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sexta-feira

..Editado conforme Novo Acordo Ortográfico Brasileiro



                                        J O S E M A R   B O S I


                                                  A L É M

                                                    D O

                                      D E S C O N H E C I D O




A desonestidade pode nos levar à (a) riqueza,
mas nunca à (a) felicidade.



DEDICATÓRIA

Este livro é dedicado a todos os

Terráqueos que, de alguma forma,

contribuem para a defesa de nossa

Mãe Natureza, quiçá, nossa Deusa.



Concepção da capa:
Lucas Leal Bosi

Revisão Ortográfica:
Márcio Magno Ribeiro de Melo



PREFÁCIO

UM LEMBRETE E... UMA CATÁSTROFE

O LEMBRETE

Para uma rápida elucidação, vamos nos concentrar na era da "invenção" dos ideogramas, que, praticamente, deram início à escrita: os hieróglifos – hiero: sagrado; glyfus: escrita –, que são as primeiras "marcas" semânticas criptográficas de um inovador “ABCDário” - criado por um ignoto gênio da literatura “pós pedra lascada e muito bem polida”. Dizem os estudiosos do assunto, desta prima expressão gráfica de diversos idiomas dispersos, que era assim mesmo que empregavam os símbolos; suprimiam tudo que não fosse necessário à compreensão do texto.
Ponteiros e marretas, arcaicos, fizeram mãos calejadas deixarem mensagens em desenhos cuidadosamente elaborados, ao custo de muitas gotas de sangue, nas duras rochas. Esculpiam para que, num futuro improvável, outros povos conseguissem decifrar, através daqueles sinais cunhados pelas batidas resvaladas em lascas de pedras – que a muitos cegaram –, a história do desenvolvimento humano.
Inúmeras dessas páginas, que adornavam as bordas dos quadros de figuras excêntricas, se desgastaram nas intempéries da natureza. Outras tantas foram destruídas por serem consideradas, na época, portadoras de conteúdo pagão e conterem sacrilégios. Porém, muitas delas se preservaram das maldições nos memoráveis templos da antiguidade. Escaparam das lutas bárbaras desbravadas pelo poder e foram lidas, com algumas incorreções, após milênios, que, de seus autores, nem os cabelos restavam nas tumbas violadas.
Todo esforço e risco empreendidos na transliteração de tais códices pétreos se prendiam a dois fatores essenciais: o primeiro – de alguns raros interessados em resgatar uma cultura perdida –, e o segundo – de muitos gananciosos à procura de inscrições que revelassem tesouros enterrados nos túmulos e sarcófagos, camuflados nos inumeráveis corredores misteriosos das pirâmides e dos monumentos.
Não pense o moderno Leitor que o nosso episódio se desenrola no subterrâneo de um passado longínquo; esboçamos apenas, numa pincelada, a lembrança de que devemos quase todo o nosso conhecimento universal ao eminente autor desses entalhes à mão livre, que, embora esdrúxulos e cujo discernimento de lê-los e escrevê-los ficou restrito a poucos, atravessaram eras conturbadíssimas.

A CATÁSTROFE

Para exercitar nossos neurônios empoeirados, retrocederemos, embaralhando o tempo, para muito distante daqui... Há uns dezenove, trinta e oito, quarenta e sete, sessenta e cinco milhões de anos.
Animais pastam livremente. Outros disputam a sobrevivência na cadeia alimentar. A natureza é fértil e virgem. De repente, os prodigiosos dinossauros se assustam. Marsupiais correm desorientados. Mamutes em debandada atropelam-se. Pássaros voam sem direção. A bicharada, enlouquecida, estoura numa fuga desesperadora.
Uma chuva de enormes meteoros incandescentes desaba do Universo. Arrasa florestas, desvia rios, extermina lagos, transfigura o panorama natural.
Os pobres animais não têm nenhuma defesa e são abatidos cruelmente, ante o inimigo mortal.
Um gigantesco meteoro, descontrolado, surge a toda velocidade. Choca-se com força em águas profundas do oceano que, amortecendo o impacto, faz com que as areias das profundezas venham à superfície e formem um incomensurável deserto, sem vida, na crosta terrestre. Com o abalroamento, abrem-se rachaduras no solo jorrando lavas para o espaço, que retornam solidificadas, elevando colossais cordilheiras e penhascos pontiagudos.
Depois do cataclismo reina um silêncio mortuário sobre o Planeta fumegante, que acabara de mudar, ab-ruptamente, a carta geográfica da era mesozoica.
- Será que, a princípio, Deus não gostou daquilo que criou?!
A chuva de meteoros percorre mais alguns milhões de anos pelo Universo infinito, até encontrar outro Sistema de seres vivos. Um povo civilizado e evoluído comemora, com uma grande festa, a virada de mais um milionésimo em seu calendário.
Subitamente, o dia fecha-se em noite. Do alto do céu desponta a tempestade torrencial de meteoros e, novamente, a mesma cena lacerante se repete. Desta vez, são enormes blocos de montanhas, algumas em brasa viva, que penetram pelo solo adentro levando para o fundo o que deparam pela frente. Homens, mulheres e crianças tombam, alvos das pedras velozes e impiedosas. Enquanto uns correm à procura de abrigo, outros saem numa fuga louca, em disparada, com suas espaçonaves que cortam o céu e desaparecem rápidas por entre as nuvens.
Vários planetas não suportam a colisão brutal das volumosas pedras e explodem em chamas. Despedaçados, passam a compor a imensa chuva que prossegue em sua queda livre pelo espaço sideral. Uma espessa nuvem de poeira cobre toda a paisagem.
Bem, caro Leitor, esse foi um passado remotíssimo, o que nos outorga a pensar que somos um simples "recém-nascido" perante as “eternas” gerações desconhecidas.
E, por falar em passado, pousemos, em definitivo, na nossa genuína história... No momento presente.


