como seus novos e fiéis colaboradores... que não
reivindicavam direitos, não tiravam férias e não entravam em
greve. Todos os setores cresciam, porém a riqueza ancorava nas mãos
de poucos. As máquinas inteligentes desferiram o golpe fatal na
economia e na vida social dos Planetas. O avanço da ciência e da
medicina, financiadas por milionários que tinham pretensões
pecaminosas, custou a vida de muitos inocentes. A população crescia
sem controle demográfico, principalmente nos meios mais populosos e
desfavorecidos, nos quais o desemprego perdurava.
O
Rei Ojes, após uma leve pausa, expressou formalmente:
–
Jaime, uma pessoa desempregada se sente rejeitada pela sociedade.
Isso a enlouquece. Elimina dela todo e qualquer princípio de
civilidade. Você sabe que quando termina a esperança começa o
desespero, e daí para a criminalidade é apenas um passo. - O Rei
fez um sinal reprovador. – Conta a nossa história que o cidadão
chegava em casa, arrasado, pois perdera o dia à procura de trabalho,
e encontrava o filho na porta, com olhos fundos, molhados de
lágrimas, interrogando: "Pai, trouxe comida?" O pai,
cansado e com fome, saía correndo desvairado. Depois retornava
aterrorizado, no entanto, com a comida numa sacola. Praticara
atrocidades para alimentar seu filho. Muitos desses pais, quando
identificados, eram presos e tachados de ladrões insolentes. Assim
gerou-se a miséria, a violência... Todos os tipos de contravenções
desencadearam em cascata sobre esta classe desprotegida.
O
Rei fez Jaime pensar em algo comparável ocorrendo em sua cidade. O
Monarca articulou como se estivesse vendo as imagens reproduzidas em
sua frente.
–
Muitos assassinatos hediondos, inomináveis. Um terrorismo desmedido.
Muita fome. Calamidades, querelas, distúrbios... e acrescente-se a
isso a maldita corrupção, que hoje sabemos... era a causadora de
tudo. A justiça cada vez mais negligente. No governo não sobrava
dinheiro. Simulavam um combate ferrenho ao nepotismo. Pois os
salários astronômicos que eles próprios se estipulavam, consumiam
os recursos destinados aos investimentos. A saúde, a educação, a
segurança, as rodovias... tudo foi privatizado.
Fez
uma interrupção cômica e, numa graça de piada ridícula, fofocou
sarcástico:
–
As charges chacoteavam: "a solução é privatizar o
governo". Político simbolizava sinônimo de falsário. Eles
não exerciam mais seus deveres. Atravessavam seus mandatos criando
IPC – Inquérito de Político Corrupto.
Jaime
pensou em esboçar alguma opinião, mas estancou a comichão. Afinal,
às vezes é aconselhável ser apenas ouvinte. O Rei, envolto em
severidade de ares paternal, legitimava:
–
A desonestidade imperava. Analfabeto podia votar, pois era presa
fácil dos políticos mesquinhos. A ética foi pisoteada. A população
pagava impostos abusivos e não recebia nada em troca. Boatos
financeiros, de cunho interesseiro a grupos pecuniosos, geravam
correrias aos bancos. As multidões, principalmente os jovens,
induzidos e manipulados por déspotas, organizavam passeatas e
manifestos. Tornavam-se marionetes nas mãos desses aliciadores.
Tanto esforço para nenhum resultado concreto.
O
Rei intercalava empolgação com discernimento. Incutia até um sinal
de inconformismo em suas palavras, e, como se criticasse a si mesmo,
deu uma tonalidade mais branda à voz:
–
Jaime... a classe cultural honesta, teve um quê de culpa. Cometeu um
grave equívoco: o da omissão. Exonerou-se da política, deixando os
eleitores sem opção de escolha. Os corruptos abocanharam,
arbitrariamente, o poder.
Com
a mesma voz mansa e um sorriso amarelo, sem entusiasmo, bateu duas
palmas e propalou:
-
Os contribuintes, desassistidos, notaram que a única função do
governo era recolher impostos. Oferecia uma precária assistência
médica... apenas para favorecer aos desvios de verbas. Aliás,
passou a ser um perigo se internar em hospital público. Os ricos,
desonestos, compravam os órgãos para transplantes. Às vezes, quase
o corpo inteiro. Vivemos muito séculos assim: todos à mercê da
sorte. Poucos abastados e muitos miseráveis. Urgia estourar a
revolta que latejava no peito de cada cidadão. E uma reviravolta
malograda, que já fora prevista pelos historiadores, teve início.
Novamente
Jaime sentiu uma coceirinha na língua, mas se conteve. Peifil já
contara parte dessa história. Era melhor continuar só escutando.
–
Então aconteceu o pior, Jaime. Muitos delinquentes intencionavam
entrar para a história pela porta da hipocrisia. No intuito de
guarnecerem a hegemonia, deflagraram os desentendimentos. Grupos de
guerrilheiros se alastraram como uma epidemia por todos os Planetas.
Mercenários contratados efetuavam barbáries. Não houve tempo para
mais nada. Explodiu uma revolução, num efeito dominó, dentro de
cada Planeta que engloba este céu. Até bomba atômica, que é um
suicídio coletivo a longo prazo, eles detonaram. Destruíram, em
dias, o que construíram em milênios.
O
Rei passou a mão pelo rosto, vestiu um aspecto envergonhado e,
cabisbaixo, esquivou-se emocionado:
–
Não gosto de dar testemunho acerca desse pandemônio ocorrido em
nossa história – desabafou encalistrado. – Veja, Jaime, nossos
mundos, tão longínquos, alinham-se numa simetria genérica... –
parou, pensou e certificou. – Com exceção desse Rei
sobrenatural... ou Deus... que vocês têm. Que, de tudo que Peifil
relatou sobre Ele, eu fiquei sem compreender um disparate. - Franziu
a testa e investigou. – Por que os Terráqueos choram quando alguém
falece? Ele não vai ao encontro do Deus Criador... no tão
almejado... Paraíso? Não alcançará a felicidade perpétua? Na
minha conceituação seria motivo de regozijo, de festa, de glória.
Você não analisaria assim?
O
Rei olhou para Jaime, inquisitivo, à espera de uma resposta. Jaime
matutou:
-
“Questionar logo sobre Deus? Tecer referências sobre a morte?
Paraíso?!... Trazer à baila um assunto abstrato, polêmico,
desconcertante, cheio de contradições?!”
O
Rei pegou Jaime totalmente desprevenido de criatividade espiritual.
-
Bem, eu acho que... – Jaime pausou para pensar numa escapatória
que fosse ao menos sofrível – elas choram porque perdem... a
companhia de um ente querido.
–
É racional a sua explicação, porém muito egoísta.
–
Também concordo, Majestade, mas...
–
Por favor, Jaime... me chame de Ojes.
–
Ah, desculpe, saiu sem querer. – Jaime encabulou-se diante de tanta
informalidade. – Mas nós fomos criados com esse sentimento,
Ojes... quase... hereditário. Para nós a morte significa tristeza.
Somente em algumas civilizações, de uma cultura afastada, a morte é
festejada – amenizou em anuência ao eminente Monarca.
O
Rei sondou um painel na parede como se aguardasse alguma mensagem.
Jaime julgou-se também no direito de especular:
–
Não há religião no Sistema Comunitário? Nada sobre espírito
ou... alma? – transpareceu que o Rei não esperava que Jaime o
interpelasse.
–
Hoje não temos. Mas, para satisfazer o seu interesse... já tivemos.
Num passado muito remoto, havia solenidades místicas em nosso
Planeta – assegurou o Rei que, pela entonação, buscava longe essa
lembrança. – Adoravam a água, o vento, o fogo e a luz de nossos
sóis. Os nossos habitantes se cobriam com peças alegóricas em
alguns dias do ano. Faziam oferendas, promessas para esses elementos
da natureza. Realizavam procissões, sacrifícios. Tinham danças e
músicas específicas para comemorarem esses fenômenos. Temiam o
fogo destruidor, avocando-o de "irmão" e respeitavam o
vento, que, por ser invisível, conjeturavam ser os espíritos dos
mortos. Quando sucedia um vendaval era porque estavam irritados com o
procedimento dos vivos.
O
Rei descrevia numa feição piedosa de emoção explícita.
–
A água, por não ter sabor, saciava a nossa sede e nos purificava no
banho. A luz, intocável, representava a própria vida. Sem ela só
subsistiria a escuridão. Despontou até uma corrente contrária a
tais concepções, formada por alguns estudiosos, que disseminavam em
livros as suas homilias.
–
E como essa crença se extinguiu? – Jaime inquiriu reportando-se ao
bezerro de ouro e toda era mitológica.
–
A evolução muda conceitos e preceitos, Jaime. Assim que o fogo
deixou de ser novidade e a luz passou a ser gerada pelas energias que
foram sendo descobertas, sobrevieram as desconfianças. Quando, há
milênios, os cientistas propagaram a produção da água e do ar, a
crença se desfez – disse o Rei abrindo os braços. – Hoje
utilizamos os nossos sóis para arrefecer onde está quente,
providenciamos componentes artificiais, químico-físicos, para
viabilizar a sobrevivência no Sistema Comunitário.
–
Este ar que estou respirando... não é natural? – Jaime procurou
algum cheiro acentuado.
–
Não, Jaime – confirmou o Rei. – Vocês, Terráqueos, estão
dando muito valor às coisas supérfluas e se esquecendo das
essenciais. A nossa água é hoje o seu ouro... só que com uma
enorme diferença... sem ouro você vive. O seu Planeta está em um
local privilegiado no espaço. Para nós, a Terra seria esse paraíso
promissor de seu Deus, que preservaríamos para a eternidade –
declarou o Rei numa aspiração de que desejaria que seu Planeta
tivesse o ecossistema idêntico ao terrestre.
Jaime
enfatizou sem convicção:
–
Na Terra, ambientalistas incomodados com o desmatamento, com a
poluição dos rios, do ar... encabeçam campanhas, e muitos projetos
estão sendo desenvolvidos para reaver o que se perdeu da natureza.
–
Não, Jaime – retrucou o Rei na sua costumeira calma –, o remédio
não é este. Não se pode preconizar qualidade de vida a quem não
tem o que comer. Somente a união sincera dos povos estimulará a
corrente inquebrantável da sustentabilidade. A chave mestra para
abrir as portas do futuro é a formação cultural. – O Rei dispara
uma indagação: – Por que os menos favorecidos são os que têm
maior número de filhos? – Jaime preparou-se para a resposta, mas
não teve oportunidade. – Porque lhes sonegaram o conhecimento.
Caso não recebam uma orientação adequada para progredirem nessa
sociedade individualista, procriarão incontáveis rebentos, que, sem
esperança de vida, tomarão a vereda das drogas, do crime, da
brutalidade... Tornar-se-á impraticável a governabilidade dessa
tropa instável. Vejo aqui o maior desafio dos Terráqueos.
O
Rei permaneceu ressentido e pensativo. Jaime asseverou meio que
automático – só para não ficar calado:
–
É... precisamos amparar o lado social, para resguardarmos o futuro.
Não podemos permitir que nossas favelas virem quartéis-generais dos
narcotraficantes e de outros marginais.
O
Rei talvez não estivesse acostumado a recordar os atos pecaminosos
de seus antepassados, pois isso o deixou aturdido, absorto. Depois de
alguns instantes, despertou do devaneio:
–
É... é isso mesmo, Jaime. Aqui, onde está erguido este Palácio,
já residiu uma floresta, um grande rio ou até mesmo as profundezas
de um vasto oceano. Vou lhe confidenciar uma verdade: enquanto
existirem homens em seu Planeta que protegem um pedaço de chão,
dizendo que é seu... sendo o solo eterno e ele efêmero... não
idealizarão jamais a fórmula da paz hereditária.
Trocou
o pé de apoio no tamborete, arrumou a túnica, passou os olhos
disfarçadamente pelo painel e patenteou:
–
Jaime, após a revolução os bestuntos continuaram com a mesma
devastação da natureza. Chegaram ao cúmulo de se perguntarem: quem
beberá o último copo d'água?... Porém é na adversidade que
os inimigos se agregam. Só consentiram a formação de uma
região soberana em cada Planeta, sob a coordenação de um poder
único, quando notaram que seria a derradeira saída para a
sobrevivência humana. Faltavam alimentos e, para produzi-los,
elaboraram o isolamento térmico. Porque toda a catástrofe provocada
alterou a temperatura. A biodiversidade no sistema ecológico sofreu
uma mutação quase irrecuperável. Além disso, muitos animais, que
eram nossos concorrentes diretos na cadeia alimentar, lamentavelmente
precisaram ser dizimados; as plantas ornamentais foram reduzidas a
poucas espécies. Subsequentemente ditaram leis coerentes e a nova
forma de governo: Monarquia Igualitária. Implantaram um emblema: o
Sistema Comunitário... o órgão gerenciador dos 1986 Planetas.
Padronizaram tudo, inclusive o nosso idioma. Recolheram das ruas os
desafortunados e instalaram-nos em albergues. Após se recuperarem
fisicamente, eram enviados para os setores de trabalho. Quem não se
submetia às normas de conduta era expulso para Iur Senbur.
O
Rei mirou discretamente para o painel da parede novamente. Jaime
julgou que ele esperava um comunicado urgente ou o indício de algum
problema; porque toda vez que se ajeitava no tamborete percorria os
olhos por ele numa conferência premente.
–
Bem, Jaime, hoje o Sistema Comunitário, num controle cíclico,
coordena desde a quantidade de cada tipo de mantimento que carecemos
até quantos filhos um casal pode gerar. Não podemos ter mais bocas
para alimentar do que trabalho para executar. Aqui ninguém compra e
ninguém vende. Não temos dinheiro... no entanto, todos têm os
mesmos direitos e deveres. O vento da igualdade sopra para todos.
Porque não se pode perpetuar felicidade apenas para uma parte da
população.
Jaime,
pasmado com essa revelação, habituado a uma vida financeira
regrada, absorvente e preocupante, nem fantasiou como se comportaria
numa sociedade de "consumismo liberado”.
–
Tudo sem impostos? Ninguém é dono de nada?!
–
Não, senhor Jaime Brosso, ao contrário – repreendeu com brandura
o Rei –, todos são dono de tudo. Aqui Monarca não tem regalias,
nem mucamas, nem Pirâmide valiosa.
O
Rei, supondo o entendimento simples e fácil, abriu os braços
esclarecendo:
–
Uma pessoa, para viver bem, necessita de: alimentação, saúde,
educação, moradia, diversão e liberdade. Tudo isso o Sistema
Comunitário oferece. - Inclinou-se mais para o lado de Jaime e
cochichou sigiloso: – O seu Planeta é o único habitado daquela
região galáctica, é muito mais fácil introduzir um sistema assim.
Jaime
se questionava o que o Sistema Comunitário requeria em troca.
Prontamente o Rei o respondeu – talvez rastreasse mesmo a sua
consciência.
–
Lógico que o Sistema Comunitário exige algum benefício, Jaime. A
pessoa terá apenas de trabalhar normalmente, obedecendo às regras
para ter esses direitos certificados.
Pareceu
justo para Jaime, afinal, na Terra, ele trabalha sob pressão e não
tem nada garantido!... O Rei assimilou a aprovação de Jaime.
–
Jaime, aqui, quando o jovem atinge a idade de trabalho, ele está
apto para qualquer tarefa. Desde a simples plantação de grãos até
reestruturar o mais sofisticado mecanismo de avançada tecnologia. -
Novamente o Rei bateu os olhos no painel e despretensioso reatou. –
Após o aprendizado é feito um teste vocacional. O elemento pode
ainda optar pelo revezamento, no qual trabalha um período em cada
atividade. A divisão do serviço é recompensadora e traz dignidade.
Todos ambicionam fazer parte de um grupo que produz riquezas em
harmonia comunitária, que valoriza a existência e o bem-estar.
Jaime,
embora sentisse que o Rei sabia o seu pensamento, aquiesceu com um
leve aceno de cabeça.
–
Uma coisa é concludente, Jaime: a balança da verdadeira justiça
não tem fiel, porque direitos e deveres pesam igualmente para todos.
Não é racional um ter tudo e outro nada. O Sistema Comunitário é
imparcial e íntegro.
O
Rei penetrou persuasivo no fundo dos olhos de Jaime.
–
A sua Pátria é o Planeta Terra. Você mora nele. A sua cidade não
é uma região isolada, a sua casa não é apenas um endereço
perdido, é um ponto correlato. Ao redor dele subsistem outros
bilhões interligados. O Planeta é dependente de cada ponto.
Jaime
focou diretamente no Rei e ajuizou o intento.
–
Está insinuando que chegou a hora de nós pensarmos no Planeta como
um território único... um bem comum a todos?... Sem fronteiras?
–
Isso mesmo, Jaime, a ocasião é propícia para os Terráqueos terem
um só propósito... pois o lixo de cada um é o lixo de todos... a
boa ação de um reverte em favor do convívio de todos. Jaime, o que
se polui hoje amanhã terá que ser recuperado. Vocês devem viver
como uma irmandade, uma única família que mora na mesma casa, numa
confraternização, que compartilha tudo o que...
O
Rei aguça, precavido, para o quadro na parede. Peifil irrompe
embarafustado pelo salão falando em sua língua e todo suado. O
Monarca, que até então se expressava com movimentos lentos,
levantou-se ligeiro do tamborete. Foi para uma bancada no canto
esquerdo do salão, próximo a uma janela, e pressionou duas chapas,
nivelando-as à bancada. Uma redoma de vidro elevou-se. Abriu-a e
colocou a mão direita sobre uma placa metalizada. Seu braço, em
transparência óssea, emite uma luminosidade azul.
De
imediato um alarme disparou em cadeia pela cidade. O Rei dirigiu-se
para a outra janela do Palácio, virou uma trava e aguardou como se
tivesse terminado sua missão. Uma cor verde, em forma de pirâmide,
se fez ver no céu. Jaime chamou Rodrigo, mas ele, com os fones nos
ouvidos e distraído com o jogo, não escutou. Em três segundos o
salão foi invadido por milhares de clausestres que brotavam
de todas as direções no mais absoluto silêncio individual. Aquela
convergência instantânea de pessoas e nem um pequeno barulho de
passos se ouvia.
Jaime
equacionou: vinha alguém indesejado ou algum perigo fora detectado
no céu, pois a proteção do Palácio se ergueu como um paredão em
forma de cone, até o fechamento completo acima do Palácio.
Levantou-se e começou a andar entre aquela aglomeração para
aproximar-se de Rodrigo. Sentiu um braço forte que o deteve e o
puxava para fora do salão. Pensou que fosse Peifil. Porém ele já
não conseguia virar o pescoço para ver quem o conduzia, tampouco
gritar. Seu corpo estava totalmente paralisado. Foi levado para um
lugar escuro. Ouviu dois estalos indefinidos e, numa baforada, um
vento quente soprou contra seu rosto. Não sabia se era transportado
em algum veículo ou se apenas voejava – o que não era para se
estranhar naquele mundo excêntrico. Quis gritar novamente, mas,
misteriosamente, a voz lhe faltou. Lembrou-se do início de tudo, à
beira do cais, esperando o ônibus. A nuvem. A sala escura.
–
"Oh! Não... tudo de novo, não. Meu Deus!... Vão me devolver
para a Terra sem o meu filho? Como vou explicar em casa? Não, isso
não pode acontecer comigo. Não posso partir sem Rodrigo. Preciso
voltar para o salão.”
Uma
aflição asfixiante tomou conta de Jaime. Concentrou-se à busca das
forças sensoriais para se libertar da paralisação, mas foi inútil.
Seus membros não desempenhavam as decisões do cérebro.
–
"Será que irão me trair? Pareciam amigos leais!... O Rei
esperava suceder alguma coisa. Eu notei sua atenção exagerada
naquele painel. Devia ter perguntado o que ele temia.”
Jaime
pressentiu um suor frio esvair-se pelos poros. Dominado por uma
tontura letárgica, a moleza tomou conta de seu espírito e,
gradativamente, foi perdendo os sentidos. Não distinguia mais nada.
Sem reação. Anestesiado. Apagou...
V
- EM PODER DOS REVOLUCIONÁRIOS
Quando
Jaime, por fim, abriu os olhos, viu-se sentado no meio de um pasto,
adjacente a uma mata moribunda. Estava amarrado por uma corda
invisível que prendia suas mãos para trás. Seu corpo, ainda
entrevado, não se mexia. Pelo peso da sonolência, passara por uma
boa madorna.
–
"Se estou imobilizado... devo ser um prisioneiro – pensou. –
Caramba, que azar o meu!... E Rodrigo, onde está?"
Jaime
espreitou, circunspeto, a floresta de árvores esquisitas em sua
frente: umas com troncos grossos e baixos, outras altas e curvas.
Algumas de folhas enormes, penduradas a caules raquíticos. Um
pequeno poço redondo, com areia avermelhada, transbordava
borbulhante, escorrendo um filete de água cor de vinho, que passava
rente aos seus pés em direção à floresta. Do seu lado direito
havia alguém deitado, vestido de negro. Como ainda não movia um
músculo sequer, perquiriu vesgo:
–
Ei!... Quem é você?
Jaime
não obteve resposta, nem ao menos um gesto. O corpo jazia imóvel.
Deduziu que não o ouvira. Insistiu. Desta vez, bem mais alto:
–
Ei... você!... – nada.
Jaime
fez mais força mental que física para contorcer o pescoço. Notou,
de soslaio, que atrás dele havia um acampamento cigano. Muitas
barracas rústicas, desordenadas e coloridas. Na entrada de uma
delas, um jirau sustentava, dependuradas, longas tiras de carne crua,
que quase alcançavam o chão. Alguém pronunciou algumas palavras
incompreensíveis. Pela entonação, dava a entender a Jaime ser o
aviso de que ele se mexera.
Jaime
ouviu passos cadenciados e firmes que se avizinhavam. Duas botas
limpas e lustrosas pararam em sua frente. Com muita dificuldade foi
erguendo o pescoço. Deparou-se com um rosto antipático e não muito
perfeito, que o inspecionava de cima para baixo. O grandalhão tinha
uma cicatriz profunda no queixo quadrado, cabelos desalinhados e
olhar arrogante. Um tique nervoso se manifestava em intervalos mais
ou menos regulares, contraindo toda a musculatura do pescoço em
espasmos. Depois de um sorriso sarcástico, evidenciou:
–
Terráqueo, hoje é o meu dia de sorte. Meus espiões infiltraram-se
no Palácio para apoderarem-se de uma figura célebre e trouxeram
duas. Com um detalhe, sem nenhum arranhão. Aposto que até agora a
segurança do Palácio está debatendo de quem foi a culpa pela
falha. - Deu dois passos para o lado. – Você é muito mais forte
que alguns dos nossos. Veja – apontou folgazão para a pessoa que
permanecia despojada na grama –, ainda dorme em transe, e vocês
receberam a mesma dose do elixir hipnótico.
Encostou
sua pequena mão em Jaime e deu-lhe um toque no ombro. Foi o mesmo
que tivesse arrancado a corda invisível de seus punhos. Libertou-o
tão rápido que Jaime quase perdeu o equilíbrio. Lentamente,
dirigiu-se para uma das cabanas proclamando:
–
Se quiser pode levantar-se, Terráqueo. Agora eu sou seu anfitrião.
Venha beber e comer carne de coiote do mato.
Jaime,
com aversão, resmungou para si mesmo:
-
“Obrigado, já almocei.”
Jaime
ergueu-se amparando as dores agudas das costelas. O elemento
persistia imóvel, nocauteado. Vasculhou em todas as direções
procurando por Rodrigo. O de botas brilhantes, comendo algo com
outros dois companheiros, o vistoriou de longe com hostilidade e
inquiriu mastigando sem modos:
–
Não está pensando em fugir, não é, Terráqueo? Aliás, fugir para
onde... se não sabe onde está! – e desprendeu uma gargalhada
humilhante e insuportável.
–
Quem são vocês e por que estou aqui? Cadê o meu... – Jaime
pensou melhor e, por precaução, não perguntou por Rodrigo. Talvez
não soubessem da existência de mais um Terráqueo no Palácio.
O
de botas brilhantes deglutiu o bocado quase se engasgando e retorquiu
enfurecido:
–
Nós somos revolucionários opositores a esse Rei que nos governa
como se fôssemos cães. Quer que trabalhemos para ele a troco de
comida, nós cobiçamos mais, desejamos liberdade de escolher em qual
Planeta viver, mesmo que seja pela violência. Temos de batalhar
pelos nossos direitos. Não podemos nos prostrar passivos diante de
um camundongo sarnento...
Parou
de falar de estalo. Notou que não controlara seu fanatismo.
Confabulou, secretamente, com os dois companheiros. Voltou-se para
Jaime e declarou num tom bem mais suave e pacifista:
–
Meu nome é Lideucan. Esses são meus correligionários de luta:
Saluc... Jermaso – apontou indicando todo o acampamento – e mais
um monte de seguidores do nosso ponto de vista. Buscamos a liberdade,
longe daquele confinamento de animais que é Iur Senbur. A partir de
hoje decretaremos um novo estilo de vida para esses monarcas duma
figa. Iremos mandá-los para lá – gargalhou prazerosamente. –
Descobrirão que urubu não come carniça porque gosta, e sim porque
é o que lhe sobra. Saberão o que é disputar a comida com instinto
animalesco de um canibal. Quero ver se naquele cemitério de vivos
eles mantêm a civilidade e a pose de nobreza e integridade que tanto
pregam. Escutaremos muitas súplicas desses almofadinhas caga-regras
e... – as próprias gargalhadas o impediram de prosseguir no
insulto.
Saluc
vinha simplório, todo risonho, de mão estendida em direção a
Jaime. Sua pele era incomum: flácida, flácida não: pendurada na
face, plissada na testa e enrugada no queixo. Equivalia-se a um
cachorro buldogue balançando as barbelas, só não babava. Jermaso,
de estatura mediana e vestimenta desleixada, o reteve. Com uma voz
rouca, acompanhada de chiados desafinados, cochichou alguma coisa bem
dentro de seu ouvido; o que fez Saluc retroceder com ares severos.
Lideucan,
pelo jeito com que discursara, era um radical rabugento de gênio
sectário. Saluc, com sua expressão débil, um adepto tolo, que se
deixava levar pela mente distorcida de Lideucan. E Jermaso, por todo
tratamento servil que dispensava aos dois, um tremendo puxa-saco.
Seus trejeitos chegavam a ser pitorescos. Encruado na testa careca, à
esquerda trazia um proeminente furúnculo – essa foi a análise
imediatista que Jaime descarregou sobre eles e, veemente, descerrou
sua insatisfação:
–
E o que é que eu tenho a ver com esse seu despropósito caduco? –
destratou Jaime. – Estou aqui abduzido da Terra e vocês me
sequestram de novo? – extravasou apoquentado e encarando a todos.
–
Vamos com calma, Terráqueo. Você já faz parte da nossa história –
esboçou numa insolência efusiva Lideucan. – Nosso primeiro
intento era confiscar a Pirâmide do Rei Ojes, subjugar Bisam Joreso
e depois os demais Reinos. Contudo, a casualidade conspirou a nosso
favor e aprimoramos o projeto: devolveremos você para a Terra e nos
hospedaremos incólumes por lá. Ouvi dizer que o clima é agradável
e que as mulheres reproduzem de bom gosto. O que mais se pode
almejar? – indagou num aprazimento maldoso.
Jaime,
mais uma vez, foi pego de surpresa. Não teve reação diante do
gigantesco e assombroso disparate que ouvira.
–
Boa, Lideucan! – exclamou Jermaso contentíssimo. – Você
planejou isso agora?
–
Claro que não, recruta imbecil – molestou o intolerante –, esse
ensejo glorioso já estava impregnado em meu objetivo desde que
fugimos de Iur Senbur.
–
Como executaremos essa façanha miraculosa, Lideucan? – interrogou
Saluc de ar pueril.
–
Sairemos daqui em direção à base das aeronaves interplanetárias.
Desceremos de supetão e, com o que temos de refém – apontou para
a pessoa que ainda dormia –, não haverá embaraços para exigirmos
uma nave e coagirmos para abrirem a proteção de ondas. Então
nossos comparsas, que estão aguardando lá fora, invadirão o
Planeta Claus e desencadearão uma guerra sem trégua até
desbancarem esses tiranos assoberbados do poder e pôr um final
feliz... vitalício nesse episódio.
Enquanto
conversavam a figura que dormia levantou-se semiacordada e
cambaleante. Num incitamento obstinado, foi de encontro a Lideucan
tentando esmurrá-lo. Lideucan esquivava-se de seus punhos com
facilidade. Num relance a deteve pelo braço. Após uma contração
muscular dupla e prolongada, admitiu sem mesura:
–
Belezoca, você não nega ser filha de quem é, hein? Continua a
mesma beldade teimosa e corajosa de sempre. Junte-se a nós, você só
tem a ganhar. Breve poderá vir a ser uma Rainha... – e acrescentou
ambicioso – do Planeta Terra. Que tal?
–
Ao seu lado? Nunca. – Rechaçou secamente, abrindo os olhos
fumegando de raiva, aparentemente bem lúcida. – Pode ter certeza
que papai já está no seu encalço, seu desordeiro – desabafou
dando-lhe as costas. – É só uma questão de minutos... e desta
vez papai não o perdoará.
Lideucan
e seus companheiros saíram rindo e adentraram em uma das cabanas
discutindo entre eles.
Estava
ali. Era uma mulher. A primeira fêmea que Jaime via naquele Planeta.
Começou a repará-la. Nem de longe se assemelhava a uma mulher. Seus
gestos voluptuosos e o comportamento másculo eram características
marcantes. A voz possuía um timbre indefinido. Sua cor de jambo
escuro era bonita. Os traços de seu rosto bem delineados. Seus olhos
esverdeados refulgiam acesos, como se desvendassem a alma de quem os
fitasse. Os cabelos pretos, cacheados, na altura do pescoço,
balançavam soltos em caracóis. Lábios carnudos e dentes perfeitos.
Jaime viu ali uma mulher com um quê de pantera selvagem indomável.
Ela notou que Jaime a observava. Ele, apressadamente, desviou seus
olhos, pois ela poderia não gostar. Em tom de desculpas e a voz mais
delicada, ela apresentou-se:
–
Jaime, meu nome é Dinjara. Sou filha de Peifil e esse... rebelde,
vagabundo, medíocre é um vil parasita fora da lei... e seu bando a
escória do Sistema Comunitário. São prisioneiros fugitivos do
Planeta Iur Senbur. Devem ter aproveitado algum descuido da
vigilância e ingressaram em nosso Planeta sem serem notados.
Jaime
adestrou seus nervos faciais para demonstrar-se simpático.
–
Seu pai disse apenas que tinha dois filhos. Julguei que todos os dois
fossem... – Jaime parou de falar. Dinjara não o ouvia. Ela
pretendia ver no vento, pois olhava o espaço em sua frente como se
vislumbrasse nele uma imagem refletida.
–
Não entendo como eles penetraram no Palácio sem serem identificados
– monologou pensativa.
O
tormento dela nesse momento crucial, embora não fosse, afigurava-se
maior que o de Jaime; que, numa ansiedade intensa, fez uma pausa para
que ela voltasse a notar a presença dele ali, já que a sua
prioridade era saber o paradeiro de Rodrigo. Jaime, com receio,
tocou-a no ombro. Ela virou-se naturalmente e:
–
Desculpe... Jaime.
–
Você sabe de meu filho? – emendou Jaime.
–
Não, mas... deve ter ficado no Palácio. Eles não imaginam quantos
Terráqueos vieram. Fique tranquilo Jaime, papai vai resolver isso
com a maior brevidade.
–
Mas seu pai não sabe onde estamos, Dinjara. E eles irão nos usar
como reféns. Comentam até que irão para o meu Planeta.
–
Não sei se é mesmo verdade. A cabeça de um bandido é inconstante.
São ideias desvirtuadas. De repente ele adere à opinião anterior.
É uma criatura imprevisível, confusa, cheia de incógnitas –
encerrou deprimida.
Agora
Jaime tinha mais uma certeza. Aquele brilho cativo que eles traziam
nas pupilas era um leitor de pensamento. Incrível, mas ali a mentira
nem pernas tinha!
Dinjara
sentou-se no chão desolada. Jaime, sem saber o que fazer, nem
confessar que estava mais perdido que cobra-cega em quintal estranho,
especulou contemplando as árvores:
–
Você sabe que lugar é este, Dinjara?
–
Não ao certo, mas esta é a única parte descoberta do nosso
Planeta. É um local reservado para as nossas experiências na
tentativa de recompormos a flora e a fauna que destruímos. E pela
posição das luas, estamos muito distante das cidades. Não teremos
chance de escapar.
–
Precisamos escapar – rebateu Jaime apreensivo. – Tenho de
encontrar Rodrigo. Ele deve estar apavorado chamando por mim.
Dinjara
bisbilhotava de rabo de olho para todos os lados, nem ouvira as
palavras de Jaime. Retirou por debaixo de seu cinto a metade de uma
bolinha de gude e murmurou:
–
Coloque isto no seu bolso e não me faça perguntas, nem pense
mais... esqueça.
Jaime,
dado o semblante agastado de Dinjara, transparecendo estar possuída
de uma coragem magnânima, resolveu acatar a ordem. Depois, como se
nada tivesse ocorrido, ela ponderou e se pôs a explicar:
–
Jaime, isso aqui é uma floresta experimental. São mudas de
laboratório. Algumas foram trazidas de outros Planetas. A maioria
não nasce, quando nasce, cresce deformada devido à mutação
climática. É muito perigoso andar por esta floresta porque é
também um local de experiências com animais ferozes. Esses bandidos
não se importam porque representa uma segurança a mais para eles.
O
desassossego de Jaime agora se firmava em como fugir dali.
–
Dinjara, para termos uma chance de sairmos daqui, no mínimo
necessitaremos de um carro, certo?
–
Não adianta, Jaime, esses ladrões alteram os circuitos internos e
colocam senhas, isso torna impossível a ignição. Só nos resta
esperar.
Jaime
não concordava com Dinjara, contudo, ali ele dependia dela, pois
estava sem norte nem sul. Como saber para onde ir? Mesmo assim
insistiu:
–
Seu pai deve estar preocupado com você. Arranjaremos um jeito de
voltarmos ao Palácio.
Dinjara
engastava-se apática, sem iniciativa. O desânimo a vencera. Em
Jaime, ao contrário, crescia um ímpeto de angústia, otimismo e
decisão que nunca experimentara antes. Resolveu agir por conta e
risco, não podia mais esperar os fatos se sucederem. Sussurrou:
–
Dinjara, as árvores nos encobrirão. Só teremos chance de escapar
se tentarmos. Vamos nos esconder na mata. Venha!
Jaime
puxou Dinjara pelo braço e saíram correndo para dentro da floresta.
Corriam tanto que os calcanhares batiam nas nádegas. O importante
era afastarem-se daquele lugar.
Logo
predominou uma névoa fina, que mais à frente transformou-se numa
intensa cerração. Pouco se enxergava. Tiveram de andar às cegas,
em marcha lenta. Passaram alguns morros. Embrenharam num mato
obscuro, espesso, repulsivo e silencioso, que formava um corredor,
uma estufa, onde, de algumas folhas malcheirosas, escorriam pingos de
um líquido roxo. O ar úmido e mofento entrou pelas narinas de
Jaime, provocando-lhe espirros incontidos. Saíram da cerração e
continuaram a corrida alucinada pela floresta. Após alguns
quilômetros, Jaime já se sentia vencido pela fadiga. Dinjara fez um
sinal com os braços e parou arquejante de cansaço. Sem fôlego, mal
conseguia falar:
–
Jaime, por... favor, pare... não... posso... mais.
Como
ela se entregou primeiro, ele fez de conta que não estava cansado e
que aguentaria correr muito mais ainda.
–
Está bem, eu espero você descansar.
Pararam
em um vale onde corria, mansamente, um córrego com água cristalina.
Pedras brilhavam no fundo das águas, ao lado de pedregulhos cobertos
de limo. Peixes, tais quais baiacus inflados, deslizavam na
correnteza. Minúsculas libélulas banhavam-se em voos rasantes.
Depois
daquela corrida extenuante, as forças de Jaime esgotaram-se, porém
ele teve uma certeza: seu joelho realmente fora curado; não
detectara dor alguma nele.
O
córrego que descia com suavidade entre os pequenos arbustos
despontou para Jaime como uma solução salvadora.
–
Dinjara, você sabe para onde este córrego vai?
Dinjara
transpirava em excesso. Com os cabelos colados na face molhada de
suor, respondeu em prestações:
–
Vai... pa.ra... as plan.planta.ções.
–
Vai para as plantações? E de onde ele vem? – investigou Jaime
ansioso.
–
Ele... vem... da cidade de Bisam Joreso – resfolegou Dinjara.
–
Partindo dessa premissa é só subirmos a correnteza que
chegaremos...
–
Não é bem assim, Jaime... estamos a mais de sessenta quilômetros
da cidade mais próxima. Bisam Joreso fica a trezentos.
–
Trezentos quilômetros?!...
Jaime
não podia descartar a fuga nem demonstrar fraqueza, isso
contaminaria Dinjara.
De
repente, passaram sobre eles dois bichos branquelos e pelados.
Gritando e pulando pelas árvores.
–
O que é isso, Dinjara?
–
São cocamas.
–
Cocamas?
–
Esses animais foram trazidos do Sistema de Lujacié por um cientista
chamado Wirdan, para experiências. Alguns acabaram fugindo do
cativeiro e buscaram refúgio na mata. Wirdan afirmava que eram
inteligentes e, se domesticados, evoluiriam... mas que nada... são
sempre cocamas.
–
Para mim, parecem macacos. Só falta o pelo.
–
O problema não é os cocamas, e sim do que eles estão fugindo –
alertou Dinjara sondando na direção de onde eles saíram.
–
Como assim? Não entendi, Dinjara.
–
Quase sempre os cocamas estão fugindo do peoladro, que é um
animal carnívoro e traiçoeiro. Só ataca a presa se ela não
estiver olhando para ele. Por isso temos que avistá-lo primeiro,
senão... Lá está ele.
Logo
surge um leopardo bem crescidinho, com enormes presas. Lentamente vai
se abeirando. Olhar fixo nos dois. Nem pisca. Eles também não.
–
Jaime, fique atrás de mim e não deixe de fitá-lo com firmeza –
aconselhou Dinjara sem tirar os olhos do bicho.
–
Você manda – Jaime amparou-se em Dinjara, fazendo dela seu escudo.
O
animal parou. Cheirou o ar. Virou-se astutamente para o lado oposto.
–
Continue olhando para ele, Jaime. Senão ele avança – avisou
novamente Dinjara.
–
Bichinho feio! – proferiu Jaime para espantá-lo.
O
peoladro virou-se para os dois rapidamente e rosnou forte.
Dinjara não se assustou, mas Jaime não conteve o grito inconsciente
de defesa:
–
Sai!...
–
Calma, Jaime... é só manter os olhos firmes nele.
Quando percebeu que não desistiriam de encará-lo, o animalaço
baixou a cabeça e, sossegado como chegou, foi embora. Jaime respirou
fundo, pois, no pavor sufocante, o fôlego permanecera retido
automaticamente. Dinjara demonstrava tranquilidade, até sorria em
demasia.
–
O que foi Dinjara? Qual o motivo da graça? É pelo susto que tomei?
– perguntou Jaime saindo de trás dela meio acabrunhado.
–
Não, Jaime. Quando eu estava olhando para o peoladro lembrei
do que li a respeito de Wirdan. Ele dizia que toda vez que encarava
um desses bichos seu subconsciente o reportava à sua primeira
corrida de rua que participou. Ele era franzino e já na largada
ficara para trás. Olhava a turma se distanciando, mas ele persistiu
a correr apenas para não ser o último e observou que se aproximava
daqueles que estavam à sua frente. Animado, empenhou-se em sustentar
o mesmo ritmo. Decorrido um pequeno período, já se misturava a
eles. Passou a correr com orgulho, pois se enturmara. Então pensou:
"se cheguei até aqui, posso ir além". Assim o fez. Logo
avistava o primeiro pelotão. E contou nove. Ele era o décimo.
Aquilatou-se grande, recompensado. Porém ocorreu-lhe um fato
interessante: se quando ele ainda era espermatozoide se conformasse
com essa classificação, não estaria aqui hoje. Prosseguiu em
frente. Ele não chegou em primeiro lugar, mas aprendeu uma lição:
"em tudo devemos dar o máximo de nós desde o início, só
assim testaremos nossa plena capacidade".
–
Claro, devemos nos esforçar sempre... no limite... para não nos
frustrarmos – comentou Jaime já restabelecido do vexame.
–
Wirdan dizia que foi após essa corrida que ele se dedicou aos
estudos de verdade, antes assistia apenas às aulas...
–
Mas me diga uma coisa, Dinjara... – atravessou Jaime – vocês
dominam os animais com os olhos?
–
Quase todos. Exceção para as penrestes... que vocês
conhecem como serpentes. Elas nos confrontam sem medo algum.
–
Espero que não encontremos nenhuma delas – almejou Jaime.
–
Há poucas por aqui. Apesar de saírem somente à noite para caçar,
seria muita falta de sorte nossa se...
Dinjara
estacou. Pela sua fisionomia, que empalidecia em pânico, Jaime
avaliou que algo terrificante estava para acontecer. Foi se virando
devagarinho, com receio do que veria.
–
Dinjara! Aquilo não é serpente! É uma hidra! – Jaime
assombrou-se ao avistar o réptil monstruoso. Era um filhote de
dragão bem nutrido. Só a parte do dorso visível, tinha mais de
sete metros de comprimento e sua cabeça, incrustada de escamas
salientes, vinha a dois metros de altura. Isso sem falar nos dois
chifrinhos que sobressaíam pontiagudos sobre seus olhos sagazes e
famintos.
–
Pior ainda, Jaime. Tem outra mais atrás. É um casal!
–
E agora? O que faremos?
–
Só nos resta correr.
Saíram
novamente em disparada. As forças, na hora do aperto, voltaram para
socorrê-los. Jaime, que se embasbacara com a tecnologia do Planeta
evoluído, neste instante, a propensão natural de sua ascendência,
o arremeteu ao legendário homem pré-histórico – desvalido,
fugindo para não ser devorado por um abominável predador
mitológico. Jaime descobriu que o novo e o antigo andarão
eternamente de mãos dadas; porque sempre haverá a carência de um
obsoleto sinal de fumaça, onde os modernos meios de comunicação
não estiverem disponíveis.
Corriam
precipitados, num árido desfiladeiro, entre labirintos escavados sob
cordilheiras de rochedos colossais. Depararam-se com uma abertura
estreita que, sem aviso, interrompeu a passagem – elevando um
paredão à frente deles.
–
Mais essa! – reclamou Dinjara. – E agora?
–
Só tem uma saída, Dinjara... por cima – decidiu sem pensar duas
vezes Jaime.
Começaram
uma escalada temerária no penhasco. As pedras irregulares
facilitavam a subida, porém algumas delas estavam soltas e
aumentavam o grau de perigo. Um passo em falso poderia ser o fim.
Jaime olhou para baixo procurando as serpentes. Os ofídios vieram
mais velozes do que ele pensara. Já se arrastavam, sibilando no pé
do despenhadeiro.
–
Dinjara, elas sobem aqui?
–
Sobem. O macho é mais ligeiro, porém o veneno da fêmea é letal.
As
pedras machucavam as mãos de Jaime, devido a sua pele fina, dado os
muitos anos devotados ao escritório. Mesmo assim, era ele quem
liderava o desfecho. Dinjara ficara para trás.
–
Venha, Dinjara... força.
Quando
Jaime galgou o topo ele não quis acreditar. Em cima, só avistou uma
área exígua, pequena, diminuta, apenas algumas árvores e, em
frente, outro penhasco, um pouco mais baixo. Desembarcara numa ilha
suspensa no ar. Separando as duas montanhas, uma lacuna de vácuo –
uma garganta de quase vinte metros de largura. Jaime ajudou Dinjara a
escalar as últimas pedras puxando-a pela mão. Quando ela notou a
real situação, refutou abatida e desencorajada:
–
Jaime, hoje não é o nosso dia mesmo. Lamento, mas acho que chegamos
ao fim.
–
Eu não me entrego tão fácil, Dinjara. Primeiro colocaremos alguns
obstáculos para aqueles bichinhos.
–
Como assim, Jaime?
–
Não fique aí parada! Mexa-se!... Pegue a maior pedra que puder
aguentar.
As
megeras já vinham serpenteando no meio da pirambeira. Jaime, com
muito esforço, bem rente à descida, amontoou três pedras imensas.
–
Vamos jogar juntos, Dinjara... Agora!
Jogaram
as pedras morro abaixo. A avalanche estrondosa foi levantando uma
asfixiante nuvem de poeira. Jaime avistou uma árvore que nascera
inclinada para o precipício, e de seus longos galhos brotavam
grossos cipós.
–
Dinjara!... Os cipós dependurados – mostrou Jaime como a única
solução para aquele dilema. – Puxamos os cipós para perto e nos
balançamos para o outro lado através deles.
–
Você está louco, Jaime? É muito longe e arriscado.
–
Louco?... Assim que as pedras pararem de rolar, elas irão subir
novamente. Não podemos bobear.
–
É impossível, Jaime!
–
O impossível, às vezes, Deus realiza Dinjara.
Jaime
lembrou que ali ninguém sequer presumia a existência Dele. Cismou,
de relance, como deve ser ruim não ter uma fé intrínseca, uma
Entidade Superior, um refúgio espiritual para se ancorar nos
momentos de tempestade. Jaime, confuso ideologicamente, pegou um cipó
fino no chão, amarrou, numa das pontas, uma pedra e jogou para
enrolar no cipó que balançava no abismo. Por sorte, conseguiu
laçá-lo no primeiro arremesso. Puxou o cipó e forçou para estimar
sua resistência.
–
Dinjara, está seguro. Venha!
–
É muito perigoso, Jaime.
Jaime
nem deu atenção ao que Dinjara dissera, pois não havia
alternativa.
–
Vou amarrar essa pedra maior no cipó, assim, quando você chegar do
outro lado, não terá nenhuma dificuldade para mandá-lo de volta
pra mim.
Dinjara,
ainda indecisa e receosa, agarrou-se ao cipó. Testou sua firmeza.
Apoiou os pés sobre a pedra atrelada e tremulou:
–
Que loucura...
–
Vai, coragem... demonstre que você é autossuficiente – incentiva
Jaime. – Está pronta? – perguntou ajeitando o cipó para
impulsioná-la até ao outro penhasco.
–
Es... estou – respondeu Dinjara, abraçando-se forte ao cipó.
Jaime
lançou-a para o despenhadeiro. Seu corpo rodou pelo espaço.
–
Olhe para baixo, Dinjara! - recomendou Jaime. – Assim você vê
quando deve saltar!
–
Estou com... meeeeedo!! – mas em seguida obedeceu.