I - OS ESCOLHIDOS


O dia ainda nem amanhecera em Vila Velha e uma nave interplanetária, brilhante, aporta no céu. Desce abaixo das nuvens. Estaciona – estável – no espaço. Duas criaturas, de dentro dela, espreitam as casas abaixo com um radar infravermelho. Numa tela panorâmica visualizam toda a cidade. Sondam, vasculham as residências, cujos moradores ainda dormem na penumbra da madrugada.
De repente, ao focalizarem uma casa amarela, com dois pés de murta no quintal, repletos de flores brancas, os sensores disparam um alarme. Os dois seres se movimentam agitados, entre sombras, em atenção aos sinais de alerta dos equipamentos. Trocam um diálogo indecifrável e executam detalhes programados... de um plano estritamente confidencial.
Dentro da casa vigiada a rotina do dia começa normal e corriqueira.
– Acorda, Rodrigo, está na hora do colégio – convoca o pai.
Todo dia é a mesma ladainha: o despertador toca feito maluco, até quase cair da escrivaninha, e Rodrigo prossegue em seu sono tranquilo. Só desperta com os cutucões do pai, e resmungando:
– Ainda é cedo. Só mais um pouquinho.
Aliás, acordá-lo passara a ser uma tarefa árdua; porque, depois de acordado, o difícil era tirá-lo da cama. Requeria muita paciência e força. Ainda tarefa atribuída ao pai era alimentar o peixinho de estimação, embora Rodrigo, para obtê-lo, jurou que o trataria direitinho. Agora, nem parar em frente ao aquário e conversar com seu lebiste preto e amarelo, não para mais – sacrifício que só fizera nos três primeiros dias.
Conclusão: Rodrigo sai da cama sempre atrasado, mal-humorado e exaltado. Entra em ação a correria desenfreada e cotidiana do lar: café derramado sobre a mesa, biscoitos espalhados, pingos de geleia construindo trilhas na toalha branca. E, no final, Rodrigo engole o copo de leite com chocolate num só fôlego. Emoldura uma cara assanhada. Suspira lambendo o bigode cremoso. Entorta o pescoço e desfere um sonoro arrotão. Em represália, leva uma bronca, logo cedo, dos pais.
No banheiro espreme o tubo de pasta de dentes deixando escorrer além da escova. Do cabelo penteia só o topete, atrás permanece todo eriçado. A mãe, protetora instintiva, defende o rebento:
– Ele é uma criança ainda... Só tem dez anos.
O pai, Jaime Brosso, é obrigado a envolver-se nessa ciranda, pois a lerdeza de Rodrigo faz com que ele se atrase para o serviço.
Para Jaime, hoje seria o retrato de todos os outros dias, não fosse o sentimento enigmático que acordara com ele. Girava por sua cabeça, feito um radar de submarino, uma sensação de alerta. Seu subconsciente detectara o sensor da nave que emitia um fino "bip", mas, para ele, aquilo era um aviso de perigo, um recado do sobrenatural, que lhe transmitia a nítida impressão de haver alguém, malévolo, dentro de casa e que o observava o tempo todo. Jaime estava tão sugestionado que até um vulto chegava a se desenhar atrás dele e, quando desvirava, não via ninguém.
– "Não posso ficar nessa dúvida" – pensou.
Decidiu averiguar em todos os cômodos. Disfarçadamente, enquanto amarrava os sapatos, se agachou para olhar debaixo das camas.
– "Quem você desejava ver? Papai Noel?" – perguntou-se, caindo na real comicidade da posição em que se encontrava. Mesmo assim, foi à suíte, limpou os óculos enquanto inspecionava o boxe e a banheira.
– "Deve ser fruto de algum sonho inacabado" – respondeu para os seus cadarços. – "É melhor eu esquecer isso e apressar Rodrigo.”
– Mexa-se, Rodrigo, saia dessa moleza. Acelera, filho – incentiva Jaime, vindo do quarto para a copa, refugando as ideias frívolas e demonstrando naturalidade.
Rodrigo vestia o uniforme com rapidez, exceto o tênis.
– Tá apertado, mãe – resmungava ele.
Enfiava o pé fazendo o maior esforço. Abria a boca e colocava a língua toda para fora, como se isso ajudasse a encurtar a “chulapa” que crescia a cada dia.
– Xiii!... Começou a chover – avisou a mãe, que completa quase dando uma ordem para Jaime. – Leva Rodrigo de carro hoje... com essa chuva não vai ser fácil esperar o ônibus. E você, Rodrigo, pega o seu guarda-chuva.
– É chuva rápida... Sem trovão... Logo passa – respondeu confiante Jaime, pois não pretendia tirar o carro da garagem. Já que, justo hoje, iria parar no centro de Vitória, onde é quase impossível conseguir uma vaga para estacionar.
Foi só ele terminar de proferir as palavras e a chuva, como que por mágica, foi diminuindo.
– Tudo pronto? – inquiriu Jaime para Rodrigo, que, num abrir de braços, se oferece para a inspeção final. – Então vamos zarpar – liderou o pai, ajeitando o relógio no pulso. – Estamos em cima da hora.
Jaime se dirige para a esposa:
– Ah, Amor, após a aula de Rodrigo vou passar no banco para... comprarmos o melhor lugar do mundo.
A esposa, carinhosamente, o abraça num afago, dizendo:
– O melhor lugar do mundo, para mim, é ao seu lado. Você sabe disso.
– Nossa!... Despertou inspirada hoje, mulher! – Jaime a beija e saem abraçados até ao portão.
Rodrigo, na despedida, aproveita e despeja o seu chamego com a mãe. Jaime aguarda a sua vez. Depois de muitos abraços e beijos, Rodrigo se afasta e se posta de vigia. Já é um vício de todas as manhãs: cruza os braços e presta atenção ao pai. Hoje, só para chateá-lo, Jaime procurou inovar. Acariciando os cabelos da esposa, lisonjeou-a, afetivo e charmoso:
– Até logo, minha Flor. Saiba que eu...
– Flor? – interrompeu Rodrigo. – Você nunca chamou mamãe de minha Flor, pai!
– Hoje eu chamei. Só para dizer que... nem toda gota de orvalho... que sou eu, tem a felicidade de encontrar em seu caminho uma flor... que é a sua mãe – a mãe, como sempre, delicadamente beijou-o na boca em agradecimento.
– Aí, hein!... Hoje vocês dois estão se ganhando na lábia, né? – palhetou Rodrigo.
– Vamos, Rodrigo, senão a gente vai se atrasar mesmo – explanou Jaime, encerrando o papo-furado.
Quando saíram o sol já enxugava o asfalto. Na rua, o que se via, eram os alunos de todos os colégios da redondeza com suas mochilas às costas. Pais e mães num tagarelar incessante de conselhos e preocupações. Naquele tumulto de vozes, volteia em Jaime o mesmo pressentimento.
– "Estou sendo... monitorado. Alguém está me perseguindo.”
Olhou para as pessoas ao redor, sobre os muros das casas vizinhas, e nada. Ninguém com ar suspeito. Jaime, abandonando a esquisitice, ajeitou a pesada mochila de Rodrigo no ombro. Chegaram ao ponto de ônibus e, por sorte, veio o 500 – Terminal Itacibá –, que os conduziria direto para a cidade. Depois que embarcaram, descobriram que a sorte não fora tanta assim; porque o ônibus que passara antes quebrara logo no quarteirão seguinte. Com isso, os passageiros vieram todos para o ônibus deles, lotando-o. Após trinta minutos de aperto, devido ao engarrafamento por toda a extensão da ponte, desembarcaram e foram caminhando calmamente. Jaime carregava a mochila de Rodrigo até próximo ao colégio, o resto do trajeto era ele. Só para contar vantagem com os colegas, vangloriando-se de que a trouxera sozinho. Encilhado com a mochila às costas, gorda, dura, tal qual bolsa de viagem, Jaime comenta com ar de repreensão:
– Você deve trazer muita tralha desnecessária aqui dentro, filho.
– Não, pai, só os cadernos das matérias de hoje.
– Daqui a alguns meses não vou mais aguentar todo este peso... principalmente se meu joelho piorar.
– Deixa de ser molenga, pai. Eu carrego essa mochila com facilidade.
– Tá bom, super-homem... da preguiça – chateia-o Jaime.
De novo, a estranha sensação de estar sendo seguido infiltra-se no cérebro de Jaime. Um sinal evocativo, místico e inexplicável o perturba. Suas funções normais sofrem uma interferência desconcertante. Rodrigo o chama e afugenta suas ideias relutantes.
– Pai, estou com cara de quem acordou agora? – perguntou esfregando as mãos no rosto.
– Não, filho – respondeu Jaime, esquecendo a cisma. – Você está com cara de quem ainda está dormindo – arrematou com uma gargalhada.
Rodrigo continuou limpando os olhos e, rindo, se dava tapinhas para despertar.
– Veja bem, Rodrigo - reatou Jaime –, vê se não esquece: hoje é aniversário de Maria Lúcia. À noite iremos à festa. Está lembrado?
– Claro que estou, pai! Ontem você já me falou isso. Informou também que vai me buscar no colégio e nós vamos almoçar fora; porque você não vai trabalhar à tarde e quer aproveitar para ir ao banco e também comprar o presente dela. Tá bom?
– Tá ótimo, filhão, decorou direitinho. E a lição de casa? Sabe assim também?
– Claro que sei. Estudei pra caramba ontem... – como a agudeza de espírito de Jaime duvidou, Rodrigo acrescentou: – Pergunta pra mamãe!
Perto do colégio, Rodrigo, como sempre, pede a mochila ao pai e a coloca nas costas.
– Ah, garoto, hein!... Traz essa mochila, pesadona e sem reclamar!
Rodrigo notou o tom de gozação de Jaime e nem contestou. Só olhou para ele atravessado, como se fosse estrábico.
Essa caminhada até ao colégio era benéfica para ambos. Eles podiam brincar e conversar futilidades, totalmente descontraídos, sem ter nenhum abelhudo para atrapalhar. Despediram-se como de costume e Rodrigo ouviu a mesma recomendação do pai:
– Presta atenção nas aulas, hein, filho!
Quando Jaime se despediu de Rodrigo, a impressão de estar sendo observado desapareceu. Parece que foi desligado um interruptor e seus neurônios foram liberados. Jaime ajeitou os óculos e saiu direto para o trabalho a passos largos. Ansioso para que a tarde chegasse, concentrou-se num serviço pendente e que faria o tempo passar despercebido: gráficos estatísticos. Montava-os em vários tipos. Ao concluí-los recolheu-se ao banheiro e escreveu uma poesia. Um passatempo que praticava onde quer que lhe penetrasse a inspiração em sua anêmica veia poética.
Hoje iria ao banco acertar um empréstimo para realizar a aspiração do casal. Já postergara por demais o compromisso que havia assumido consigo mesmo: construir uma casa de campo. Só assim quebraria a rotina dos finais de semana.
Teria sido um expediente quase padrão, não fosse o tumulto provocado pelo assalto à agência bancária do prédio em frente. Aliás, o que já é uma incoerência habitual, os clientes se acostumarem a conviver com esse tipo de desregramento. O fato é que todos torcem para que, quando estiverem em um banco, não venham os assaltantes e os façam de reféns, usando-os como escudos humanos.
Passava pouco do meio-dia quando Jaime saiu. Ao avizinhar-se do colégio, Rodrigo já o aguardava do lado de fora com ares famintos. Quando o viu, ergueu a mochila e veio precipitado, reclamando:
– Vamos almoçar logo, pai. Estou morrendo de fome. Não aguento nem mais um minuto sem colocar alguma coisa mastigável na boca. Hoje eu como mais de seiscentas gramas.
– Filho, se diz: seiscentos gramas. Grama, no seu caso, é substantivo masculino. Porque da maneira como pronunciou, você vai almoçar capim. Ou prefere grama de jardim... Bem ou malpassada, senhor?
– Aaah!... Pai, eu quero é comer e não saber o gênero correto – aborreceu-se Rodrigo com a ironia de Jaime.
– Calma, filhão, deixa de ser rabugento. Com fome você fica nervoso?... Ou brigou com a namorada?
– Oh! pai... para com isso, eu não tenho namorada.
– Tá bom, cara, não avacalho mais – desculpou-se Jaime tomando-lhe a mochila.
Para harmonizar os ânimos entraram num acordo: almoçariam em um restaurante instalado no meio do percurso, entre o colégio e o banco. Realmente Jaime constatou que o rapazinho estava mesmo com muita fome. Devorou mais de meio-quilo e, de sobremesa, uma tigela de salada de frutas com cobertura de creme de leite.
Jaime Brosso não sabia o porquê, mas hoje tudo acontecia a seu favor. No banco não esperou muito e foi prontamente atendido. Acertou as minudências do empréstimo facilmente. O gerente, sorridente e atencioso, aceitou todas as suas condições e exigências sem questionar. Nem solicitou documento extra. Jaime não entendia se era o seu dia de graça ou o do gerente. Pois adentrou ao banco pensando que, para ver tudo concretizado, teria o dissabor de retornar ali, no mínimo, de cinco a sete vezes. Saíram do banco e foram a uma perfumaria. Rodrigo escolheu o presente da prima, já que Jaime é alérgico a tal prazer.
– Bem, Campeão, agora embarcaremos para casa. Já está tudo acertado: financiamento aprovado, presente comprado, e eu carregado, com essa mochila do lado... vou ficar bastante cansado.
– Eta-ferro!... Que bobeira, hein, pai? – reprovou Rodrigo.
– Filho adorado, se eu estiver errado, espero ser perdoado.
Jaime sempre gracejava assim com Rodrigo. Entretanto, o filho nunca formava dupla com ele na brincadeira. Era inimigo das rimas. Dirigiram-se para o ponto do ônibus. Jaime, com o pensamento frouxo, sem nenhuma aporrinhação para remoer, sentia um alívio ao emoldurar a futura casa de campo, quando, inesperadamente, bateu novamente a mesma sensação de alerta. Só que desta vez bem mais contundente. Teve até a impressão de que fora tocado nas costas. Voltou-se ligeiro. Nada. Esquadrinhou em círculo. Tudo na maior regularidade. Os pedestres passavam conversando naturalmente.
– "Caramba! Tenho certeza que alguém está me bisbilhotando.”
Num encadeamento de fatos obscuros sua sagacidade foi direcionada para o céu. Divisou uma nuvem incomum que pairava sobre sua cabeça. Uma nuvem branca. Era quase brilhante. O céu não tinha mais aspecto de chuva e a tarde se desenhava ensolarada de verão. Jaime ainda não acreditava, mas, lá do alto, a nuvem os acompanhava. Pararam no semáforo e a bendita nuvem parou também. Jaime viu uma faísca, de cor azulada, sair de dentro dela.
– "Foi reflexo do sol; só pode!" – pensou convicto.
Olhou o relógio da Praça Pio XII. Marcava quatorze horas exatas. Por costume, conferiu com o seu no pulso. O semáforo fechou para os carros. Atravessaram a rua e pegaram a calçada oposta. Seguiram pela Avenida Beira-Mar rumo ao ponto de ônibus. Rodrigo não se apercebera da nuvem. Jaime achou por bem nem comentar tamanho descabido. Enquanto o ônibus não chegava, Jaime recostou-se no parapeito da mureta que cercava a calçada do mar. Pôs-se a percorrer, com o olhar, o Porto de Vitória. Suas águas, devido à maré baixa, apresentavam-se mais sujas de lixo e fedorentas que de costume. Rodrigo gostava de examinar, minuciosamente, os guindastes que descarregavam os contêineres dos navios. Jaime, cabreiro, fez uma sondagem dissimulada para o céu. A nuvem hospedara-se, sozinha, branca como algodão, de forma perfeita – bem acima deles.
– "Perfeita demais para uma simples nuvem" - pensou já se recriminando. – “Deixe de tolice, Jaime!... Não faz o menor sentido você se apoquentar com isso.”
Resolveu esquecê-la. Olhou para os navios atracados no porto sem se incomodar com a nuvem. Contou dezenas de caminhões que saíam pelo cisbordo de um cargueiro. Um pequeno barco, a remo, chegava ao embarcadouro. O catraieiro trazia as pessoas que preferiram atravessar, de Vila Velha para Vitória, pela baía, ao invés de darem a volta, de ônibus, pela Ponte Florentino Avidos. Mal desviou os olhos da nuvem e Jaime percebeu que seu corpo começara a elevar-se do chão.
– Rodrigo! – chamou num susto incompreendido.
–Pai! – respondeu Rodrigo com os olhos esbugalhados, impregnados de pavor.
Só então Jaime atentou que Rodrigo também subia junto com ele.
– Segure-se em mim, filho – gritou agitado diante do imprevisto.
Jaime agarrou-se ao parapeito e Rodrigo grudou no seu pescoço aos berros.
– Pai! Pai, o que é isso?
– Não sei, filho – respondeu Jaime fazendo um esforço sobre-humano para sustentar-se na mureta.
– Ajuda aqui! – berrou Jaime para o catraieiro, todavia ele girou seu barco e regressou em remadas tranquilas.
– Socorro! – suplicou para três senhores que conversavam a uns cinco passos deles, entretanto todos se comportaram como se não houvesse ninguém ali, muito menos em apuros.
Jaime sentiu mãos invisíveis, com uma força descomunal, arrancando seus braços do parapeito.
– Ei! Você... Careca! – berregou, ofensivamente, pois havia três papeando no ponto, contudo, nenhum deles se moveu.
Jaime e Rodrigo flutuaram feito dois balões de gás levados pelo vento. Não puderam esboçar mais reação nem resistência física. Jaime viu seus sapatos dependurados no ar e a cidade se distanciando rapidamente. Rodrigo, agarrado a ele, olhos arregalados, tremia todo. Estavam sendo içados por uma energia misteriosa. A gravidade não os afetava. Seus corpos subiam como dois pêndulos soltos. O temor de Jaime duplicou-se, pois agora torcia para que aquela fonte maligna não se dissolvesse de vez, porque se despencassem daquela altura seria uma fatalidade, espatifar-se-iam lá embaixo, diretamente na calçada. Alguns indivíduos contemplavam justo em sua direção, como se nada de anormal estivesse em andamento. Outros, alheios ao desespero dos dois, admiravam a paisagem do porto – enquanto eles eram tragados para a nuvem. Gritaram novamente com a esperança de que talvez alguém ouvisse. Porém, mesmo empregando toda a extensão das cordas vocais, a voz não ecoou. Saiu abafada, apenas um sussurro.
Chegavam perto da nuvem. Uma porta metálica, triangular, surgiu e abriu-se verticalmente, mostrando uma passagem negra. Tudo escureceu numa fração de segundo. Ficou tão escuro que tanto fazia manter os olhos abertos ou fechados – o breu era total. Silêncio absoluto. Jaime sentiu o pulsar do coração de Rodrigo, que permanecia agarrado ao seu pescoço. Foi tocado no ombro por mãos estranhas e pisou um chão macio. Rodrigo, ainda pendurado no pai, reclama:
– Pai, não estou aguentando mais me segurar.
– Filho, largue-se devagarinho.
Logo Rodrigo exclama:
– Tem chão aqui, pai!
– Tudo bem... fique quieto, filho. Não se mexa – recomenda Jaime ainda incrédulo com o que acabara de suceder.
– Estou com medo, pai. Tá escuro demais.
– Calma, filho. Eu não sei o que está acontecendo, mas o melhor que podemos fazer agora é aguardarmos com cautela.
Na cabeça de Jaime uma alucinação inundava seu intelecto ativo. Rodava, sorteando numa roleta sem ponteiro, inúmeros palpites prematuros, que sem tardança eram descartados tamanha a impossibilidade de serem reais. Num rompante obsessivo veio uma hipótese verossímil, meio lógica, meio louca também, porém, a única aceita; mesmo assim, numa disputa irracional, num debate de inconformidade.
– "Morrer é assim?... Escuro... deve ser o Purgatório!... O Purgatório é destinado aos pecadores sensatos cumprirem uma penitência amena... providencial... só depois é que ingressam no Paraíso. No céu só deve ter anjos... Querubins... Serafins, sentados nas nuvens, tocando harpas e trombetas. Minha vida não foi de transgressões exorbitantes... devo ter apenas alguns pecadilhos para serem expurgados. Mas Rodrigo é uma criança! Que pecado teria ele para me acompanhar?... Bem, é bastante desobediente. Será que arrotar é pecado?... O que será que Rodrigo está imaginando a respeito disso?... Melhor nem perguntar. Sendo só a escuridão e este sossego como sacrifício... tudo bem. Caramba! Rodrigo tem medo de escuro. É um castigo e tanto pra ele!... Não vejo nem as minhas mãos! Como é que os anjos enxergam? Por quanto tempo teremos que esperar? Assim dá agonia...”
Neste instante Jaime é desviado de sua meditação inconveniente num sobressalto, pois alguém o ampara pelo braço e, forçosamente, o senta. Rodrigo surpreende-se:
– Pai, você está sentando?
– Es..estou, filho.
Rodrigo estranha e indaga:
– Em quê?! Por quê?
Jaime não quis aterrorizar o filho, mas, desconfiado de que houvesse alguém ali, correu o braço ao seu redor, porém não tocou em ninguém. Contornou o assento com a mão e, pelo tato, confirmou:
– É um... tamborete, filho.
– Estou com medo, pai.
– Calma, filho, coragem. Não devemos nos mexer. Pode ser perigoso. Vamos aguardar mais um pouco.
As ideias complexas e subjetivas de Jaime retornaram hostilizantes.
– "Onde estão os outros que morreram antes de nós?... Existem Purgatórios separados?... Não acredito!... Bilhões e bilhões de cristãos que já morreram pelo mundo afora e cada um aufere tratamento personalizado?!... Só sendo Deus mesmo para ter tudo sob controle.”
Veio-lhe do nada, numa inquietação instigante, uma dúvida afoita:
– "Morremos do quê? Eu não estava em tratamento de saúde... nem internado. Rodrigo tinha uma saúde de ferro... Mas se morremos... Lembro-me agora... nós estávamos na calçada. O sinal fechou e atravessamos... Espere!... Será que nos atropelaram na calçada e não vimos a morte chegar? Muitos já morreram assim. Inocentes... sobre a calçada. O susto me fez esquecer esse pormenor. A calçada... só me recordo até ali. Meu Deus!... Calculo que ainda nem avisaram em casa..."
De repente um facho de luz, rápido, pela esquerda, se fez ver. Logo sumiu. As suposições de Jaime espantaram-se. Rodrigo cochichou no ouvido do pai:
– Viu, pai? Foi um relâmpago?
– Vi, filho. Se não ouvirmos o barulho do trovão... não foi.
Escureceu e parece até que ficou mais escuro que antes. Jaime pensou em gritar de novo, pedir socorro. Contudo, avaliou os acontecimentos e ajuizou:
– "Vou deixar o silêncio em paz. Pelo tamanho de nossos pecados, só esse cagaço paga por todos.”
Rodrigo repetiu seu refrão quase chorando:
– Pai, estou com muito medo, pai. Não vejo um pingo de claridade.
– Filho, eu estou aqui - falou Jaime, pausadamente, no intuito de encorajá-lo. – Não vou sair sem você.