Dinjara
deu sorte. Foi na justa medida. A inclinação que o galho fez com o
peso dela, mais o da pedra que Jaime enlaçara, levou-a para um pouso
suave no penhasco vizinho.
–
Consegui...! Consegui...! – gritava dando pulinhos.
–
Agora jogue o cipó, Dinjara.
Jaime
estica o braço o mais que pode esperando o cipó regressar. Dinjara
o arremete e... azar de Jaime. Bem no meio do precipício a pedra se
desprende. O cipó perde velocidade e para, lentamente, onde sempre
estivera. Dinjara bota as mãos no rosto e desfere um grito
escandaloso:
–
Oh! Não!... E agora?!
–
Calma!... Deixa comigo – disse confiante Jaime.
Jaime
sabia que não poderia se desestabilizar emocionalmente. Sem perda de
tempo, esquematizou-se para repetir toda a operação inicial.
Procurou o cipó fino que preparara. Pegou-o e jogou para laçar
novamente o cipó grosso e trazê-lo ao seu alcance. Na pressa, errou
o primeiro lance.
–
Jaime, cuidado!... Atrás de você... a serpente – avisou
Dinjara, saltitante e nervosa.
O
macho, todo empoeirado, vinha rápido. Jaime não podia instalar-se
acossado na beira do abismo. Correu para trás de uma árvore de
tronco alto e reto. Amarrou uma nova pedra na outra extremidade do
cipó; fabricando uma espécie de boleadeira. Apesar do coração
bater forte de medo, as ideias germinavam em corredeiras na
cachimônia lancinante de Jaime e apuravam seu espírito para a
batalha desigual. Esperou que a serpente se aproximasse mais. Tinha
de agir com rapidez, antes que a fêmea chegasse, porque, com as duas
atacando simultaneamente, ele não teria chance alguma de escapar.
Aquele tronco era o seu único trunfo. Foi se afastando da árvore à
medida que a serpente se achegava. Quando ela passou uns quatro
metros do tronco, ele correu, contornando, pelo lado oposto, fazendo
com que a serpente o perseguisse e se enrodilhasse. Depois de três
voltas circundando a árvore, Jaime parou e laçou a cabeça dela com
o cipó, puxando-a, com violência de encontro ao tronco. Quando
encostou a serpente ao tronco, ele rodou a boleadeira ao redor da
árvore, que foi dando voltas e mais voltas envolvendo e apertando a
serpente. Nas derradeiras voltas, a serpente, já quase sufocada,
abria a boca na tentativa de buscar o ar que lhe faltava. Tamanha foi
a velocidade que a pedra atingiu que, ao se chocar com a fuça da
serpente, emitiu um barulho oco, matando-a.
Jaime
recomeçou mais uma vez a empreitada laboriosa. Amarrou uma pedra em
outro cipó para alcançar a sua salvação. Tinha de dar alguma
sorte. Caprichou na pontaria e acertou de primeira. Jaime principiou
a puxar o cipó, Dinjara gritou mais desesperada ainda do outro
penhasco:
–
Jaime, a fêmea chegou!...
Não
deu mais tempo para nada. Afobado, Jaime lançou-se contra o cipó,
caso contrário a serpente fêmea o abocanharia. Partiu rumo à
pirambeira sabendo que não chegaria ao outro lado e que logo estaria
retornando. Enquanto voava sobre o precipício, Jaime maquinava uma
escapadela urgente, pois a serpente asquerosa sibilava e prendia-se
num galho rasteiro, esticando-se toda à sua espera.
Jaime
começou a regressar e, pelos seus cálculos, direto para a presa da
serpente. Dinjara gritava angustiada e avisava:
–
Cuidado, Jaime, ela é venenosa.
Com
aquela bocarra em sua frente, Dinjara nem precisava adverti-lo do
veneno.
Jaime,
para fugir, provisoriamente, do campo de ação da serpente, escalou
o cipó. Quando chegou perto dela já se resguardava no alto. A
serpente ambicionou segurar o cipó com a boca. Jaime sacudiu-o com
os pés. Ela errou o bote e abocanhou o vento. Jaime voou de novo
para o abismo. Não atinara ainda nenhuma manobra redentora. Não
havia escapatória. Mas não podia ficar ali, pendurado eternamente,
aguardando o cipó aprumar no meio do nada. Seria o seu fim.
Dinjara
gritava desregrada. Jaime, atarefado com a serpente, não discernia o
quê. Atribulado, não podia lhe dar atenção. Concentrado, tateava
nos miolos revirados uma solução que o livrasse definitivamente
deste apuro. E, como um raio, veio uma ousada e intuitiva: ele
deveria consentir que aquele réptil caçador abocanhasse o cipó, e
puxasse. Era a única maneira de conseguir o encaixe perfeito e
receber a impulsão necessária para elevar-se até ao outro
penhasco. Jaime subiu mais no cipó. Ajeitou para que a serpente o
segurasse na altura correta. Notou a cara de safada da fêmea.
Salientava um gracejo de crueldade ao vê-lo agitando-se no abismo.
Não era só o alimento que ela queria, além do instinto animalesco,
ela exalava um prazer visível na caçada. Jaime colocou o cipó bem
perto da boca da serpente malvada e ela o abocanhou firme, como se
fosse a sua suculenta perna.
–
Agora puxe, boneca rabugenta – comandou Jaime com ironia medrosa,
pois ali ele não tinha direito a cometer falhas.
Ela
o atendeu. Enroscou-se nos arbustos esticando o cipó. O galho curvou
feito uma vara de pesca.
–
Mais um pouquinho... comprove sua eficácia, meninona.
Jaime
teria que obter um alinhamento exato ao penhasco e o cipó manter-se
todo esticado.
–
Só mais uns centímetros e...
Jaime,
intrépido, afrouxou suas mãos do cipó e seu corpo escorregou para
baixo, indo com a sola dos sapatos diretamente sobre os chifrinhos da
bruaca venenosa. A serpente não esperava pelo golpe. Pega de
surpresa se assustou e soltou o cipó. Jaime firmou as mãos e saiu
feito uma flecha torta conduzida ao espaço. Balançou desgovernado
por quatro vezes. Convergiu suas forças aos braços para suportar
aqueles solavancos. Só quando viu o chão sob seus pés é que
acreditou ter escapado. Pousou com as pernas bambas, ainda
amedrontado. Dinjara, frenética, festejava aos pulos. Abraçou-o tão
forte, com tanta vitalidade, que quase o sufoca. Jaime percebeu que a
tremedeira era mútua. Dinjara perspirava; com o sorriso ampliado no
rosto, disse num alívio:
–
Nunca senti tanta emoção em toda a minha vida. Você foi muito
audacioso, Jaime, ao enfrentar as serpentes.
Jaime
notou que a naturalidade e a alegria cândida de Dinjara, exibida
numa representação teatral infantil, estouraram no ar rapidamente
feito bolha de sabão. Dinjara suplica impaciente:
–
Jaime, solte o cipó senão ela atravessa.
Era
a faminta serpente que não desistia. Arrastava-se afoita pela árvore
no intuito de atravessar pelo cipó que Jaime ainda segurava.
–
Deixe aquela minhoquinha nojenta comigo, Dinjara – antipatizou
entre os dentes Jaime.
Agora
era a sua vez. Jaime, só para se vingar, espreitou até que ela
saísse do galho da árvore e ficasse toda sobre o cipó. Quando ela
chegou bem no meio do abismo, balançou com vigor por três vezes e
largou. A bruxa perversa perdeu a feição maléfica, agora
demonstrava pavor em seu semblante. Enrodilhando-se, trançava um
equilíbrio desajeitado na verticalidade do cipó. A serpente não
resistiu, sucumbiu, sumindo no abismo.
Pondo
fim à peripécia, desceram cautelosos até o córrego. Pararam para
se refazerem da proeza imprevista. Dinjara agacha-se. Passa água na
face toda suada. Jaime esquadrinha em derredor. Remonta os trezentos
quilômetros, córrego acima, que o separam de seu objetivo, e
comenta:
–
Dinjara, tomara que não defrontemos com nenhum monstrengo no trajeto
até...
Subitamente,
Jaime ouve o gemido sufocado de Dinjara. Uma árvore carnívora, com
seus longos tentáculos, a laça pelo pescoço. Jaime vasculha nos
arbustos algo que lhe sirva de arma e não localiza nada. Retira a
caneta do bolso da camisa e crava no tronco leitoso, que se contorce
jorrando uma gosma avermelhada. Apunhala todos os tentáculos da
árvore que prendem Dinjara. Cada um que fura, sacode-se, e ele é
alvejado por uma melecada na cara. Jaime pega Dinjara no colo e
carrega-a para fora do alcance daquela árvore carniceira. Ela,
lânguida, num soluço fragilizado e massageando onde fora atacada,
reclama:
–
Não alertei que era perigoso aventurar-se nesta floresta, seu...
doido varrido? – ofendeu Dinjara exacerbada.
–
Calma, Dinjara – relevou Jaime colocando-a no chão –, o pior já
passou. Nós vamos sair daqui ilesos, você vai ver.
–
Não sei, Jaime – disse relutante –, papai sempre conta que
nessas redondezas, existe um pântano habitado por animais bravios e
repleto de areias-engolideiras – e desatou num lamento choroso, sem
empenho, arrependida de ter fugido para aquela floresta inóspita.
Jaime
precisava voltar ao escopo propulsor de sua fuga e retomar o
raciocínio de como chegar à cidade.
–
Dinjara, as plantações também estão longe daqui? – investigou
Jaime no tentame de motivá-la novamente e buscarem uma alternativa
viável.
–
Não. Bem, meio longe... uns dez ou doze quilômetros.
–
Encontraremos algum carro lá... que nos leve ao Palácio?
–
Sempre disponibilizam veículos nos estacionamentos. Mas creio que
com todo esse tumulto, alguma ordem contrária foi expedida. –
Dinjara relegou a preocupação de Jaime para segundo plano e
agradecida confessou envergonhada. – Jaime... gostei de ser
carregada no colo. Eu sinto, nesse gesto, um galanteio muito
romântico. Pena que os homens daqui não fazem mais isso.
Dinjara
exteriorizava tanta carência que Jaime, apiedado, pensou em
cortejá-la para bajular o seu moral. Porém, repentinamente, uma
rajada de vento forte sopra e o farfalhar das folhas impede a
conversa. Um bando de pássaros, de gorjeio estridente, sai do meio
das árvores que sacodem com o forte vento e parte em revoada. Jaime
esquece a baixa estima de Dinjara e comunica:
–
Sendo esta nossa única opção, a decisão é fácil. O córrego
será a nossa trilha.
Dinjara
ajeitou os cabelos que o vento impetuoso insistia em desarrumar e
enunciou:
–
Jaime, não se assuste com o que vai ver e ouvir agora. É o Planeta
Ginare que vai passar, ele é o maior de todo o Sistema. Claus fica
no escuro por alguns segundos. Isso ocorre de cem em cem anos.
Uma
enorme bola eclode sobre suas cabeças. Um barulhão de engrenagens
triturando barras de aço repercute em seus ouvidos. O estardalhaço
e o vento aumentam de intensidade. Eles se agarram ao tronco de uma
árvore para não serem levados para o espaço feito duas folhas
secas. Uma bola vermelha se agigantou a flutuar. Escureceu rápido.
No final do horizonte subiu uma poeira negra em remoinho.
–
O que é aquilo, Dinjara? – gritou Jaime.
–
É um ciclone que se forma nos desertos quando o Ginare faz essa
órbita.
–
Vocês têm desertos, também?
–
Temos. Agora não são extensos. Aos poucos estão desaparecendo. Já
que são improdutivos, nós os cobrimos e construímos casas.
Clareou
instantaneamente e o Ginare perdeu-se no céu, tornando-se mais um
entre os milhares de astros. Jaime e Dinjara retornaram para a marcha
margeando o córrego. Nem bem percorreram quinhentos metros, surgiu
uma grande área descampada, sem nenhuma árvore. Apenas o capim na
altura do peito, que Jaime arbitrou fosse um campo cultivado para
alimentação de animais. Mais na frente, devido uma parte já ter
sido colhida e amarrada em fardos, formou-se um círculo, uma
clareira de grama rasteira, induzindo a uma verdadeira arena. Apontou
um cocuruto que vinha na direção deles. Saiu do capim alto e parou
na arena. Dinjara ocultou-se dizendo:
–
Abaixe-se, é um deles.
–
Não adianta, Dinjara, ele já nos viu e é apenas um. Vou ter de pôr
em prática os meus conhecimentos de caratê... que pratiquei quando
adolescente.
Dinjara
levantou-se concordando com Jaime.
–
É, tem razão. É apenas um. Contudo tenho mau pressentimento...
porque a sua adolescência já deve ir bem longe – mencionou,
gozando-o com desdém.
Jaime
não se prontificou a rebater, só olhou para ela e fez um sinal para
que “aguardasse”. Afinal, seu argumento vinha temperado com uma
generosa pitada de razão.
Jaime
deu cinco passos e adentrou na arena. Avaliando bem a musculatura o
sujeito não denotava ser muito forte. Porém suas mãos roçam o
espaço como duas hélices. Infla o peito como se recebesse uma
divindade harmoniosa. As mãos param. Jaime vê seus pés que levitam
sobre a grama. Ele o reverencia e pousa mansamente. Seus olhos
refulgem.
–
"Caso ele adivinhe pensamento eu estou perdido" – pensou
Jaime, que traçava um estratagema secreto e infalível. – "Não
vou pensar no golpe. Só no último instante eu decido. Não, penso
num golpe e alterno para outro, assim o confundo. Ei!... Eu não
posso pensar!!"
O
sujeito rondava Jaime e aproximava-se a cada passo. Retratava um
ninja em seu ritual, preparando-se para um combate mortal. Jaime foi
para o centro sustentando a memória em branco. Dinjara veio andando
e parou ameaçadora, na orla do círculo, com as mãos cerradas.
Jaime fez menção de atacar e evidenciou a destreza do inimigo, que,
num salto, arremessou-se em sua direção na intenção de chutar-lhe
o rosto. Jaime se agachou a tempo de ver o pé do agressor riscar o
vento bem perto de seu nariz. O sujeito caiu de pé, já pronto para
novo ataque, mas preferiu exibir-se em acrobacias laterais.
–
Tática dois – resmungou Jaime. - Essa ele não sabe qual é.
Jaime
pensou em ir ao ataque pela direita e mudou para a esquerda. Seu
golpe pegou em cheio no queixo do inimigo, jogando-o ao chão,
desacordado. Jaime chamou Dinjara para segui-lo e ela sinalizou que
vinham mais alguns deles. Jaime voltou-se e três capacetes abaixavam
o capim.
–
Três! Será que me saí tão bem assim na peleja?!
Os
três chegaram. Curvaram-se. Jaime imitou-os observando seus olhos
luzentes. Sorriu, pois empregaria o mesmo recurso. Eles
entreolharam-se patéticos, porque não decifraram nada no sorriso
enigmático de Jaime. Mal se posicionaram para a luta, ligando as
hélices de suas mãos, Jaime esculpiu a imagem de uma batalha
mental. Aperfeiçoou o ataque burloso. No seu cérebro, insondável,
se desdobrou em mais cinco, que, sob o seu comando, são
impulsionados à frente com coragem e autoconfiança. Pela cara que
seus oponentes fizeram e pela vontade de fugir de dois deles, Jaime
teve certeza que deu certo. Presumiram que seriam derrotados. O
terceiro soltou um berro repreensivo para os dois:
-
Sosordem sues, metul e meuqif.
Jaime
não compreendeu nada, no entanto eles regressaram e resolveram
digladiar.
Para
auferir vantagem, Jaime principiou um ataque mirabolante a cada um
deles com diversos golpes imaginários e mudança rápida de tática
improvisada. Os três ficaram perturbados e começaram a se defender.
A cada desvio, Jaime desferia um novo golpe individualizado,
estrategicamente conjeturado, obrigando-os a uma defesa estabanada em
conjunto. Assim, para eles, a contenda era feroz. Cinco contra três.
Jaime pensou golpes e mais golpes forjados. Fantásticos saltos no
ar, giros e cambalhotas desconcertantes. Seu pensamento
transformara-se em arma fatal.
Quando
já cambaleavam das pernas e nem sequer procuravam ler mais suas
intenções, Jaime resolveu alistar-se, participar arrojado na briga.
Lógico que, por segurança, levou os cinco capangas ilusórios de
encontro a eles, como não reagiram, deixou de pensar e com três
golpes reais colocou-os para dormir. Dinjara bateu palmas e
congratulou Jaime por sua performance:
–
Bravo, Terráqueo! Você não me decepcionou. Pôs à prova seus
treinamentos com êxito. Estou deveras analisando que escolheram um
exemplar estupendo do Planeta Terra. Você venceu o inimigo
utilizando a melhor arma dele e ainda saiu incólume.
Jaime
jogou-se de costas na maciez do capim. Ergueu as mãos para o céu.
Num desafogo, inquiriu diretamente a Deus, pois ele ainda não
acreditava ser protagonista de tal façanha extravagante:
–
Senhor, isto realmente está sucedendo comigo? Não estou delirando?
Responda-me... por favor, Senhor?!
Dinjara,
sem distinguir ninguém, apavorou-se e correu agachando-se junto a
ele.
–
Jaime, com quem você está falando? Não vejo nenhum inimigo.
Jaime
esfregou as mãos no rosto e abriu os braços para Dinjara esperando
receber outro abraço apertado, mas ela não leu seu pensamento
escancarado... ou não quis ler. Ele dissimulou chateado:
–
Com ninguém, Dinjara. É apenas uma mania de... relaxamento na
Terra. Só espero que não tenha mais nenhum deles escondido neste
capi...
Quando,
de súbito, brotaram do capinzal, os algozes aliados de Lideucan numa
correria e algazarra enlouquecida. Parecia que eles sabiam que
passariam por ali e armaram uma emboscada. Momentaneamente, Jaime
pensou que seriam aniquilados. Mas não, Lideucan necessitava de
reféns vivos; sem reféns ele não teria poder de influência para
exigir, coagir ou negociar. Jaime levantou-se de imediato empurrando
Dinjara para que ela corresse, pois não ousaria confrontar-se com
tantos.
–
Fuja, Dinjara. Vá em linha reta, depois eu a alcanço. Só vou
tentar enrolá-los.
–
São muitos, Jaime. É perigoso.
–
Vai logo, mulher. Não converse.
–
Não, não vou abandoná-lo. Iremos lutar juntos.
–
Tá bom, se é o que você pretende!
O
batalhão parou indeciso em frente ao círculo. Pois Jaime acabara de
conceber a visão de um exército, fantasiado de espantalhos, vindo
por detrás deles. Quando viraram para conferir, Jaime fez os
espantalhos abaixarem-se no capim. Dinjara tomou uma decisão e
murmurou:
–
Jaime, conheço um lugar. Siga-me!
Saíram
em disparada mais uma vez. Os amigos de Lideucan não supunham que os
dois iriam fugir, entreolharam-se interrogativos. Pela maneira como
se comportaram não havia um chefe entre eles. Aguardavam uma
permissão explícita. Até que alguém verteu um grito esquisito:
–
Racata.
Só
então precipitaram na perseguição. Dinjara estava disposta.
Patenteava sua vontade de vencer correndo na frente de Jaime sem se
importar com os galhos que impediam a sua passagem. Jaime não
concatenava o que ela planejava, entretanto, o sensato era
acompanhá-la.
–
Venha por aqui, Jaime – avisou desviando o percurso.
Ela
virou para a direita numa picada estreita. Passaram por uns arbustos
entortados e iniciaram a subida em um novo morro. Jaime duvidou do
plano repentino de Dinjara, só que não podia parar para discutir o
roteiro. O morro era recoberto por uma trepadeira e um mato rasteiro,
onde uma escadinha úmida os levava, sem muito esforço, para cima.
Mesmo assim, Dinjara, na pressa, tropeçou no degrau escorregadio e
quase caiu. Jaime a amparou perguntando:
–
Para onde estamos indo, Dinjara?
–
Para o depósito de água.
–
Depósito de água?
–
É de onde vem a água do córrego. É a mesma que usamos na cidade,
que, depois de tratada, usamos nas plantações. Não é muita... mas
espero que seja suficiente para nos livrar deles.
Lá
em cima, outro morro com escadaria e, no alto, o paredão da represa.
Jaime e Dinjara avistaram os cúmplices de Lideucan, alvoroçados,
terminando de subir o primeiro morro.
–
Vamos abrir isso, Dinjara? – perguntou Jaime apontando para a
barragem.
–
E por que não? Hoje eles vão tomar um bom banho.
Dinjara
segura numa alavanca, instalada no paredão da eclusa, e puxa
gritando para baixo:
-
Etnof ad otrep arom meuq apmil augá ebeb ós!
Um
jato de água se abre abaixo do dique, que vai ganhando volume pela
própria correnteza. Os parceiros de Lideucan se desesperam ao ver a
língua d'água descendo do açude. Retornam atabalhoados, gritando:
-
Majuf!... majuf!...
A
água inunda o morro levando os comparsas de Lideucan numa enxurrada.
Alaga o pequeno córrego fazendo-o transbordar pelas margens.
–
Gostei de ver, Dinjara. Meus parabéns!
–
Não agradeça, vamos correr, porque essa água logo vai acabar,
Jaime.
Desceram
o morro pelo lado oposto. Atravessaram uma gigantesca caverna onde
estalagmites formavam desenhos arquitetônicos desafiadores para a
mais moderna engenharia estilista, e estalactites surpreendiam com
esculturas suspensas numa estrutura extremamente frágil, de
acabamento meticuloso, dosado em gotas de paciência milenar.
Perfizeram meia-volta contornando uma montanha repartida ao meio e
desembocaram numa imensa área de erva rasteira e espinhosa.
Trilharam no sentido paralelo ao pequeno córrego entre enormes
árvores, pois somente percorrendo suas águas é que alimentariam a
esperança de voltarem ao Palácio.
Pelo
tempo que calcorreavam leito acima, numa marcha enfastiosa, Jaime
presumiu que haviam escapado de seus malfeitores. Dinjara
identificou, num recanto, uma casa velha, de estilo redondo e
antiquíssima. O mato apoderara-se de tudo. Suas paredes, repletas de
rachaduras, eram revestidas pelas trepadeiras. Do seu telhado nada se
via, porque a copa da árvore vizinha fundira-se a ele.
–
Nossa! É a casa daquele cientista, Jaime... o Wirdan. Após a sua
morte ninguém mais veio aqui. Vamos averiguar o que tem lá dentro.
Talvez encontremos alguma coisa que possa nos ajudar.
Jaime
aderiu à sugestão. Escoltou atento os passos de Dinjara, que
empurrou a porta empenada. Uma corrente, presa a um ferrolho
quebrado, raspou no assoalho fazendo um barulho estrondoso. Um
animalzinho, que tirava seu cochilo, desprendeu um ganido, dando o
maior susto nos dois. O bicho pulou adoidado até escapulir por uma
greta da parede esburacada e sumiu na floresta.
Entraram
na casa sinistra, pé ante pé. Dinjara, com receio de haver outro
animal no recinto, valeu-se de um vasilhame sobre uma mesa, e o jogou
no chão provocando um barulhão medonho. Depois do eco, a quietude
total.
–
Não tem mais bicho algum aqui, Jaime. A não ser que tenha o sono
bem pesado.
–
Ou então que seja bem surdo – zombou Jaime.
Na
pequena sala, só uma mesa apodrecida e um esqueleto de cadeira, sem
assento nem espaldar. Num canto, amontoados, muitos vidros vazios ao
lado de pipetas quebradas.
–
Aqui não tem nada que preste, Dinjara. Só esses bagulhos... uns
cacarecos que não servem...
Alguém
gritou de fora:
–
Ei, vocês!... estão cercados... saiam daí de dentro. Agora!
Dinjara
correu para a porta, espiou e a fechou cochichando:
–
São muitos deles.
–
Caramba! Não desistem nunca! E nos descobrem facilmente! –
estranhou Jaime.
–
Deve existir outra saída. Vamos fugir por trás, Jaime.
Passaram
correndo por um corredor e mais outro cômodo. Pelo reflexo da
luminosidade que vinha de fora, Jaime avistou uma porta.
–
Tem uma saída aqui, Dinjara.
–
Então vamos embora.
Abriram
a porta e só deram dois passos. O mulambo ambulante do Jermaso e
mais um contingente de guerrilheiros, os aguardavam de braços
cruzados. Jermaso posicionou-se na vanguarda do bando. Com voz
autoritária e correndo os olhos entre Jaime e Dinjara, decretou:
-
Lideucan ordenou-me para levá-los de volta... sãos e salvos... se
possível. Espero não ter mais entraves do que já tivemos.
Jaime
ficou na expectativa de alguma reação de Dinjara, porém, ela,
inexplicavelmente, permaneceu estática. Transpirava tanto que os
pingos caíam em goteiras pelo seu queixo. Encurralado, Jaime não
arquitetou mais nada. Eram muitos. Comparou a desvantagem e resolveu
guardar as forças. Sepultou suas esperanças. Renderam-se e foram
enlaçados, hipnoticamente, sem resistência.
Embora
sem nenhuma perspectiva favorável, Jaime concluiu que tomara a
decisão correta, pois surgiram vários carros, intercalados,
escondidos nas folhagens, dentro da mata. Foram levados para o
acampamento e colocados no mesmo lugar; pior ainda para Jaime, pois o
amarraram, fisicamente, a uma árvore. Lideucan nem saiu da cabana.
Continuou conversando com seus companheiros. Não manifestou estar
preocupado, agiu como se eles nem tivessem tentado a fuga. Jaime
sentiu-se culpado pelo empreendimento frustrado e se desculpou com
Dinjara:
–
Você tinha razão, Dinjara. Eu não devia tê-la estimulado a fugir.
Desculpe pelo meu destemperamento.
–
Não se culpe, Jaime; quem falhou fui eu – confidenciou Dinjara
conformada, absolvendo Jaime de qualquer conduta imprudente. –
Deparo com uma emergência e descubro a minha debilidade física.
–
Dinjara, com que armas esse pessoal vai atacar?... Não vejo nenhum
arsenal... petrechos de guerra capazes de...
–
Suas armas são minúsculas, Jaime... carregam num pequeno
compartimento do carro e não...
Dinjara
vestiu a mesma fisionomia destruidora quando Lideucan e seus
correligionários saíram da cabana. Levantou-se e deu uns dez passos
na direção oposta, pateando e dando socos no ar. Lideucan
determinou incisivo para um de seus comandados:
–
Prepare o transporte. Previna o pessoal. Iremos direto para a base
das naves interplanetárias. Promoveremos a rebelião – e inquiriu
para Jaime: – Terráqueo, será que intenciona me contrariar e
tentar nova fuga?
Jaime
não retorquiu. Apenas deu de ombros. Lideucan desamarrou-o da árvore
e o tocou de novo na altura do pescoço, imobilizando-o,
hipnoticamente, da cintura para cima. Lideucan avizinhou-se de
Dinjara e ironicamente propalou:
–
Como vê, ninguém é perfeito. Até o Comandante do seu fajuto
"Sistema Comunitário" comete errinhos. Ainda bem, senão
eu estaria até agora naquele Planeta prisão, mofando às mínguas.
Dinjara,
de costas, desabafou irritadiça:
–
Você deve ter maltratado mais um pobre coitado para...
–
Não, não Belezoca – cortou Lideucan –, desta vez foi um serviço
honesto e sem truques. Seu Comandante, burramente, condenou um
cientista que trabalhou no projeto da "atração
intramolecular". Lembra de Samjir Soebo, o maníaco...
–
O que ele tem a ver com isso? – interpelou Dinjara temendo a
resposta.
–
Pois é... tudo. Foi ele que nos ajudou. Só fizemos uma pequena
concordata maquiavélica – soltou uma gargalhada jactanciosa e
atestou. – Ele ainda fez várias armas, de última geração...
como cortesia. Tudo por amor à ciência.
Dinjara,
sem se virar, porém com a entonação nervosa, contrapôs revoltada:
–
Imagino o que você deve ter feito para extrair isso dele, seu
velhaco.
Lideucan
aparentava, visivelmente, muita calma e bastante fingimento.
Justificou-se mansamente:
–
Não lance injúrias caluniosas ao vento, Belezoca... não fiz nada.
O nosso pacto foi legítimo. A obsessão dele era ser Rei. Eu apenas
realizei sua aspiração. Hoje ele é o Rei de Iur Senbur. Com
direito a Palácio, Pirâmide e honrarias. Eu mesmo mandei edificar.
Enquanto ele idealizava a nossa máquina e nossas armas, nós
construímos seu Palácio. Vi quando ele sentou no trono. Delirava
exuberante. Tinha o porte ostentoso de um autêntico Rei... um Rei
louco, mas era um exímio Rei reacionário, impávido. Precisava ver
a pompa e a pose esguia dele, na cerimônia de entrega da Pirâmide –
Lideucan deu mais outra gargalhada intolerante. – Empertigava
sublime naquele traje todo branco, com a capa negra esvoaçante. Eu o
apresentei ao povo e fiz todos se curvarem aos seus pés. Ele
discursou prometendo que recrutaria um exército invencível, que o
rotularia de: falange do mal.
Dinjara
abandonou sua posição de contestação e, como se conhecesse bem
esse cientista, falou com voz piedosa:
–
Injustiçado Samjir!... Então era loucura. - Dinjara saiu atônita
e, consternada, divagava sozinha. – Um lapso calamitoso do Sistema
Comunitário. Inconcebível. Condenaram o inocente paranoico. Um
insano que se declarou culpado. Infelizmente não tem mais retrocesso
– influiu apiedando-se enquanto escapavam-lhe alguns soluços
afogados.
–
Com licença, Belezoca – disse Lideucan –, vou pegar o meu
sensor.
Enquanto
Dinjara viajava em seus pensamentos impermeáveis, Lideucan arrancava
por debaixo da gola da blusa dela uma pequena cabeça de alfinete.
Agora Jaime soube como eram localizados tão facilmente: durante toda
a fuga foram rastreados a distância. Lideucan tocou em Dinjara
paralisando-a. Jaime não notou nenhuma diferença, já que ela
permanecia inerte, contemplativa, num vazio abarrotado de barreiras
sensoriais. Ao virar-se, Lideucan pisa em falso num ramo seco e suja
suas botas de poeira. Jermaso vem correndo prestativo e, como um
capacho, se agacha subserviente, limpando-as delicadamente. Lideucan
fiscaliza o lustro e após nova inspeção, aprova. Empolgado, clama
para seus seguidores:
–
Companheiros! Marquem bem este momento memorável. Porque vamos
partir para a liberdade! Seremos donos de nossas vontades. Livres de
toda opressão.
Numa
aclamação geral, os carros dos amotinados vieram como um revoar de
besouros e se puseram em fila dupla. Jaime contou, em uma rápida
sondagem, por alto, uns duzentos carros, com três a quatro
revolucionários. Num breve comparativo, proporcional àquela
multidão que lotara a Praça do Palácio, deduziu que este pequeno
motim de anarquistas nômades era inexpressivo, alimentado por uma
minoria temerária de insatisfeitos.
–
Precisamos separar esses dois – antecipou Lideucan. – Saluc, leve
Dinjara... o Terráqueo vem comigo.
Colocaram
Jaime no carro de Lideucan. O cinto de segurança automático
grudou-o ao assento. Lideucan se postou na vanguarda. Atrás se
enfileiraram os outros carros aguardando suas ordens.
–
Avante, companheiros! É chegada a ocasião da virada. Viva a
liberdade! – bradou Lideucan.
Os
carros saíram desabalados; desenvolviam uma velocidade muito
superior ao carro de Peifil.
–
"Dinjara tem razão, estão mesmo adulterados" – pensou
Jaime com seus movimentos delimitados que já lhe originavam um
torcicolo incomodante.
O
silêncio cortado pelo zumbir do comboio fez o coração de Jaime
descompassar. Veio um sentimento ruim. Uma sensação de impotência
por estar sendo derrotado, sem, ao menos, ter o direito de se
defender. Recordou a Terra, o serviço, a esposa...
–
“Ela deve estar atordoada com o nosso atraso. E como reagirá ao
saber do não regresso de Rodrigo? Como será angustiante a vida
doravante...”
Sua
meditação evaporou-se num sobressalto. Lideucan, num grito atroz,
que até o último da fila deve ter ouvido, esganiçou:
–
Companheiros! Meia-volta, vêm vindo intrusos.
Jaime
bateu seus olhos aguçados no horizonte e não viu nada, entretanto
no painel do carro disparou um alarme. Todos os carros, numa reação
simultânea, como se tivessem ensaiado aquilo milhares de vezes,
pararam e, numa só guinada, arremeteram-se num deslocamento
sincrônico. Jaime viu Dinjara no carro de Saluc, ela mantinha um
aspecto sereno no rosto. Jaime avaliou, embora não tivesse visto
ninguém, que era o pai dela agindo.
Mal
o batalhão acelerara para o retorno e outra vez o alarme dispara nos
painéis. Lideucan berra novamente:
–
Para a esquerda e espalhem-se.
Formou-se
um revoar de carros abrindo-se em todas as direções e Lideucan
desceu tão rápido que Jaime pensou que cairiam sem paraquedas.
Lideucan liga um botão e esbraveja de novo, histérico:
–
Saluc, traga Dinjara aqui.
Logo
o carro de Saluc emparelhou com o de Lideucan que, possesso, com um
brilho intenso nos olhos esgazeados, perguntou para Dinjara:
–
Você está com algum sensor, sua traidora?
Dinjara,
intrépida e fulgurante, fitou Lideucan e respondeu com insolência e
audácia:
–
Não, não estou. Você é que é um azarado, seu neurótico!
Lideucan
se vira para Jaime com os olhos reluzindo faíscas e o acusa:
–
Então é você, Terráqueo... que está com o sensor.
Sem
saber do que se tratava, Jaime, apreensivo, protesta:
–
Acho melhor você dirigir essa geringonça, seu maluco, está
descendo veloz demais.
Os
olhos de Lideucan apagaram-se repentinamente e furioso escarneceu
desaforado:
–
O Terráqueo está com medinho de cair?! – Lideucan tocou em Jaime
libertando-o e abriu o cinto de segurança invisível. – Pula, vai
– incitou Lideucan. – É mais seguro lá embaixo – e desferiu
uma gargalhada fingida.
Dinjara,
que os observava, advertiu enfurecida:
–
Lideucan, se acontecer algum acidente com ele papai vai lhe matar.
–
Nossa! Quanta dramaticidade!... Estou, deveras, me borrando de medo!!
– ridicularizou Lideucan, que não deu conversa para Dinjara e
deixou Jaime solto no carro.
Lideucan,
após analisar com muita atenção as luzes que piscavam no painel,
estancou sério e murmurou, irrequieto, para si:
–
Maldição, eles estão chegando pelas montanhas também!
Pegou
um fio com uma ponta metálica e encostou-o na testa. Jaime presumiu
que ele devia estar enviando alguma mensagem, em conexão mental,
para não ser captada pelos sensores dos carros do Rei. Logo todos os
guerrilheiros formaram uma barricada voadora ao seu redor. Neste
instante, desencadeia uma saraivada de raios cortando o céu que
passam raspando as cabeças de todos. Jaime sente que Dinjara deseja
lhe repassar algo. Pela mímica, era primordial que fizesse alguma
coisa. Contudo, nessa celeuma toda, tornava-se difícil decifrar a
mensagem codificada. Sua única preocupação, agora, era não
despencar lá de cima.
Lideucan
pega outra vez aquele fio e imprensa na sobrancelha. Os veículos se
subdividem em pelotões de vinte a trinta cada, e saem a toda
velocidade, contra-atacando os carros do Rei. O céu, em ribombos,
reveste-se num vasto campo de batalha. Alguns carros são atingidos e
explodem numa espessa nuvem negra de fumaça e cinzas. Estilhaços
voam em piruetas pelo espaço. Outros veículos saem de dentro da
nuvem disparando às cegas e em guinadas incríveis somem pelo céu.
Sob as ordens de Lideucan todos avançam em novo contra-ataque. O
próprio Lideucan retrocede e, por outro aparelho, designa
autoritário:
-
Saluc, Jermaso, sigam-me.
Mal
Lideucan terminara de recolher o aparelho e os dois já se
posicionavam paralelos a ele. Lideucan gira a carro para a esquerda e
diz:
–
Na cidade de Bisam Joreso eles não irão atirar a esmo e ainda
poderemos abrir a proteção para os companheiros que estão de fora
entrarem.
Mesmo
estando em apuros ele não dispensa seu ar de superioridade e desata
em sua gargalhada favorita.
–
Companheiros de fora? – Intrometeu-se Jaime apenas para
aporrinhá-lo. – Vocês estão pensando em tomar o Planeta Claus de
verdade?
–
Claro, Terráqueo. Quando você chegou, nós já estávamos aqui em
uma nave local. Temos alguma tecnologia escondida desse Sistema
Comunitário ditador. Por exemplo: ficarmos diá... – Lideucan,
temeroso, para de se vangloriar.
–
O que é isso? – indaga Jaime astutamente.
–
É nosso segredo, que quase deixo escapulir – Lideucan esculpe mais
uma gargalhada chocha e prossegue. – O plano lartnec
fracassou, porque os que restaram em Iur Senbur não conseguiram
prender a sua espaçonave. Acionamos o plano laicnegreme.
Assim que vocês chegaram, a proteção de ondas do Planeta foi
desligada. Aproveitamo-nos disso e descemos... com o nosso sigilo.
Saímos do rastreamento e liberamos o protetor de quedas. Em seguida
foi só furtar uns carros, providenciar algumas mudanças e estamos
aqui lutando por nossa liberdade.
–
Você fala em liberdade, Lideucan, mas está preso a um passado de
erros e transgressões às leis de seu Planeta – atreveu-se Jaime a
acusá-lo apoquentado.
–
Desobedeço, Terráqueo, porque não simpatizo com elas. Não nasci
pra ser um reles proletário submisso, adestrado à servidão...
agora não importa. Fugiremos para seu Planeta e viveremos
folgados... desfrutando a vida com mulheres de verdade.
Lideucan
apregoava com tanto destemor e convicção de que seu ardil,
presunçoso e nefasto, daria certo, que causava medo em Jaime. Pois
nem mesmo seu tique nervoso ousou se manifestar nesse desafogo
premente. Ao longe Jaime avistou as proteções da cidade de Bisam
Joreso.
–
“Rodrigo está lá” – pensou com o coração em disparada.
Mais
uma vez Jaime investiga Dinjara ansiosa, querendo transmitir-lhe
alguma coisa. Porém era impossível conceituar seu intento naquele
correr de olhos espavoridos. Jaime pensou que ela abriria o
pensamento para ele ler. Talvez, naquele Planeta biruta, isso também
fosse possível. Jaime fitou-a, coagulado, num esforço sobre-humano
para ultrapassar suas pupilas. Dinjara não entendeu e removeu seus
olhos, envergonhada, cerrando-os. De imediato voltou a abri-los com
uma feição tão sedutora que Jaime ainda não havia reparado nela.
Agora foi ele que, encabulado, ruborizou até a alma.
–
"Será que no meio de toda essa confusão ela está pensando em
um namorico inoportuno?!"
Num
relance, Jaime ateve-se à bolinha de gude.
–
"Caramba! Deve ser isso! E eu imaginando besteira!"
Jaime
sondou Lideucan. Ele estava novamente com aquele fio colado na testa.
Aproveitou a distração e retirou a bolinha do bolso. Disfarçou
ajeitando-se no banco e tentou mostrá-la para Dinjara. Mas,
subitamente, Lideucan desce com o carro num lugar horripilante e de
mau agouro. Era um castelo em ruínas que, pelo estado de
conservação, aparentava estar abandonado há séculos. Seus dois
parceiros se recusaram a entrar. Até Jermaso murchou as orelhas,
perdeu seu ar garboso de bajulador.
–
Leia a placa Lideucan... é proibido ingressar. Você disse que íamos
direto para Bisam Joreso. Você arrisca a vi...
–
Eu disse que sim – cortou Lideucan –, seu pelego idiota e amador,
justamente para que aqueles patetas pensassem isso... nós não.
Vamos, automatizem os carros, não precisaremos mais deles.
Os
três veículos subiram em linha reta e desapareceram para a
esquerda.
–
Isso não é lugar de se abrigar, Lideucan! – reforçou Saluc
precavido.
–
Vocês são uns subversivos medrosos e supersticiosos... isso é
lenda fabricada para aterrorizar criancinhas desobedientes... seus
frangotes palermas – esculhambou Lideucan.
–
Você está confundindo coragem com imprudência – afrontou Saluc e
acrescentou. – Quem desacatou a ordem e entrou, não saiu vivo para
contar.
–
Eu sou imune a qualquer feitiçaria – replicou Lideucan inexorável.
– Vamos para dentro, seus maricas, antes que algum espião
puxa-saco do Rei nos veja. Alguma objeção?
Ninguém
mais ousou contradizer o prepotente. Lideucan arrasta Dinjara pelo
braço. Saluc acompanhou-o meio receoso. Jermaso, perante a
autoridade de Lideucan, foi para o lado de Jaime sacudindo a cabeça
negativamente, proferindo desconsolado:
–
Terráqueo, o chefe está tomado pela teimosia.
Lideucan
chuta a porta do castelo com a sola da bota, abrindo-a violentamente
até o final. Todos ficam parados, esperando algum acontecimento
macabro. Adentram lentamente, sisudos, acautelados com tudo. Jermaso
fechou a porta sem emitir barulho algum. Por um bom tempo todos
espreitaram o silêncio solitário.
Pelo
jeito como foi conduzido para dentro, Jaime reparou que Jermaso
pensava que ele ainda continuava paralisado; prudentemente manteve-se
na mesma posição em que fora colocado. Jaime persistia com a
bolinha escondida na mão. Dinjara fora despejada do outro lado da
sala. Não havia meio de se comunicarem e ele não sabia o que fazer
com aquilo.
O
local era um salão velho e sujo, com teias de aranhas milenares, que
cruzavam linhas uniformes, tecendo rendas delicadas entre um lustre e
diversos candelabros afixados na parede lateral. Muitos móveis
rústicos, uma estante com livros grossos empilhados, cadeiras, mesas
e um emaranhado de caixotes empoeirados, desordenados pelo chão. A
poeira flutuava pelas frestas de uma janela, por onde a pouca
claridade penetrava em feixes. Uma escada, em caracol, levava ao
andar superior. As grossas teias de aranha só permitiam ver até ao
meio dela. Eles bisbilhotavam em todas as direções. Farejavam.
Tentavam escutar alguma coisa imprevista vindo de algum aposento.
Embora Saluc fosse o mais assombrado, com seus enormes olhos
arregalados, Jermaso foi o primeiro a expor sua opinião com ar
tranquilizador:
–
Não estou sentindo nada!
–
E você queria sentir o quê?... Seu imbecil... – gozou Lideucan
com mais uma de suas gargalhadas típicas.
Saluc,
ainda absorto, com o medo latente, reclama aborrecido:
–
Não avacalhe, Lideucan. Papai ouviu as histórias que sucederam
aqui. Contavam que os achegados da família morreram todos infectados
pela mesma doença. Não escapou ninguém. Como não foi descoberta a
cura, o Castelo dos Socitédia foi lacrado pelo Sistema Comunitário,
ninguém entrava nem saía. Foi o primeiro ato que o Sistema
Comunitário proclamou em defesa da comunidade.
–
Sistema Comunitário... maldito Sistema Comunitário! Quer bedelhar
em tudo – gritou Lideucan com toda a sua raiva e deflagrou. –
Temos que pensar em um modo de desativarmos a proteção de ondas e
enviarmos o sinal para os nossos companheiros.
–
Precisamos encontrar uma brecha na vigilância e atacar sem piedade –
sugeriu Jermaso.
–
A essa altura não há um ponto vulnerável, o Rei já está com toda
a cúpula da segurança de Bisam Joreso em seu Palácio e com todos
os controles ao alcance das mãos. O Palácio está inviolável...
inatingível... inatacável... Nestas circunstâncias temos que... -
Lideucan parou a explanação. Raciocinou sozinho. Agitando os braços
para impedir mais um tique nervoso, completou desvendando a saída: –
A não ser... um disfarce fantástico, que vai exigir muita
pertinácia e criatividade. Uma conduta inesperada que os bocós
cagarolas nem cismam. Cavucaremos, individualmente, por baixo, e não
coletivamente, por cima, onde eles mais temem e fiscalizam.
Lideucan
aproximou-se de Dinjara. Tocou-lhe no ombro e a libertou
vulgarizando:
–
Tire a roupa, Belezoca. Toda.
Dinjara
fez um gesto retraído de repúdio para proteger suas vestes daquele
escândalo impensado.
–
Menina pudorosa!... Ninguém vai olhar... e você irá receber os
farrapos de Jermaso – falou Lideucan dando outra gargalhada.
–
Minhas vestiduras? – perscrutou Jermaso ressabiado. – Malucou,
Lideucan?
–
Às vezes é necessário que manejemos algumas rédeas alheias,
Jermaso. Você tem o mesmo tamanho dela e, além disso, é a única
maneira de sairmos daqui... transpormos a segurança do Palácio e
aprisionarmos o Rei. Exigiremos que abram a proteção. Os nossos
companheiros se assenhorearão do poder e nós saímos de fininho
para o Planeta Terra – alegou Lideucan num fulgor de palavras
vigorosas, sem sequer expedir um leve tique nervoso.
Dinjara
encheu-se de coragem e refutou também:
–
Arranje outro artifício, Lideucan, sem me envolver nele. Não vou
participar dessa tramoia contra o Sistema Comunitário. Prefiro
morrer.
Jermaso
e Saluc se entreolharam estranhando a petulância de Dinjara. Jaime
temeu pela sorte de sua amiga, pois não conhecia o temperamento de
Lideucan quando desafiado abertamente.
–
Não me force a fazer o que não desejo, Belezoca. Tire essa roupa
sem frescura. Antes que eu mude de ideia – gritou nervoso.
Lideucan,
para não perder a sua reputação de mau, acercou-se de Dinjara e
ameaçou-a, sadicamente:
–
Se você não quiser tirar... sozinha... eu terei imenso prazer em
auxiliá-la nessa tarefa tão delicio...
Dinjara
nem esperou Lideucan terminar a frase. Afastou-se para um canto e
começou a se despir. Jermaso, constrangido, também obedeceu. Foram
trocando as peças. Saluc, boquiaberto, mantinha uma vigília
silenciosa, com os olhos cobiçosos e atrevidos.
A
boa educação obrigou Jaime a desviar o rosto para a parede, mas a
curiosidade o instigou a olhar. Cônscio e recatado, absteve-se;
virou-se para a parede, porém deu de cara com um quadro que, pelo
ângulo que se encontrava, refletia a imagem nítida de Dinjara.
Jaime, respeitoso, baixou os olhos, mas não resistiu, a boa educação
o liberou para saciar a curiosidade. Quando Jaime suplantou a
indecisão e encarou o quadro, divisou Dinjara já despida, sem a
parte de baixo. Jaime não compreendeu o porquê de tanto acanhamento
antecipado pela seminudez. Pois uma enormidade de pelos longos,
espalhados por todo o corpo, formavam uma cortina espessa, encobrindo
completamente o sexo sob aquela cabelama.