Outro lampejo. Muito veloz. Um barulho demorado. Uma porta emperrada que se abre se fez ouvir. Algumas batidas espaçadas e um pequeno estalo. Em seguida, lentamente, no fundo da sala, acendeu-se um farol tênue. O recinto foi clareando devagarinho. Começaram a distinguir dois vultos esguios a curta distância. O luzeiro passou a focalizar na direção deles. Ofuscados, esquivaram-se para o lado e se deparam com um ambiente inusitado. Encontravam-se bem no meio de uma sala espaçosa, com vários equipamentos recheados de botões, telas e teclados. Rodrigo notou com clareza e articulou baixinho:
– Pai, tá vendo?
– Estou, filho - Jaime suspirou aliviado, achou bom, pelo menos não estavam mortos. Passados alguns segundos, não achou tão bom assim, pois, nesse caso: que lugar seria este?
O facho diminuiu de intensidade e quase apagou. Os dois vultos, na obscuridade, debatiam como se decidissem algo sobre eles. Jaime espreitou para ouvir, mas era tudo enrolado, um zumbido confuso em que não se concatenava uma sílaba sequer. Logo a conversa terminou. O silêncio reinou novamente.
Os dois, em passos sincronizados, lado a lado, dirigiam-se para eles. Só então Jaime percebeu que havia um longo corredor a ser percorrido. O foco de luz iluminava o caminho à frente daquelas duas criaturas, deixando todo o corpo, e principalmente o rosto, às escuras. Jaime apostaria que aqueles dois vultos, embora envoltos numa grossa sombra, eram duas pessoas.
– "Ou seriam os anjos que vieram nos recepcionar?" – sofismou temeroso. – "Não, não são anjos... não têm asas!" – e emendou. - "Tampouco diabos... não têm chifres!"
Os personagens enigmáticos pararam na penumbra. Antes que Jaime pudesse pensar em esboçar algum protesto ou questionamento, o da direita, quase sem sotaque, assegurou-lhe:
– Vocês foram os escolhidos. – Pelo deslocamento do pescoço, Jaime notou que a criatura olhara diretamente para ele e enumerou. – Primeiro, pela sua humanidade. Segundo, por sua vontade. Terceiro, pelo seu raciocínio lógico. E quarto, por sua coragem de enfrentar o imprevisível.
Jaime controlou ao máximo a sua ansiedade. Portou-se como se estivesse conversando com um novo vizinho que chegara de madrugada, sem mudança e de aspecto indefinido.
– Eu agradeço as suas gentis palavras, mas gostaria de saber por que estamos aqui e... quem são vocês - expôs Jaime, o mais moderado possível.
– Irão saber – respondeu o da esquerda com voz forte e macia. – Saberão tudo a nosso respeito, entretanto... sem pressa. O ser humano está acostumado a se vincular demais com as horas.
– "Pronto - pensou Jaime, novamente, diante da cena semirreal –, estamos mortos mesmo. No céu é só a eternidade que perdura. Tempo é detalhe insignificante. Não tem valor. Não passa. Portanto, ninguém precisa ter pressa alguma. Não se vai a lugar nenhum!... Só lamento o sofrimento daqueles que ficaram. Como estarão agora? Será que já foram avisados?"
O da esquerda manuseava, atentamente, uma série de telas em que um questionário imperativo, numa sequência exaustiva e repetitiva, exigia resposta objetiva. O da direita anexou um equipamento repleto de saliências sobre uma mesa que flutuava – pois não tinha pés – e Jaime certificou-se disto discretamente. A criatura, com certo ar de orgulho, enunciou:
– Eu disse que vocês foram os escolhidos. Agora conhecerão um outro mundo, uma outra civilização. Muito além do desconhecido.
Sentou-se perto da mesa volitante e deu um toque numa caixinha quadrada. Retirou uma lâmina de dentro dela. Colocou seu dedo sobre um painel luzente. Deu mais outro toque e fitou, velando o vazio. Surgiu uma imagem em três dimensões, explicitando no ar um alto-relevo uniforme, quase palpável. Rodava em câmera lenta numa apresentação de seus contornos perfeitamente iguais. Era um local esquisito para Jaime, que, em seu processo mental revolto, nunca presumira que o Reino de Deus fosse uma cidade estranhíssima. O que ele via, saindo daquele “retroprojetor moderno”, eram milhares de morros íngremes, todos lisos e metálicos, sem vida, formando enormes cadeias de montanhas, idênticas e pontiagudas que, numa vista aérea, prolongavam-se até o final do horizonte. Cada qual ostentava uma bandeirola colorida no topo.
– Vejam de onde viemos – mostrou o da esquerda.
– Bisam Joreso - completou o da direita. – Uma Comunidade do Planeta Claus, pertencente a um plano universal não conhecido por vocês, pois não saíram do primeiro estágio evolutivo na astronáutica.
A aflição fizera com que Jaime nem prestasse atenção e argumentou irrefletido:
– Ainda não sei se estamos vivos ou mortos... Que lugar é este e o que pretendem conos..co... - pasmado, Jaime se deu conta do que lhe desvendaram e apatetou-se. – Vocês... são de outro Planeta? Foi isso que... ventilaram?
– Foi, pai, e de outro “plano universal” – reafirmou Rodrigo, surpreendendo Jaime por sua calma e frieza.
– Sim, somos do Planeta Claus – corroborou o da direita desligando o filme.
O da esquerda aproximou-se de Jaime. Trazia uma capa azul-celeste caída sobre os ombros. A sua vestimenta multicolorida cintilava mais que purpurina. Era tão colada ao corpo que quase fazia parte da pele. Quando ele entrou mais na claridade, Jaime pôde ver o rosto dele com nitidez, e não gostou. Rodrigo também não; Jaime notou pela contração de suas mãos em seu braço. Não que seu aspecto fosse repugnante, nem muito longe da estética humana, havia até um ar de segurança e confiabilidade em sua fisionomia, porém era um alienígena interplanetário, portanto, passível de atitudes inesperadas.
Jaime decompôs os traços faciais do elemento: olhos sagazes, em risco. Cílios e sobrancelhas, imperceptíveis. O nariz, orelhas e lábios ele classificaria de: semelhantes. Dentes pequenos. Cabelos abundantes e bem ajeitados. O que mais lhe despertou a atenção foi a pele. Não era uma pele flexível. Não se viam os poros nem os pelos. Parecia feita de material plástico. Muito vermelha e lisa. Totalmente esticada. Não evidenciava uma ruga ou estria. Até refulgia no reflexo da luminosidade. Jaime comparou-a a uma pele de maçã. O outro se chegou à luz também. Tinha as mesmas características do primeiro, com exceção da pele e dos cabelos. Ele era marrom e quase careca. Se quisesse poderia contar quantos fios ainda lhe restavam no “couro cabeludo”. O "Pele de Maçã" estendeu a mão para Jaime em sinal de paz. Jaime levantou-se lentamente e, com receio, imitou-o.
– Sua mão é muito grande – observou ele fixando seu olhar no de Jaime.
Jaime notou que a mão dele era minúscula. Todavia, isso não lhe causava vexame. Reteve firme a mão de Jaime e fez uma face benfazeja. Uma onda de energia infiltrou-se da cabeça aos pés, por dentro de Jaime. Uma convulsão coerente lhe lançou uma descarga elétrica sistemática. Seus membros paralisaram-se de imediato. Uma força pujante expandiu-se numa aura incandescente que lhe circundava. Embora não soubesse o que estava por vir, um pressentimento benévolo o persuadia a confiar. A criatura largou a mão de Jaime denotando saber o que sucedera ali. Tudo voltou à calmaria. Jaime, numa quietude tranquilizante, avaliou-se ótimo.
A criatura dirigiu-se para Rodrigo com um leve sorriso e a mão estendida. Jaime fez um gesto de precaução que foi logo assimilado pelo extraterrestre.
– Com uma criança, o cumprimento é inofensivo – salientou. – Não carece analisá-lo a priori.
Rodrigo olhou para o pai e depois cumprimentou o forasteiro naturalmente.
Jaime sondou para fora da nave. Tudo se media numa imensidão de vazio. Logo suspeitou que planejavam concretizar alguma experiência, pois entreolharam-se por duas vezes, gesticularam e no final concordaram em algum ponto. Mexeram em uma série de botões e alavancas de vários aparelhos da sala.
– Por favor, venha até aqui – pediu o "Pele de Maçã" para Jaime. – Nós aspiramos lhe confidenciar um pouco do poder tecnológico que existe entre o céu e a Terra, como filosofam vocês – e riu-se sem emitir ruído.
Jaime encaminhou-se vagarosamente para ele. Rodrigo sentou-se no tamborete. O chão era tão macio que Jaime quase não sentia seus pés tocá-lo. Por baixo, saía uma fumaça branca que se resguardava sempre rasteira.
– Coloque a sua bolsa aqui – apontou o "Pele de Maçã" para a mesinha que flutuava, agora já perto de Jaime.
Quase que automatizado Jaime removeu a mochila das costas e a deixou cair sobre a mesinha, que se afastou sozinha, indo parar num canto isolado da sala.
– Venha para este círculo e fique imóvel por alguns segundos, por favor – instruiu, educadamente, o "Pele de Maçã".
Havia uma marca luminosa no chão. Jaime estacionou sobre ela. O "Pele de Maçã" apertou mais alguns botões e explicou para Rodrigo:
– Não fique atemorizado. Não vai acontecer nada de mal com o seu pai.
Ajeitou-se em frente a uma máquina e começou a contar:
– Três... dois... um. Quieto agora.
Um aparelho tremeluziu uma sucessão de luzes coloridas que incidiam focos luminosos no corpo de Jaime. Raios em curtos-circuitos eram disparados em todas as direções. Um clarão forte, violeta escuro, invade a nave como um espírito que desce e envolve Jaime num casulo resplandecente. O ambiente tornou-se turvo. Um suor frio corre pelos seus braços e pernas. Pensou que iria desmaiar. Porém, mãos ao seu redor o amparavam de pé, ou ele... levitava. Seu coração bateu forte. No seu joelho direito, além do calor, penetrou um estilete anestesiante por baixo da pele. Sentiu uma fisgada no peito. Os olhos esquentaram. Por uma fração de segundo ficou fora de si. Esforçava-se para se mexer, porém permanecia estático. Decorrido um período impreciso, o "Pele de Maçã" desligou a máquina. Uma cintilação fosfórica pousou sobre Jaime, colorindo-o de vermelho e ofuscando-o.
– Pronto. Acabou – o estrangeiro pensou e adicionou soberbo. – Digamos... a sua correção corporal, sem dor, nem sangue – e deu um sorriso brando.
O vigor físico sobressaltava em disposição para Jaime, porém sua visão continuava turva.
– Não estou vendo. O que houve? – perguntou levando a mão à cabeça zonza.
– Tire seus óculos – disse o alienígena prazerosamente, com o olhar expectante por uma surpresa.
Jaime tirou os óculos. As imagens destacaram-se nítidas, sua visão fora ampliada além do normal, distinguia os pequenos símbolos dos equipamentos mais distantes.
– Em nosso Sistema esse apetrecho é inútil. São encontrados apenas em museus. Você não precisará mais deles – cientificou satisfeito o adventício espacial que acendeu uma das telas da máquina e numa escrita, que mais pareciam hieróglifos, fez a leitura dos itens:
– Você teve a miopia e o astigmatismo totalmente corrigidos. Uma artéria pequena, contudo importante para o bom funcionamento do coração foi desobstruída e o seu joelho direito, que tinha um problema sério no menisco, foi operado.
Após ler o relatório o "Pele de Maçã" se lembrou de algo.
– Ah!... esta ressalva é a vasectomia... que preservei intacta. A máquina detectou como defeito, entretanto mandei desconsiderar. Ela é muito jovem, tem certos detalhes, íntimos, que não conhece – acariciou uma de suas lâmpadas carinhosamente.
Jaime nem se prontificou em decifrar tudo aquilo de imediato, atordoado com o bombardeio de raios que recebera, apenas colocou seus óculos no bolso e sentou-se, num tamborete, ao lado de Rodrigo; que, suspicaz, fitava o extraterreno.
Depois de refeito, Jaime pensou acerca do que o "Pele de Maçã” descrevera. No coração ele nunca sentira nada, mas o joelho direito, o forasteiro tinha razão, inchava a qualquer esforço, e ele vivia adiando a consulta ao médico. A vasectomia, de tão antiga, quase já esquecera dela. E de fato, agora enxergava com perfeição. Intrigado, desejando inteirar-se de todo o mistério, interpelou curioso:
– Vocês curaram a minha visão e o meu joelho com essas... lâmpadas?
O "Pele de Maçã" prontamente delongou-se na elucidação.
– Não, não são vulgares lâmpadas, são raios filtrados num microcristal e supervisionados por máquinas inteligentes, que localizam qualquer tipo de falha de um organismo vivo; revelam a moléstia e, se autorizadas, executam, instantaneamente, o tratamento. Cada segmento elabora gradualmente a dosagem, de acordo com a necessidade de cada órgão.
O "Marrom", com um olhar sereno, condescendeu:
– Nós estamos em viagem de pesquisa pelo seu universo e escolhemos vocês dois para estudarmos melhor a vida fora do nosso Sistema Comunitário.
O "Pele de Maçã" prosseguiu o assunto do "Marrom", tranquilamente, como se soubesse o que ele iria dizer:
– Para vocês terem uma noção. Estamos aqui há doze horas e ainda não angariamos um resultado satisfatório. Demoramos mais de quarenta minutos para reciclar a sua língua. Muitas palavras complicadas, diferentes e inúteis, pois têm o mesmo significado.
Agora o "Marrom" tomou a vez e relatou inconformado:
– Verbos repetitivos aos montões. Sua língua não é condensada como a de Claus, em que cada objeto tem apenas um nome.
O "Pele de Maçã", num gesto-chave, atestou:
– Aqui ninguém se conhece e isso é surpreendente para nós, pois, ao nascermos, somos anunciados para todos os Planetas do Sistema Comunitário. - O "Pele de Maçã" sondou o "Marrom" e admitiu meio sem jeito: – Bem, eles ainda não alcançaram a nossa tecnologia, nem tiveram oportunidade para isso, já que o Planeta Terra é uma criança comparado ao Planeta Claus. Não é Peifil?
– Finalmente descubro o nome de alguém – propagou Jaime como se já estivesse familiarizado com eles só para descontrair Rodrigo, que, por vezes, grudava em seu braço, manifestando insegurança e medo.
– Ah!... desculpem-nos. Esquecemos o trivial dos Terráqueos. A primeira providência que vocês tomam, quando se defrontam, é...
O "Pele de Maçã", o mais tagarela, se apressou espevitado nas apresentações:
– Meu nome é Dailen e este é o meu amigo Peifil... nos conhecemos há mais de mil e quinhentos anos.
– O quê? Quantos anos? – indagou Jaime com cara assombrada e ar de quem não engoliu a pilhéria.
– Para você pode representar muito, mas quando o ser humano dominar a ciência plena da vida verá que isso é apenas a tenra juventude.
– Juventude... – resmungou Rodrigo em discordância. – Ele é quase careca! Não pode ser jovem!
– Isso é hereditário, rapazinho, não tem como remediar. Não é Peifil? – propalou Dailen chateando o companheiro. – Aliás, a idade exata dele é: dois mil novecentos e quarenta anos. Eu é que tenho só mil e quinhentos e trinta.
Jaime ainda conjeturava com argúcia que haveria um estupendo equívoco com a idade deles. Investigou desconjuntado:
– Esse período... que vocês intitulam de ano, como ele é medido?
– Incrivelmente igual ao seu – respondeu Dailen. - Isso foi o que nós averiguamos de mais extraordinário no seu Planeta. A medida do tempo de vocês é idêntica a nossa, até parece que alguém copiou. No caso, vocês plagiaram, porque nós somos mais antigos – concluiu com trejeitos acusatórios para achincalhá-los.
– Pela maneira como vocês nos trouxeram para dentro desta nave e pelo que fizeram comigo, deu para notar. Porém... quanto tempo mais? – especulou Jaime numa curiosidade transparente.
– É até difícil de avaliar – disse Dailen. – O Planeta Claus, pelos nossos registros, perdura há mais de duzentos e cinquenta bilhões de anos.
– Duzentos e cinquenta bilhões?!! – Jaime gelou.
– Isso mesmo, Terráqueo – confirmou Peifil. – Não chegamos a uma data exata, porque um pouco da nossa história foi perdida em várias chuvas de meteoros que caíram sobre o nosso espaço.
Dailen intrometeu-se na sequência:
– A última foi recentemente... quer dizer, há uns vinte e cinco milhões de anos. Alguns Planetas desintegraram-se com os impactos. Mas nossa raça sobreviveu. Os mais antigos divulgavam que esse fato já ocorreu por cinco vezes, e, este último, foi o mais devastador, porque aconteceu justo no meio de uma festa. Dado a nossa evolução tecnológica, muitos fugiram em suas espaçonaves e nunca mais retornaram. Deduzimos duas hipóteses: ou morreram, ou encontraram um outro sistema habitável e ficaram sem condições de regressar, pois as naves daquela época ainda utilizavam um combustível líquido para a propulsão inicial.
– Em nosso Planeta também se desencadeou um fenômeno parecido... antes da presença do homem – comentou Jaime, inocente.
Dailen lançou um olhar indefinido para Peifil, que persistiu impassível e recuperou a narrativa:
– Hoje não nos causaria estrago algum, pois temos um dispositivo de segurança espacial que, num relance, todo o Planeta fica protegido por ondas. Nada consegue ultrapassar... sem explodir ou evaporar-se.
– Calma, Peifil, assim você vai assustar os nossos amigos, cujos nomes nem sabemos ainda – e deu uma longa piscadela para seu companheiro sem disfarçar.
– Seus nomes são fora do comum para nós – apregoou Jaime. – Logicamente os nossos também aparentarão... esquisitice para vocês. Eu sou Jaime Brosso e este é o meu filho, Rodrigo.
– Já sabíamos – declarou Dailen desafetado. – E nós não estranhamos porque em Claus alguns já adotaram esses nom... - como Jaime fez uma expressão bestificante, Dailen retomou em tom menos empolgante. – Nossos radiotelescópios detectaram os sinais das ondas eletromagnéticas do seu Planeta... há mais de cinco anos. Assim, aprendemos o básico de sua língua. Hoje, quando chegamos aqui, nós só fizemos uma reciclagem para unir a palavra à coisa física. Isso foi bastante dificultoso.
Jaime percebeu que eles sabiam muito mais a respeito da Terra do que evidenciaram a princípio. Entretanto, se sabiam ou não, para ele não importava. Seu desassossego era como sair dali.
– Jaime Brosso, estou notando que você está apreensivo – constatou Peifil –, todavia não há motivo para isso.
– Realmente estou preocupadíssimo com o nosso destino – respondeu circunspeto.
– Vou lhe contar uma particularidade – asseverou Peifil –, nós observamos vocês desde quando acordaram até saírem daquela loja de perfumes, ainda há pouco.
– O quê? E nos...
– Calma, Jaime. Apenas sabemos que você tem 34 anos, foi campeão de caratê na mocidade, é um ginasta amador... Ah, recorda a chuva... de hoje cedo? – Jaime sinalizou com a cabeça que sim. – Como adivinhou que pararia logo?
– Chuva de verão geralmente é assim... vem grossa e não dura muito – e preencheu a pergunta anterior. – E nos vigiaram o dia todo?
– Vigiando não é bem o termo, Jaime... analisando e pesquisando, sim – corrigiu Peifil educadamente.
– O modo de vida, o transporte, o tratamento pessoal, as cidades, o meio ambiente – completou Dailen confirmando a seriedade e a lisura empregada no procedimento.
– Como? – questionou Jaime sem consentir que Peifil respirasse.
– Com isso. – Peifil exibiu um pequeno monitor.
– Daqui de cima? Como funciona? – inquiriu Jaime distinguindo a sua imagem focalizada e decompondo toda a comoção de perseguição que sentira pela manhã.
– Com ultrassensores espiões... contudo isso é sigilo absoluto – complementou Peifil.
– Claro, somos crianças ainda. Não saímos do primeiro estágio evolutivo – ironizou Jaime.
– Falando em criança. Muito inteligente o seu filho – enalteceu Peifil referindo-se a Rodrigo.
– Vocês o seguiram também? Para quê? – indagou Jaime surpreendido.
– Claro que sim. Apreciamos o estudo e a brincadeira no intervalo do recreio.
Rodrigo ficou envergonhado e empertigado com o elogio.
– Assim vocês acabam sabendo mais sobre meu filho do que eu – Jaime passou a mão no cabelo de Rodrigo, que aproveitou e:
– Pai, posso perguntar uma coisinha para eles? Posso?
Jaime, estranhando o pedido interesseiro de Rodrigo, concedeu temeroso:
– Claro que sim, filho.
– Vocês assistiram ao jogo de futebol? – interrogou Rodrigo de estalo.
Peifil olhou para Dailen e como se já o culpasse por alguma coisa, reprimiu risonho:
– Eu avisei para você Dailen... que não ia dar certo.
– Mas deu certo, Peifil! – retorquiu Dailen fazendo careta de criança sapeca que praticou uma travessura sadia.
– Foi bem no instante do gol, não foi? – investiu Rodrigo com malícia e imitando a careta de Dailen. – Aquela bola que pegou efeito.
Peifil, com voz de juiz, conciliou escrupuloso:
– Francamente, é quase impossível enganar uma criança. Dailen só quis dar uma ajudazinha, Rodrigo.
Jaime não aguentou ser apenas ouvinte.
– Não disse que vocês sabem mais do que eu? Conta pra mim, filho.
– Foi uma bola que eu chutei, pai. Pensei que ia passar longe do gol, mas ela fez uma curva, bateu na trave e entrou. Como eles mencionaram que me viram no...
Jaime, incrédulo, interrompeu Rodrigo.
– Vocês desceram no campo do colégio? Bem no meio do futebol? E ainda por cima direcionaram a bola?
– Não fisicamente – apressou-se Dailen.
– Como efetuaram essa façanha?! – Jaime estupefato.
– Infelizmente... esse é mais um segredo – explicou Peifil.
– Foi só um divertimento sem maldade – defendeu-se Dailen. – Não sucedeu nada de mais. Ninguém desconfiou... nem se feriu.
– Deixa, pai - antecipou-se Rodrigo –, eu não conto pra ninguém. Também não adianta... não vão acreditar mesmo! – expressou-se na maior naturalidade.
– Isso, rapazinho!... Mostre para seu pai que você está crescendo! – exclamou Dailen sentindo-se perdoado pela peraltice impensada.
– Já que é assim, tudo bem – aquiesceu Jaime diante da resposta relaxante de Rodrigo.


II - A VIAGEM PARA CLAUS


Dailen olha para fora e faz um sinal de que está tudo em ordem. Vira-se para Peifil, e como se Jaime e Rodrigo fossem conhecer algo extremamente incomum, diz:
– Peifil, esmiúce para eles o nosso roteiro até Claus.
– Roteiro até Claus?! Vão nos levar par...
– Jaime, já avisamos para não se preocupar.
Peifil aciona um dos aparelhos localizados em sua frente. Um holograma, no formato de um enorme mapa cosmográfico, além Sistema Solar, se reproduz no ar. Ele, tal qual professor universitário, exalta em minúcias:
– Bem, ilustres cavalheiros, nosso itinerário é o seguinte: vamos subir até a constelação de Yjar, passaremos pela nebulosa de Calinudei, que ainda está em formação. Após transpormos o Sistema de Dacirro Laifoba, alcançaremos as três estrelas irmãs, conhecidas por Venea, Laineli e Railem.
Para onde Peifil apontava, uma luz amarelada refletia no mapa, traçando o percurso. Ele continuou narrando:
– Iremos até ao Planeta Rilam, que tem as luas mais belas, conhecidas como Izal e Aral, vizinhas da estrela Delalnai. Teremos que passar ainda por mais dois Planetas do Sistema de Galudaia, que são: Laveda e Dulácia. Então encontraremos o Sistema de Raioleu, cuja temperatura é muito baixa, só tem gelo. Depois de passarmos pelo Planeta de Oslen, viraremos à direita.
– Oslen é o último Planeta do lado oeste deste universo – retrucou Dailen.
– O Planeta Claus é tão longínquo assim? – perquiriu Jaime mesmo sem saber o que significavam todos aqueles nomes sem cabimento.
– A distância maior, entre o seu universo e o nosso, é o Grande Vazio.
– Grande Vazio?!! – exclamou Jaime por achar o termo sem miolo.
– Chamamos assim porque não existe nada na imensidão do Grande Vazio, apenas um vasto espaço negro e silencioso – elucidou Peifil.
Dailen prolongou o assunto:
– O Grande Vazio era um mistério para nós. Somente quando o SETI... o Setor Especializado em Tecnologia Interplanetária sintonizou os sinais de rádio de seu Planeta, é que nós descobrimos que o Grande Vazio não era o final do nosso universo visível e habitável, que após ele havia outro mundo... e cremos que coabitamos com outros mais. Esta foi a primeira vez que o atravessamos – informou Dailen, patenteando certo temor pela frieza, impalpável, da região “ciscósmica”.
– Onde estamos agora? – perscrutou Jaime com uma voz arrependida, não coadunando com uma cadeia de “universos” independentes, extragalácticos, separados por uma cerca plana... um enorme vazio oco.
Dailen checou o mapa flutuante.
– Para vocês terem uma vaga ideia... esta é a nossa espaçonave – e evidenciou uma marca luzidia que se movimentava serelepe entre as diversas linhas coloridas. – Já deixamos o seu Sistema Solar para trás.
Rodrigo segurou no braço do pai, demonstrando saber sua exata posição no espaço sideral.
– Nesse momento nos aproximamos dos Planetas Adreudo, Orbun, Roehit e Vadi, no extremo da quinta galáxia... limítrofe do Grande Vazio. Digitalizamos essa cartografia com todas as efemérides e classificamos os astros por sua atração gravitacional de acordo com sua importância no... o que emblemamos de: Cosmo Invisível.
Peifil prosseguiu sinalizando o roteiro:
– Assim que cruzarmos o Grande Vazio navegaremos para o Sistema de Naiaton. Pararemos apenas para pegarmos alguns donativos, destinados ao Planeta Iur Senbur. Entregaremos a carga em quarenta segundos e partiremos rumo ao nosso Planeta, onde ambicionamos tirar umas boas férias em noites pândegas, isso se o Rei Ojes e a Rainha Ariam permitirem.
– O quê? – indagou Jaime abismado. – Vocês têm Rei e Rainha?
– Por que o espanto, Jaime? – inquiriu Peifil com um sorriso incompreensível.
– Nada – respondeu Jaime quase como um pedido de desculpa, e completou. – Nunca imaginei que esbarraria com monarquistas tão distantes da Terra.
Dailen, concentrado na conversa, apoiou Jaime:
– Você tem razão, Jaime. Em seu Planeta é um regime em decadência, contudo, em Claus será o eterno.
Peifil puxou uma gaveta da mesa que voejava e preveniu com sobriedade:
– Escutem atentamente, por favor: vocês serão submetidos agora a um teste de superação. O que irão presenciar não é para elaborarem... teoremas indecifráveis, e sim para admirarem – apertou alguns botões e do piso liso emergiram quatro poltronas equipadas com máscaras, capacetes e cilindros.
– Para começar – falou pausadamente Dailen –, sentem-se aqui, coloquem estes óculos escuros, o capacete e fechem bem os olhos.
– Aviso importante – preveniu Peifil –: permaneçam com os olhos fechados até que um de nós peça para abri-los. Entenderam?
– Acho que sim - respondeu Jaime e caçoou. – Temos outra escolha?
Dailen, que não podia ver um gracejo em andamento, foi esperto na intromissão.
– Têm sim. A outra escolha é: obedeçam e relaxem – e deu uma gargalhada gostosa, auxiliando Rodrigo que se embaraçava com o capacete.
Pela pressa com que Dailen se aprontou, Jaime notou que ele estava ansioso para desbravar o que viria. Assim, procurou uma galhofada simpática para aliviar a tensão.
– Confesso que a minha curiosidade ainda é maior que o meu medo.
– Sabemos que não é verdade – discordou Dailen. – Curiosidade, para nós, é palavra que não existe. Você tem é ânsia pelo desconhecido. E não podemos mais retardar.
– Prontos? – perguntou Peifil examinando toda a sala numa derradeira e minuciosa inspeção.
– Pronto – confirmou Jaime sacudindo os ombros e advertindo Rodrigo que se ajeitava na poltrona. – Campeão, você ouviu o comandante? Nada de abrir os olhos.
– Certo, pai. Nem estou mais com medo.
Jaime sentiu que Rodrigo gostou do entretenimento. Ele era fascinado pelo espaço, permanecia estático, vasculhando o céu, à noite, com sua luneta, em busca de um ponto incerto. Fecharam os olhos aguardando os acontecimentos. Um cinto de segurança os envolveu, automaticamente, na altura do peito. Uma aceleração impetuosa foi crescendo e os empurrando contra o encosto da poltrona. Subitamente o sol penetrou pela sala adentro. Tamanha foi a claridade, que todos apertaram os olhos na tentativa de se defenderem daquele brilho. A sensação de Jaime era a de que não saíra do lugar, no entanto, pelo movimento vibratório do corpo, pressentia estar sendo arremessado para o espaço a uma velocidade espantosa. Após alguns segundos, a luminosidade retrocedeu, suavizou para branda. Jaime suspeitou que haviam cruzado o Grande Vazio, pois passou a ver astros siderais indescritíveis. Talvez batatas gigantes, peras deformadas ou berinjelas voadoras. Um era cheio de furos, por onde saía, em jatos, fumaça de todas as cores, constituindo um arco-íris disforme ao seu redor. Outro, preto, tostado igual carvão, com centelhas ainda efervescendo por suas rachaduras. Passavam agora por constelações, luas, sóis e muitos asteroides sem formas definidas. Seus olhos conservavam-se fechados e, mesmo assim, via normalmente. Queria inteirar-se, buscar esclarecimentos, entretanto, como lhe recomendara Peifil: era apenas para admirar.
Jaime não seria capaz de especificar, com exatidão, por quantos minutos ficou assistindo ao que se passava em sua frente, com variações incríveis a cada fração de segundo. A paisagem era tão irreal que equivalia a um jogo de vídeo game, no qual milhares de estrelas, circundadas de halos galácticos, refulgiam num universo virtual, envolto em nebulosas dispersas.
– "Rodrigo deve estar adorando” – pensou Jaime. – “Viciado nos jogos do jeito que ele é, com certeza, já fez tal comparação.” – E monologou com o seu capacete: – "Será isso a velocidade da luz? Ou até mesmo... superior?"
Como não sabia a resposta, deleitou-se com o panorama circular, de beleza mirífica, no novo cenário que se vislumbrava ao infinito – e pela primeira vez – vendo de olhos cerrados.
– Detectores programados para a desaceleração.
Jaime reconheceu a voz de Dailen, que vinha do seu lado esquerdo. Inesperadamente tudo escureceu. Jaime não viu mais nada.
– Gerenciadores de voo desligados.
Era Dailen novamente.
– Há alguma coisa errada com o marcador do tempo, Dailen! – exclama Peifil com espanto, e prossegue. – Impossível!... Recomeçou do momento em que entramos no Grande Vazio pela primeira vez?!
– Deve ser o resultado do que... – Dailen silencia e em seguida desafoga: – Peifil!... O Grande Vazio é mesmo um Divisor do Tempo! Sua travessia é nula... sem efeito cronométrico!
– Será, Dailen? O cientista Samjir Soebo publicou essa teoria muito antes da descoberta do... – Peifil interrompeu a frase. – Ninguém lhe deu atenção. Foi severamente criticado. Comunicaremos ao SETI esse engano imediatamente.
Jaime julgou que os dois estavam inventando histórias fantásticas só para testarem sua sagacidade, não se associou ao paradoxo, supostamente inverossímil.
– Preparação para flutuar em Naiaton iniciada. – Peifil agora conferia. – Recebendo os donativos no compartimento de carga. Um, dois, três... finalizando... vamos em frente, Dailen.
A nave volta a se movimentar com velocidade. Um longo silêncio expectante. Jaime ouviu um pequeno barulho. Tudo sossegou de novo.
– Flutuação concluída para a escala em Iur Senbur – diz Dailen.
– Vou para o compartimento monitorar a descarga – informou Peifil. – Quando estiver preparado, me envie o sinal.
Jaime ouviu a voz de Peifil se distanciando e não aguentou:
– Ei, Dailen!... É você que está aí? Podemos abrir os olhos?
– Agora podem. Estou dando os últimos retoques no encerramento do programa espacial.
Jaime abriu os olhos, porém, ainda com os óculos escuros e o capacete, não adiantou quase nada.
– Podemos tirar o capacete e os óculos, Dailen?
– Claro. A esplendorosa viagem já terminou. Vencemos de novo o Grande Vazio – desabafou relaxado.
Jaime retirou os óculos. A claridade da sala tornou-se fraca demais. O brilho daquela luz intensa ainda residia em sua mente. Suas pupilas demoraram a se adaptarem ao recinto, mas Rodrigo já estampava uma alegria larga nos lábios.
- Legal pra caramba!... Você não achou, pai?
Jaime, mesmo sem saber se Rodrigo enleara-se na mesma alucinação que ele, concordou com aqueles olhos que refletiam felicidade e assombro. Pressupôs que Rodrigo nem se lembrava mais de casa, tampouco se incomodava com o retorno.
Houve uma mudança perceptível na paisagem lá fora. Agora não eram apenas nuvens, terras alongavam-se no ângulo esquerdo.
– Terra à vista! – gritou Jaime à moda Cabral.
– Calma, companheiro! – alertou Dailen. – Não é a sua Terra. É um Planeta em nada parecido com o seu. Sabe qual a temperatura lá fora?
– Nem imagino.
– Para ser exato, está fazendo um calor de 67 graus... à sombra.
– Nossa!... e o povo daqui, como é? – Jaime dirigiu-se para uma escotilha da nave.
Jaime nem ouviu a resposta de Dailen, porque o que seus olhos viram foi uma cena de piedade dantesca. Caricaturas deprimentes se moviam. Seres maltrapilhos, de constituição e aspectos horripilantes, vagavam. Muitos com os braços compridos e de baixa estatura. Outros corcundas, com protuberâncias por todo o corpo. Ao longe surgia, assustadoramente, um grupo de seres cadavéricos com partes cobertas de pelos, sustentando-se sobre quatro patas. Logo abaixo, dois, totalmente mutilados, arrastavam-se feito minhocas asquerosas pelo chão sujo. Raríssimos, ditos normais, se distinguiam naquele meio, em quase todos, sobressaltava uma anomalia descomunal sobre uma estrutura física inacabada.
– Quem são essas criatu... essas pessoas? – interrogou Jaime, condoído, sem desligar-se da cena monstruosa.
– Jaime, não sei se devo... – Dailen, com receio, pensou e depois decidiu. – Bem, não tem problema você saber, afinal está conosco nesta viagem e é nosso hóspede.
Dailen contorceu o nariz e colocou na entonação um sentimento desgostoso de culpa:
– Esses indivíduos são esquivos. Ninguém sabe ao certo de onde vieram. Dizem que os primeiros foram do Planeta de Gane que, para se livrar de seus criminosos, trouxe todos para este lugar. Como é um Planeta muito quente, em uma posição ruim e desprotegida do Sistema Comunitário, ninguém se opôs. E como os direitos são iguais, outros Planetas aderiram ao mau exemplo. O pior é que a população está sem controle de crescimento, isso é ruim para qualquer Planeta... o seu também – apontou o indicador para Jaime.
– Bem, no meu estão pensando no caso – escapuliu Jaime sem coragem de questionar se aquilo eram assomos de seres humanos ou se, pelo menos, supostos animais racionais.
Num súbito de pressa louca, Peifil precipita-se estabanado na sala, assustado e suando a cântaros. Fala ofegante numa língua desconhecida. Dailen começa a suar também.
- "Deve ser o idioma de Claus" – inferiu Jaime.
Eram vocábulos curtos, porém, pela expressão do rosto, Jaime traduziu que algo de errado acontecia e que alguma decisão urgente precisava ser tomada. Dailen aperta uns botões e avoluma-se uma tela sobre a mesa que flutuava. Ele digita um comando premente, pois, após cada procedimento, fica ansioso, fitando o visor como quem almeja uma resposta imprescindível. Nas paredes da espaçonave, luzes piscam aleatoriamente em diversos pontos, alertando o perigo. Jaime, aquilatando-se inválido, acomodou-se ao lado de Rodrigo, que transparecia avaliar corretamente a situação.
– Eles estão com algum problema, não é pai?
– Acho que sim, filho.
De repente ocorre um deslocamento e toda a nave balança desordenada. Pela primeira vez, Jaime e Rodrigo sentiram uma pequena turbulência, seguida de uma descompressão. A nave inclina e ameaça cair. Peifil, exaltado, grita termos de ordem. Dailen digita ligeiro. Aguarda e responde com a mesma veemência. O semblante de ambos é de desespero. O suor rola pelas faces. Peifil, apavorado, corre para o canto esquerdo da sala e mexe em uma placa vermelha com pinos brancos. As luzes internas oscilam num pisca-pisca giratório, alternando as cores. A nave se estabiliza em trepidação constante. Peifil, mesmo todo suado, certifica mais sereno para Jaime e Rodrigo:
– Vamos sair dessa, não se inquietem. Não temos armas para atacar, contudo eles não conhecem nosso poder defensivo – e determina para Dailen:
– Dailen, aja depressa. Eles pretendem nos segurar.
Dailen, agora rodeado por três atenciosas mesas flutuantes, esquematiza a defesa emergencial. Peifil prossegue:
– Todavia, não terão sucesso... seus sefitap! – grita para ofender seus agressores.
– Soriecapart! – acrescenta Dailen do mesmo modo e com ar zangado, detalhe que Jaime ainda não presenciara nele.
Jaime não podia ficar plantado, feito um poste sem lâmpada.
– Rodrigo, me espere quieto aqui.
– Tá bom, pai.
Jaime correu para a janela. Mil faróis piscavam sob a nave. Uma máquina, repleta de holofotes, lançava de um canhão, correntes de raios que atacavam em conjunto. A nave se defendia emitindo um escudo luminoso em ondas, rechaçando o ataque. Era uma batalha de luzes medindo forças no espaço.
– Mais forte, Dailen. Utilize a carga extra – decreta Peifil.
Dailen digita com tanta agilidade nos teclados que seus dedos quase desaparecem.
– Carga suplementar chegando, Peifil, e... entra.
O escudo luminoso da nave expandiu-se numa auréola rosada dominante. Como um balão que se desprende das cordas, a nave subiu ondulante. Jaime perdeu o equilíbrio e saiu capengando, indo estatelar-se perto de Rodrigo.
Dailen e Peifil espreitam alguma coisa no teclado misterioso. Entreolham-se e sorriem. Para Jaime transpareceu que tinha dado certo o que planejaram. Peifil e Dailen puseram-se de costas um para o outro. E num passo de dança festiva, trançavam os pés, primeiro o direito, depois o esquerdo e encostavam os cotovelos, no mesmo jeito dos pés; retratando para Jaime uma comemoração, ensaiada, dos jogadores de futebol quando fazem um gol decisivo.
– Esses infelizes não têm juízo mesmo – repudiou Peifil. – Nós não os largamos aqui por conta da sorte, porque alguns são inocentes, resultado de um progresso não estruturado. Viemos ajudar e somos recebidos com traição. Não sei como eles desenvolveram a tecnologia da atração "autodinâmica molecular". - Ajeitou os escassos fios de cabelos e completou, balançando a cabeça, pensativo. – Ainda bem que a nossa nave é interplanetária, se fosse uma nave local certamente teriam êxito. Temos que avisar ao Sistema Comunitário Dailen, senão quem aqui chegar vai ser capturado.
– Vou providenciar isso agora mesmo – concordou Dailen.
Peifil retirou de um bolso, que Jaime não reparara existir em sua vestimenta, um aparelho minúsculo e conversou demoradamente, em vocábulos fragmentados. Mesmo sem entenderem, Jaime e Rodrigo ficaram "escutando" o monólogo. Rodrigo engraçava-se com a dicção de Peifil.
Jaime olhou para fora e muitas naves os escoltavam. Dançavam na frente da espaçonave. Voluteavam como se fossem bailarinas numa coreografia de movimentos rítmicos e perfeitamente ensaiados. Mais além, as naves compuseram um círculo esplêndido, de núcleo visivelmente ondulado, mole e barrento. A espaçonave, mansamente, avança em sua direção. Quando cruzam com aquele círculo gosmento, vem a surpresa. A barreira de segurança foi rompida. Ressaltou uma pintura morta, numa paisagem árida. Surgiu o que Jaime concebeu ser o Planeta Claus. O cenário que se desenhou não era muito divergente do terrestre. No entanto, demonstrava, pelos traços retos e lisos, ter sido feito, em sua totalidade, cautelosamente, pela mão do homem. Nada ali se afigurava elaborado pela natureza. Enormes praças, sem árvores nem gramado. Uma vasta área descampada, estorricada e solitária perdia-se no horizonte. Até os morros que se erguiam ao longe eram idênticos – todos pintados de um verde-musgo desbotado.
Jaime tomou um susto quando se deparou com o céu. Descortinou uma imensidão, inacreditável, de astros próximos demais, com dimensões e formas variadas, que pairavam num firmamento vermelho em nuanças afogueadas. Rodrigo alongou seus olhos e, estupefato, num assombro exclamou:
- Nossa, pai!... Quantos!...
No espaço salpicado de objetos siderais, não se via nenhuma nuvem. Em todas as direções que a espaçonave lhes permitia ver, comparecia uma sequência incalculável deles. Os mais distantes refletiam uma cintilação opaca, os dos arredores variavam na tonalidade rósea ao roxo forte. No tamanho, uns gigantescos, outros pequenos, tal qual bola de bilhar. Mais no alto, a abóbada celeste vestia-se de uma cor abrasante, uma imensa fornalha em plena atividade. Apesar disso, a temperatura no Planeta bizarro era aprazível. Dailen, risonho, percebendo todo o encantamento e ânsia dos visitantes, integra-se extasiado, dissertando:
– Mundo incomum para vocês... acostumados a contemplarem um céu com apenas uma lua, nuvens e um monte de estrelinhas longínquas... ou um sol forte... isso é...
– Inusitado... harmonioso e arrebatador – embasbacou Jaime.
– Aqui vocês veem mais de sete mil astros – informou Dailen. – Estrelas, planetas e satélites. Alguns deles em distância inferior a sua lua.
– Que espetáculo, filho!... É uma visão sobrenatural! – exclamou Jaime instintivamente.
– Como pode, pai. Tudo isso assim... tão perto?
Dailen, já que os dois não desgrudavam a atenção do céu, manifestou desenxabido:
– Estejam à vontade, Terráqueos. Creiam que também nos espantamos assim ao avistarmos as florestas, os mares e os rios do seu Planeta.
Diante do panorama incomensurável, os Terráqueos permaneceram boquiabertos, prostrados sem palavras. Jaime ainda não se convencera que tal odisseia estivesse acontecendo. Era uma paisagem cósmica surreal, alomórfica, digna dos sonhos estapafúrdios que nos despertam num sobressalto.
– "Os astrônomos enlouqueceriam, ao verem tanto estudo inédito" – pensou Jaime em seu íntimo.
Astros que se assemelhavam a enfeites caídos de uma portentosa árvore de natal. Jaime sentiu seus olhos molhados por lágrimas de emoção, pensou no Criador e suspirou fundo, emancipando o espírito.