–
“Deve ser algum efeito colateral... devido aos longos milênios que
eles vivem” – inferiu Jaime. – “Será quantos anos ela
tem?... Nossa! Aqui deve ser sacrilégio perguntar a idade a uma
mulher!”
Quando
Dinjara retirou a parte superior, foi que Jaime concluiu o motivo de
tanta retração: ela tinha seios. “Pequenos atributos” para
Jaime, mas deveriam ser “monumentais” para aqueles olhos
estatelados de Saluc, que se petrificou filmando a cena em sua mente,
para não esquecê-la nunca mais em toda a sua longa vida. Jermaso,
que era alvo de humilhação e chacota, não se conteve. Exclamou
despudorado e recompensado:
–
Que ótima ideia, Lideucan!... Estratégia... empolgante...!
Terminaram
a substituição das vestimentas. Até os sapatos, que para Jaime
eram idênticos, foram trocados. Lideucan sacou do bolso um tubo com
uns botões coloridos, averiguou se estava tudo em ordem e guardou-o.
Abeirou-se de Saluc e passou-lhe alguma ordem. Depois suspirou e
enunciou:
–
Agora você tira sentinela, Saluc. Eu e Jermaso nos dirigiremos para
o Palácio. Caso nosso plano fracasse, você entrará em ação.
Saluc
franziu a testa plissada e, abobado, indagou:
–
Como assim, Lideucan?
–
Seu... cabeça-dura – insultou, impaciente Lideucan –, eu projeto
minhas decisões com dois planos esquematizados. Supondo que eu seja
preso, o que não é provável, você vai ser avisado.
–
Vou?!
–
Vai. Porque o Rei saberá que você está de posse do Terráqueo e de
Dinjara como reféns. Se eu não contactar com você em uma hora, os
dois serão mortos. O Rei não vai consentir que isso aconteça, é
claro.
–
Claro que não – secundou Saluc.
–
Então você os neutraliza e vai para o Palácio. De lá fugimos para
a Terra. Assim nós teremos duas chances.
–
Ah, bem. Agora entendi. Mas... e eu? Quando vocês se apoderarem do
Rei, o que faço? Vou para o Palácio a pé?
Lideucan
desentoou nervoso:
–
Saluc, apague o que eu disse. Não faça mais nada.
–
O que você disse?
Lideucan
fez de conta que não ouviu e recapitulou a seu bel-prazer.
–
Quando nós estivermos de posse do Rei Ojes, eu ordenarei que abram a
proteção. O Planeta Claus será invadido e dominado pelos nossos
guerrilheiros aliados. Todavia, nada disso me interessa. Nós
passamos aqui e pegamos vocês... partiremos direto para o Sistema do
Terráqueo e fim.
–
Ah, bom!... Pode se ausentar... que eu me garanto – reafirmou Saluc
sorridente.
Lideucan
lançou para Dinjara um olhar misturado de carinho e ódio:
–
Espere por mim... Rainha. - Saiu com Jermaso pelo braço, soltando de
novo sua gargalhada peculiar.
A
artimanha engenhosa de Lideucan era perfeita. Jaime temia cada vez
mais pelo seu destino:
–
“Agora estou mesmo encrencado...”
–
Você!... - Convocou Saluc apontando para Jaime, afugentando seus
pensamentos. – Fique naquele canto com Dinjara. Os dois juntos eu
vejo mais fácil. E não tentem nada!
Jaime
levantou-se e caminhou para perto de Dinjara concentrado em Saluc.
Aproveitou quando ele, por um buraco da janela, atentava Lideucan e
Jermaso partirem e mostrou a bolinha para Dinjara. Num gesto rápido
ela sinalizou para ele guardá-la novamente no bolso. Saluc
conversava consigo mesmo:
–
Aqueles dois... vão a pé fingindo ser um casal... um casal de
babacas – voltou-se para dentro. – Bem, o jeito é esperar o
tempo passar.
Isso
fez Jaime lembrar-se do relógio.
–
"Que horas são?" - Teve receio de conferir no cronômetro.
– "Não pode ser!" - O relógio agora marcava treze horas
e continuava andando para trás. – "Meu Deus! O tempo está
caduco!... Mas suponho que seja só aqui... na Terra deve ser noite
alta! Todos já sentiram a nossa demora, devem estar desesperados
telefonando para o colégio de Rodrigo, para o meu trabalho, para os
conhecidos. Procurando pelos hospitais, delegacias... necrotérios.
Não adianta, não posso fazer nada. Estou bem distante dos problemas
terrenos.”
VI
- O SEQUESTRO DO REI
Jaime
sentou-se perto de Dinjara. Ela achegou-se mais ainda a ele e
repousou a cabeça no seu ombro e apoiou a mão em seu peito. Saluc,
desmazelado, pegou um livro na estante do castelo e abriu. O livro,
de tão velho, desfolhou-se ao chão. Saluc notou, de soslaio, o
relacionamento dos dois, no entanto permaneceu em silêncio. Dinjara
discorreu em tom confidencial, porém informativo para Jaime.
–
Sabe, Jaime Brosso, o tataravô de Saluc, Dom Seletótsira, foi uma
personalidade famosa aqui em Claus. Na verdade, Saluc é do Planeta
Acimoré, que tem a maior população, em relação ao seu tamanho,
porque é o menor de todos.
–
O que foi o tataravô dele? – cogitou Jaime para dar corda ao
assunto, pois pressupôs que Dinjara tencionava assediar, moralmente,
Saluc.
–
Um pensador e célebre filósofo – enfatizou Dinjara. – Ele viveu
às portas da grande revolução. E já dizia: não queira ser
melhor do que ninguém, assim não sentirá diferença no dia em que
formos todos iguais. Pois naquela época o Planeta mais evoluído,
à custa dos mais fracos, era Sodinu Sogima. Um Planeta riquíssimo,
o maior fabricante de armas de ataque, que influenciava na economia,
na tecnologia e até em tomadas de decisões internas dos demais
Planetas.
–
Ninguém reagia? Aceitavam passivamente esse domínio tirano? –
indagou Jaime para Dinjara correndo os olhos na direção de Saluc.
–
Numa sociedade assim... acaba prevalecendo a lei do mais forte –
respondeu Dinjara observando que Saluc acomodava-se em dois caixotes
para apreciar o comentário. Ela, despretensiosa, apregoou: – Bem,
Jaime, uma pequena parte dos lucros os governantes de Sodinu Sogima
doavam em forma de vestuários e alimentos para os Planetas mais
pobres. Muitos se vendiam por ninharia. O Planeta Sodinu Sogima
descendia de uma comunidade beligerante. Malevolente, insuflava
conflito entre os Planetas. Assim, vendia, livremente, armas e
munições, tanto para um lado como para o outro. Enviava suas tropas
para a guerra, propagando-se: o defensor dos mais fracos.
Saluc
balançava a cabeça corroborando com a crítica de Dinjara.
–
Muitos de seus guerreiros foram mortos por armas oriundas de seu
próprio Planeta. O poder econômico gerenciava o destino das
pessoas. Os líderes do Planeta Sodinu Sogima sacrificavam o seu povo
para continuarem soberanos. Uma vez, dispararam um raio, sem testarem
a potência e destruíram quase a metade do Planeta Aiaboc. Muitas
criaturas morreram. Disseram que foi para gerar a paz.
Jaime,
indignado, interpelou para Saluc:
–
Qual morte se justifica pela paz... a não ser a do ditador?
Entrementes,
Saluc, irrefletido, não lhe deu ouvidos. Dinjara revelou astuciosa:
–
Pois é, Jaime. Foi nessa época que um dos episódios narrados pelo
tataravô de Saluc consagrou-se numa fábula divulgada em todos os
Planetas. Intitulada: O criador de nigalhas, que narrava...
–
Criador do quê? – interrompeu Jaime por não ter entendido o nome.
–
Ah!... desculpe, Terráqueo – falou Dinjara, visivelmente caçoando
dele. – Nigalhas é uma espécie de ave que nós criamos para
comer. Elas botam ovos, que chocamos para termos mais nigalhas.
–
Lá nós temos... galinhas de granja – explicou Jaime em tom de
galhofa, mas Dinjara não lhe deu trela.
–
Pois bem, contava ele que um criador de nigalhas, muito zeloso,
selecionou dezenove ovos e colocou para uma formosa nigalha
chocá-los. Quando os nigalhinhos nasceram, todos ensaiaram o seu
canto natural, que é um: triu... triu... triu. Quase todos,
exceto um que ensaiou um canto saliente e dissonante. O criador quis
saber qual era o mistério que desvirtuava o nigalhinho dos demais.
Por ser pouco instruído, ele levou o nigalhinho, de canto
espevitado, para um renomado sábio analisar. O sábio estudou o
nigalhinho do bico ao rabo e, no primeiro som que ouviu, desatou a
rir e decompôs para o criador: "Meu compatriota, o seu
nigalhinho é primoroso. Ele apenas está cantando na língua do
Planeta Sodinu Sogima". O criador tirou o chapéu, abraçou-se
ao sábio e desabafou: "Bem que me preveniram que esse Planeta
tem influência em tudo!"
Saluc
ouvia a estória de Dinjara com um sorriso prazeroso nos lábios.
Feliz da vida extravasou:
–
Sou obrigado a lhe agradecer Dinjara, por enaltecer o meu tataravô –
predispôs Saluc numa constante inquietação escrupulosa. – Ele
sempre dizia: quando a chuva estiver caindo... não se esqueçam
dos dias ensolarados. São argumentos assim que me convencem de
que ele não morreu em vão. Foi condenado à execução... como um
bandido... numa guilhotina enferrujada. Suas últimas palavras foram:
Quando se dá poder a um louco... o mundo inteiro corre perigo.
Posteriormente transformaram-no num herói. Hoje é idolatrado como
filósofo. Ele pregava que: é mais gratificante dar uma
informação a quem está perdido, do que encontrar o próprio
caminho. Eu vibrei quando o Planeta Sodinu Sogima foi invadido
por todos os seus adversários e, impiedosamente, exterminado. Bem
feito!
Dinjara
afastou-se do ombro de Jaime e lançou-lhe um olhar de cumplicidade.
Notou que eles poderiam persuadir Saluc a libertá-los.
–
Saluc, eu sei que você não é má pessoa – conspirou ela. –
Quem lhe estraga são as suas companhias. Você não acha que este é
um ótimo ensejo para resgatar seus princípios, seguir suas
convicções, em vez de permitir que outros o conduzam?
Jaime
sentiu que Saluc hesitou e quase aquiesceu com Dinjara, que agora
apelava para o seu lado sentimental:
–
Você não pode ser um fantoche nas mãos de Lideucan. Seu tataravô
reprovaria sua atitude, pois ele sempre disseminava... Dê o amor
que nunca recebeu. Faça o bem que nunca lhe fizeram. Estenda a mão,
humildemente, para o seu inimigo, e perceberá o que é ser superior.
Jaime
reforçou, opinando mansamente, como um bom conselheiro imparcial:
–
Dinjara tem razão, Saluc. O homem deve fazer o que dita a sua
consciência. Só assim ele desfruta da verdadeira paz e desvenda a
razão de viver.
Mas
Saluc, num rompante de fúria, levantou-se obcecado:
–
Não queiram me corromper. Não venham me propor cumplicidade. Não
sou um traidor. Lideucan me deu ordens para vigiá-los, porém...
posso matá-los também. Eu não necessito de trunfos. O que vocês
pretendem é fomentar a inimizade – retirou do bolso um tubo com
botões coloridos igual ao de Lideucan e ameaçou. – Não me
obriguem a usar isso.
–
Está bem, Saluc – relaxou temerosa Dinjara. – Vou descansar –
e, descompromissada, recostou-se mais no ombro de Jaime.
Jaime
não sabia se Dinjara tinha algum propósito em mente ou se
permaneceria entuchada em seu colo, sem se importar com o dilema em
que se envolveram. Porque se Lideucan concretizasse o seu plano, não
só o Rei e o Sistema Comunitário estariam em perigo, mas também o
Planeta Terra. No entanto, em seguida, Dinjara falou como se Saluc
não estivesse mais ali:
–
Jaime, quando nós sintonizamos as transmissões do Planeta Terra, eu
ouvi alguém declamando uma poesia. O título era... Enigma.
Eu não traduzia muito bem a sua língua. Depois decorei porque
achei... bonita.
Com
os olhos impregnados de ternura e sedução, Dinjara declamou:
Os
sonhos... eu escrevo em versos,
Mas a realidade... não consigo.
Pois nos sonhos... estás bem perto,
Na
realidade... não estás comigo.
No
sonho... te tenho ao meu lado
E
num encanto... me abraças sorrindo.
Quando
sonho... quero estar acordado,
Quando
acordo... quero estar dormindo.
O
meu desejo ardente é nunca deixar,
De
toda noite sonhar e te ver.
Pois,
morrer, para mim, é acordar.
Dormir...
para mim... é viver.
Dinjara
terminou com atitude de quem não compreendia tudo o que recitara e
perguntou curiosa:
–
Jaime, como você descreveria um sonho?
–
Como assim?
–
Eu gostaria que você me contasse. Porque nós só dormimos.
–
Vocês não sonham?
–
Não.
–
Bem, sonhar... é viver uma situação irreal. Alguns suspeitam que
sejam reflexões de vidas passadas, outros presságios do futuro. Mas
eu considero que é apenas o subconsciente funcionando livre de
censura... e aí ele aproveita.. exagera na dose - gracejou Jaime.
–
Conta um sonho que você já teve.
Mal
sabia ela que, para Jaime, até agora tudo o que enfrentara não
passava de um sonho daqueles bem excêntricos.
–
Bom, Dinjara... nos sonhos vamos a lugares fantasiosos... nos vemos
mais jovens ou mais velhos... Quando o sonho vira pesadelo é um
sufoco, alguns gritam, outros falam... Ah, lembrei de um...
–
Conta... vai! – pediu Dinjara com ansiedade.
–
Uma noite, sonhei que eu vinha da praia. O sol brilhava forte. Havia
uma rampa íngreme em minha frente. No meu pensamento martelava uma
frase: "Você almejando... consegue tudo". Então pensei:
"Vou subir aquela rampa correndo e quando chegar no topo... eu
vou voar". Comecei a correr. A cada passo, a certeza se firmava.
Do topo me lancei de braços abertos para o voo e... voei... voei tal
qual passarinho planando no ar. Sem explicação o dia tornou-se
noite. A cidade se iluminou. As luzes lhe davam um colorido forte.
Eu, lá do alto, avistava longe... muito longe. Via quase toda a
cidade. O vento frio batia em meu rosto. Continuei dormindo.
Despertei normalmente e só fui recordar desse sonho depois de duas
semanas.
Dinjara
deu um leve sorriso de agradecimento e acomodou-se no ombro de Jaime.
Aproximou-se mais e sussurrou:
–
“Feche os olhos e encoste a cabeça na parede” – ela resvalou
sua mão para o bolso da calça de Jaime onde ele guardara a meia
bolinha de gude.
Jaime,
naquele ínterim, quase esquece o que ela recomendara. Cerrou os
olhos e apressado recostou a nuca na parede.
–
Sabe, Jaime – reatou Dinjara no diálogo cego –, tem mais uma
palavra que eu não sei o que significa.
–
Qual?
–
Saudade. O que é isso?
–
Saudade é um sentimento... suave... que sentimos por alguém, ou por
uma fase de nossa existência... que está distante ou que nunca mais
regressará.
De
repente, Jaime foi surpreendido por um clarão e um estrondo
concomitante. No susto, abriu os olhos instintivamente e viu Saluc
caído no chão, inerte, coberto de fumaça. Divisou um buraco enorme
na parede toda estraçalhada. Olhou para Dinjara e ela, com ar de
quem sabia todo o enredo da história, desafogou num suspiro:
–
Hoje, por várias vezes, pensei que a sorte me ludibriara, mas agora
descubro que ela residia ao meu lado... minha sorte foi seguir você.
Confesso que seu ombro é aconchegante e com um... um cheiro gostoso.
– Jaime não procurou entender o porquê daquela cantada maliciosa,
fora de hora e sem objetivo. Sensato, interrogou:
–
Pode, por gentileza, me esclarecer o que está acontecendo?
Dinjara
só respondeu quando apareceu um vulto, empunhando uma arma, e parou
no buraco que o disparo fizera na parede do velho castelo.
–
Foi papai que chegou. Graças a você que manipulou o sensor.
–
Sensor?
–
Sim, sensor.
–
Essa coisinha?... Metade de uma bolinha? – Jaime retirou o sensor
do bolso.
–
Sim, Jaime – gritou Peifil lá do buraco –, rastreei o sensor
direcional para localizá-los. Saluc tem um também.
–
Era isto que você pretendia com todas aquelas caretas espalhafatosas
e trejeitos suplicantes? – indagou Jaime entregando o sensor para
Dinjara.
–
Não, Jaime, era para você colocar a mão nele. Assim os sensores
dos carros de papai saberiam em qual carro você estava e não o
atingiria. No entanto eles obtiveram êxito assim mesmo, porque os
raios passaram ao longe.
–
Ao longe? Chama aquele “triz” de "ao longe"? Quase nos
derrubaram! – Jaime olhou para Peifil e arguiu apressado. – E
Rodrigo? Reclamou minha ausência? Você falou com ele?
–
Calma, Jaime, seu filho está bem. Fomos buscar uns meninos para
brincarem com ele. Suponho que nem está sentindo a sua falta.
Jaime
levantou-se e foi na direção de Saluc. Ajoelhou diante de seu corpo
que expelia centelhas azuis e verdes para o ar.
–
Não toque nele, Jaime – gritou Dinjara. – Você é um Terráqueo
e essa descarga paralisante pode ser mais perigosa para você do que
para um de nós.
–
Ela tem razão, Jaime, não se pode avaliar o efeito em outros seres.
Estão em desuso há milênios e a potência é bem maior que a
manual – admitiu Peifil.
–
Quer dizer que ele não está morto? – inquiriu Jaime inspecionando
a face de Saluc que parecia estar acesa, pois agora emitia uma branda
luz rosada nas bochechas.
–
Não, Jaime, ele está paralisado – afiançou Peifil. – Os
revolucionários já foram abatidos. O Rei conseguiu a liberação
para o uso dessas armas e quando eles se esconderam dentro das casas,
todos aguardavam por eles. Os outros que vagueavam por fora, com a
ajuda dos nossos amigos do Planeta Aradicape, foram presos também.
Agora encontrei vocês dois. Retornaremos ao Palácio com tudo
resolvido e...
–
Mas, pai – interrompeu Dinjara –, Saluc não planejou isso
sozinho...
–
O quê!!?... Nós detectamos só um sensor neste castelo além do
seu... e está com Saluc!
–
Lideucan deve ter instalado nele de propósito pai, só para desviar
a sua atenção; enquanto isso, ele e Jermaso ganhavam mais tempo.
–
Lideucan e Jermaso estão nisso também?!... Onde eles estão agora?
– afobou-se Peifil impressionado e, pela primeira vez, com a
fisionomia denotando temor. Jaime julgou que ele conhecia bem o
inimigo que confrontaria.
–
Foram para o Palácio a pé, com a sutil aparência de um casal.
Planejam aprisionar o Rei – elucidou Dinjara que, incomodada com as
vestimentas do lambuzão Jermaso, se coçava toda. – Pai, Jermaso
está com a minha roupa – explicou Dinjara com ar de riso.
Enquanto
os dois conversavam, Jaime viu a arma de Saluc no chão. Num impulso
natural, pegou-a deliberadamente e guardou-a no bolso da calça.
–
O pior, pai, é que Lideucan tem uma arma de morte e Saluc também.
–
Esses antipacifistas, vagabundos, burlam tudo – recriminou Peifil
chegando perto de Saluc. Revistou-o e sintetizou:
–
Saluc não carrega nenhuma arma, Dinjara!
–
Ele tem uma, sim – asseverou Dinjara categórica. – Eu vi a arma
com ele – e foi auxiliar o pai na busca inútil.
Disfarçadamente
Jaime se afastou de Saluc, enquanto os dois o reviravam pelo avesso.
–
Ele devia estar com ela na mão no momento da explosão. Pode ter se
perdido no meio desses entulhos, depois mando vasculhar. Vamos
embora, avisarei a Dailen para reforçar a vigilância no Rei.
Peifil
retirou-se arrebatado dando ordens aos seus comandados para cuidarem
de Saluc. Dinjara amparou Jaime pelo braço como se ele não soubesse
mais andar sozinho. Entraram no carro e Peifil começou a transmitir
mensagens em sua língua de vocábulos curtos e quebrados.
–
Procuraremos os dois, primeiramente pelos vilarejos dos conjuntos
experimentais, talvez tenham ocultado alguma estratégia do plano, e,
se assim for, eles não estão muito longe.
Dinjara
abriu uma gaveta sob a sua cadeira do carro e apanhou uma arma.
Peifil roçava o chão com o carro. Entrava e saía nas intermináveis
passagens estreitas entre os edifícios alinhados nas cores cinza
claro e azul-marinho. Não havia muros divisórios nem árvores. O
calçamento e as edificações eram feitos de plástico, em peças
montáveis com encaixes aparentes. Peifil reclamou, expondo seu
desagrado:
–
Vou sugerir ao Rei que recomende ao Sistema Comunitário uma proposta
de esterilização para todos que forem condenados, independente do
delito. – De imediato decidiu resoluto. – Vamos direto para o
Palácio. Eles fizeram o percurso habitual e já devem estar chegando
lá.
–
Você tem razão, pai – concordou Dinjara e emendou. – Acho que
devemos dar uma arma para Jaime.
Mesmo
distraído, Jaime antecipou-se à resposta de Peifil e rebateu
evasivo:
–
Não, eu não quero.
–
É apenas paralisante – avisou Dinjara risonha, presumindo que
Jaime estivesse com medo de manusear uma arma de verdade.
–
Não, eu não vou precisar de arma. Assim espero – finalizou
cabisbaixo.
–
Dinjara – aconselhou Peifil –, se ele não se sente bem com uma
arma, não insista.
Jaime
não olhou para eles, poderia cometer um deslize e descobrirem seu
único segredo. Não sabia bem o que faria com aquele tubo, porém
sempre acreditou que tudo acontece no instante oportuno.
–
Pai, o Sistema Comunitário praticou um deplorável lapso – disse
Dinjara lamentosa.
–
Equívoco do Sistema Comunitário, filha?
–
Lembra de Samjir Soebo?
–
Claro!... O cientista que foi condenado por desrespeitar o código de
ética.
–
Lideucan contou que ele é um louco.
–
Como assim?
–
Insanidade mesmo, pai. Ele é o culpado por esse motim e inocente no
seu primeiro crime.
–
Pensei que essa doença estivesse erradicada. Vou comunicar ao Rei
assim que tudo isso acabar, e propor também que se coloque um sensor
interno em cada indivíduo que for condenado. Só assim saberemos se
os contraventores estão onde deveriam estar – desfechou Peifil
preparando o carro para descer.
Peifil,
após uma senha enviada pelo painel do carro, adentrou por uma fenda
que se abriu num paredão. Quando ultrapassaram a abertura, Jaime
reviu o Palácio. Seu coração abrandou num alívio. Rodrigo, com
certeza, estaria lá dentro. A Praça de Bisam Joreso, as escadarias
e o patamar do Palácio estavam superlotados, afigurava-se num
Shopping Center em dia de domingo. Nada indicava que a situação era
de alerta. A não ser que todos trabalhassem para a proteção do Rei
e montaram um exército de guardiões camuflados de pessoas normais.