III - A VISITA AO REI


– Chegamos, Jaime – Dailen estendeu a mão dando a entender que apresentava aos fidalgos Terráqueos o seu território e que era para tirarem os olhos daquele céu.
– Já desconfiei – brincou Jaime, embriagando-se mais um pouco da paisagem.
Peifil dirigiu-se a Dailen com ar retesado e discorreu meio sigiloso:
– Houve uma falha anormal nos equipamentos de supervisão dos sensores externos.
– Sim, eu notei também, saíram do ar por uma fração de segundo e retornaram à frequência correta. Algum problema nisso? – averiguou Dailen.
– Não, nada. Ainda estou impressionado com o que sucedeu em Iur Senbur.
Peifil esfregou as mãos e convidou Jaime e Rodrigo:
– Chegou o momento de descermos, Terráqueos, tenho que levá-los à presença de nosso Rei.
– Seremos mesmo anunciados ao seu Rei?
– Claro! Por que você ainda não acredita, Jaime?
– Bem, eu não sou ninguém de... prestígio na Terra. Sou apenas um sujeito comum. Um reles plebeu.
– Aqui, Jaime, todos nós temos um mérito indiscutível. Vai se acostumando com isso. Somos todos iguais... e não necessitamos de lei para efetivar isso.
A mesma porta que Jaime viu abrir quando foram sugados para a nave, agora abria para a sua saída. A nave conservava-se alta do chão. Jaime não sabia se pousara ou se ainda flutuava. Do lado de fora, um aparato militar, numa recepção de boas-vindas apoteótica, agitava-se. Muitas fileiras de pessoas, com vestimentas multicores, em linha reta uniforme, aguardavam a descida dos dois ilustres hóspedes. Alguns lançavam olhares curiosos em direção à nave. Jaime reconheceu-se importante, afinal era um intergaláctico ou um "extraclausestre", portanto um espécime distinto e privilegiado. Peifil foi o primeiro a sair. Todos curvaram o pescoço enquanto ele descia. Depois tocavam em suas vestes, numa saudação habitual, dedicada apenas a quem regressa de uma longa viagem vitoriosa.
– Agora você, Jaime – disse Dailen preparando uma espécie de aparelhagem de som. – Rodrigo descerá em seguida.
Jaime não viu rampa nem escada. Dailen, antes que ele indagasse, num leve sorriso, esclareceu:
– Pode descer sem medo. É uma escada inteligente, os degraus se dimensionam em conformidade com o tamanho de cada passo que você der. Evita quedas.
Jaime parou na porta. As pessoas não curvaram o pescoço. Estenderam as mãos e saudaram numa só voz retumbante:
– Salve, amigo Jaime.
Jaime estremeceu, mal chegara e todos já sabiam o seu nome. Na Terra ele mal sabe o tipo físico dos vizinhos. Não deveria mesmo estranhar as desigualdades por aqui. Jaime desceu os degraus invisíveis. No chão, todos tocaram em sua roupa. Ele, recém-chegado, aprendiz, sem saber o que fazer, movia o pescoço num agradecimento respeitoso. Seu receio era que um deslize, um gesto inadequado pusesse tudo a perder. Rodrigo apareceu na porta da nave. Avidamente procurou pelo pai.
– Salve, amigo Rodrigo – bradou uníssona a comitiva.
Ele foi descendo devagar. Antes de apoiar o peso do corpo, experimentava com a ponta dos pés se havia degrau ali. Os primeiros da fila encetaram numa longa risada e difundiu-se o zum-zum-zum.
Dailen, de cima da nave, acena para a população. Abre e fecha os braços. Os que estão embaixo correspondem com a mesma coreografia. Iniciaram uma cantoria. Dailen cantava e a multidão respondia. Devia ser um jogo, um repente engraçado, porque a cada revide, todos gargalhavam. O povo repetia e o acompanhava batendo palmas.
Jaime atentou a imponente espaçonave. Não era mais uma nuvem branca. Igualava-se a uma fenomenal pedra de diamante, arredondada, cravada de cristais e coberta de pequenos alvéolos lapidados que brilhavam incandescentes.
– Bonita a nave, não é pai? – comentou Rodrigo de pescoço esticado para cima.
– É, filho, muito bonita. Estou pensando como isso funciona e qual a autonomia de voo...
– Pai, quando vamos para casa? – perguntou Rodrigo, inocentemente, como se estivessem no bairro contíguo.
– Eles... eles nos levarão de volta, filho.
Jaime não sentiu muita firmeza em suas palavras, entretanto não podia permitir que Rodrigo pensasse diferente. Além disso, não lhe restava alternativa a não ser sobrepujar seus próprios temores.
– O Dailen é um galhofeiro – reparou Peifil se chegando aos dois –, em toda viagem entretém a multidão com seus folguedos. Não é à toa que é filho de um famoso menestrel. - Expediu algumas ordens, em sua língua, a inúmeros indivíduos e, prazenteiro, desafogou. – Vamos para o Palácio do Rei Ojes.
Jaime estremeceu de novo. Conhecer um Rei de outro Planeta? Nem em sonho ele presumira isso acontecer um dia.
– "Dado o conjunto de conhecimento científico do Planeta Claus, o Rei, com certeza, é a criatura mais antiga e erudita. O todo onipotente. Opulento" - inferia Jaime.
Peifil dirigiu-se para um objeto chato, aparentemente de aço, contendo um painel e cinco assentos em concha, e expôs com ar espirituoso:
– Veja o nosso carro. Último modelo. Zero-quilômetro. A paixão de qualquer Terráqueo.
– Peifil, não duvidarei nem me atemorizarei com nada que você disser de agora em diante – Jaime deu mais dois passos e indagou. – Cadê as rodas dessa chapa metálica com cadeiras coladas?! – e vasculhou debaixo do veículo.
Peifil nem se importou com o pretensioso chiste.
– Você senta aqui e Rodrigo no banco de trás. Verão que não precisaremos de rodas.
Jaime embarcou e foi envolvido por uma membrana ou força invisível, que colou suas costas ao assento anatômico. Peifil notou a angústia e a reação de Rodrigo reclamando:
– Opa! O que é isso?
– Não se assustem – avisou Peifil. – É o nosso cinto de segurança automático. Assim ninguém corre perigo de cair quando subirmos.
– Subirmos? Não me diga que “isso” voa! – surpreendeu-se Jaime.
– Claro que voa. Está vendo alguma rodovia? – gozou Peifil. – Mas “isso” é seguro... sem risco algum.
– Realmente é... seguro demais – Jaime ficou imóvel, fingindo-se sufocado.
– O Palácio é perto... no entanto, vou proporcionar uma viagem de turismo a vocês – explicou Peifil acionando a máquina.
Aquela coisa frágil, inexplicavelmente, alça voo. O único zumbido que se ouve, é o de um ventilador. Jaime, pasmado, deglutia a seco, voava em um tapete de aço, numa montanha-russa plana, sem trilhos. Peifil, eufórico, foi roteirizando os monumentos históricos, e para cada um que apontava, com tanta empolgação, Jaime só via um maciço penedo edificado. Aqueles relevos análogos poderiam ser tudo, menos construções apropriadas para o fim que Peifil mencionava. Confabulou consigo:
– "A troco de que irei eu discordar? Talvez eles gostem assim. Avaliem bonito. E gosto eu não discuto nem na Terra, muito menos aqui. Estou prestes a ser recebido por um Rei. Não posso cometer gafes. O Rei sempre tem razão... mesmo estando errado. “Sim, Majestade...” vai ser a minha resposta... sem preâmbulos. Agirei como um diplomata cortês, pois o Rei deve ser idolatrado por eles.”
– Veja, Jaime, lá está o nosso estádio esportivo – Peifil apontou para a direita desfazendo a meditação reconciliadora de Jaime, que, ao ver mais uma montanha antiquada, mudou de opinião.
– Onde, Peifil?... Não vejo nada parecido com um estádio circulado por arquibancadas... repletas de torcedores...
– Ah!... Você está procurando um campo de futebol a céu aberto?
– O que devo procurar então? – redarguiu Jaime.
Peifil prontificou-se.
– Em nossas cidades e nas áreas destinadas à agropecuária não temos nada do lado de fora. É tudo coberto ou subterrâneo. Esqueci de lhe avisar... acabou de anoitecer em Claus.
– Isso é a sua noite? Mas está claro como dia!...
– Sim... a nossa noite não é feita de escuridão como a de vocês. De dia nós dormimos. Nossos sóis não nos dão liberdade. A temperatura é elevadíssima. Não temos nem resquício da camada de ozônio que vi em seu Planeta. A nossa cobertura é composta de um isolamento térmico, sem o qual morreríamos de insolação. - Peifil levantou o braço apontando para o céu e continuou. – Nesta direção, Jaime, bem no final, você vai ver um planeta de cor azul. Está vendo?
Os novos olhos de lince de Jaime bateram no zênite daquele céu cheio de astros e, muito longe, localizaram uma luz azul que se destacava.
– Estou. Parece muito distante. Antes da... operação eu não o enxergaria.
– É o Planeta Crinfasca. Ele ainda preserva uma atmosfera parecida com a do seu Planeta. Isso porque foi o último a ser conquistado e nossos sóis não chegam lá com intensidade. É o Planeta do turismo. Muitos vão lá passar as férias, só para conhecerem a chuva.
- A chuva?! – retrucou Jaime admirado.
– Sim, a chuva. Em Claus não chove há milhões de anos. Aliás, Crinfasca, é o único Planeta que ainda tem chuva e rios em abundância. Os antigos governantes postergavam o dilema da mudança climática para o seu sucessor resolver... gastavam muito em diligências e estatísticas, mas, de posse dos dados, não empregavam nenhuma ação concreta relevante... e deu no que deu. Um superaquecimento incontrolável que... – Peifil, como se houvesse invadido um assunto que não lhe era concernente, parou de tagarelar, acertou alguns marcadores no painel e ponderou precavido. – Jaime, se pudéssemos escolher preferiríamos morar em outro Planeta.
– E por que não podem? Tecnologia para isso eu vejo que vocês possuem.
– Nós acatamos o tratado "intragaláctico". Cada civilização deve adaptar-se em seu próprio Planeta. Isso é bom, pois evita as guerras e muitas mortes; porque depois que a produção de armas de ataque foi proibida reconquistamos a tranquilidade.
– Como assim? Armas de ataque? – interpelou Jaime sem entender o que significava.
– Só podemos construir armas para nos resguardar e não para atacar. Aqui, o principal culpado pelo crime que uma arma comete é o seu fabricante, o usuário é coadjuvante. E toda nova tecnologia tem de ser aprovada pela ALOCSE. É uma equipe de pesquisadores, da qual participam todos os 1986 Planetas da nossa grande Galáxia Comunitária.
– O quê? São os Planetas habitados do seu Sistema? – assustou-se Jaime com a quantidade.
– Sim, e a ALOCSE tem a coordenação da segurança de todos eles. A cada período, não definido, a equipe executa uma inspeção rotineira. Até hoje não foi encontrada nenhuma arma de ataque.
– Impressionante!! – exclama Jaime desiludido, tecendo um leve comparativo com os tentames de desarmamento na Terra.
– Mas é coerente, Jaime... Se não é permitido matar, para que consentir a confecção de armas para tal finalidade?
– Sou obrigado a concordar com você, Peifil.
– Temos poucas leis, mas todas são cumpridas. Somos fiscais de nós mesmos. Cada vizinho é um policial responsável pela manutenção da ordem. Caso você faça algo ilícito e ele não o denunciar, passa a ser cúmplice no delito e responderá pelo ato, pois ele também tem um vizinho e assim se fomenta uma corrente protetora. Hoje, a primeira percepção de sensibilidade que ensinamos e exigimos é o respeito ao direito do próximo. Se bem que temos leis que só após muitos equívocos é que foram acertadas. Buscamos a solução na origem do problema.
– Como assim... origem do problema? – interessou-se Jaime.
– Vou lhe citar um exemplo: nossos carros, na época, eram de rodas, bem similares aos do seu Planeta. Tinham uma velocidade incrível e desencadeavam muitos acidentes trágicos. Muitas vidas eram desperdiçadas. Para tentarem estancar essa onda de violência, elaboraram campanhas fortes... com chavões apelativos. Tipo: Sua pressa poderá estacioná-lo no hospital. Havia outro: Está cansado? Que tal descansar no cemitério!... Passavam propagandas com imagens horríveis...
– Aposto que ninguém deu atenção – atalhou Jaime com ares de adivinho.
– Claro que não. Os imbecis achavam que desastres só ocorriam com os outros. Matutamos séculos para idealizar uma lei que pudesse ser cumprida por todos. Partimos para a mesma solução aplicada às armas... com ajustes, evidentemente. Não poderíamos proibir a produção de carros, mas sim padronizá-los. Pergunto-lhe: se não é admissível ultrapassar certa velocidade, para que fabricarmos carros que corram além dela?
– Pode ser uma boa ideia...
– E foi – retomou Peifil. – A lei foi feita para os carros de rodas e serviu para regulamentar os voadores, que vieram posteriormente.
– Peifil, alguém pode adulterar os dispositivos do carro...
– Não, não pode – abreviou Peifil. – Porque infringirá outra lei, que na ressalva diz: "não é facultado deturpar um equipamento padronizado”.
- Lá na Terra ainda se corre só por prazer e muitos morrem por... patetice – lamentou Jaime.
– É só uma questão de costume, Jaime. Embasadas nesse fato, outras leis foram reformuladas; buscando sempre a solução na fonte e não mais combatendo as falhas intermediárias e lamuriando os efeitos.
– Teoricamente eu saliento que vocês estão cobertos de razão. Porém, se alguém desobedecer a lei, o que acontece?
Peifil contrapôs seco.
– Morre.
Jaime estarrecido:
– Vocês têm pena de morte?
– Sim. Por que o espanto? Se eu obedeço a uma lei, outro mau elemento não. Teremos os mesmos direitos? É justo um vagabundo errante castigar toda a sociedade? No Sistema Comunitário ninguém tem privilégio. Somos totalmente diferentes em uma gama de pormenores particulares, porém num procedimento somos uniformes... na ética. Esta é a essência que deve constituir a verdadeira vida humana. Como diz nosso Rei: não existem dois rostos iguais, nem dois sorrisos idênticos, no entanto somos retalhos do mesmo tecido. Jaime, retrocedemos ao lema prescrito em nossos primórdios: dedo por dedo, cabeça por cabeça. Quem não quiser se adequar é sumariamente excluído.
Peifil fez uns trejeitos de arrependimento, discordou de seus termos e complementou:
– Às vezes, os Reis, por indulgência ou por intercessão do Sistema Comunitário, degredam os malévolos para Iur Senbur... Isso se a infração não provocou o falecimento de ninguém, geralmente são propagadores de ideologia antissocial. Porém não sei o que é pior, ir para lá ou morrer.
– A pena de morte é muito discutida em meu Planeta.
– Mas, Jaime, nós não começamos pela pena de morte. Antes usávamos o reformatório como repreensão. Depois o infrator era exposto em praça pública. A cada motim, ou tentativa de fuga, tinha a pena dobrada. Iur Senbur passou a ser o celeiro dos deportados. Nada disso adiantou, ao invés de se recuperarem os delinquentes se rebelavam ainda mais. Ninguém muda sua índole da noite para o dia. Índole congênita ruim não tem remédio... é um aleijão.
– Não concordo com você, Peifil. Muitos, no nosso Planeta, atingiram a regeneração plena e hoje são exemplos vitoriosos para que outros não...
– Jaime – interrompeu Peifil –, eles não se modificaram. Por força de alguma circunstância extrínseca estão hibernando. Podem explodir a qualquer momento. Temos um provérbio: se a planta é nociva, o melhor a fazer é esmagar todas as sementes. Imagine: a pequena chama que arde na vela, se tolerarmos que ela se alastre pode queimar o mundo. No entanto, um pequeno sopro é capaz de extingui-la no início. Assim também, Jaime, às vezes, precisamos recorrer ao sopro para guarnecer uma sociedade que vive irmanada.
Mesmo contrariado, por bom-senso Jaime não se embateu no assunto. Afinal, em se tratando de opinião cada um evidencia sempre a sua como a mais racional. E aquele que teima em não aceitar o ponto de vista alheio, logo será qualificado de teimoso. Peifil continuou:
– Já que era uma pequena minoria que transgredia as regras, ocasionando desconforto para a imensa maioria, a equipe de penalógicos chegou à conclusão de que a volta da pena de morte seria a única saída.
Jaime não queria futricar nova polêmica, mas não se controlou:
– Peifil, algum inocente, por... engano no julgamento, já foi condenado à morte?
– Não, ao contrário, evitou que muitos inocentes fossem mortos por criminosos de aluguel, que, antes da lei, tinham certeza da impunidade. Após a lei, os assassinatos diminuíram, pois quem tirava a vida de alguém anuía ao próprio suicídio, porque sabia, de antemão, que iria morrer.
– Sinceramente, não sei o que pensar. Alguns alegam que só Deus tem o direito de tirar a vida.
– Deus! – exclamou Peifil meio acanhado. – Foi bom você falar nesse "Homem". No princípio pensávamos que "Ele" era o Rei do seu Planeta.
– Rei do Planeta Terra? – Jaime sacudiu a cabeça negativamente.
– Sim, porque todos asseguravam: "se Deus quiser, eu farei isso". Eu e Dailen chegamos a nos comunicar com o Sistema, informamos que o Planeta Terra tinha um Rei: Jesus Cristo, cognominado Deus, que a maioria temia e amava ao mesmo tempo. Alguns duvidavam e outros nem acreditavam em sua existência. De que maneira se explica essa submissão pluralizada?! – patetou Peifil deixando Jaime com o raciocínio empacado.
Depois de engolir a indecisão por duas vezes, Jaime assentiu desarticulado:
– Nascendo adulto e descortinando Deus por esse prisma, Peifil, sou obrigado a dizer que você chega a ter certa razão.
– O Sistema estranhou a soberania de um Rei assim. Sugeriu que investigássemos a fundo. Descobrimos, em um convento, um livro dourado no qual estudamos... eram três pessoas em uma: Pai, Filho e Espírito Santo, que no princípio era um Verbo que se fez carne e habitou o céu e a terra. Essa "terra" e esse “céu” não decompomos a qual planeta se referia.
– Nossa, Peifil, vocês fizeram uma confusão! – exclamou Jaime se segurando para não rir, porque Peifil, sisudo, se esforçava para decifrar o mistério da Santíssima Trindade.
– Confesso que nunca em minha vida me defrontei com tantas dúvidas, Jaime. Pensamos muitas hipóteses, entretanto o poder de decisão não estava em nossas mãos. O Sistema mandou que esquecêssemos o seu Rei e finalizássemos a nossa parte conforme o esquema de pesquisa que nos foi confiado. Mas, já que você tocou nesse "Homem"... eu gostaria de ouvir uma dissertação sua, Terráqueo.
Jaime ficou constrangido, com receio de cometer uma heresia. Andava afastado da Igreja. Não focaria Deus de forma doutrinária suficientemente clara, a ponto de convencer alguém tão idoso. Projetou-se num jesuíta catequizando um índio do espaço.
– "Como descreverei Deus para um extraterrestre?” – perguntou-se Jaime. Passou a mão na barba pensando por onde estrear a pregação pastoral interplanetária.
– Peifil, a história de Deus é muito longa e polêmica... vou tentar resumir pra você.
Jaime notou que Rodrigo ainda contava os astros e, distraído, não compartilhava da conversa.
– "Assim é melhor, criança atrapalha.”
Jaime limpou a garganta e principiou pela história dos longos sete dias. A criação do Universo e tudo o que nele existe – “inclusive o seu mundo, Peifil” – frisou ele. Registrou, sutilmente, Adão e Eva no paraíso. Saltou o pecado original por conta própria. Narrou algumas passagens que ele mesmo considerava lendas. Aventou o dilúvio enfrentado por Noé, com sua excepcional barca construída sob encomenda de Deus. Recordou os profetas que anunciavam a vinda do Messias. Das dez pragas do Egito, só se lembrou de sete. Esqueceu completamente as Tábuas de Moisés e a Terra Prometida.
Peifil refletia difuso, a olhos vistos, todavia não ousava intervir.
Jaime passou direto para o nascimento de Jesus. A fuga para o Egito. Relatou alguns de seus muitos milagres e de suas profecias. Os doze apóstolos que o seguiram. Sua morte na cruz. Deu um enfoque especial à Ressurreição para justificar a vida numa esfera espiritual. Consagrou o apóstolo Pedro, que disseminou os ensinamentos numa multiplicação imperiosa da fé por todo o Planeta. Não aludiu que um dia Ele voltará, sem hora marcada, para arrebanhar suas ovelhas e nem se atreveu a proferir uma explanação bíblica mais detalhada. Sem emitir conceito, discorreu na proliferação das mais variadas igrejas que foram surgindo, oriundas das divergências ideológicas, de interpretações errôneas e inapropriadas acerca de tudo que fora escrito sobre o mesmo Deus. Do que declarou não conceber, como dois filhos têm concepções distintas sobre o próprio Pai.
Jaime sentiu que abreviara demais a história. Mesmo assim, ajuizou por bem parar; porque havia uma inquietação incessante de desapontamento no rosto de Peifil, que rebuscava respostas divinas no espaço. Seu cérebro girava oscilante em torno de abstrações e critérios totalmente desiguais daqueles que Jaime aventurava-se a passar, pois sua testa, tão lisa, agora até franzia.
Para Jaime, era perfeitamente compreensível a reação de Peifil, pois, depois de ter vivido dois mil, novecentos e quarenta anos, saber de supetão que todo o Universo tem um só Dono... é mesmo para não consentir, nem se conscientizar num repente.
– Peifil, é praticamente isso que sei – encerrou Jaime.
– Meio complicado esse seu Deus, Jaime. Talvez fosse um... – parou fazendo cálculos. – Isso ocorreu há mais ou menos... dois mil anos – parou de novo. Fitou nos olhos de Jaime com um olhar pensativo, como se quisesse ver dentro deles; sorriu da própria dedução, sem, no entanto, externá-la. Subitamente, num gesto de quem tomou uma decisão sem retorno, esboçou:
– Jaime, esquecerei essa história de seu Deus, como me foi solicitado pelo Sistema, senão irei enlouquecer.
Peifil mexeu em uns botões no painel de comando do carro e logo emergiu uma pequena tela.
– Agora vou pôr às claras mais uma atração do nosso Planeta, afinal são vocês os visitantes. Conhecerão a nossa via expressa... a magnífica e estupenda: AA... Afluência Aérea.
– Afluência Aérea? O que é isso? – Jaime questiona especulativo.
– Calma, falta pouco. Dê só uma olhada lá na frente.
– Credo!!... – Foi o que saiu da boca de Jaime espontaneamente.
– Uaaau!!... – Exclamou Rodrigo.
Jaime amontoou-se em conjeturas aloucadas. Um trânsito aéreo, com centenas de autoestradas invisíveis, desenhou-se estampado no céu. Carros circulavam por cima, por baixo, pela direita e pela esquerda. Mesmo estando tudo materializado em sua frente, ele não atinava como cada qual sabia sua mão de direção, nos milhares de viadutos flutuantes. Peifil, dado a absorção dos dois, elucidou de imediato aquela visão:
– Não pensem que é um parque de diversões desorganizado. Quando chega a noite, quase todos saem. A maioria vai para o trabalho, outros vão passear e o trânsito ostenta-se... superagitado.
– Peifil, nós iremos penetrar naquele trânsito louco? – inquiriu Jaime receoso.
– Claro!... É a única picada para o Palácio – gracejou. - Mas não se preocupem, quando chegarmos lá vocês vislumbrarão o funcionamento. É tão simples que até Rodrigo pode assumir o...
– Eu não! Eu não! – contestou depressa Rodrigo temeroso.
– É gozação dele, filho. Deve haver algum mistério que não deseja nos contar – descontraiu Jaime.
Aproximaram-se da Afluência Aérea e tornaram-se visíveis três cores na tela do carro de Peifil: vermelha, verde e laranja. As cores piscam tracejando uma rota que vem acompanhada de uma voz suave e sonora.
– Jaime, estou sendo informado para onde me levam as cores. É só escolher e pronto, o resto do trajeto já está esquematizado. Fácil, não?
– É, parece...
Jaime não sabia o que mais dizer. Peifil atestava:
– Vamos pegar a cor verde, que nos levará ao Palácio do Rei Ojes. O que vem a seguir é mais fácil ainda. Vê aquelas linhas lá em baixo?
Jaime olhou para o solo e as cores não vinham do chão, estavam encravadas no ar, como um arco-íris com mais de mil cores, trançadas entre si.
– Es.. estou... – gaguejou Jaime, vendo os carros passarem muito perto dele.
– Pois são elas que nos conduzirão. Só posso mandar opções quando for detectada uma encruzilhada. Caso eu não faça opção, os sensores de orientação estão programados para executarem o traçado original. Como eu já delineei o itinerário, posso dormir ao volante.
– Como? Você não dirige mais? É tudo automático?
– Isso mesmo, Jaime... automático. Cada carro tem uma linha exclusiva de navegação.
– Voa sem asas... direciona-se sozinho. Como é que tudo isso funciona, Peifil?
– Basicamente como uma imantação invertida, Jaime.
– Imantação?... Polaridades invertidas?... Um enorme ímã quebrado ao meio, em que as pontas opostas se retraem a partir de determinada distância?
– Exatamente. Lógico que com múltiplas adaptações... essenciais para o eficaz equilíbrio das antipartículas básicas magnetizadas.
– Então o carro está... boiando e não... voando?
– Mais ou menos isso, Jaime. Serve tanto para flutuar como para evitar colisões.
Jaime não procurou esmiuçar o mecanismo daquele quebra-cabeça utópico. Admirar o passeio em que carros cruzavam em todas as direções, sobre um trançado de milhares de linhas coloridas, era mais emocionante. Rodrigo assistia torcendo para não suceder nenhuma batida naquele vaivém, aparentemente desatinado. O que diferenciava do trânsito da Terra eram os condutores conversando sem se incomodarem com o fuzuê, e os carros se deslocando regularmente, sem congestionamento.
– Essa gente sabe que somos de fora, Peifil? – Jaime postou-se intrigado, já que muitos demonstravam uma nítida bisbilhotice.
– É só o que estão comentando, Jaime. E sabe o quê? – interrogou Peifil, maroto.
– Como vou saber?! – redarguiu Jaime espalmando as mãos.
– As conversas mordazes são inevitáveis. Vou lhe assegurar só uma coisa: você está fazendo o maior sucesso com as fêmeas... uma popularidade invejável.
Rodrigo avacalhou jocoso:
– Aí, hein! Vou caguetar pra mãe, pai!
Jaime nem ligou para a zombaria de Rodrigo. Só ajeitou o colarinho, mas encafifou-se desconfiado.
– Peifil, me esclareça uma particularidade... até agora eu não vi nenhuma mulher...
– Viu. Ora se viu... e muitas.
– Como eu faço a distinção?
– A diferença é pouca... insignificante – lastimou Peifil com ar de tristeza e semblante carregado em autopiedade. – Nas fotos antigas, que só encontramos em museus, as mulheres não apresentavam semelhança alguma com os homens. No entanto, paulatinamente, foram se modificando, perdendo a formosura, a delicadeza, a suavidade... Não só as mulheres, os homens também regrediram.
– Parece que nós estamos tendendo para isso, Peifil – diz Jaime pensativo.
Peifil prosseguiu:
– O uso indiscriminado de algumas drogas... potentes, empregadas no tratamento de doenças incuráveis... outras tantas utilizadas na estética e até alucinógenas, acarretaram um desacerto generalizado na interpretação das nossas peculiaridades sexuais. Alteraram o metabolismo dos órgãos... e passaram a nascer homens com instinto feminino e vice-versa. Cada qual se transformou. Hoje coagulamos assim, quase idênticos... na maneira de se vestir, de andar, de falar, de agir... porém sem a disfunção sexual, já que, para corrigir essa distorção, o Sistema Comunitário recorreu à intervenção preventiva, através dos cientistas.
– Como assim, Peifil?!
– Ao nascer, a criança realizava uma bateria de exames para a detecção do seu grau de potencialidade sexual ambígua. Caso fosse constatado que, no futuro, ela teria alguma aberração em sua sexualidade, era submetida a uma intervenção cirúrgica, efetivando a sua esterilidade para que não procriasse descendentes com os mesmos desvios.
– Mas isso não seria intervir na sucessão natural dos fatos, que o desenv...
– Natural? – indigna-se Peifil. – Jaime, ninguém gosta de ser discriminado sem ter culpa. Alguns, numa fuga dissimulada, numa tentativa de mascararem as próprias anomalias, apregoavam que agiam assim por “livre escolha”. Porém, para o Sistema Comunitário, era como se dissessem que optaram por herdarem os traços degenerativos de suas miscigenações anteriores. Nesses quesitos não dispomos de opções, tampouco para a função sexual. O Sistema Comunitário dá liberdade ao povo, mas não eterniza legado irracional com tendência à repetição, pois se todos agirem dessa forma... a espécie humana entrará em extinção!
Jaime cansou de ser contraditório e Peifil amenizou:
– Porém todas essas pesquisas revelaram-se benéficas, Jaime. Várias doenças hereditárias foram extirpadas por esse método. A humanidade precisa ir resolvendo seus entraves marcantes para garantir a perpetuação e a homogeneidade da espécie em sua constituição genética.
– Mas você não mencionou a tal diferença minúscula, Peifil – desaprovou Jaime, com cara decepcionada.
– Não existe um modelo padrão, um protótipo específico de mulher, Jaime... Algumas se destacam pelo pescoço delgado, outras, muito raro de se encontrar, têm peitinhos. Muito mais escasso... é mulher bonita, atraente e de cintura fina. Vou lhe contar mais um segredo, Jaime. Após milênios de experiência, eu deduzi que as mulheres são todas iguais, só o gemido, naquela hora, é que difere – e desatou em nova risada contínua.
– Coitado de você, Peifil... se elas ouvirem isso.
– Não ouvirão nunca... e tem mais uma confidência: nós não temos casamento. Estabelecemos um contrato de união por prazo indeterminado. Dando direito a qualquer um dos parceiros romper o contrato sem, obrigatoriamente, haver motivo para isso.
– Nesse ponto nós não estamos tão atrasados. Já conheço casais que vivem nessas condições – explicou Jaime como se fosse uma grande vantagem, o que fez com que Peifil gargalhasse mais.
– Jaime, aconselho a ficar quieto, porque, sendo de fora, recém-chegado, você não vai distinguir uma fêmea, e se mexer com um macho ele pode não gostar – Peifil limpou os olhos que derramavam lágrimas de tanto risos.
– Claro que vou aquietar-me. Não serei petulante. Nem na Terra eu me arrisco, quanto mais aqui – arrematou Jaime recolhendo-se no cantinho.
– Eu estou rindo, contudo, deveria estar chorando. Não é assim o chavão popular?
– Por que diz isso, Peifil?
– Você não sabe o que, lamentavelmente, acontece com as nossas mulheres, Jaime. Elas não compartilham com o sofrimento das Terráqueas – disse Peifil perdendo toda a graça.
– Desculpe, mas do que você está falando? – perscrutou Jaime sério também.
– Elas não reproduzem como as Terráqueas – informou quase envergonhado Peifil.
– Não reproduzem...?!
– Isso mesmo. Devido as nossas mulheres não usarem o processo de procriação natural, houve, com o passar das gerações, além da alteração no metabolismo aparente, uma alteração física. O útero atrofiou e perdeu sua função. Hoje nossos filhos são “encomendados” em laboratório de úteros artificiais. Apenas é coletado o óvulo da mulher e o espermatozoide do homem. Aguardamos nove meses e regressamos à maternidade para retirar o rebento no berçário. Tive todos os dois assim - esclareceu Peifil num balançar de cabeça constante.
– Nossa, Peifil, dito assim, dá a impressão de que ter filho aqui é sem... afetividade, frio, sem emoção... me desculpe a franqueza, mas... até sem amor.
Jaime notou que Peifil perdera-se fixo no nada. Seu raciocínio perseverava extraviado. Ainda bem que não era necessário dirigir, porque senão sairia da estrada. Sonhava com alguma esperança adormecida no passado. Permaneceu absorto, com o olhar sombrio, por um bom tempo. Jaime cismou como seria a esposa de Peifil e não se atreveu a pensar muito. Suspeitou que, talvez, eles adivinhassem pensamentos. Aos poucos a fisionomia de Peifil foi se mostrando serena e harmoniosa, e desafogou, deplorando reprimido:
– É o preço sentimental que pagamos, Jaime. Caro. Muito caro. Infelizmente... pesaroso.
Por um instante solidarizaram-se via silêncio, explanando concepções abstratas. Jaime, numa sondagem metódica, consolava-o pela lei da compensação, alegando que muitas mulheres não morreram na sala de parto e Peifil persuadindo-o que a Terra era um paraíso para se viver, apesar dos pesares. Peifil suspirou e bateu uma mão na outra enunciando:
– Nosso Planeta conviveu com muitos embaraços, Jaime. Vou lhe contar um dos maiores e piores que já passamos.
Peifil mudou de ares. Tomou uma injeção de ânimo e, aos moldes de professor em férias, exprimiu:
– Nós enfrentamos um dilema muito grave... há milhares de anos. Nossa ciência, após solucionar a cura na área patológica, experimentou uma evolução meteórica. Todos investiam nela... buscando a vida eterna.
– Vida eterna?! – balbuciou Jaime apalermado. – Vocês são... imortais?!
– Calma, Terráqueo, não chegue à conclusão antes da exposição!... Nossos cientistas iniciaram estudando os antepassados. Entretanto, nem todos seguiram o planejamento. Apareceram os cientistas gananciosos e maldosos... com experiências malucas... extravagantes. Imagine só você... efetuaram um transplante de cérebro... e patentearam o óbvio: quem doava o cérebro, continuava a viver, quem recebia o transplante morria.
– Não entendi, Peifil. Você não trocou as palavras? – rebateu Jaime perplexo com o que ouvira.
– Não, não troquei. O pior não foi só o transplante em si. Veja só, Jaime: descobrindo isso, quem tinha muito dinheiro e era idoso, pagava aos cientistas para arranjarem um corpo jovem para o seu cérebro cansado.
– Nossa!! Que despautério frígido, Peifil!
– E com várias vantagens, Jaime. O cérebro velho, em um corpo jovem, passava a auferir todas as energias que esse novo organismo, vigoroso, produzia... e se revitalizava. Era toda a experiência de uma vida, transplantada em um jovem, às vezes até em um adolescente.
– Monstruosidade sem tamanho, Peifil. Isso vai contra todas as normas de conduta... racional... emocional... de qualquer ser vivente – proferiu Jaime com ar de revolta.
– Foi uma fase intricada em nosso Planeta, Jaime. Só no nosso não, de muitos outros. Jovens desapareciam sem deixar vestígios. Alguns faziam uma plástica facial e desfiguravam a vítima... nunca mais era reconhecida. Outros nem se importavam com isso; principalmente para quem já era um fora da lei.
– Peifil, os cérebros dos jovens... era fácil sumir com eles, mas os corpos dos velhos, como ocultavam? – Jaime fez uma expressão de nojo, pressupondo um velho largado no meio da rua, com a cabeça serrada na altura da testa, cujo tampão rolava oco pela sarjeta cheia de lixo.
Peifil recordou meio desalentado.
– Jaime, naquela época, a lei era regida pelo dinheiro. Para se cremar um defunto clandestino... bastava corromper alguém.
– É, Peifil, a lei do vil metal é poderosa em qualquer Galáxia!
– Porém, não pense você que tudo se desenrolou às mil maravilhas para esses deturpadores astuciosos. Houve muitos fracassos nos transplantes feitos às escondidas por pseudomédicos... que só ambicionavam o dinheiro. A cirurgia transformava-se numa constatação dramática. O cérebro não funcionava e gerava uma terceira criatura, sem memória, sem nome... irreconhecível.
– Na Terra diríamos: castigo de Deus – apregoou Jaime fitando Peifil, que, com um aspecto tristonho, asseverou:
– Isso porque os motivos dos transplantes eram banais e injustificados. Alguns intencionavam trocar de sexo e pediam para implantar seu cérebro no corpo de uma mulher e o contrário também acontecia, mulher querendo virar homem. Outros eram pequenos e fracos e desejavam ser fortes e altos.
– Francamente, Peifil, é impressionante isso que você está me contando. Jamais matutei algo tão desarmônico e assombroso envolvendo a humanidade.
Nesse momento Jaime se preocupou com Rodrigo, não sabia o que poderia advir em sua cachola de criança ouvindo isso. Peifil revelou mais:
– Jaime, as pendengas não pararam nesse nível.
– Nossa!! Tem mais ainda, Peifil?!
– Uma desgraceira sempre puxa outra maior, meu caro amigo Jaime Brosso. Esses... personagens amnésicos, mesmo com as falhas do transplante, conseguiam procriar. Houve uma variação na identidade dos cromossomos. Com o passar das gerações, sobreveio uma nova categoria. Uma casta defeituosa. Muito submissa. Semblantes melancólicos, carrancudos. Alguns apresentavam discrepância acentuada do protótipo humano... e se suicidavam. Outros se camuflavam. Muitos se refugiaram no Planeta Iur Senbur... e aí, sucumbiu a catástrofe maior... procriaram em disgenesia, pois, com o hipocampo afetado, não sabiam o que praticavam.
– Peifil, confesso que não sei o que é disgenesia.
– Ora, Terráqueo, desconhece sua própria língua?
– Não usamos, corriqueiramente, todos os nossos termos e os... raramente utilizados recorremos ao dicionário.
– Disgenesia é uma alteração na função reprodutora... tornam os seres infecundos entre a própria raça, mas procriam com indivíduos de espécies distintas. Assim geraram-se os... monstros de Iur Senbur. Os primeiros foram aniquilados pelos próprios pais ao nascerem, mas depois...
– Nossa, Peifil!... Agora compreendo o espetáculo abominoso que vi naquele Planeta – Jaime relembrou as imagens horríveis daquele antro de exilados.
– Aquilo é apenas o que restou do que estou lhe contando; porque o início sucedeu há milhões de anos.
– É Peifil, o preço foi mesmo desastroso.
– E pensar que poderíamos ter chegado onde chegamos sem ter cometido tantos lapsos. Quando criaram uma lei rigorosa relativa ao assunto, os cientistas anunciaram a descoberta da vida eterna.
– Então vocês têm mesmo vida eterna?! – admirou-se Jaime de olhos arregalados.
– Acho que me empolguei – desconversou Peifil consigo mesmo e retificou: – Apelidaram-na assim. Não é bem “eterna”, Jaime, é... muito longa. Os cientistas descobriram, através das múmias das celebridades, uma proteína responsável pela conservação dos corpos. As pesquisas avançaram nesta direção, no intuito de preservarem enquanto ainda estavam vivos. Rotularam esses cientistas de: FACE - Fabricantes de Antivírus das Células do Envelhecimento. Outros discordavam, afirmavam que isso era um doping animalesco. Nem sei se valeu a pena, pois muitos enjoam dessa vida fastidiosa.
Jaime notou que Peifil ficou chateado; para auxiliar o amigo, concluiu encerrando o fatídico assunto:
– É, Peifil, agora percebo todos os problemas que vocês enfrentaram nessa odisseia desenvolvimentista.
Como um alívio para os dois, surgiu um novo tipo de paisagem que os Terráqueos não estavam acostumados a ver naquele lugar. Castelos de contos de fadas enfeitados com luzes em movimento que mais pareciam entradas de cassinos luxuosos. Pisca-piscas, cachoeiras luminosas, bonecos festivos e, de um monumento, brotava um show pirotécnico virtual, esculpindo no céu figuras vistosas dos mais variados tipos e cores. Ao se aproximarem avistaram uma praça enorme, com uma multidão em rebuliço a passear e a conversar. Lá de cima já se ouvia o burburinho indiscernível das vozes em clima de festa.
– Mil e uma noites, filho! – retratou Jaime para Rodrigo.
– Parece mesmo, pai. Já vi desenhos desses castelos!
Jaime sentiu que toda aquela louca conversa com Peifil não abalou em nada o estado emocional de Rodrigo, pois, distraído com os astros e o trânsito, ele nem prestara atenção aos descalabros daquele Planeta.
Os carros desciam. Paravam. Passageiros e motorista saltavam e os veículos prosseguiam a viagem, incrivelmente – sozinhos. Peifil, com ar de quem já observava Jaime, perguntou:
– Pelo visto notou que chegamos.
– Que chegamos a um lugar formidável estou vendo. Mas que cidade é esta?
– Bisam Joreso... a minha cidade. Lá está o Palácio do Rei Ojes – mostrou Peifil, apontando para um monte de castelos.
– É difícil saber qual deles... todos me parecem de igual importância – os olhos de Jaime perseguiram algum destaque em evidência.
– Veja, Jaime, aquele que no topo tem... Bem, você não sabe qual é o nosso símbolo da realeza. Lá na Terra é um aro com pontas, que vocês chamam de coroa... aqui é uma Pirâmide, o...
– Pirâmide?! – interrompeu Rodrigo.
– Sim. Por que esse nome despertou sua curiosidade, Rodrigo? – retrucou Peifil amistosamente.
Jaime achou melhor dar liberdade para Rodrigo conversar um pouco, pois a viagem interplanetária poderia demorar.
– No Egito, quero dizer, lá na Terra... bem antes de Cristo... alguém construiu várias pirâmides. Assim, bem longe... na beira de um deserto... agora a civilização está chegando perto. Antigamente organizavam escavações. Desenterraram muitos sarcófagos e túmulos no interior delas, contendo tesouros juntos aos cadáveres. Lendas contam que podem ser portais secretos deixados por humanoides... habitantes do espaço. Há muitas especulações... presumem que elas estiveram alinhadas às estrelas do polo norte e que têm poderes mágicos... curativos. Foram vocês que construíram?
Jaime não esperava uma dissertação tão longa e elucidativa de Rodrigo, muito menos a pergunta final, fora do contexto. Interferiu sem pleitear licença:
– Coincidência, filho. Não creio que tenha alguma ligação. Aquilo é muito antigo. Por ser uma construção geométrica... consideraram como... impossível de ser edificada pelo povo da época, mas eu avalio perfeitamente viável, não vejo nada de... extraordinário.
Peifil, como quem não foi pego de surpresa, apenas aventou:
– Talvez tenha sido, Rodrigo... talvez.
– "Agora complicou as coisas" – pensou Jaime. Conjeturou que seria demais para a cabeça de Rodrigo. Empenhou-se em afugentar o assunto.
– Peifil, você mencionou que do lado de fora não existia nada no Planeta, e nós estamos...
– E não existe – reafirmou convicto Peifil dissipando a dúvida de Jaime, que ainda andava às voltas com as pirâmides. – A proteção é móvel... abaixada quase todas as noites. Aqueles muros que você vê, no contorno dos Palácios, é a parte da proteção levadiça que foi recolhida.
Os muros confinantes perfaziam uma magnífica muralha. O pensamento de Jaime voou para fora do corpo e toda a paisagem converteu-se num monte de luzes confusas. Elevou-se extasiado à Terra, e, numa lembrança repentina, o tempo veio-lhe em reflexão:
– “O relógio da Praça Pio XII marcava quatorze horas no momento da abdução.”
Consultou seu relógio: eram quatorze horas e dez minutos. Pensou que havia parado, contudo, acompanhou o ponteiro dos segundos e verificou que funcionava, porém abismou-se:
– "Está de marcha à ré?!"
O ponteiro, espantosamente, movimentava-se no sentido anti-horário.
– "Meu relógio é uma máquina... não pode sofrer influência externa em seu mecanismo. E como que todos esses acontecimentos ocorreram em poucos minutos?!” – questionou-se Jaime embaralhado.
– Não fique almejando saber tudo de uma vez – continuou Peifil desviando Jaime do embate com o tempo e fazendo com que ele regressasse ali. – Hoje é um dia de festa para o Rei Ojes e você é o seu principal convidado.
– Ele está... nos aguardando? – perguntou meio atordoado Jaime, não querendo indagar a Peifil o motivo da caduquez de seu cronômetro, já que em nada lhe auxiliaria obter uma explicação – se é que Peifil a tivesse.
– Sim, senhor Jaime Brosso, o Rei está a sua espera com todas as honrarias de um visitante de outro... universo.
– Veja só, Peifil: na Terra fervilham controvérsias sobre seres vivos nas proximidades da Terra. Imagine se irão dar crédito se eu disser que há vida em outro... mundo... muito além do nosso? – cogitou Jaime, mesmo sendo incomodante para ele concatenar esse juízo.
Rodrigo, que parecia não prestar atenção à conversa, intrometeu-se:
– É pai, lembra daquelas noites que a gente olhava pela janela da sala procurando discos voadores?
– Pois é filho, agora estamos aqui, longe de casa e perto de defrontarmos com o Rei deles.
– Fique calmo, Jaime – aconselhou Peifil em tom despreocupante. – Nosso Rei é uma criatura dócil e tranquila, não se aflige com quase nada. Digamos que é até frio em algumas situações. Mas desperta interesse nos sentimentos dos outros. Elabora tudo com esmero. Resolve qualquer pendência com paciência e perspicácia.
Os elogios de Peifil saíam irrepreensíveis, carregados de profundo respeito e admiração ao íntegro Monarca.
– O nosso Rei já foi por duas vezes o Comandante do Sistema Comunitário. Venceu, por unanimidade, um plebiscito que o perpetuava no cargo, no entanto o Rei Ojes rejeitou. Foi colocando os indivíduos certos nos lugares apropriados e depois sugeriu um outro para substituí-lo. Ele tem esse dom: olha para uma pessoa e sabe do que ela é capaz. Repito aqui o que ele mesmo professou na justificativa de sua recusa: "Vou dividir as tarefas, senão detenho o poder sozinho; se eu morrer, morre o Sistema Comunitário”.
– Seu Rei não possui o egoísmo de muitos... foi muito racional – concordou Jaime pensando em como se comportar frente a ele. Para relaxar, respirou fundo. Passou a mão no cabelo de Rodrigo, ajeitando-o para trás, e preparou-se, resoluto, para o encontro marcado.