Porque uns pulavam e se divertiam. Outros, descontraídos,
conversavam alegremente.
Os
três desceram com o carro e se postaram de sentinelas. Jaime
vistoriou vagarosamente toda a praça. Tinha a esperança de ver
alguém com um par de botas bem luzidio. Porque da maneira com que
ele as cuidava, Jaime asseguraria que Lideucan não se desfaria delas
nem para salvar a própria pele.
Dinjara
comentou desanimada:
–
Não vejo ninguém com as minhas vestes. Acho melhor subirmos, pai.
Peifil
partiu rápido na vanguarda. A multidão abria passagem
movimentando-se para a escadaria fixa. Ele galgava os degraus da
escada rolante para adiantar o passo. Jaime e Dinjara, com muito
esforço, permaneceram colados em seus calcanhares. Chegaram ao
salão. Pessoas, aglomeradas em grupos, conversavam como um enxame de
abelhas. O Rei, na frente do palco, passava instruções para vários
subalternos, que ouviam, confirmavam com a cabeça e saíam ligeiros.
Jaime olhou para o alto. As colunas incontáveis do Palácio eram um
esconderijo propício para Lideucan. Conjeturou que viria dali o
ataque.
–
Primeiro vou procurar Rodrigo, só então... – Peifil e Dinjara,
enquanto Jaime olhara para cima, desapareceram. Ele confabulava
sozinho.
Jaime
resolveu certificar-se de que não havia ninguém lá em cima. Quando
pisou os primeiros degraus, tomou um susto. Vinha descendo alguém.
Uma sombra na parede evidenciava isso. Não teria tempo de sair dali.
O jeito era espreitar no suspense. Para seu suspiro profundo, Dailen
o saudou pândego:
–
Oi, meu amigo Jaime!... Nossa!... Como você está sujo... imundo!
Realmente,
a roupa de Jaime não estava nada apresentável para frequentar um
Palácio. Dailen ajuizou:
–
Não está pensando em invadir o recinto, está? É expressamente
proibida a entrada de personalidades não autorizadas. Veja a
advertência na plaqueta – apontou astucioso e prosseguiu. - Estou
aqui desde que chegamos de seu Planeta, garanto que não ingressou
ninguém indesejável.
Inesperadamente
deu um estalo na cachimônia suscetível de Jaime, que balbuciou para
as gosmas de sua camisa:
–
“Lideucan não contou o seu autêntico estratagema. Faltou um
pormenor: o "segredo". Aquele disfarce, em conchavo com
Jermaso, foi mais uma de suas criativas falsetas.”
Dailen,
estranhando a absorção do Terráqueo, insistiu:
–
Oi, Jaime! Está falando com alguma dessas colunas? Aviso de antemão
que todas elas são surdas.
–
Oi, Dailen – cumprimentou Jaime com o pensamento em parafuso e
perguntou pretensioso. – Diga-me uma coisa, Dailen. O que é
ficar... "diá"?
–
"Diá"? - redarguiu Dailen.
–
Sim, "diá", deve ser a primeira sílaba de uma...
–
Quem disse isso, Jaime? - investigou Dailen retesado.
–
Lideucan...
–
Lideucan?! – atemorizou-se Dailen.
–
Ele mesmo – respondeu Jaime explicando. – Ele quase deixou
escapar, mas quando pronunciou "diá"... silenciou.
Dailen
pensou sôfrego. Folheava páginas de um livro imaginário e
desafogou ávido:
–
Diáfanos. Os intrusos já estão aqui no Palácio... translúcidos,
invisíveis. Os nossos sensores não os detectarão e o quinto plano
não surtirá efeito. Peifil carece saber disso.
Dailen
saiu conversando com alguém por um transmissor instalado em seu
septo nasal. Jaime o seguiu. Esbarraram com Peifil que vinha
acompanhado de alguns elementos uniformizados. Dailen o interrompeu
sem cerimônias:
–
Peifil, aplicaremos o sexto plano.
–
Já estou dando as ordens – retrucou Peifil. – Algo saiu errado
com os sensores de segurança - e alertou para Jaime bem baixinho. –
Jaime, quando eu gritar: "raxiaba", você se ajoelha no
chão – e determinou para Dailen. – Vá para perto do Rei e
aguarde.
Dailen
saiu e Dinjara chegou de roupa nova:
–
Sexto plano, filha – repassou sério Peifil.
–
Você viu Rodrigo, Dinjara? – perquiriu Jaime conturbado.
–
Ele está bem. Fique tranquilo.
Peifil
sinalizou para Dailen que conversava com o Rei. Um sinal sonoro, alto
e curto ecoou no salão. Instantaneamente fez-se uma quietude de se
ouvir respiração. Peifil gritou:
–
Raxiaba!
Numa
fração de relâmpago, todos se prostraram ao chão. Ao mesmo tempo
em que Peifil gritara a "palavra mágica", um holofote, de
cintilação esverdeada, acendeu no alto do Palácio. Dois vultos,
envoltos numa capa metálica fosforescente, surgiram no meio do
salão. Espavoridos, por terem sidos denunciados pela luz,
assustaram-se quando a proteção metálica, que os conservava
invisíveis, se estraçalhou em pedaços. Eram Lideucan e Jermaso
que, desajeitados, retomavam o gestual corriqueiro.
Mas
o sexto plano fracassou também, pois Lideucan, nas imediações do
Rei, gritou, apontando o tubo de botões coloridos na direção do
Monarca:
–
Quietos, não tentem nada... estou com uma arma de morte na mão –
ameaçou. – Afaste-se, Dailen, senão eu mato o Rei.
Peifil
e Dailen ficaram de pé e não reagiram ao prenúncio nocivo de
Lideucan, ao contrário, Dailen afastou-se e Peifil, em tom calmo
e com a voz pacificadora, exprimiu prudente ante seu arqui-inimigo:
–
Quantos séculos, Lideucan!... veterano Jermaso!... que não nos
vemos. E nos defrontamos justamente agora, num... litígio tão...
tão delicado.
–
Fique onde está, Peifil – gritou Lideucan contraindo a musculatura
do pescoço múltiplas vezes. – Desta vez vai ser diferente. Não
vou me render – e avisou exaltado. – Mais para trás, Dailen –
e foi caminhando para perto do Rei, com Jermaso, ainda com os trajes
de Dinjara, dando cobertura, colado nele como uma pequena sombra,
andando de ré.
Peifil
reproduziu no mesmo tom informativo.
–
Seus aliados, Lideucan, que perambulavam além da proteção de
ondas, já foram eliminados em combate. Seu cúmplice, Saluc, está
morto... não queira ser o próximo.
Lideucan,
sem tirar a arma da direção do Rei, bazofiador, revelou sua
ardileza secreta:
–
Não é você que me rotula de estrategista do mal? Eu já sabia que
isso tudo iria se desencadear. Então abandonei o decadente Saluc de
chamariz, com o meu sensor, no velho castelo... e o ingênuo,
imaturo, engoliu que era para termos dois planos. Eu sim, tinha
inúmeros mancomunados com Jermaso, ele... coitado, nenhum. Mas para
que o esquema vigore, às vezes é necessário sacrificarmos
correligionários – e intimidou. – Vocês não banquem os
espertinhos, pois desta vez ninguém vai me impedir.
Jermaso,
colado em Lideucan, sussurrou com a cara deslavada:
–
Lideucan, não vai dizer para eles que nós aproveitamos a
invisibilidade e entramos no banheiro feminino do Palácio?
–
Cala essa boca, imbecil... esqueceu que só vimos barangas
pelancudas. E é por sua causa que ainda estamos aqui.
Jaime,
de joelhos ao lado de Dinjara, notou um isolamento preocupante
naqueles olhos condoídos que tantas vezes vira refulgir; patenteavam
um vazio, uma depressão, um vínculo de dependência e
solidariedade. Dinjara rendera-se ao desígnio do desenlace que,
provavelmente, seria degradante. O silêncio insípido era indício
de um velório. Jaime murmurou em seu ouvido com receio de que alguém
escutasse:
–
Vocês disseram que Saluc estava paralisado. Peifil agora diz que ele
está morto!
Ela,
cabisbaixa, concatenou sem ânimo:
–
Deve ser uma estratégia paliativa de papai para amedrontar Lideucan.
Jaime
não arriscou requestar mais nada.
Lideucan
especulou alto:
–
Onde está o Terráqueo?... Dinjara também. Mudei de plano. Quero os
dois aqui. Preparem um carro. Eles irão comigo. O Terráqueo vai me
mostrar os pontos turísticos de seu Planeta e Dinjara será a...
–
Deixe Dinjara fora disso, Lideucan – contestou Dailen se metendo no
assunto.
–
Fique quieto aí, Dailen – e cantarolou. – Desta vez você vai
perder a sua garota – e soltou uma das suas gargalhadas
costumeiras.
–
Lideucan – retornou Dailen –, se é refém que você ambiciona...
me leve no lugar dela.
Lideucan
fez uma cara hipócrita e cinicamente verberou:
–
Camarada Dailen, você não serve para o que eu aspiro...
–
Refém por refém vou eu – persistiu Dailen.
–
Não seja ridículo, camarada Dailen. Sem negociações – recusa,
irredutível, o corpulento Lideucan.
Jaime
sussurrou novamente para Dinjara:
–
Você e Dailen... são namorados?
–
Noivos.
–
Ah!... Gostei de saber.
Dinjara
lhe sorriu num misto de tristeza e carinho. Jaime considerou que ela
temia mesmo por um epílogo trágico nesse episódio. Jaime olhou
para Peifil e, no olhar, interrogou o que fazer. Em resposta, uma
simples afirmação facial, sutil, o induziu a obedecer. Jaime e
Dinjara se levantaram. Lideucan não se conteve:
–
Belezoca!!... Correu para o colinho do papai, hein? Tão crescidinha
e tão carente!... Quando estivermos refugiados na Terra eu vou
resolver seu problema afetivo. Prometo.
O
pensamento de Jaime, em rotação anormal, vasculhava uma ideia
salvadora que não colocasse a vida do Rei em perigo. Jaime precisava
agir. Deu dois passos para a frente e voltou-se. Acenou para Peifil
simulando uma despedida e, mesmo sem calcular sua reação,
cochichou:
–
“Estou com a arma de Saluc.”
Peifil
estremeceu. Jaime saiu rápido de perto para deixá-lo sem ação,
porém ele o chamou:
–
Terráqueo! – Jaime virou-se e Peifil, com o rosto todo suado,
acenou-lhe dando um adeus trêmulo e avisando em tom baixo:
–
“Vermelho, verde e o pensamento.”
Jaime
não compreendeu muito bem o que Peifil quis lhe transmitir naquela
encenação. Foi caminhando lentamente para perto de Lideucan como um
animal que vai para o abate. Dinjara, com os olhos em fogo, quase
emitindo faíscas, vinha ao seu lado. Jaime esquadrinhava os
clausestres disformes, ajoelhados, todos apáticos, com as
faces molhadas de suor. Em nenhuma delas se manifestava uma tênue
esperança de que poderiam ainda reverter aquele estorvamento. Jaime
deduziu que o suor era a forma de demonstrarem medo ou sofrimento.
Umas olhavam-no resignadas, outras baixavam a cabeça enquanto ele
passava. Lideucan vocifera exasperado:
–
Vamos logo, Terráqueo, não temos muito tempo. Quanto antes sairmos
daqui melhor é. Ficaremos livres mais cedo – e berregou bem alto.
– Podem abrir a proteção. Mandem vir um carro preferencial e
equipado com todas as armas de defesa – salientou. – Não ensaiem
nenhum truque infantil.
Jaime
gelou. Lideucan executava, a contento, as suas temerárias previsões.
Naquela hora terminante, gostaria que baixasse nele o espírito de um
mascarado vingador – vestido de negro, que, num peteleco, bota para
dormir três a quatro oponentes malfeitores, reprisando o que sucede
nos filmes espetaculosos, nos quais apenas um fracote derrota
centenas de inimigos, só assim resolveria esse impasse deprimente.
Porém, vendo a arma junto ao pescoço do Rei, não acatou seu juízo
de ousadia cinematográfica.
A
proteção do Palácio começou a descer desvendando o céu
avermelhado de Claus. Lideucan sabia que, dispondo do Rei como refém,
ninguém ousaria desafiá-lo. Portanto, a Jaime, só restava esquecer
o fictício justiceiro. De repente, inocentemente, Rodrigo aparece na
porta e adentra gritando:
–
Pai!... Pai!...
Sua
voz ecoa no silêncio do salão. Jaime fechou os olhos quando
percebeu a cara espantada de Lideucan. Poderia disparar pensando ser
uma armadilha. Felizmente o facínora esquizofrênico só contemplou
Rodrigo vir correndo de braços abertos ao encontro de Jaime, que se
abaixou e abraçou o filho como se fosse uma eternidade que não o
via. Lideucan não sabia de Rodrigo, pois, surpreendido, perguntou:
–
Filho? Outro Terráqueo aqui? – E lacônico decretou. – Ele fica.
Mesmo
sem saber o que aconteceria, Jaime impugnou de imediato:
–
Não. Ele vai conosco.
Lideucan
não retrocedeu:
–
Não tem lugar. E depois só vai atrapalhar.
Rodrigo
desconfiou de uma artimanha.
–
Pai, quem são eles? Por que aprisionaram o Rei?
–
Filho, eu... eu... – Jaime não peneirou justificativa.
–
Pai, você tá todo sujo...! – reparou Rodrigo.
Dilema
dilacerante o de Jaime. Encravara-se numa encruzilhada espinhosa.
Precisava dissimular o agravo para o filho, pois a verdade poderia
acarretar sequelas instantâneas. Peifil lera o pensamento de Jaime e
com um gesto típico, insinuativo, aconselhou: "a cautela sugere
a mentira".
–
Filho, eu tenho que ir... em um lugar aqui perto, com esses...
senhores e eu volto para lhe buscar – pretextou Jaime, postiço e
inconsistente.
–
Não vou ficar aqui sozinho, pai. Eu quero ir. Você saiu sem me
avisar e... eu não gostei. Cansei de brincar com os meninos...
–
Eu volto logo, filho. Confie em mim.
Veio
o carro que Lideucan solicitara. Penetrou por uma abertura no alto da
cúpula e pousou, mansamente, no meio do salão. Peifil chamou
Rodrigo com voz insegura:
–
Venha comigo, Rodrigo. Vamos aguardar seu pai regressar.
–
Não. Eu quero ir com papai – respondeu Rodrigo agarrando-se nas
pernas de Jaime.
–
Filho, eu volto... acredite! – tentou convencê-lo Jaime.
–
Pai, e o aniversário de Maria Lúcia? – Aventou Rodrigo, pensando
ser uma boa alegação para Jaime não abandoná-lo ali sozinho.
–
A gente vai, filho. A gente vai.
Lideucan,
impacientado, ordenou inconsequente:
–
Peguem esse pirralho e o retenham aqui, imbecis – e com maldade na
voz adestrou Jermaso. – Confira se todas as armas estão no carro.
Porque se não estiverem eles pagarão bem caro agora mesmo.
Jermaso
consultou uns marcadores, puxou uma alavanca, bateu em três botões
e concluiu esfregando as mãos, bajulador:
–
Tudo em ordem, Chefão. Completinho e ativado.
Aos
berros Lideucan comandou:
–
Abram espaço!
Rodrigo,
num choro aflitivo, grudou mais forte ainda no pai. Peifil enunciou
com voz forte e segura, pois vira que não restava alternativa:
–
Venha comigo, Rodrigo.
–
Vá filho, me espere, eu volto logo – articulou o mais natural
possível Jaime.
Alguma
coisa fez Rodrigo, anômalo, o soltar e acompanhar Peifil. Jaime,
abatido, se dirige para perto de Lideucan. De repente Rodrigo clamou
alarmante:
–
Pai, me leva... me leva, pai, me leva...
Jaime
continuou seu caminhar trôpego, carregando um distúrbio no peito
logrado. A consciência dispersa num redemoinho de languidez
depressiva, esperneia prisioneira, esbraveja esmagada,
incriminando-o. Foram os passos mais indecisos e cruciais que dera em
toda a sua vida. Seu coração angustiado descompassou ao flagelo
quando Lideucan, peremptório, procedeu a divisão:
–
Jermaso, você guia. Dinjara e Terráqueo, sentem-se no banco do
meio, assim posso vê-los de frente. Eu vou na traseira... protegendo
o Rei.
Repentinamente,
num tique de arrependimento, Jaime resolveu revogar a sua decisão.
Rodrigo teria que ir com ele. Mas, misteriosamente, foi aquietado e
impedido por mãos invisíveis que o direcionaram para a frente numa
compulsão irresistível. Não teve mais vontade própria, nem
coragem de olhar para Rodrigo, que insistia, em berros comoventes,
chorando e suplicando para que não fosse largado ali sozinho.
Partiram diante da perplexidade de todos. Entraram velozes no espaço
em que, há bem poucos minutos, havia aquele trânsito louco. Agora
se ostentava desértico e silencioso. Nenhum carro. Nem ao longe.
Somente o arco-íris vazio. Jaime presumiu que, num instante, todos
obedeceram a um toque de recolher no Planeta.
VII
- O RESGATE FINAL
Um
sossego tedioso reinou entre eles até saírem da cidade de Bisam
Joreso. Jaime, taciturno, tinha a nítida impressão de que o Rei e
Dinjara vinham batendo o maior papo por telepatia, como se
transportassem um mantra embutido na cuca, tal era a despreocupação
que os dois evidenciavam. Passavam agora pela área agrícola. Jaime
fazia o percurso de volta mais amofinado do que quando chegara.
Absorvido num conluio de revolta e impotência, praguejava numa
percepção indutiva, sentindo-se duas vezes prisioneiro, e ainda por
cima apartava-se de Rodrigo. Isso causava um descarne na alma que lhe
provocava falta de ar.
–
Companheiros!... Será que todos engoliram a língua? – indagou
Lideucan. – Relaxem, tudo vai acabar bem... – fez uma pausa e
acrescentou – para mim é claro – desprendeu mais outra
gargalhada insolente.
Ninguém
se atreveu a debater. Assim como Jaime, todos esmiuçavam um atalho
para a solução. Jaime já radiografava a sua chegada na Terra com
esses dois fanfarrões, e Dinjara de quebra. Qual o poder
catastrófico daquelas armas de morte? Como medir a extensão de uma
tragédia sem precedentes? Talvez conseguisse enganá-los. Faria com
que pousassem no deserto de Saara. Ou no polo norte. Um local bem
frio e diria que a Terra toda é assim: gelo puro. Eles, acostumados
ao calor intenso não gostariam da baixa temperatura. Logo Jaime
admitiu ser bobagem. Eles podiam pesquisar tudo pelos instrumentos da
nave. É lógico que Peifil e Dailen viriam no encalço, armados e
trazendo Rodrigo; mas de qualquer jeito a guerra se travaria na
Terra; destruiriam e assolariam um povo que nada tinha a ver com essa
desavença. Jaime aventurou-se numa espiadela meio de soslaio.
Dinjara sustentava a mesma fisionomia. O Rei, na sua postura singela,
simbolizava a tranquilidade em férias. Lideucan, com a arma apontada
para o Rei, notou o movimento de Jaime e alardeou:
–
Brevemente estaremos aterrissando em seu Planeta, Terráqueo... e
você será nosso cicerone. Queremos ser recebidos com pompas e
regalias...
O
Rei, num leve sorriso irônico, elucidou calmamente:
–
Lideucan, sua ambição o cega, você não sabe de muitos detalhes.
Essas armas não funcionarão no Planeta Terra. Eles usam a energia
gerada por hidroelétricas e nós nem rios temos mais. Devido ao lixo
radioativo eles têm conflitantes problemas com a energia nuclear.
Estão engatinhando na solar e na eólica. Eles ainda não...
–
Não seja estúpido, Reizinho – cortou Lideucan recalcitrante,
apertando o pescoço do Rei. – Nós não estamos interessados em
tecnologia; nós almejamos é conhecer a liberdade, as mulheres,
viver sem opressão, sem regras... com muita "paz e amor"...
esse é um magnífico chavão dos Terráqueos.
Jaime
não atinou se o Rei cobiçava contraprovar a insignificante
pretensão de Lideucan ou se ele distorcera alguma verdade para
dissuadi-lo de tal caduquice. O Rei filosofou num tom lastimoso:
–
O fingimento é um argumento sem futuro, Lideucan. Não busque
encontrar nos outros o que não carrega consigo.
Lideucan,
agastado, discursou afogueado:
–
Agora eu não faço mais apologia ao crime... realizo-o.
Jaime
estranhou porque Lideucan não dera sua gargalhada oficial, pelo
contrário, comportara-se sisudo. Quando se virou, viu o motivo:
chegavam à base das aeronaves. A nave interplanetária permanecia no
mesmo local onde desembarcaram. O Rei, numa expressão de vidente,
alertou:
–
Lembre-se Lideucan: quando a liberdade é muito grande... tornamo-nos
escravo dela.
Lideucan
não deu ouvidos ao Rei. Comandou absoluto:
–
Jermaso, ao plano de ataque.
Jermaso
iniciou um bombardeio nas naves locais estacionadas perto da aeronave
interplanetária. Jaime pressentiu a potência da arma localizada
embaixo do carro. Eram lançados dois focos de luzes quase paralelos,
quando atingiam o alvo, explodiam num clarão de fogo. O clarão se
dissipava e não se via mais nada no lugar; só o solo chamuscado. As
naves desapareciam, desintegravam-se sem deixar vestígio. Jaime
deduziu que Lideucan não se importava mesmo com ninguém.
Intencionava apenas sair dali e aperrear toda a população
terrestre. O Rei não se conteve e repugnou irritado:
–
Para que isso, Lideucan? Só para satisfazer o prazer de destruição
que germina dentro de você?
Lideucan
satirizou com volúpia e rebeldia:
–
Não é Vossa Majestade que sempre diz que somos eternos
aprendizes?... Pode ser uma cilada, camarada Ojes. Assim eu ensino
para quem teve essa ideia bestial que a minha foi muito mais
criativa.
–
Em algumas fases da vida, a consciência pesa mais que o corpo
inteiro, Lideucan – proclama o Rei.
–
De mais a mais, Reizinho, não posso permitir que nenhuma nave me
persiga em órbita dos Planetas, tampouco pela vastidão do Grande
Vazio – discorreu Lideucan de aspecto triunfante.
O
Rei sobressaltou-se. Lideucan, depravado como sempre, cientificou:
–
É, Reizinho, já tomei conhecimento da existência desse intervalo
oco no Universo! Vou investigá-lo sem nenhum empecilho.
Pousaram
a cinquenta metros da nave. Lideucan correu os olhos em círculo e
ministrou as ordens novamente:
–
Jermaso, você desce e fiscaliza a nave. Verifique se está tudo em
ordem. Enquanto eu estiver com o Rei, eles não tentarão nada.
Jermaso
desceu e foi caminhando para a nave. Dinjara encostou a mão no ombro
de Jaime. Ele sentiu uma energia fora do comum na mão de Dinjara.
Automatizado se levantou e desceu do carro. Lideucan levantou-se
também emitindo dois tiques nervosos, provocados pela impaciência.
O Rei manteve-se sentado. Lideucan, com a mão que segurava a arma,
fez um gesto para Jaime parar.