IV - A DESCIDA NO PALÁCIO


Do alto, o suntuoso Palácio com escadarias douradas configurava-se até pequeno. De perto, Jaime e Rodrigo notaram o seu real tamanho. Tornaram-se minúsculos e caminharam aturdidos, ante a grandeza do Palácio com suas imensas e numerosas colunas redondas e lisas. Na fachada, talhados em madeira de lei, os hieróglifos deviam indicar que ali era o Palácio Real. Tudo muito asseado e claro. As pessoas não usavam sapatos, e sim umas sapatilhas multicoloridas comuns a todos. Porém havia uma discrepância enorme nas vestimentas. Alguns trajavam conjuntos coloridos, outros desfilavam socialmente arrumados. Vários grupos dispersos exibiam adereços espalhafatosos...
– “Roqueiros relaxados” – pensou Jaime.
Uns poucos ostentavam um corte de cabelo ousado e trajes minúsculos, com bainhas desfiadas. Outras usavam roupas tão justas que se mesclavam como parte integrante da pele, com desenhos que imitavam minhocas vivas, pois elas se agitavam à medida que a luz transcorria pela vestimenta.
Andando aglutinado naquela aglomeração, Jaime reparou que alguns eram incomuns, desiguais, não tinham os traços perfeitos como os de Peifil e Dailen, eram muito feios. Arriscou identificar a tal disparidade que Peifil lhe dissera, mas não conseguiu e procedeu naturalmente.
– "Melhor não ser imprudente, podem interpretar mal a minha indiscrição.”
Uma escadaria em arco, revestida de pedra crespa, se pôs em sua frente. Peifil chamou num convite amistoso para ambos.
– Venham para este lado.
Jaime não notara uma linha colorida, pintada no chão, que separava os degraus da escada fixa dos da rolante. Observou os detalhes na ornamentação do Palácio. Coladas nas paredes, em quadros decorativos, esculturas reproduziam cenas, talvez lendas, ou histórias dos heróis do passado glorioso daquele povo. No lado direito, esculpidos em pedra verde que refletia uma luz cintilante, vários tipos de pássaros e animais estavam expostos em redomas de vidro.
Chegaram a um grande patamar. Ao fundo, num cenário suntuoso, montado em forma de palco, surgiu um salão com arquibancadas ao redor. À esquerda, sobressaía uma efígie colossal que, em posição de reverência, amparava uma Pirâmide entre os braços, na altura do peito. Ingressaram no salão a passos lentos. Uma melodia consonante ecoava na cúpula. A temperatura foi arrefecendo. No palco, apenas um indivíduo sentado num tamborete. Trajava túnica cinza, tinha longos cabelos brancos, pele queimada, semblante sereno e olhar tranquilo. Assistia a várias imagens transversais afixadas no ar. Quando viu a aproximação dos três, fez um gesto com a mão direita e as imagens fragmentaram-se no ar; outro mínimo movimento e a música cessou. Jaime segurou na manga da camisa de Rodrigo, dando-lhe um puxão de leve, pois ele ainda admirava o Palácio.
– O que foi, pai? – interrogou distraído.
Como não logrou resposta, ele mesmo procurou por ela. Notou a pessoa no palco e olhou em sua direção. Peifil antecipou-se uns quatro passos à frente e comunicou alguma coisa. Para espanto de Jaime, este personagem conceituou para Peifil em bom Português e num tom amigável:
– Peifil, meu caro amigo, na frente de um convidado não devemos discorrer em língua, senão na dele. Ainda mais sendo dois espécimes Terráqueos de excelente linhagem – olhou para Jaime.
O olhar cativante deste personagem não deixou dúvidas; Jaime pôde ver, através de suas pupilas, que era mesmo o Rei. Peifil anunciou apressado:
– Jaime Brosso, este é o nosso Rei Ojes.
– Desculpe o meu amigo Peifil, Jaime – pronunciou o Rei estendendo a pequena mão –, afinal, nós não estamos acostumados a receber hóspedes de outro idioma.
Jaime presenciou um Rei nobre de sorriso plebeu. Pegou em sua mão e sentiu uma energia muito maior do que quando apertou a mão de Dailen na nave, mas, desta vez, sem tremores nem calafrios. Jaime olhou detidamente nos olhos imperturbáveis do Rei e um brilho cativo insinuava que sua memória estava sendo revistada. Jaime manteve-se sossegado, porque, mesmo que revirasse seu cérebro pelo avesso, iria perceber que em sua consciência não sobrevoava nenhum tipo de intenção maldosa.
– Estou honrado em conhecer um Rei de um Planeta... tão distante do meu. Seus amigos já me contaram algumas... minudências daqui e... e do Rei também. Confesso que ainda estou confuso e preocupado com o nosso destino – salientou Jaime sem retirar os olhos dos dele.
O Rei, com as pupilas refulgindo mais ainda, comentou sem pressa:
– Realmente, Peifil e Dailen souberam escolher um representante de talento, digno do Planeta Terra. De caráter hereditário e integridade impecável. Você é corajoso, honesto e livre de vestígios maléficos. Aqui, com essas credenciais, você seria um Rei. Sejam bem-vindos a Bisam Joreso – acrescentou dando uma gargalhada simpática, soltando a mão de Jaime e dirigindo-a para Rodrigo.
– Prazer em conhecê-lo, Rodrigo. Você é um rapazinho bonito e inteligente. Herdou as qualidades do pai.
Rodrigo estendeu a mão sem nada dizer. O Rei, para descontraí-lo, aludiu numa piscadela:
– Que tal um joguinho de videogame depois, Rodrigo?
Rodrigo sorriu encabulado. Jaime notou que o Rei adivinhara o seu entretenimento predileto.
– É um jogo muito fácil. É moda lá na Terra, não é?
Rodrigo só balançou a cabeça, afirmativamente satisfeito.
– Converse com ele, Rodrigo – fustigou Jaime tentando desinibir o filho.
– Ele já sabe tudo, pai – respondeu seco Rodrigo.
O Rei completou soberano:
– Você é que sabe tudo, Rodrigo.
Peifil se encantava com as lisonjas do Rei aos Terráqueos e transbordava um orgulho, indisfarçável, por tê-lo agradado no cumprimento de sua missão. O Rei retornou ao seu tamborete. Peifil, demonstrando-se íntimo, sem cerimônia, perguntou-lhe:
– A sua conversa com Jaime... será agora, Ojes?
– Claro, meu caro amigo Peifil – e explanou categórico. – Os incidentes que tivemos na sua ausência não alteraram em nada a vida de Bisam Joreso. Creio que ainda teremos conflitos maiores de ativistas subversivos; só estou esperando que aconteçam para poder medir sua intensidade e as diretrizes a serem adotadas. Todavia, por prevenção, já demandei ao Sistema Comunitário permissão irrestrita na aplicação de armas de ataque, se for o caso.
– Vai conversar com ele aqui ou no salão Real? – indagou Peifil.
– Aqui mesmo, Peifil. Eu sou o Rei dos habitantes de Claus. Para Jaime sou apenas uma figura comum, que tem interesse em conhecê-lo.
Peifil arranjou outro tamborete e o colocou próximo de Jaime. Ligou alguns equipamentos na parede da esquerda e inquiriu novamente, ao Monarca:
– A Rainha Ariam já regressou do Planeta Rileco?
– Não. Inclusive acabei de pedir ao Rei Cochi para hospedá-la durante esses dias de incertezas. Ainda mais agora que o Sistema Comunitário nos liberou para termos um Príncipe. Graças ao apoio do Rei Mega Rori.
– Bom, muito bom, já extrapolava a oportunidade mesmo. Com licença, eu vou me ausentar. Precisando... é só avisar.
– Peifil – disse o Rei –, por favor, mostre para Rodrigo aquele novo jogo, enquanto eu converso com Jaime.
– Ah!... sim, Ojes. Venha comigo, Rodrigo.
Rodrigo hesitou e Jaime também. Ter seu filho longe dos olhos, num Planeta estranho, ainda não lhe passara pela cabeça. Porém, Jaime pretendia transmitir coragem e segurança para Rodrigo.
– Pode ir, filho.
Rodrigo, desconjuntado, já não ambicionava mais jogar. O Rei, num sorriso acautelado que denotava saber o que se passava na mente de ambos, resolveu o impasse:
– Peifil, transfira o jogo para aquela mesa ali no canto. Já que ele não gosta de ficar sem o pai por perto.
Rodrigo mudou de ares. Animou-se todo. E pelo jeito como saiu, comprovou sua sagaz curiosidade em conhecer o tal jogo.
– Sente-se, Jaime – solicitou o Rei. – Vamos conversar.
Peifil saiu acenando para todos. Rodrigo acomodou-se concentrado nos botões e com fones de ouvido, óculos escuros, sem ligar para mais nada. O Rei exalou um espesso suspiro e traçou um paralelo universal:
– Seu Planeta vive, atualmente, o que nós vivemos há milhões e milhões de anos. Um pouco divergente nas conquistas, porque vocês desvendaram o seu próprio Planeta, e nós, devido a essa quantidade enorme de astros, desenvolvemos as conquistas espaciais. Todos ansiavam saber o que existia em cada um deles. Envergonho-me em confidenciar que os nossos ancestrais fizeram tudo errado. Entretanto, era o que conheciam e, convencionalmente, consideravam o correto. Porém, hoje, a cada passo focamos o mundo por um novo prisma.
Sintetizou fazendo um gesto que perdoava os erros cometidos pelos seus antecessores, e continuou em voz compadecida:
– Comparei as duas civilizações, em seu progresso social e econômico, numa época em que alguns fatores se equiparavam. O que mais me impressionou foi a igualdade de comportamento. Nós também vivíamos estáveis, sem agitação e sem tecnologia. Tudo subsistia manualmente. As mulheres eram criadas apenas para os afazeres domésticos, casar e procriar. Não cobiçavam a emancipação. Porém, com o passar das gerações, tudo modificou. Elas passaram a trabalhar em escritórios, fábricas... Emitiam opiniões de individualismo, liberdade, feminismo...
O Rei ajeitou-se no tamborete, trançou os dedos entre as mãos, e prosseguiu prolixo:
– O responsável pela divisão das tarefas foi muito benévolo: "trabalharás oito horas, descansarás outras oito e se divertirás as oito restantes". Quem se oporia à decisão tão favorável? Porém o próprio homem descompôs a bendita partilha satisfatória e, estupidamente, sobrecarregou-se ao extremo.
Arrumou sua vestimenta e reatou:
– Mas voltemos à economia, que vivia num ponto de equilíbrio normal... Porém, num enxame, as mulheres engrossaram o mercado de trabalho. Os empresários aderiram à ideia. Pior, pagavam menos para elas, que, no afã de propagarem-se "independentes", como preceituavam, aceitavam os baixos salários. Os empresários empregavam cada vez mais mulheres, porque, pagando menos, lucravam mais. Resultado: surgiu uma classe mais pobre, marginalizada, favelada.
Jaime balançou a cabeça consolidando a ilação sem parcimônia. Não ousaria discordar da primeira narrativa do Rei. O Monarca relatou azucrinado:
– É estressante trabalhar numa empresa onde seus dirigentes só visam o financeiro e não se detêm no social. Mas, Jaime, depois vieram as máquinas que atarefavam o serviço de cinco, dez, quinze pessoas. Os empresários, novamente, na ambição de lucros incessantes, adotaram os computadores como seus novos e fiéis colaboradores... que não reivindicavam direitos, não tiravam férias e não entravam em greve. Todos os setores cresciam, porém a riqueza ancorava nas mãos de poucos. As máquinas inteligentes desferiram o golpe fatal na economia e na vida social dos Planetas. O avanço da ciência e da medicina, financiadas por milionários que tinham pretensões pecaminosas, custou a vida de muitos inocentes. A população crescia sem controle demográfico, principalmente nos meios mais populosos e desfavorecidos, nos quais o desemprego perdurava.
O Rei Ojes, após uma leve pausa, expressou formalmente:
– Jaime, uma pessoa desempregada se sente rejeitada pela sociedade. Isso a enlouquece. Elimina dela todo e qualquer princípio de civilidade. Você sabe que quando termina a esperança começa o desespero, e daí para a criminalidade é apenas um passo. - O Rei fez um sinal reprovador. – Conta a nossa história que o cidadão chegava em casa, arrasado, pois perdera o dia à procura de trabalho, e encontrava o filho na porta, com olhos fundos, molhados de lágrimas, interrogando: "Pai, trouxe comida?" O pai, cansado e com fome, saía correndo desvairado. Depois retornava aterrorizado, no entanto, com a comida numa sacola. Praticara atrocidades para alimentar seu filho. Muitos desses pais, quando identificados, eram presos e tachados de ladrões insolentes. Assim gerou-se a miséria, a violência... Todos os tipos de contravenções desencadearam em cascata sobre esta classe desprotegida.
O Rei fez Jaime pensar em algo comparável ocorrendo em sua cidade. O Monarca articulou como se estivesse vendo as imagens reproduzidas em sua frente.
– Muitos assassinatos hediondos, inomináveis. Um terrorismo desmedido. Muita fome. Calamidades, querelas, distúrbios... e acrescente-se a isso a maldita corrupção, que hoje sabemos... era a causadora de tudo. A justiça cada vez mais negligente. No governo não sobrava dinheiro. Simulavam um combate ferrenho ao nepotismo. Pois os salários astronômicos que eles próprios se estipulavam, consumiam os recursos destinados aos investimentos. A saúde, a educação, a segurança, as rodovias... tudo foi privatizado.
Fez uma interrupção cômica e, numa graça de piada ridícula, fofocou sarcástico:
– As charges chacoteavam: "a solução é privatizar o governo". Político simbolizava sinônimo de falsário. Eles não exerciam mais seus deveres. Atravessavam seus mandatos criando IPC – Inquérito de Político Corrupto.
Jaime pensou em esboçar alguma opinião, mas estancou a comichão. Afinal, às vezes é aconselhável ser apenas ouvinte. O Rei, envolto em severidade de ares paternal, legitimava:
– A desonestidade imperava. Analfabeto podia votar, pois era presa fácil dos políticos mesquinhos. A ética foi pisoteada. A população pagava impostos abusivos e não recebia nada em troca. Boatos financeiros, de cunho interesseiro a grupos pecuniosos, geravam correrias aos bancos. As multidões, principalmente os jovens, induzidos e manipulados por déspotas, organizavam passeatas e manifestos. Tornavam-se marionetes nas mãos desses aliciadores. Tanto esforço para nenhum resultado concreto.
O Rei intercalava empolgação com discernimento. Incutia até um sinal de inconformismo em suas palavras, e, como se criticasse a si mesmo, deu uma tonalidade mais branda à voz:
– Jaime... a classe cultural honesta, teve um quê de culpa. Cometeu um grave equívoco: o da omissão. Exonerou-se da política, deixando os eleitores sem opção de escolha. Os corruptos abocanharam, arbitrariamente, o poder.
Com a mesma voz mansa e um sorriso amarelo, sem entusiasmo, bateu duas palmas e propalou:
- Os contribuintes, desassistidos, notaram que a única função do governo era recolher impostos. Oferecia uma precária assistência médica... apenas para favorecer aos desvios de verbas. Aliás, passou a ser um perigo se internar em hospital público. Os ricos, desonestos, compravam os órgãos para transplantes. Às vezes, quase o corpo inteiro. Vivemos muito séculos assim: todos à mercê da sorte. Poucos abastados e muitos miseráveis. Urgia estourar a revolta que latejava no peito de cada cidadão. E uma reviravolta malograda, que já fora prevista pelos historiadores, teve início.
Novamente Jaime sentiu uma coceirinha na língua, mas se conteve. Peifil já contara parte dessa história. Era melhor continuar só escutando.
– Então aconteceu o pior, Jaime. Muitos delinquentes intencionavam entrar para a história pela porta da hipocrisia. No intuito de guarnecerem a hegemonia, deflagraram os desentendimentos. Grupos de guerrilheiros se alastraram como uma epidemia por todos os Planetas. Mercenários contratados efetuavam barbáries. Não houve tempo para mais nada. Explodiu uma revolução, num efeito dominó, dentro de cada Planeta que engloba este céu. Até bomba atômica, que é um suicídio coletivo a longo prazo, eles detonaram. Destruíram, em dias, o que construíram em milênios.
O Rei passou a mão pelo rosto, vestiu um aspecto envergonhado e, cabisbaixo, esquivou-se emocionado:
– Não gosto de dar testemunho acerca desse pandemônio ocorrido em nossa história – desabafou encalistrado. – Veja, Jaime, nossos mundos, tão longínquos, alinham-se numa simetria genérica... – parou, pensou e certificou. – Com exceção desse Rei sobrenatural... ou Deus... que vocês têm. Que, de tudo que Peifil relatou sobre Ele, eu fiquei sem compreender um disparate. - Franziu a testa e investigou. – Por que os Terráqueos choram quando alguém falece? Ele não vai ao encontro do Deus Criador... no tão almejado... Paraíso? Não alcançará a felicidade perpétua? Na minha conceituação seria motivo de regozijo, de festa, de glória. Você não analisaria assim?
O Rei olhou para Jaime, inquisitivo, à espera de uma resposta. Jaime matutou:
- “Questionar logo sobre Deus? Tecer referências sobre a morte? Paraíso?!... Trazer à baila um assunto abstrato, polêmico, desconcertante, cheio de contradições?!”
O Rei pegou Jaime totalmente desprevenido de criatividade espiritual.
- Bem, eu acho que... – Jaime pausou para pensar numa escapatória que fosse ao menos sofrível – elas choram porque perdem... a companhia de um ente querido.
– É racional a sua explicação, porém muito egoísta.
– Também concordo, Majestade, mas...
– Por favor, Jaime... me chame de Ojes.
– Ah, desculpe, saiu sem querer. – Jaime encabulou-se diante de tanta informalidade. – Mas nós fomos criados com esse sentimento, Ojes... quase... hereditário. Para nós a morte significa tristeza. Somente em algumas civilizações, de uma cultura afastada, a morte é festejada – amenizou em anuência ao eminente Monarca.
O Rei sondou um painel na parede como se aguardasse alguma mensagem. Jaime julgou-se também no direito de especular:
– Não há religião no Sistema Comunitário? Nada sobre espírito ou... alma? – transpareceu que o Rei não esperava que Jaime o interpelasse.
– Hoje não temos. Mas, para satisfazer o seu interesse... já tivemos. Num passado muito remoto, havia solenidades místicas em nosso Planeta – assegurou o Rei que, pela entonação, buscava longe essa lembrança. – Adoravam a água, o vento, o fogo e a luz de nossos sóis. Os nossos habitantes se cobriam com peças alegóricas em alguns dias do ano. Faziam oferendas, promessas para esses elementos da natureza. Realizavam procissões, sacrifícios. Tinham danças e músicas específicas para comemorarem esses fenômenos. Temiam o fogo destruidor, avocando-o de "irmão" e respeitavam o vento, que, por ser invisível, conjeturavam ser os espíritos dos mortos. Quando sucedia um vendaval era porque estavam irritados com o procedimento dos vivos.
O Rei descrevia numa feição piedosa de emoção explícita.
– A água, por não ter sabor, saciava a nossa sede e nos purificava no banho. A luz, intocável, representava a própria vida. Sem ela só subsistiria a escuridão. Despontou até uma corrente contrária a tais concepções, formada por alguns estudiosos, que disseminavam em livros as suas homilias.
– E como essa crença se extinguiu? – Jaime inquiriu reportando-se ao bezerro de ouro e toda era mitológica.
– A evolução muda conceitos e preceitos, Jaime. Assim que o fogo deixou de ser novidade e a luz passou a ser gerada pelas energias que foram sendo descobertas, sobrevieram as desconfianças. Quando, há milênios, os cientistas propagaram a produção da água e do ar, a crença se desfez – disse o Rei abrindo os braços. – Hoje utilizamos os nossos sóis para arrefecer onde está quente, providenciamos componentes artificiais, químico-físicos, para viabilizar a sobrevivência no Sistema Comunitário.
– Este ar que estou respirando... não é natural? – Jaime procurou algum cheiro acentuado.
– Não, Jaime – confirmou o Rei. – Vocês, Terráqueos, estão dando muito valor às coisas supérfluas e se esquecendo das essenciais. A nossa água é hoje o seu ouro... só que com uma enorme diferença... sem ouro você vive. O seu Planeta está em um local privilegiado no espaço. Para nós, a Terra seria esse paraíso promissor de seu Deus, que preservaríamos para a eternidade – declarou o Rei numa aspiração de que desejaria que seu Planeta tivesse o ecossistema idêntico ao terrestre.
Jaime enfatizou sem convicção:
– Na Terra, ambientalistas incomodados com o desmatamento, com a poluição dos rios, do ar... encabeçam campanhas, e muitos projetos estão sendo desenvolvidos para reaver o que se perdeu da natureza.
– Não, Jaime – retrucou o Rei na sua costumeira calma –, o remédio não é este. Não se pode preconizar qualidade de vida a quem não tem o que comer. Somente a união sincera dos povos estimulará a corrente inquebrantável da sustentabilidade. A chave mestra para abrir as portas do futuro é a formação cultural. – O Rei dispara uma indagação: – Por que os menos favorecidos são os que têm maior número de filhos? – Jaime preparou-se para a resposta, mas não teve oportunidade. – Porque lhes sonegaram o conhecimento. Caso não recebam uma orientação adequada para progredirem nessa sociedade individualista, procriarão incontáveis rebentos, que, sem esperança de vida, tomarão a vereda das drogas, do crime, da brutalidade... Tornar-se-á impraticável a governabilidade dessa tropa instável. Vejo aqui o maior desafio dos Terráqueos.
O Rei permaneceu ressentido e pensativo. Jaime asseverou meio que automático – só para não ficar calado:
– É... precisamos amparar o lado social, para resguardarmos o futuro. Não podemos permitir que nossas favelas virem quartéis-generais dos narcotraficantes e de outros marginais.
O Rei talvez não estivesse acostumado a recordar os atos pecaminosos de seus antepassados, pois isso o deixou aturdido, absorto. Depois de alguns instantes, despertou do devaneio:
– É... é isso mesmo, Jaime. Aqui, onde está erguido este Palácio, já residiu uma floresta, um grande rio ou até mesmo as profundezas de um vasto oceano. Vou lhe confidenciar uma verdade: enquanto existirem homens em seu Planeta que protegem um pedaço de chão, dizendo que é seu... sendo o solo eterno e ele efêmero... não idealizarão jamais a fórmula da paz hereditária.
Trocou o pé de apoio no tamborete, arrumou a túnica, passou os olhos disfarçadamente pelo painel e patenteou:
– Jaime, após a revolução os bestuntos continuaram com a mesma devastação da natureza. Chegaram ao cúmulo de se perguntarem: quem beberá o último copo d'água?... Porém é na adversidade que os inimigos se agregam. Só consentiram a formação de uma região soberana em cada Planeta, sob a coordenação de um poder único, quando notaram que seria a derradeira saída para a sobrevivência humana. Faltavam alimentos e, para produzi-los, elaboraram o isolamento térmico. Porque toda a catástrofe provocada alterou a temperatura. A biodiversidade no sistema ecológico sofreu uma mutação quase irrecuperável. Além disso, muitos animais, que eram nossos concorrentes diretos na cadeia alimentar, lamentavelmente precisaram ser dizimados; as plantas ornamentais foram reduzidas a poucas espécies. Subsequentemente ditaram leis coerentes e a nova forma de governo: Monarquia Igualitária. Implantaram um emblema: o Sistema Comunitário... o órgão gerenciador dos 1986 Planetas. Padronizaram tudo, inclusive o nosso idioma. Recolheram das ruas os desafortunados e instalaram-nos em albergues. Após se recuperarem fisicamente, eram enviados para os setores de trabalho. Quem não se submetia às normas de conduta era expulso para Iur Senbur.
O Rei mirou discretamente para o painel da parede novamente. Jaime julgou que ele esperava um comunicado urgente ou o indício de algum problema; porque toda vez que se ajeitava no tamborete percorria os olhos por ele numa conferência premente.
– Bem, Jaime, hoje o Sistema Comunitário, num controle cíclico, coordena desde a quantidade de cada tipo de mantimento que carecemos até quantos filhos um casal pode gerar. Não podemos ter mais bocas para alimentar do que trabalho para executar. Aqui ninguém compra e ninguém vende. Não temos dinheiro... no entanto, todos têm os mesmos direitos e deveres. O vento da igualdade sopra para todos. Porque não se pode perpetuar felicidade apenas para uma parte da população.
Jaime, pasmado com essa revelação, habituado a uma vida financeira regrada, absorvente e preocupante, nem fantasiou como se comportaria numa sociedade de "consumismo liberado”.
– Tudo sem impostos? Ninguém é dono de nada?!
– Não, senhor Jaime Brosso, ao contrário – repreendeu com brandura o Rei –, todos são dono de tudo. Aqui Monarca não tem regalias, nem mucamas, nem Pirâmide valiosa.
O Rei, supondo o entendimento simples e fácil, abriu os braços esclarecendo:
– Uma pessoa, para viver bem, necessita de: alimentação, saúde, educação, moradia, diversão e liberdade. Tudo isso o Sistema Comunitário oferece. - Inclinou-se mais para o lado de Jaime e cochichou sigiloso: – O seu Planeta é o único habitado daquela região galáctica, é muito mais fácil introduzir um sistema assim.
Jaime se questionava o que o Sistema Comunitário requeria em troca. Prontamente o Rei o respondeu – talvez rastreasse mesmo a sua consciência.
– Lógico que o Sistema Comunitário exige algum benefício, Jaime. A pessoa terá apenas de trabalhar normalmente, obedecendo às regras para ter esses direitos certificados.
Pareceu justo para Jaime, afinal, na Terra, ele trabalha sob pressão e não tem nada garantido!... O Rei assimilou a aprovação de Jaime.
– Jaime, aqui, quando o jovem atinge a idade de trabalho, ele está apto para qualquer tarefa. Desde a simples plantação de grãos até reestruturar o mais sofisticado mecanismo de avançada tecnologia. - Novamente o Rei bateu os olhos no painel e despretensioso reatou. – Após o aprendizado é feito um teste vocacional. O elemento pode ainda optar pelo revezamento, no qual trabalha um período em cada atividade. A divisão do serviço é recompensadora e traz dignidade. Todos ambicionam fazer parte de um grupo que produz riquezas em harmonia comunitária, que valoriza a existência e o bem-estar.
Jaime, embora sentisse que o Rei sabia o seu pensamento, aquiesceu com um leve aceno de cabeça.
– Uma coisa é concludente, Jaime: a balança da verdadeira justiça não tem fiel, porque direitos e deveres pesam igualmente para todos. Não é racional um ter tudo e outro nada. O Sistema Comunitário é imparcial e íntegro.
O Rei penetrou persuasivo no fundo dos olhos de Jaime.
– A sua Pátria é o Planeta Terra. Você mora nele. A sua cidade não é uma região isolada, a sua casa não é apenas um endereço perdido, é um ponto correlato. Ao redor dele subsistem outros bilhões interligados. O Planeta é dependente de cada ponto.
Jaime focou diretamente no Rei e ajuizou o intento.
– Está insinuando que chegou a hora de nós pensarmos no Planeta como um território único... um bem comum a todos?... Sem fronteiras?
– Isso mesmo, Jaime, a ocasião é propícia para os Terráqueos terem um só propósito... pois o lixo de cada um é o lixo de todos... a boa ação de um reverte em favor do convívio de todos. Jaime, o que se polui hoje amanhã terá que ser recuperado. Vocês devem viver como uma irmandade, uma única família que mora na mesma casa, numa confraternização, que compartilha tudo o que...
O Rei aguça, precavido, para o quadro na parede. Peifil irrompe embarafustado pelo salão falando em sua língua e todo suado. O Monarca, que até então se expressava com movimentos lentos, levantou-se ligeiro do tamborete. Foi para uma bancada no canto esquerdo do salão, próximo a uma janela, e pressionou duas chapas, nivelando-as à bancada. Uma redoma de vidro elevou-se. Abriu-a e colocou a mão direita sobre uma placa metalizada. Seu braço, em transparência óssea, emite uma luminosidade azul.
De imediato um alarme disparou em cadeia pela cidade. O Rei dirigiu-se para a outra janela do Palácio, virou uma trava e aguardou como se tivesse terminado sua missão. Uma cor verde, em forma de pirâmide, se fez ver no céu. Jaime chamou Rodrigo, mas ele, com os fones nos ouvidos e distraído com o jogo, não escutou. Em três segundos o salão foi invadido por milhares de clausestres que brotavam de todas as direções no mais absoluto silêncio individual. Aquela convergência instantânea de pessoas e nem um pequeno barulho de passos se ouvia.
Jaime equacionou: vinha alguém indesejado ou algum perigo fora detectado no céu, pois a proteção do Palácio se ergueu como um paredão em forma de cone, até o fechamento completo acima do Palácio. Levantou-se e começou a andar entre aquela aglomeração para aproximar-se de Rodrigo. Sentiu um braço forte que o deteve e o puxava para fora do salão. Pensou que fosse Peifil. Porém ele já não conseguia virar o pescoço para ver quem o conduzia, tampouco gritar. Seu corpo estava totalmente paralisado. Foi levado para um lugar escuro. Ouviu dois estalos indefinidos e, numa baforada, um vento quente soprou contra seu rosto. Não sabia se era transportado em algum veículo ou se apenas voejava – o que não era para se estranhar naquele mundo excêntrico. Quis gritar novamente, mas, misteriosamente, a voz lhe faltou. Lembrou-se do início de tudo, à beira do cais, esperando o ônibus. A nuvem. A sala escura.
– "Oh! Não... tudo de novo, não. Meu Deus!... Vão me devolver para a Terra sem o meu filho? Como vou explicar em casa? Não, isso não pode acontecer comigo. Não posso partir sem Rodrigo. Preciso voltar para o salão.”
Uma aflição asfixiante tomou conta de Jaime. Concentrou-se à busca das forças sensoriais para se libertar da paralisação, mas foi inútil. Seus membros não desempenhavam as decisões do cérebro.
– "Será que irão me trair? Pareciam amigos leais!... O Rei esperava suceder alguma coisa. Eu notei sua atenção exagerada naquele painel. Devia ter perguntado o que ele temia.”
Jaime pressentiu um suor frio esvair-se pelos poros. Dominado por uma tontura letárgica, a moleza tomou conta de seu espírito e, gradativamente, foi perdendo os sentidos. Não distinguia mais nada. Sem reação. Anestesiado. Apagou...