Neste
exato momento Jaime viu o braço de Lideucan erguer e virar sozinho
para trás. Ele verteu um grito lancinante de dor. Rangendo os
dentes, fazia uma força enorme para se livrar do agressor invisível
que o estrangulava. Jermaso também tropeçava no vento e caía no
chão sem motivo. Suspendia-se desconcertado, defendendo-se
estabanado, dando socos aleatórios em todas as direções. Ele
recebia vários golpes vindos do nada e caía batendo as ventas
contra o solo por muitas vezes, até perder os sentidos e largar-se
estonteado. Lideucan, agitando os braços com dificuldade, gritava
exacerbado:
–
Traidores! Velhacos! – e deu três solavancos fortes no ar, na
tentativa de desvencilhar-se de seu inimigo oculto.
Alguma
coisa imprevista por todos, ou pelo menos para Jaime, estava em
andamento. Pois um vulto, segurando o braço de Lideucan, sobreveio
do nada e foi clareando. Era Peifil!...
–
"Usaram a mesma arma de Lideucan! Invisibilidade!" -
fantasiou Jaime esperançoso.
Peifil
se materializava. Mas Lideucan, escabreado, como se tivesse instalado
molas sob aquelas botas de estimação, num salto elástico,
arremessou-se do carro e voou para o alto. Mais na frente desponta
Dailen, arrastando Jermaso pelos cabelos. Lideucan vai descendo do
voo acrobático já com a arma apontada para Peifil. Jaime,
apressado, pega o tubo no seu bolso e aponta para Lideucan.
Tarde
demais.
Lideucan
disparou contra Peifil uns raios finos e multicoloridos que, com o
choque, o jogaram distante, envolvendo em fumaça seu corpo
carbonizado. Quase ao mesmo tempo, o brutamontes acertou Dailen, que
imobilizava Jermaso desmaiado. Lideucan cantou de vitorioso pelo
descalabro cometido. Ufano, arrebatado, erguendo os braços, bradava
num chilique incontrolável:
–
Eu venci!... Eu sou invencível!... Indestrutível!... Desta vez a
vitória foi minha! Vocês são uns palermas!
Jaime,
mortificado pelo incidente com seus amigos, na indecisão, ao ver os
botões coloridos, reportou-se à face suada de Peifil no Palácio:
"vermelho, verde e o pensamento". - Jaime apertou na
sequência e apontou para Lideucan, tencionando que a arma
disparasse. Seu braço trepidou como se estivesse manejando uma
possante furadeira de impacto. A arma desferiu um raio roxo, sem
muita pontaria, mas acertou em cheio a arma de Lideucan,
derretendo-a.
–
Opa! – assustou-se Lideucan. – Ora, o Terráqueo ficou
valente!... Essa arma era de Saluc!... Como a usurpou? – interpelou
inconformado.
Jaime
mirou no peito dele para alvejá-lo novamente. Apertou o botão
vermelho, depois o verde e pensou. Neste ínterim, nada aconteceu.
Lideucan desprendeu sua famosa gargalhada, desta vez com muito mais
gosto e sarcasmo.
–
Terráqueo, você agiu precipitado, descarregou a arma num só
disparo. Não soube dosar e desperdiçou munição. Agora estamos
desarmados. Só temos os punhos.
Lideucan
foi andando, sobranceiro, para o lado de Jaime. Esfregava uma mão na
outra para amolecer as juntas. Pretendia devorá-lo vivo. Jaime,
inexplicavelmente, começou a suar. Não sabia se fazia calor ou se
já assimilara a mania daquela civilização. Lideucan andava e
resmungava:
–
Eu sempre quis combater com um desconhecido. E para você não lutar
em desvantagem, Terráqueo, nem vou decifrar suas intenções.
Jaime
não gostou.
Dinjara
tentava, desesperadamente, acionar o carro. E gritou apavorada:
–
Não consigo... já está travado.
Lideucan
vinha intrépido, hostil, a passos firmes. Disposto a liquidar Jaime
sem muita delonga. Jaime, sentindo-se contaminado pelo suor,
preocupado mais em se guarnecer que atacar, recua no intuito de
aplacar a cólera do inimigo. Lideucan, ambicionando apanhá-lo de
surpresa, arremete-se sobre ele. Jaime esquiva-se e chuta-lhe as
costelas. Lideucan rola pelo chão e levanta-se ligeiro, sacudindo a
poeira. Parece que não gostou do fracasso. Sua fisionomia risonha e
libertina, após mais um espasmo, tornou-se severa.
–
Terráqueo esperto, hein!
Lideucan,
a fim de dominá-lo num único golpe, acomete de novo com o mesmo
ímpeto. Jaime vai recuando até a nave. Quando sente ter tocado nos
degraus invisíveis da escada, espera Lideucan chegar na distância
exata. Jaime sobe três degraus e salta, acertando-lhe um golpe no
supercílio esquerdo, que sangra de imediato. O Rei gostou e se
manifestou.
–
Boa, Terráqueo!
Lideucan,
sem tirar os olhos de Jaime, berrou para o Rei, atrapalhado por seu
tique nervoso.
–
Fique quieto aí, Reizinho, não pense que ele ganhou a guerra...
porque ela ainda não terminou.
Jaime
já aguardava algum artifício escabroso por parte de Lideucan, pois,
de um bandido, não se deve esperar lisura durante um duelo. E não
demorou. Ele, com sua mão pequena, retirou da bota esquerda um tubo
fininho. O alentado revolucionário, impertinente, olhou para Jaime
com a cara de sempre e ironizou:
–
A morte é o último pesadelo. O povo daqui não sonha, porém saiba
você que eu sonho. Sonho um sonho acordado que vou converter em
realidade ainda hoje.
Lideucan
apertou o tubo. Uma lâmina fulgente saltou. Dirigiu-se para Jaime
querendo esfolá-lo, falando com uma voz fina, falsificada de robô:
–
Às vezes, a tecnologia é superada pelo sabor de sangue, Terráqueo.
Aquele
punhal luminoso mexeu com os nervos de Jaime. Lideucan troca o punhal
de mão em mão e ameaça investir a todo instante. Jaime vai
recuando e de soslaio procura alguma coisa para que possa se
defender. Lideucan aproveita esse descuido e salta sobre ele. Jaime
desvia o mais rápido que pode, contudo, Lideucan consegue acertá-lo
no braço direito, perto do ombro, cortando também a camisa.
–
Sangue de Terráqueo é igual ao meu? Isso é incrível! – brada
Lideucan numa gargalhada desalmada e cheia de arrogância.
O
sangue escorre pelo braço. Jaime sente que o corte é profundo, mas
não é hora de pleitear arrego.
–
Assim você está sendo desleal, Lideucan – refutou o Rei com
austeridade em defesa de Jaime.
–
Já disse para ficar quieto, Reizinho – respondeu Lideucan
prendendo um sorriso vingativo entre os lábios.
Dinjara
levanta-se do carro com ferocidade e avança audaz, desabalada para
cima de Lideucan. Ele apenas estica o braço. Ela acaba chocando-se
com a mão espalmada dele que, numa bofetada, sem muito esforço, a
faz cair ao chão. Lideucan debochou:
–
Desculpe o mau jeito, Belezoca. Agora não estou disponível para
você.
Jaime
aproveitou a distração de Lideucan e num golpe certeiro chutou o
seu pulso. O punhal voou no ar, para bem longe. O Rei comprovou
confiar tanto em Jaime que bateu palmas e se ajeitou no camarote
improvisado para assistir à briga. Dinjara, no chão, demonstrava
preocupação e medo. Jaime, de olho em Lideucan, levantou sua
benfeitora e a colocou no carro.
–
Obrigado pela ajuda, Dinjara... agora deixe esse pilantra comigo.
Jaime
saiu para o largo disposto a afrontá-lo. Lideucan encarou-o como uma
fera. Irascível, após sua costumeira contração muscular, zombou
jactancioso e encolerizado:
–
Não se azucrine com o que vai presenciar agora, Terráqueo. Não
posso prolongar muito essa luta. Estou com pressa... para me apossar
de seu Planeta.
Seus
olhos, num estalo, brilharam fulminantes em furor súbito.
–
"Agora sim – pensou Jaime. – Chegou a minha vez. A peleja
vai começar de verdade.”
Em
autodomínio apagou seu pensamento. Empenhou-se em esboçar um
sorriso simpático, exclusivo para Lideucan, mas presumiu não ter
agradado. Jaime pensou voar em seu pescoço que se contraía e chutou
por baixo. Lideucan se abaixou. Jaime acertou-lhe em cheio e
descobriu que eles também sentem dor no meio das pernas. Jaime
menosprezou o adversário. O volumoso Lideucan se recuperou
instantaneamente e desfechou um violento soco em seu rosto, que nem
deu tempo de Jaime "pensar" em esquivar. Jaime procurou
chutar suas pernas, mas antes mesmo de atingi-lo Lideucan já
desviava e o acertava no abdome. Jaime afastou-se em passos laterais
e recomeçou o ataque com um acervo sortido de golpes imaginários.
Lideucan, todo desengonçado, não sabia como se resguardar, muito
menos para onde ir.
Quando
percebeu que tudo era falso, cruzou os braços, satiricamente
trocista, como quem vulgariza: "Já desvendei seu truque,
idiota". - E emitiu uma contração muscular diminuta e
tranquila.
Jaime
concubinou-se com seus pensamentos simulados partindo de pés juntos
no rosto do cafajeste, acertando-o em cheio. Subsequentemente lhe
passava uma rasteira. Retomou o pensamento anterior e executou-o.
Quando Lideucan atinou que não se tratava de mais uma intenção,
mas sim de um golpe real, já era tarde. Jaime chegava de pés juntos
no seu rosto, com um rabo de arraia composto, fazendo-o desmaiar.
O
Rei, descontraído, testificou:
–
Nossa! Eu não conhecia o poder dos Terráqueos. Que disputa! Foi uma
preciosa aula de técnica e autocontrole emocional. O último golpe
enganou até a mim!... Só os sábios usam a inteligência como arma
de combate à falsidade... isso é uma grande virtude.
Jaime
estranhou a admiração do Rei, porque, ao invés de se incomodar com
Peifil e Dailen, o elogiava. Não procedia como um Rei. Não se
abalara com a catástrofe. Dinjara também não, conservava-se
sentada no carro com um semblante que não se enquadrava no cenário
sinistro; esbanjava felicidade; nem se atreveu a socorrer o pai e o
noivo. Jaime não ficou lisonjeado com as palavras destoantes do Rei,
nem formulava conceito indulgente pelo desafeto e frieza com que se
comportavam perante a tétrica situação.
–
"Será que o homem que age como máquina, pensa como tal?"
– pensou enojado.
Jaime
sentia-se mal vendo os dois, impassíveis, diante da morte. Enquanto
os corpos de Peifil e Dailen, estendidos no chão, fumegavam, eles
batiam palmas. Talvez enfrentassem a morte assim: sem condolências,
nem lágrimas – simplesmente: irrelevante. Ou o impacto foi tão
terrificante que eles permaneciam abobados até agora? – inferia o
confuso Jaime, que se preocupou com o ferimento no braço, pois
continuava sangrando e doendo. Quando levantou a manga da camisa viu
que era mais sério do que pensava. O corte aberto estava arroxeado.
O Rei, folgazão, vem ao seu encontro. Jaime, com o outro braço,
apontou para os seus amigos. O Rei interpôs:
–
Calma, Jaime Brosso, primeiro vamos restabelecer o seu braço.
Pegou
um pequeno objeto em sua túnica e esguichou um líquido amarelado,
inodoro, sobre o ferimento. A região medicada tornou-se luzente,
quase acesa. Iniciou-se um processo de descoagulação. Jaime sente
uma pequena ardência. Emergem reflexos ondulares numa transfusão de
centelhas fosforescentes que encetaram uma costura pirótica,
fechando o corte de dentro para fora. O Rei aplicou mais outro
líquido esbranquiçado e prognosticou:
–
Pronto, Jaime, está curado... conte até dez.
O
ferimento foi sumindo, devolvendo à pele sua cor habitual. Jaime,
incréu, passa a mão, cuidadosamente, no local e não sente nada.
Está perfeito. Sem marca, nem dor. O Rei o investiga com ares de
psicólogo. Parece penetrar no espanto de Jaime. Garboso declara:
–
Somente quando somos exigidos é que conhecemos as nossas reais
habilidades. O deserto assombroso é formado por pequeninos grãos
inofensivos. – E sentenciou coerentemente: – Samjir Soebo será
resgatado e submetido a um tratamento rigoroso. Iur Senbur deverá
ser sumariamente destruído. Lideucan, Jermaso e Saluc irão à corte
marcial e serão condenados à morte. Não podemos mais tolerar que a
complacência de alguns coloque em perigo a segurança de todos.
O
Rei aponta para o alto do céu. Num estalar de dedos, três bolas
incandescentes surgem. Circulam a espaçonave. Desenvolvem movimentos
sincronizados. Apenas uma ingressa na nave e sem muita demora sai. As
outras duas a acompanham. Dinjara contempla Jaime boquiaberto.
–
"Incrível, elas têm vontade própria?!" – pensa ele
acanhado.
As
bolas se congregam e param a um metro do chão. Vão dando aparência
maior à luz. Gradativamente transmutam para estiletes e tremulam uma
imagem repleta de ondulações. Flutuam numa chapa pequena, de um
vidro límpido, que aumenta de tamanho e explode fracionando-se no
ar. Três vultos luminosos, idênticos a pessoas, alinham-se,
lentamente, por detrás dos fragmentos. Numa transfiguração
relâmpago, eclode a trindade apaziguadora da alma de Jaime: Peifil,
Dailen e Rodrigo, que, transbordando de alegria, salta correndo,
sorrindo e chorando joga-se nos braços do pai com veemência.
–
Pai... pai, que bom te ver!
Jaime
aperta-o num abraço ardoroso. Os olhos de Rodrigo reluzem a
felicidade saindo no meio das lágrimas. O coração de Jaime volta a
bater sem aquele aperto de instantes atrás. Não se conteve e, com a
alma expurgada num acalanto, consentiu que sua emoção também se
expressasse em pranto. Depois de muitos beijos molhados e abraços
apertados, Rodrigo pergunta, radiante, ainda soluçando:
–
Viu... pai, como... eu vim?
–
Vi e me... embasbaquei com vocês.
–
É legal pra caramba, pai! A gente voa e vê tudo lá do alto.
–
Que bom presenciar um desenlace assim! – emociona-se Dinjara
enxugando algumas lágrimas também.
Jaime
ainda olhava para os supostos cadáveres de Dailen e Peifil
carbonizados no chão. Resolveu silenciar, apenas desenhou um riso
brando nos lábios, aguardando que alguém explicasse a aparição
dos ressuscitados. Peifil observou que tudo estava em ordem e
agradeceu franco e escrupuloso:
–
Obrigado, Terráqueo Jaime Brosso, você fez muito mais que a sua
parte – olhou para o tubo caído no chão e completou. – O
vermelho, o verde...
–
É!... E graças a você – arrematou Jaime aliviado.
O
Rei, inteligível, elucidou confiante:
–
Lideucan tinha dois planos... nós tínhamos vinte. Caso você
falhasse, eles não desceriam aqui, mas sim dentro da nave. – O Rei
notava a incredulidade de Jaime. – Você está se interrogando como
tudo isso foi possível. Viu Peifil e Dailen serem mortos e em
seguida aparecerem vivos.
–
Estava. – Confirmou Jaime. – Não estou mais – fez até uma
fisionomia de sabido. Julgou que, por não pressuporem a existência
da alma, recorriam a dublês de corpos quando havia uma ameaça
iminente de morte e arriscou em sofisma. – Essas cobaias que
morreram... devem ser... ou eram... simples clones.
–
Quase que você acertou, meu preclaro Jaime Brosso – gracejou o Rei
pela feição cômica de Jaime. – Aqui a clonagem é proibida há
milênios. A semelhança com Peifil e Dailen foi proposital, só para
ludibriar Lideucan. Essas duplicações só podem ser feitas com
autorização do Sistema Comunitário.
–
Duplicações?! Assim como nós tiramos cópias em papel... vocês
fabricam... réplicas humanas?! – inquiriu Jaime intrigado.
–
Nem tanto, Jaime. Quase isso – retrucou o Rei. – Grande parte é
robotizada. A concepção de autonomia do robô ainda é um...
metódico controle remoto programável. Não desvendamos a
complexidade do raciocínio sentimental de nosso cérebro.
Jaime
interveio. Afinal ele começava a se avaliar, de fato, importante
dentro daquele "Sistema Comunitário". E foi petulante:
–
Acho que o que vocês almejam identificar na "autonomia"
nós batizamos de "alma". Isso é algo Divino... Não
compreendo vocês. O robô só faz o que é programado. Por que
anseiam que ocorra um milagre?... Isso também requer intervenção
Divina.
O
Rei olhou para os lados precavendo-se. Colocou as mãos sobre os
ombros de Jaime e desviou o assunto:
–
Jaime, tudo o que você viu aqui é sigilo da segurança do Sistema
Comunitário. Poucos sabem que possuímos o domínio dessa
tecnologia.
–
Por mim continuará em segredo – mencionou Jaime sem ter dúvidas.
–
Disso eu tenho certeza – afirmou o Rei e lembrou. – Ah, foram
eles que elevaram vocês, invisíveis, até a nave... lá na Terra.
–
Eles estavam lá?
–
Sim. São quase humanos... só não sangram.
Carros
e mais carros ancoram no céu. Depois pousam em sequência e os
clausestres vão formando filas gigantescas. A notícia se
alastrou mais veloz que o pensamento. E como se cada um já tivesse o
seu lugar previamente definido, rapidamente, um cortejo pomposo
organizou-se para a partida dos Terráqueos.
Dinjara
desceu do carro, acenou para Dailen e veio ao encontro de Jaime
reconhecendo com certa inibição:
–
Posso propagar que... num ato heroico de bravura e destemor, você
salvou meu pai, meu noivo e restituiu a Pirâmide ao Rei Ojes.
Portanto, se o Rei permitir, desejo homenageá-lo com uma
condecoração, como era o costume antigo em nosso Planeta... com o
Colar de Claus.
O
Rei fez um gesto de concordância com os termos enfáticos de
Dinjara. Ela removeu um colar de seu pescoço, contendo alguns
objetos pendurados e colocou em Jaime. Segurou suas mãos e falou
baixinho:
–
Este colar foi feito por mim, use-o Jaime, assim não me esquecerá,
porque eu nunca o esquecerei. Será a sua proteção, o seu talismã
e o nosso segredo, pois toda essa história não poderá ser revelada
a ninguém – e deu um leve beijo na boca de Jaime divulgando para
todos ouvirem. – O nome do meu primeiro filho será: Jaime, o
segundo: Rodrigo.
Jaime
precisava retribuir tanta gentileza. Pegou o vidro de perfume que
comprara para Maria Lúcia e ofereceu para Dinjara.
–
Gostaria que você aceitasse isso.
Dinjara
recusou-o de imediato, pois sabia que não fora adquirido para ela.
Jaime insistiu e acrescentou:
–
É o "cheiro gostoso". Fique com ele. Minha sobrinha
entenderá. Aliás, nem vou contar para ela... mesmo porque não
posso e... também não iria acreditar.
–
Obrigada – manifestou Dinjara com gratidão –, só vou usar em
ocasiões especiais.
Rodrigo
não se conteve.
–
E Maria Lúcia, pai?
–
A gente compra outro... lá na Terra.
Jaime
recordou que Dinjara recitara uma poesia, e ele escrevera algumas
estrofes pela manhã durante o expediente. Embora a inspiração lhe
visitara num desafogo, hipotético, de um descerramento fatídico,
Jaime julgou que talvez ela gostasse deste estilo.
–
Dinjara, aceite mais uma coisa – esticou-lhe a folha dobrada.
Ela
abriu e saltitou contente:
–
Uma poesia!... Exclusiva para mim?! Vou ler agora mesmo...
–
Não, Dinjara. Leia quando estiver sozin...
–
Quero compartilhar este momento com todos, Jaime. Afinal... é uma
poesia interplanetária.
Dinjara,
como se algo preenchesse seu coração, desabafou olhando fixo em
Jaime:
–
Agora começo a experimentar, na amplitude, o que significa...
saudade.
Dinjara,
sensibilizada, limpou a garganta e leu com ênfase:
ORAÇÃO
DA DESPEDIDA
A
ti que vieste e me encheste de ilusão,
Ilusão
em promessas do derradeiro ardor,
Ardor
que me tornou um ser sem compaixão,
Compaixão
de um mísero escravo do amor.
Amor
que maltrata um apaixonado coração,
Coração
que bate apressado em amargor,
Amargor
que transborda em pura emoção,
Emoção
que alimenta um pobre sofredor.
Sofredor
que no peito difunde lágrimas,
Lágrimas
que infiltram no ressequido chão,
Chão
Divino que recebe a bendita semente,
Semente
que germina o Abençoado Pão.
Pão
que dá forças ao pecador descrente,
Descrente
que agradece em curta oração,
Oração
que chega aos ouvidos de Deus,
Deus
benevolente que concede o perdão.
Perdão
que de joelhos te rogo em súplica,
Súplica
de fé para que me estendas a mão,
Mão
gélida que pede vida à Santa do altar,
Altar
em que morta estás... imploro em vão.
–
Adorei, Jaime! – vibrou Dinjara. – É bem melancólica. Eu gosto
assim.
O
Rei suspirou aprobativo e abriu os braços enaltecendo Jaime:
–
Você foi o herói de hoje, Jaime Brosso. Eu desconhecia esse seu
dote poético. Gostaríamos de promover uma festa, mas dado a tantos
transtornos turbulentos, é melhor marcarmos este dia com uma
diretriz abrangente. Vou propor ao SETI - Setor Especializado em
Tecnologia Interplanetária - o cancelamento de toda e qualquer
pesquisa após o Grande Vazio. Hoje poderíamos ter originado um
acidente de proporções e consequências incalculáveis. Embora a
maioria das descobertas benignas foi antecedida por algum fracasso,
não devemos nos envolver no seguimento evolutivo dos Planetas fora
do Sistema Comunitário.
Dailen,
meio envergonhado, o que não lhe era peculiar, se avizinhou de Jaime
e falou cabisbaixo:
–
Eu quero agradecer também, Jaime. Você salvou a nós todos e,
essencialmente, a honra do Planeta Claus. Saiba que eu aprovo o que
Dinjara prometeu... é motivo de orgulho para mim. E lhe digo mais: a
verdadeira amizade não requer a presença constante para que se
eternize.
Jaime
imaginou que Dailen se comportava assim devido ao fato de sua noiva
tê-lo beijado em público, por isso abraçou-se a ele, precisava
contar um segredo ignorado pelo insensível "Sistema
Comunitário". E no abraço aconselhou bem soletrado, ao seu
ouvido:
–
Dailen, na primeira oportunidade que tiver... carregue Dinjara no
colo.
Dailen
dissimulou encalistrado. Após olhar para Jaime e ler-lhe o
pensamento, desencabulou. Confirmou com a cabeça. Voltou a ser o
mesmo Dailen desinibido e de humor salutar. Bradou estimulante:
–
Um "viva" aos nossos amigos Terráqueos!!
O
que foi, espontaneamente, acatado por todos.
O
Rei, com o braço sobre os ombros de Dinjara e numa desconcentração
total, ordenou calmamente:
–
Peifil e Dailen, levem os nossos ilustres visitantes de retorno ao
seu Planeta e o façam como se nada tivesse acontecido – pensou e
complementou. – Afinal de contas... nada de visível ou palpável
sobreviveu.
O
Rei dirigiu-se para Jaime. Depois para Rodrigo. Estendeu a sua mão
pequena para ambos e se despediu:
–
Adeus. Lamento por vocês não poderem desfrutar do nosso
amanhecer... Temos treze sóis.
–
Treze sóis!! – exclamou Jaime.
–
Isso para vocês seria um espetáculo. Porém o traço do destino não
deve ser forçado, ele nos ensina muito, temos que aprender com ele
ou nos lastimaremos no futuro – e cogitou num tom reparador. –
Quem sabe um dia? O avanço tecnológico é rápido... e de
progressão imprevisível.
Peifil
e Dailen encaminham-se para a nave. Jaime, segurando Rodrigo pela
mão, passo a passo, lento, vai andando de costas, olhando para a
multidão. Rodrigo dá um cutucão no pai e comenta sorridente:
–
Pai, joguei um game supimpa lá no Palácio. A gente interage de
verdade. Parece que estamos dentro do jogo. Tinha dois meninos
jogando comigo. Cara!... dá medo! Matei um montão de bichos
esquisitos. Tinha até uma hidra com dentes afiados e...
–
Hidra? – redarguiu Jaime interrompendo. – E se eu lhe disser que
lutei com duas agorinha?
–
Ah! sim... corajoso. Pai, a hidra era...
–
Tá bom, filho, em casa você me conta. Agora temos que embarcar –
Jaime ajeitou o topete desalinhado do filho e não resistiu; troçou:
–
Porque se você demorar, por aqui mesmo vou lhe deixar e quando sua
mãe questionar...
–
“Hiii!... pai, aqui não, por favor” – resmungou Rodrigo.
-
É filho, sou obrigado... a concordar, serei antiquado... se
perseverar.
Rodrigo
ficou calado com receio de que Jaime prosseguisse na brincadeira.
Chegaram
aos degraus invisíveis da nave e subiram. Jaime experimentou até um
pouquinho de desalento por estar indo embora. Do alto, acenaram para
todos, que, numa voz uníssona, responderam:
–
Adeus, amigos Terráqueos – e continuaram acenando.
Aquilo
arrepiou Jaime. Considerou que era o derradeiro arrepio de uma
alucinação que chegava ao fim. A porta da nave se fecha por
completo. Peifil ofereceu para Jaime uma vestimenta limpa, para que
ele a usasse, enquanto a dele, imunda, era lavada. Ao enfronhar-se na
camisa apertada e na calça colante de bailarino, Jaime se sentiu
desconfortável. Principalmente pela trouxa que se amontoou a um
palmo abaixo do umbigo. Certamente, se lhe fosse oferecida antes, ele
a recusaria, pois iria morrer de vergonha frente à Dinjara e ao Rei.
Rodrigo aproveitou-se da nova indumentária do pai.
–
Ainda bem que mamãe não está vendo, pai. Ela ia se pocar de tanto
rir. Que coisa mais ridícula! – Rodrigo, chacoteador, tampava a
boca e ria descaradamente.
Jaime
não contestou; porque aquele traje, vexatório, realmente não
combinava com ele.
Peifil
e Dailen conversaram em sua língua por um bom período. Peifil, com
um sorriso largo na face benfazeja, informa:
–
Jaime, lhe daremos uma pequena retribuição pelo que você fez por
nós. O Rei nos autorizou...
–
Nós... andaremos no tempo e lhe... ensejaremos o amanhecer em Claus
– propalou Dailen. – E sem restrições.
Jaime
despeja-se no primeiro tamborete que vê. Seus neurônios
descarrilam.
–
Vocês andam... no tempo... nessa nave?! – perscrutou céptico e
balbuciou paradoxal. – Como alguém pode ler o que ainda não foi
escrito?!
Rodrigo
cutucou o pai como se ele não devesse agir daquela maneira tão
boba.
–
Sim, senhor Jaime Brosso. Só não pense que aqui é a fonte da
juventude eterna – escarneceu Dailen.
Jaime,
no apogeu da realização impossível, persiste sem se importar com a
redundância:
–
Vocês voltam para trás e caminham para a frente?
–
Bem, também não é simples assim... – salientou Peifil com ar
reticencioso. – Existem inúmeros mistérios... regras...
condicionantes. Não podemos ir muito longe... mergulhamos num abismo
inexistente. A máquina tem limites.
–
Conseguem interferir nos acontecimentos?!
–
Não, Jaime, somos meros telespectadores diante de um televisor que
exibe um vídeo velho ou ainda não filmado.
–
Como assim?! – perquiriu Jaime na esperança de ter esclarecida a
sua decepção.
Peifil
e Dailen se entreolharam em cumplicidade. Sobrevoava entre eles uma
encenação expectante. Dailen, simpático e benévolo, assentiu:
–
Pode explanar tudo para ele, Peifil. O Rei referendou que... nada
sucedeu – e deu de ombros.
–
Jaime, sair do presente é como contemplar a vida por uma janela
fechada. Não podemos abri-la. Porque, se a abrirmos, ultrapassaremos
as fronteiras da lógica transcendental... isto é, nós não
entraremos no circuito... ele é que entrará em nós. Por não
pertencermos a ele... simplesmente desintegraremos.
A
curiosidade de Jaime aguçou:
–
Qual a velocidade que vocês desenvolvem...?
–
Ora, Jaime, não estamos nos referindo a “andar no tempo”?
Jaime
sacudiu a cabeça, asseverando ansioso, na espera de uma revelação
inverossímil.
–
Basta você ter uma máquina que viaje a uma velocidade acima da
dele!
As
teorias de Jaime rodaram como um pião perereca. Não sabia qual era
a sua expressão ante o disparate. Mas Rodrigo o cutucou novamente.
Jaime não aportou numa conclusão óbvia e, com astúcia, disfarçou:
–
Faz sentido... – seus miolos, bestificados, divagaram desarmônicos.
Por fim rendeu-se. – É muito louco... a massa cefálica não
equaciona... o princípio, a extremidade, o enredamento é...
inalcançável.
–
Sim, Jaime, é muito louco mesmo – intrometeu-se Dailen acabando
com a festa e decretando para Peifil: – Chega de conversa mole e
vamos trabalhar, senão nossos cálculos estouram.
Dailen
e Peifil concentraram-se na cerimônia das digitações e a nave alça
voo.
–
Tudo preparado para partir – comunica Peifil.
Os
quatro sentaram-se nas poltronas e aguardaram a contagem regressiva
executada num painel. Jaime digladia para pôr a cachola em ordem
racional. Ouve um ruído alto de turbina. O ambiente é envolto numa
trepidação suave. O corpo vai ficando dormente e aos poucos apaga
tudo na mente. Num estalo ensurdecedor, um raio cai dentro da nave.
Jaime e Rodrigo se assustam ao dar de frente com os treze sóis, numa
aproximação gradual.
–
Com mil caracóis!!... Isso é fugir do presente!? – balbuciou
Jaime, pasmado, para o seu traje apertado. No entanto, Peifil ouviu.
–
É, Jaime. Estamos vendo o que ainda vai ser. Poderia ser o último
minuto de um jogo de futebol que ainda nem teve a data marcada.
–
Nossa!... Para mim isso é incoerente – assegurou Jaime atoleimado.
–
Às vezes, para mim também, Jaime – declarou Peifil num sorriso
amistoso.
Rodrigo
não só contava os astros, como prestava atenção à conversa, pois
indagou ávido, com ar detetivesco:
–
Quer dizer que se alguém encontrar um elemento morto... pode ver o
assassino?
–
Acertando o exato momento, sim – respondeu Peifil boquiaberto com a
sagacidade dele.
Rodrigo,
esfuziante, recomeçou a contagem, conferindo se eram treze.
–
Treze... tá certo!
Eram
treze bolas abrasantes. Redondas, alinhadas no horizonte. As luzes
dos sóis ainda não ofuscavam os olhos, assim, dava para encará-los.
O menor deles se assemelhava ao da Terra. O maior equivalia a sete
vezes mais, em uma distância bem menor. Tão perto que dava para
ver, no seu núcleo, uma espiral em lavas se mexendo.
Peifil
e Dailen, em vez de admirarem os sóis, olhavam os Terráqueos que se
embriagavam, num deslumbramento notório, diante da paisagem nunca
vislumbrada. Realizavam-se em êxtase. Rodrigo extrapolava eufórico,
não tinha mais casa nem mãe, apenas participava de uma viagem
turística interplanetária.
–
Vocês tiveram a primazia de deleitarem-se com os vinte e três
segundos mais bonitos do alvorecer de Claus – mencionou Peifil
satisfeito. – Agora temos de partir, porque a temperatura vai
esquentar.
Aquela
paisagem inebriante foi ficando para trás até desaparecer do
alcance das vistas de todos. Dailen pediu que colocassem os óculos e
o capacete, pois o processo de retorno iria iniciar. Jaime sentia-se
leve com a lembrança dos sóis que despontavam no horizonte. Após
um brilho intenso, tudo escureceu. Coçou o couro cabeludo. Passou a
mão pelo rosto. Um zumbido incômodo atormentava seus ouvidos.
–
Turbina danada – resmungou de olhos fechados.
Virou-se
e bateu na cabeça de Rodrigo, devido à mochila, nas costas, ter lhe
desequilibrado. Abriu os olhos passivamente. Torceu o pescoço em
articulações e deslocamentos relaxantes. Assombrou-se:
–
"Estou dormindo!... De dia!.. Dentro de um ônibus? E Rodrigo
também?"
Esquadrinhou
enigmático ao redor. Estava vendo meio embaçado. Alguns passageiros
conversavam, espantados, apontando para eles sem ao menos
despistarem. Jaime, entre mil reminiscências retesadas, num
anacronismo cerebral avivado, tentava se situar no recinto.
–
"Meu Deus! O que é isso? O que faço nesse ônibus?!... Não
acordei em minha cama?... Nunca dormi à tarde! Será que agora é
que eu estou sonhando?"
Veio-lhe
na memória um ponteiro que retrocedia. Procurou ligeiro o relógio
no pulso.
–
"Quatorze horas e vinte minutos.”
Jaime
passou os olhos para o calendário sem sobressalto, já que o horário
estava correto.
–
"Confere... É hoje mesmo. Fui ao banco. Acertei o
financiamento... e saí com Rodrigo... Perfumaria. Como dormi? Por
que estou cismado?... A nuvem branca!... Que nuvem?"
Jaime
ergueu a perna direita em cãibras. Passou a mão no vidro empoeirado
para ver lá fora. A paisagem permaneceu embaçada. Ajeitou os
óculos, porém, não adiantou.
–
“Devo ter sujado meus óculos” - retirou-os para limpá-los e o
céu se revelou azul e límpido. – "Meu Deus!... Vejo longe...
nitidamente... sem os óculos?! Estou sonhando mesmo!" -
Automatizado colocou os óculos no bolso. – "Só encontro essa
justificativa... é tanta besteira que... Fui sequestrado com
Rodrigo?!... Opa!!... Este lugar é estranho. Este ônibus também.”
Jaime
notou que as ruas eram desconhecidas. Veio uma nova inquietação
seguida de um calafrio percorrendo o corpo inteiro.
–
"Oh, não, vai desencadear tudo de novo? Não, por favor, não.
Não posso permitir... já padeci demais no pesadelo anterior.”
–
Motorista – falou com a garganta meio seca –, que ônibus é
esse?
O
motorista inclinou-se focalizando o retrovisor interno a fim de
identificar o autor da pergunta e, mesmo sem conseguir, retorquiu com
a educação que conhecia:
–
Pô, meu... você não leu a bandeira?
Como
Jaime poderia culpar alguém por algo que nem ele mesmo explicava? O
motorista tinha razão. Ele estava dentro de um ônibus. Devia ter
embarcado em algum ponto da Avenida Beira-Mar.
–
"Só que não me lembro disso" – amargou Jaime impotente.
Também
não podia ficar sentado ali parado. Agitou Rodrigo pelos ombros.
– Rodrigo... – nada. – Rodrigo, acorda!
Rodrigo
espreguiçou-se, contorceu-se como se estivesse em sua cama e
resmungou:
–
Ainda é cedo. Só mais um pouquinho.
–
Vamos saltar. Pegamos o ônibus errado, filho.
Jaime
puxou o sinal. Arrastou Rodrigo pelo braço que, sonolento, veio
cambaleando.
–
Pai, que foi?!
Saltaram
do ônibus e Jaime, com o olhar atento, rebuscava no espaço físico
e psíquico de sua memória entorpecida se já haviam atravessado a
ponte. Rodrigo, com o cabelo todo desgrenhado, esfregava os olhos se
dando conta que estava numa calçada.
–
Como vim parar aqui, pai?
Jaime
investigou cauteloso e indeciso:
–
Rodrigo, você dormiu?... Sonhou alguma maluquice?
–
Acho que dormi, só não sonhei. Não embarcamos no ponto do
Porto?... Pai, eu não entrei nesse ônibus...!
Jaime
pensou em admitir que ele também não, mas isso só iria complicar a
situação. Resolveu assumir a ampla culpa.
–
É filho, presumo que dei bobeira. Cochilei duas vezes.
Jaime
empenhou-se em se localizar. Ao avistar o Convento da Penha viu que
não estava perdido. Porém sua casa ficava do lado oposto, distante
uns dois quilômetros. Poderia ir a pé, mas o joelho, com certeza,
não resistiria.
–
"Preciso tomar coragem e operar essa porcaria de menisco.” -
Jaime sacudiu a perna. Sentiu o membro diferente. Ajeitou a mochila
de Rodrigo nas costas e resolveu arriscar. – Rodrigo, você topa ir
para casa andando? Estamos perto.
Saíram
caminhando e os pensamentos incorporaram em Jaime.
–
"Será que foi só um delírio febril extravagante?... Rodrigo
estava comigo. Caramba!... Estou vendo tudo muito bem sem meus
óculos!... Será que continuo sonhando?”
Procurou
debulhar as minúcias, contudo elas vinham enevoadas e apagavam. Um
termo veio-lhe à cabeça e escapou pela boca:
–
Dinjara!...
–
O que foi, pai? – interrogou Rodrigo distraído.
–
Nada, filho. Estou... estou... Coisa minha. "Dinjara... nome
escalafobético. Ela prometeu que eu não iria esquecê-la. Só me
recordo desse detalhe... vagamente... e o aniversário de..." -
estabanado, bateu a mão no bolso. – Droga!... Perdi o presente de
Maria Lúcia... e a minha caneta também! – Jaime notou o corte na
manga. – Ainda por cima rasguei a camisa naquele ônibus!
–
Hi! pai... e agora?
–
Rodrigo, você tem certeza que não sonhou com nada?
–
De novo, pai?!... Já disse que não.
–
Nem jogou videogame?... Serpentes? Raios? Perfume? Cipós?! Armas!
Punhal! Sóis! – Jaime reproduzia as imagens que piscavam em sua
cabeça, mas não sintonizavam nem por um segundo.
–
Tá maluco?!... Afinal o que aconteceu, pai?
Jaime
não respondeu, já que, novamente, não tinha explicações nem para
si.
–
Sem presente não podemos ir ao aniversário, Rodrigo.
–
Caramba! Mais essa agora?... Eu quero ir.
Rodrigo
manifestou-se deveras agastado. Saiu andando na frente, emburrado,
batendo os pés em pirraça. Jaime permaneceu absorto, remoendo,
concatenando os pedaços de um quadro que se reproduzia e espatifava
de imediato.
–
"Foi muito real. Muito vivo. Só uma... alcunha... incomum...
Dinjara... não é o bastante.” – inconformava-se Jaime. – "Era
um lugar longínquo... Não adianta, só vejo fragmentos sem forma...
há um bloqueio no cérebro. Espere!... Ela me agraciou com... um...
um cordão!!"
Quando
Jaime bateu a mão no peito e sentiu aquele cordão sob a camisa, com
alguns objetos pendurados, ele não teve mais dúvida.
–
"Não estamos sozinhos!... Há muitos enigmas ainda para serem
elucidados entre o céu e a Terra.”
Jaime,
com a mão trêmula, olhos arregalados, pegou o cordão. Observou os
três penduricalhos que estavam argolados. O primeiro era o desenho
de um palácio; o segundo, uma pirâmide, e o terceiro mais parecia
metade de uma bolinha de gude. Tocou na bolinha e teve a sensação
de que alguém respirava no seu cangote. Num lampejo de memória, ele
rompeu o invólucro mental em clareza contundente:
–
“Peifil, Dailen, Dinjara, o Rei Ojes!... Meu Deus!... E eles não
creem em Vós” – todas as vicissitudes decorridas naquele
panorama pedregoso tornaram-se reais. – "Monarquia
Igualitária... Fui condecorado com o Colar de Claus! Dinjara
me deu este... sensor?!... Estou sendo monitorado?!... Que peripécia
descabida! Que despautério!... Ufologia!... OVNI... Alienígenas...
que julguei crendices. Universos vizinhos! Onde já se viu?... Meu
Deus!... Viajei no tempo!... Ninguém vai me dar trela. Vão caçoar
de mim... charlando que acredito em duende, Papai Noel, mula sem
cabeça... Espere!... Dinjara recomendou que eu não contasse pra
ninguém. Recebi isso como uma medalha de honra. Não posso
desapontá-los. Essa será mais uma de minhas aventuras sem
testemunha. Caramba!... Li, que levaríamos em torno de 60 mil anos
para chegarmos a um Planeta da estrela mais próxima da Terra. Como
regressei em apenas vinte minutos... se fui... além do
desconhecido?!... Ah!... O Grande Vazio... é mesmo um Divisor do
Tempo?!... Retorna ao exato momento em que se penetrou nele?!...
Jaime
não dimensionava o que isso representava e matutou:
–
“Pelo visto apagaram tudo da cabeça de Rodrigo. Eles me
operaram!... Estou enxergando normalmente e meu joelho está
recuperado. Nem vou aparecer no ortopedista... e trocarei de
oftalmologista.”
Jaime
guardou o cordão e saiu correndo para alcançar Rodrigo, pois
desconfiou que não receberia réplica alguma para o seu desassossego
premente e que jamais entenderia o que realmente lhe sucedera nessa
tarde.
–
Espere por mim, Campeão – grita para o filho.
Rodrigo
nem lhe dá atenção.
–
Espere aí... medalha de ouro.
Rodrigo
parou e voltou num andar compassado, apático, se desculpando
encabulado:
–
Foi mal, pai. Desculpa aí, vai?
–
Sem ressentimentos, filhão.
Jaime
curvou-se para abraçá-lo.
–
Pai, você comprou artesanato? – inquiriu Rodrigo ao avistar o
cordão no pescoço de Jaime.
–
Ãh... Sim... um artesão... vendia isso...
Rodrigo
pegou no cordão. Jaime expectou-se temeroso.
–
Parece bem feitinho, pai – e comentou. - Mas são só três
bugigangas sem valor.
Jaime
respirou.
–
É, filho. Comprei para... ajudar o rapaz. Você sabe que muitos
vivem de...
–
Ah, pai – atalhou Rodrigo abaixando a mochila do ombro de Jaime –,
me deixa apanhar a minha caderneta de anotações. A professora
Lucíola escreveu umas frases interessantes no quadro... do feitio
que você gosta. Ela disse que é para cativar o espírito... e eu
copiei.
Rodrigo,
animado, abriu o zíper da mochila e pegou sua caderneta.
–
Escuta essa, pai: os sonhos não envelhecem porque a cada dia que
passa nós os aperfeiçoamos.
–
Bonito isso, filho! É de quem?
–
Ela disse que é dela. Tem outra melhor: a felicidade sempre vem
ao nosso encontro, nós é que, na maioria das vezes, desviamos dela.
–
Também é muito boa, mas para o meu gosto ainda ganha a primeira.
–
Espera, pai, ainda tem mais uma. Nessa eu me amarrei de montão...
escuta: quando o amor está presente... a alma levita.
–
Já descobri tudo, Campeão... você está de rabicho preso...
apaixonado por alguma menininha daquele colégio...!
–
Ô pai, eu não tenho namorada – reclamou Rodrigo, acabrunhado,
guardando a caderneta.
Porém,
num piscar de olhos, ele mudou de ares. Estufou o peito e se mostrou
entusiasmado. Jaime esperou mais uma de suas proezas, mirabolantes,
da hora do recreio.
–
Pai, fiz um golaço incrível na pelada de hoje. Chutei assim, ó...
de trivela. A bola pegou um efeito anormal... enganou o goleiro,
bateu na trave e entrou. A turma ficou de água na boca.
–
Muito bom "Ronaldinho"... sempre contando suas vantagens,
né?... Seu perna de pau!
–
Não tá acreditando em mim? Pergunta pro xará quando ele for lá em
casa... ele viu – defendeu-se Rodrigo com vivacidade.
Jaime
teve certeza que seus amigos do espaço varreram as lembranças do
cérebro de seu filho e brincou:
–
Eu vou averiguar... e se ele negar... será o seu fim... um castigo
vou lhe aplicar... para você nunca mais inventar... estórias falsas
assim.
–
Oh! pai... para com isso, vai? – retraiu-se com um sorriso contido.
– Sabe pai, vou ser arqueólogo. Fazer escavações nas pirâmides
do Egito e casarões abandonados...
–
Por que você não estuda astronomia?
Jaime
fingiu dar-lhe um beliscão na barriga. Rodrigo esquivou-se sorrindo,
e abreviou:
–
Muito chato. Não tem nada além do céu!...
Jaime
abraçou-se a ele, colocou a mão sobre seu ombro e foram andando
para casa, despreocupados.
Jaime
Brosso, renovado, disfarçadamente procurava no céu... uma nuvem
branca.
fim
POSFÁCIO:
UM
ALERTA.
Estamos
"acostumados" a assistir nas salas dos cinemas
refrigerados, mescladas aos sons estridentes, cenas em que criaturas
de outros Planetas invadem a Terra com armas poderosíssimas; ou,
então, com raquíticos raios de uma luz opaca, porém que nos
aniquilam facilmente.
“Habitualmente”
eles chegam de três maneiras: a primeira – vagarosamente, com
estratégias de ataque para serem decifradas como um complicado
quebra-cabeça. A segunda – deixam indícios, obscuros e
indubitáveis, de uma presença sobrenatural bem perto de nós; e a
terceira – bem, a terceira é assim: aparecem, repentinamente, do
nada, com milhares de OVICI - Objetos Voadores
Identificados Como Inimigos – matando, saqueando e destruindo
tudo o que encontram pela frente.
Após
assistirmos à destruição de mais da metade das sete maravilhas
modernas de nosso querido Planeta Terra e constatarmos que tudo está
perdido, que seremos massacrados como cordeirinhos... que só nos
resta rezar... Eis que surge alguém que, geralmente sem querer,
descobre que xixi de recém-nascido e a nota musical sol, acompanhada
por uma determinada batida num vergalhão enferrujado, transformam-se
num veneno mortal para os invasores horripilantes.
Destemido,
nosso pacato cidadão sai para as ruas vaporizando xixi de
recém-nascido ao vento, batendo num ferro qualquer – seguido por
outros bravos Terráqueos que executam, num pequeno instrumento de
sopro, a salvadora nota musical.
Torcemos,
sem pestanejar, por esses valentes atores, herói-cômicos, que,
audazes, salvam o Planeta Terra de mais uma invasão de alienígenas
perversos, e nos fazem vibrar, ao presenciarmos o desenlace, quando
suas cabeçorras horríveis explodem, lançando nos para-brisas dos
carros, nas vidraças das casas e sobre as calçadas, uma meleca
rosa-maravilha – que deu muito trabalho aos contrarregras para
equacionarem a receita certa – numa mistura gosmenta de corantes e
centenas de tintas coloridas antitóxica, associadas a vegetais
triturados no liquidificador.
Talvez
um dia a Terra venha, sim, a ser atacada por seres quiméricos
evoluidíssimos. Entretanto, quando isto ocorrer, é porque
necessitam de cobaias para experimentos científicos ou escravos para
serviços pesados. Quiçá se não forem antropófagos em busca de
alimento pelo espaço sideral.
Felizes
os que aqui não estiverem.