V - EM PODER DOS REVOLUCIONÁRIOS


Quando Jaime, por fim, abriu os olhos, viu-se sentado no meio de um pasto, adjacente a uma mata moribunda. Estava amarrado por uma corda invisível que prendia suas mãos para trás. Seu corpo, ainda entrevado, não se mexia. Pelo peso da sonolência, passara por uma boa madorna.
– "Se estou imobilizado... devo ser um prisioneiro – pensou. – Caramba, que azar o meu!... E Rodrigo, onde está?"
Jaime espreitou, circunspeto, a floresta de árvores esquisitas em sua frente: umas com troncos grossos e baixos, outras altas e curvas. Algumas de folhas enormes, penduradas a caules raquíticos. Um pequeno poço redondo, com areia avermelhada, transbordava borbulhante, escorrendo um filete de água cor de vinho, que passava rente aos seus pés em direção à floresta. Do seu lado direito havia alguém deitado, vestido de negro. Como ainda não movia um músculo sequer, perquiriu vesgo:
– Ei!... Quem é você?
Jaime não obteve resposta, nem ao menos um gesto. O corpo jazia imóvel. Deduziu que não o ouvira. Insistiu. Desta vez, bem mais alto:
– Ei... você!... – nada.
Jaime fez mais força mental que física para contorcer o pescoço. Notou, de soslaio, que atrás dele havia um acampamento cigano. Muitas barracas rústicas, desordenadas e coloridas. Na entrada de uma delas, um jirau sustentava, dependuradas, longas tiras de carne crua, que quase alcançavam o chão. Alguém pronunciou algumas palavras incompreensíveis. Pela entonação, dava a entender a Jaime ser o aviso de que ele se mexera.
Jaime ouviu passos cadenciados e firmes que se avizinhavam. Duas botas limpas e lustrosas pararam em sua frente. Com muita dificuldade foi erguendo o pescoço. Deparou-se com um rosto antipático e não muito perfeito, que o inspecionava de cima para baixo. O grandalhão tinha uma cicatriz profunda no queixo quadrado, cabelos desalinhados e olhar arrogante. Um tique nervoso se manifestava em intervalos mais ou menos regulares, contraindo toda a musculatura do pescoço em espasmos. Depois de um sorriso sarcástico, evidenciou:
– Terráqueo, hoje é o meu dia de sorte. Meus espiões infiltraram-se no Palácio para apoderarem-se de uma figura célebre e trouxeram duas. Com um detalhe, sem nenhum arranhão. Aposto que até agora a segurança do Palácio está debatendo de quem foi a culpa pela falha. - Deu dois passos para o lado. – Você é muito mais forte que alguns dos nossos. Veja – apontou folgazão para a pessoa que permanecia despojada na grama –, ainda dorme em transe, e vocês receberam a mesma dose do elixir hipnótico.
Encostou sua pequena mão em Jaime e deu-lhe um toque no ombro. Foi o mesmo que tivesse arrancado a corda invisível de seus punhos. Libertou-o tão rápido que Jaime quase perdeu o equilíbrio. Lentamente, dirigiu-se para uma das cabanas proclamando:
– Se quiser pode levantar-se, Terráqueo. Agora eu sou seu anfitrião. Venha beber e comer carne de coiote do mato.
Jaime, com aversão, resmungou para si mesmo:
- “Obrigado, já almocei.”
Jaime ergueu-se amparando as dores agudas das costelas. O elemento persistia imóvel, nocauteado. Vasculhou em todas as direções procurando por Rodrigo. O de botas brilhantes, comendo algo com outros dois companheiros, o vistoriou de longe com hostilidade e inquiriu mastigando sem modos:
– Não está pensando em fugir, não é, Terráqueo? Aliás, fugir para onde... se não sabe onde está! – e desprendeu uma gargalhada humilhante e insuportável.
– Quem são vocês e por que estou aqui? Cadê o meu... – Jaime pensou melhor e, por precaução, não perguntou por Rodrigo. Talvez não soubessem da existência de mais um Terráqueo no Palácio.
O de botas brilhantes deglutiu o bocado quase se engasgando e retorquiu enfurecido:
– Nós somos revolucionários opositores a esse Rei que nos governa como se fôssemos cães. Quer que trabalhemos para ele a troco de comida, nós cobiçamos mais, desejamos liberdade de escolher em qual Planeta viver, mesmo que seja pela violência. Temos de batalhar pelos nossos direitos. Não podemos nos prostrar passivos diante de um camundongo sarnento...
Parou de falar de estalo. Notou que não controlara seu fanatismo. Confabulou, secretamente, com os dois companheiros. Voltou-se para Jaime e declarou num tom bem mais suave e pacifista:
– Meu nome é Lideucan. Esses são meus correligionários de luta: Saluc... Jermaso – apontou indicando todo o acampamento – e mais um monte de seguidores do nosso ponto de vista. Buscamos a liberdade, longe daquele confinamento de animais que é Iur Senbur. A partir de hoje decretaremos um novo estilo de vida para esses monarcas duma figa. Iremos mandá-los para lá – gargalhou prazerosamente. – Descobrirão que urubu não come carniça porque gosta, e sim porque é o que lhe sobra. Saberão o que é disputar a comida com instinto animalesco de um canibal. Quero ver se naquele cemitério de vivos eles mantêm a civilidade e a pose de nobreza e integridade que tanto pregam. Escutaremos muitas súplicas desses almofadinhas caga-regras e... – as próprias gargalhadas o impediram de prosseguir no insulto.
Saluc vinha simplório, todo risonho, de mão estendida em direção a Jaime. Sua pele era incomum: flácida, flácida não: pendurada na face, plissada na testa e enrugada no queixo. Equivalia-se a um cachorro buldogue balançando as barbelas, só não babava. Jermaso, de estatura mediana e vestimenta desleixada, o reteve. Com uma voz rouca, acompanhada de chiados desafinados, cochichou alguma coisa bem dentro de seu ouvido; o que fez Saluc retroceder com ares severos.
Lideucan, pelo jeito com que discursara, era um radical rabugento de gênio sectário. Saluc, com sua expressão débil, um adepto tolo, que se deixava levar pela mente distorcida de Lideucan. E Jermaso, por todo tratamento servil que dispensava aos dois, um tremendo puxa-saco. Seus trejeitos chegavam a ser pitorescos. Encruado na testa careca, à esquerda trazia um proeminente furúnculo – essa foi a análise imediatista que Jaime descarregou sobre eles e, veemente, descerrou sua insatisfação:
– E o que é que eu tenho a ver com esse seu despropósito caduco? – destratou Jaime. – Estou aqui abduzido da Terra e vocês me sequestram de novo? – extravasou apoquentado e encarando a todos.
– Vamos com calma, Terráqueo. Você já faz parte da nossa história – esboçou numa insolência efusiva Lideucan. – Nosso primeiro intento era confiscar a Pirâmide do Rei Ojes, subjugar Bisam Joreso e depois os demais Reinos. Contudo, a casualidade conspirou a nosso favor e aprimoramos o projeto: devolveremos você para a Terra e nos hospedaremos incólumes por lá. Ouvi dizer que o clima é agradável e que as mulheres reproduzem de bom gosto. O que mais se pode almejar? – indagou num aprazimento maldoso.
Jaime, mais uma vez, foi pego de surpresa. Não teve reação diante do gigantesco e assombroso disparate que ouvira.
– Boa, Lideucan! – exclamou Jermaso contentíssimo. – Você planejou isso agora?
– Claro que não, recruta imbecil – molestou o intolerante –, esse ensejo glorioso já estava impregnado em meu objetivo desde que fugimos de Iur Senbur.
– Como executaremos essa façanha miraculosa, Lideucan? – interrogou Saluc de ar pueril.
– Sairemos daqui em direção à base das aeronaves interplanetárias. Desceremos de supetão e, com o que temos de refém – apontou para a pessoa que ainda dormia –, não haverá embaraços para exigirmos uma nave e coagirmos para abrirem a proteção de ondas. Então nossos comparsas, que estão aguardando lá fora, invadirão o Planeta Claus e desencadearão uma guerra sem trégua até desbancarem esses tiranos assoberbados do poder e pôr um final feliz... vitalício nesse episódio.
Enquanto conversavam a figura que dormia levantou-se semiacordada e cambaleante. Num incitamento obstinado, foi de encontro a Lideucan tentando esmurrá-lo. Lideucan esquivava-se de seus punhos com facilidade. Num relance a deteve pelo braço. Após uma contração muscular dupla e prolongada, admitiu sem mesura:
– Belezoca, você não nega ser filha de quem é, hein? Continua a mesma beldade teimosa e corajosa de sempre. Junte-se a nós, você só tem a ganhar. Breve poderá vir a ser uma Rainha... – e acrescentou ambicioso – do Planeta Terra. Que tal?
– Ao seu lado? Nunca. – Rechaçou secamente, abrindo os olhos fumegando de raiva, aparentemente bem lúcida. – Pode ter certeza que papai já está no seu encalço, seu desordeiro – desabafou dando-lhe as costas. – É só uma questão de minutos... e desta vez papai não o perdoará.
Lideucan e seus companheiros saíram rindo e adentraram em uma das cabanas discutindo entre eles.
Estava ali. Era uma mulher. A primeira fêmea que Jaime via naquele Planeta. Começou a repará-la. Nem de longe se assemelhava a uma mulher. Seus gestos voluptuosos e o comportamento másculo eram características marcantes. A voz possuía um timbre indefinido. Sua cor de jambo escuro era bonita. Os traços de seu rosto bem delineados. Seus olhos esverdeados refulgiam acesos, como se desvendassem a alma de quem os fitasse. Os cabelos pretos, cacheados, na altura do pescoço, balançavam soltos em caracóis. Lábios carnudos e dentes perfeitos. Jaime viu ali uma mulher com um quê de pantera selvagem indomável. Ela notou que Jaime a observava. Ele, apressadamente, desviou seus olhos, pois ela poderia não gostar. Em tom de desculpas e a voz mais delicada, ela apresentou-se:
– Jaime, meu nome é Dinjara. Sou filha de Peifil e esse... rebelde, vagabundo, medíocre é um vil parasita fora da lei... e seu bando a escória do Sistema Comunitário. São prisioneiros fugitivos do Planeta Iur Senbur. Devem ter aproveitado algum descuido da vigilância e ingressaram em nosso Planeta sem serem notados.
Jaime adestrou seus nervos faciais para demonstrar-se simpático.
– Seu pai disse apenas que tinha dois filhos. Julguei que todos os dois fossem... – Jaime parou de falar. Dinjara não o ouvia. Ela pretendia ver no vento, pois olhava o espaço em sua frente como se vislumbrasse nele uma imagem refletida.
– Não entendo como eles penetraram no Palácio sem serem identificados – monologou pensativa.
O tormento dela nesse momento crucial, embora não fosse, afigurava-se maior que o de Jaime; que, numa ansiedade intensa, fez uma pausa para que ela voltasse a notar a presença dele ali, já que a sua prioridade era saber o paradeiro de Rodrigo. Jaime, com receio, tocou-a no ombro. Ela virou-se naturalmente e:
– Desculpe... Jaime.
– Você sabe de meu filho? – emendou Jaime.
– Não, mas... deve ter ficado no Palácio. Eles não imaginam quantos Terráqueos vieram. Fique tranquilo Jaime, papai vai resolver isso com a maior brevidade.
– Mas seu pai não sabe onde estamos, Dinjara. E eles irão nos usar como reféns. Comentam até que irão para o meu Planeta.
– Não sei se é mesmo verdade. A cabeça de um bandido é inconstante. São ideias desvirtuadas. De repente ele adere à opinião anterior. É uma criatura imprevisível, confusa, cheia de incógnitas – encerrou deprimida.
Agora Jaime tinha mais uma certeza. Aquele brilho cativo que eles traziam nas pupilas era um leitor de pensamento. Incrível, mas ali a mentira nem pernas tinha!
Dinjara sentou-se no chão desolada. Jaime, sem saber o que fazer, nem confessar que estava mais perdido que cobra-cega em quintal estranho, especulou contemplando as árvores:
– Você sabe que lugar é este, Dinjara?
– Não ao certo, mas esta é a única parte descoberta do nosso Planeta. É um local reservado para as nossas experiências na tentativa de recompormos a flora e a fauna que destruímos. E pela posição das luas, estamos muito distante das cidades. Não teremos chance de escapar.
– Precisamos escapar – rebateu Jaime apreensivo. – Tenho de encontrar Rodrigo. Ele deve estar apavorado chamando por mim.
Dinjara bisbilhotava de rabo de olho para todos os lados, nem ouvira as palavras de Jaime. Retirou por debaixo de seu cinto a metade de uma bolinha de gude e murmurou:
– Coloque isto no seu bolso e não me faça perguntas, nem pense mais... esqueça.
Jaime, dado o semblante agastado de Dinjara, transparecendo estar possuída de uma coragem magnânima, resolveu acatar a ordem. Depois, como se nada tivesse ocorrido, ela ponderou e se pôs a explicar:
– Jaime, isso aqui é uma floresta experimental. São mudas de laboratório. Algumas foram trazidas de outros Planetas. A maioria não nasce, quando nasce, cresce deformada devido à mutação climática. É muito perigoso andar por esta floresta porque é também um local de experiências com animais ferozes. Esses bandidos não se importam porque representa uma segurança a mais para eles.
O desassossego de Jaime agora se firmava em como fugir dali.
– Dinjara, para termos uma chance de sairmos daqui, no mínimo necessitaremos de um carro, certo?
– Não adianta, Jaime, esses ladrões alteram os circuitos internos e colocam senhas, isso torna impossível a ignição. Só nos resta esperar.
Jaime não concordava com Dinjara, contudo, ali ele dependia dela, pois estava sem norte nem sul. Como saber para onde ir? Mesmo assim insistiu:
– Seu pai deve estar preocupado com você. Arranjaremos um jeito de voltarmos ao Palácio.
Dinjara engastava-se apática, sem iniciativa. O desânimo a vencera. Em Jaime, ao contrário, crescia um ímpeto de angústia, otimismo e decisão que nunca experimentara antes. Resolveu agir por conta e risco, não podia mais esperar os fatos se sucederem. Sussurrou:
– Dinjara, as árvores nos encobrirão. Só teremos chance de escapar se tentarmos. Vamos nos esconder na mata. Venha!
Jaime puxou Dinjara pelo braço e saíram correndo para dentro da floresta. Corriam tanto que os calcanhares batiam nas nádegas. O importante era afastarem-se daquele lugar.
Logo predominou uma névoa fina, que mais à frente transformou-se numa intensa cerração. Pouco se enxergava. Tiveram de andar às cegas, em marcha lenta. Passaram alguns morros. Embrenharam num mato obscuro, espesso, repulsivo e silencioso, que formava um corredor, uma estufa, onde, de algumas folhas malcheirosas, escorriam pingos de um líquido roxo. O ar úmido e mofento entrou pelas narinas de Jaime, provocando-lhe espirros incontidos. Saíram da cerração e continuaram a corrida alucinada pela floresta. Após alguns quilômetros, Jaime já se sentia vencido pela fadiga. Dinjara fez um sinal com os braços e parou arquejante de cansaço. Sem fôlego, mal conseguia falar:
– Jaime, por... favor, pare... não... posso... mais.
Como ela se entregou primeiro, ele fez de conta que não estava cansado e que aguentaria correr muito mais ainda.
– Está bem, eu espero você descansar.
Pararam em um vale onde corria, mansamente, um córrego com água cristalina. Pedras brilhavam no fundo das águas, ao lado de pedregulhos cobertos de limo. Peixes, tais quais baiacus inflados, deslizavam na correnteza. Minúsculas libélulas banhavam-se em voos rasantes.
Depois daquela corrida extenuante, as forças de Jaime esgotaram-se, porém ele teve uma certeza: seu joelho realmente fora curado; não detectara dor alguma nele.
O córrego que descia com suavidade entre os pequenos arbustos despontou para Jaime como uma solução salvadora.
– Dinjara, você sabe para onde este córrego vai?
Dinjara transpirava em excesso. Com os cabelos colados na face molhada de suor, respondeu em prestações:
– Vai... pa.ra... as plan.planta.ções.
– Vai para as plantações? E de onde ele vem? – investigou Jaime ansioso.
– Ele... vem... da cidade de Bisam Joreso – resfolegou Dinjara.
– Partindo dessa premissa é só subirmos a correnteza que chegaremos...
– Não é bem assim, Jaime... estamos a mais de sessenta quilômetros da cidade mais próxima. Bisam Joreso fica a trezentos.
– Trezentos quilômetros?!...
Jaime não podia descartar a fuga nem demonstrar fraqueza, isso contaminaria Dinjara.
De repente, passaram sobre eles dois bichos branquelos e pelados. Gritando e pulando pelas árvores.
– O que é isso, Dinjara?
– São cocamas.
– Cocamas?
– Esses animais foram trazidos do Sistema de Lujacié por um cientista chamado Wirdan, para experiências. Alguns acabaram fugindo do cativeiro e buscaram refúgio na mata. Wirdan afirmava que eram inteligentes e, se domesticados, evoluiriam... mas que nada... são sempre cocamas.
– Para mim, parecem macacos. Só falta o pelo.
– O problema não é os cocamas, e sim do que eles estão fugindo – alertou Dinjara sondando na direção de onde eles saíram.
– Como assim? Não entendi, Dinjara.
– Quase sempre os cocamas estão fugindo do peoladro, que é um animal carnívoro e traiçoeiro. Só ataca a presa se ela não estiver olhando para ele. Por isso temos que avistá-lo primeiro, senão... Lá está ele.
Logo surge um leopardo bem crescidinho, com enormes presas. Lentamente vai se abeirando. Olhar fixo nos dois. Nem pisca. Eles também não.
– Jaime, fique atrás de mim e não deixe de fitá-lo com firmeza – aconselhou Dinjara sem tirar os olhos do bicho.
– Você manda – Jaime amparou-se em Dinjara, fazendo dela seu escudo.
O animal parou. Cheirou o ar. Virou-se astutamente para o lado oposto.
– Continue olhando para ele, Jaime. Senão ele avança – avisou novamente Dinjara.
– Bichinho feio! – proferiu Jaime para espantá-lo.
O peoladro virou-se para os dois rapidamente e rosnou forte. Dinjara não se assustou, mas Jaime não conteve o grito inconsciente de defesa:
– Sai!...
– Calma, Jaime... é só manter os olhos firmes nele.
Quando percebeu que não desistiriam de encará-lo, o animalaço baixou a cabeça e, sossegado como chegou, foi embora. Jaime respirou fundo, pois, no pavor sufocante, o fôlego permanecera retido automaticamente. Dinjara demonstrava tranquilidade, até sorria em demasia.
– O que foi Dinjara? Qual o motivo da graça? É pelo susto que tomei? – perguntou Jaime saindo de trás dela meio acabrunhado.
– Não, Jaime. Quando eu estava olhando para o peoladro lembrei do que li a respeito de Wirdan. Ele dizia que toda vez que encarava um desses bichos seu subconsciente o reportava à sua primeira corrida de rua que participou. Ele era franzino e já na largada ficara para trás. Olhava a turma se distanciando, mas ele persistiu a correr apenas para não ser o último e observou que se aproximava daqueles que estavam à sua frente. Animado, empenhou-se em sustentar o mesmo ritmo. Decorrido um pequeno período, já se misturava a eles. Passou a correr com orgulho, pois se enturmara. Então pensou: "se cheguei até aqui, posso ir além". Assim o fez. Logo avistava o primeiro pelotão. E contou nove. Ele era o décimo. Aquilatou-se grande, recompensado. Porém ocorreu-lhe um fato interessante: se quando ele ainda era espermatozoide se conformasse com essa classificação, não estaria aqui hoje. Prosseguiu em frente. Ele não chegou em primeiro lugar, mas aprendeu uma lição: "em tudo devemos dar o máximo de nós desde o início, só assim testaremos nossa plena capacidade".
– Claro, devemos nos esforçar sempre... no limite... para não nos frustrarmos – comentou Jaime já restabelecido do vexame.
– Wirdan dizia que foi após essa corrida que ele se dedicou aos estudos de verdade, antes assistia apenas às aulas...
– Mas me diga uma coisa, Dinjara... – atravessou Jaime – vocês dominam os animais com os olhos?
– Quase todos. Exceção para as penrestes... que vocês conhecem como serpentes. Elas nos confrontam sem medo algum.
– Espero que não encontremos nenhuma delas – almejou Jaime.
– Há poucas por aqui. Apesar de saírem somente à noite para caçar, seria muita falta de sorte nossa se...
Dinjara estacou. Pela sua fisionomia, que empalidecia em pânico, Jaime avaliou que algo terrificante estava para acontecer. Foi se virando devagarinho, com receio do que veria.
– Dinjara! Aquilo não é serpente! É uma hidra! – Jaime assombrou-se ao avistar o réptil monstruoso. Era um filhote de dragão bem nutrido. Só a parte do dorso visível, tinha mais de sete metros de comprimento e sua cabeça, incrustada de escamas salientes, vinha a dois metros de altura. Isso sem falar nos dois chifrinhos que sobressaíam pontiagudos sobre seus olhos sagazes e famintos.
– Pior ainda, Jaime. Tem outra mais atrás. É um casal!
– E agora? O que faremos?
– Só nos resta correr.
Saíram novamente em disparada. As forças, na hora do aperto, voltaram para socorrê-los. Jaime, que se embasbacara com a tecnologia do Planeta evoluído, neste instante, a propensão natural de sua ascendência, o arremeteu ao legendário homem pré-histórico – desvalido, fugindo para não ser devorado por um abominável predador mitológico. Jaime descobriu que o novo e o antigo andarão eternamente de mãos dadas; porque sempre haverá a carência de um obsoleto sinal de fumaça, onde os modernos meios de comunicação não estiverem disponíveis.
Corriam precipitados, num árido desfiladeiro, entre labirintos escavados sob cordilheiras de rochedos colossais. Depararam-se com uma abertura estreita que, sem aviso, interrompeu a passagem – elevando um paredão à frente deles.
– Mais essa! – reclamou Dinjara. – E agora?
– Só tem uma saída, Dinjara... por cima – decidiu sem pensar duas vezes Jaime.
Começaram uma escalada temerária no penhasco. As pedras irregulares facilitavam a subida, porém algumas delas estavam soltas e aumentavam o grau de perigo. Um passo em falso poderia ser o fim. Jaime olhou para baixo procurando as serpentes. Os ofídios vieram mais velozes do que ele pensara. Já se arrastavam, sibilando no pé do despenhadeiro.
– Dinjara, elas sobem aqui?
– Sobem. O macho é mais ligeiro, porém o veneno da fêmea é letal.
As pedras machucavam as mãos de Jaime, devido a sua pele fina, dado os muitos anos devotados ao escritório. Mesmo assim, era ele quem liderava o desfecho. Dinjara ficara para trás.
– Venha, Dinjara... força.
Quando Jaime galgou o topo ele não quis acreditar. Em cima, só avistou uma área exígua, pequena, diminuta, apenas algumas árvores e, em frente, outro penhasco, um pouco mais baixo. Desembarcara numa ilha suspensa no ar. Separando as duas montanhas, uma lacuna de vácuo – uma garganta de quase vinte metros de largura. Jaime ajudou Dinjara a escalar as últimas pedras puxando-a pela mão. Quando ela notou a real situação, refutou abatida e desencorajada:
– Jaime, hoje não é o nosso dia mesmo. Lamento, mas acho que chegamos ao fim.
– Eu não me entrego tão fácil, Dinjara. Primeiro colocaremos alguns obstáculos para aqueles bichinhos.
– Como assim, Jaime?
– Não fique aí parada! Mexa-se!... Pegue a maior pedra que puder aguentar.
As megeras já vinham serpenteando no meio da pirambeira. Jaime, com muito esforço, bem rente à descida, amontoou três pedras imensas.
– Vamos jogar juntos, Dinjara... Agora!
Jogaram as pedras morro abaixo. A avalanche estrondosa foi levantando uma asfixiante nuvem de poeira. Jaime avistou uma árvore que nascera inclinada para o precipício, e de seus longos galhos brotavam grossos cipós.
– Dinjara!... Os cipós dependurados – mostrou Jaime como a única solução para aquele dilema. – Puxamos os cipós para perto e nos balançamos para o outro lado através deles.
– Você está louco, Jaime? É muito longe e arriscado.
– Louco?... Assim que as pedras pararem de rolar, elas irão subir novamente. Não podemos bobear.
– É impossível, Jaime!
– O impossível, às vezes, Deus realiza Dinjara.
Jaime lembrou que ali ninguém sequer presumia a existência Dele. Cismou, de relance, como deve ser ruim não ter uma fé intrínseca, uma Entidade Superior, um refúgio espiritual para se ancorar nos momentos de tempestade. Jaime, confuso ideologicamente, pegou um cipó fino no chão, amarrou, numa das pontas, uma pedra e jogou para enrolar no cipó que balançava no abismo. Por sorte, conseguiu laçá-lo no primeiro arremesso. Puxou o cipó e forçou para estimar sua resistência.
– Dinjara, está seguro. Venha!
– É muito perigoso, Jaime.
Jaime nem deu atenção ao que Dinjara dissera, pois não havia alternativa.
– Vou amarrar essa pedra maior no cipó, assim, quando você chegar do outro lado, não terá nenhuma dificuldade para mandá-lo de volta pra mim.
Dinjara, ainda indecisa e receosa, agarrou-se ao cipó. Testou sua firmeza. Apoiou os pés sobre a pedra atrelada e tremulou:
– Que loucura...
– Vai, coragem... demonstre que você é autossuficiente – incentiva Jaime. – Está pronta? – perguntou ajeitando o cipó para impulsioná-la até ao outro penhasco.
– Es... estou – respondeu Dinjara, abraçando-se forte ao cipó.
Jaime lançou-a para o despenhadeiro. Seu corpo rodou pelo espaço.
– Olhe para baixo, Dinjara! - recomendou Jaime. – Assim você vê quando deve saltar!
– Estou com... meeeeedo!! – mas em seguida obedeceu.
Dinjara deu sorte. Foi na justa medida. A inclinação que o galho fez com o peso dela, mais o da pedra que Jaime enlaçara, levou-a para um pouso suave no penhasco vizinho.
– Consegui...! Consegui...! – gritava dando pulinhos.
– Agora jogue o cipó, Dinjara.
Jaime estica o braço o mais que pode esperando o cipó regressar. Dinjara o arremete e... azar de Jaime. Bem no meio do precipício a pedra se desprende. O cipó perde velocidade e para, lentamente, onde sempre estivera. Dinjara bota as mãos no rosto e desfere um grito escandaloso:
– Oh! Não!... E agora?!
– Calma!... Deixa comigo – disse confiante Jaime.
Jaime sabia que não poderia se desestabilizar emocionalmente. Sem perda de tempo, esquematizou-se para repetir toda a operação inicial. Procurou o cipó fino que preparara. Pegou-o e jogou para laçar novamente o cipó grosso e trazê-lo ao seu alcance. Na pressa, errou o primeiro lance.
– Jaime, cuidado!... Atrás de você... a serpente – avisou Dinjara, saltitante e nervosa.
O macho, todo empoeirado, vinha rápido. Jaime não podia instalar-se acossado na beira do abismo. Correu para trás de uma árvore de tronco alto e reto. Amarrou uma nova pedra na outra extremidade do cipó; fabricando uma espécie de boleadeira. Apesar do coração bater forte de medo, as ideias germinavam em corredeiras na cachimônia lancinante de Jaime e apuravam seu espírito para a batalha desigual. Esperou que a serpente se aproximasse mais. Tinha de agir com rapidez, antes que a fêmea chegasse, porque, com as duas atacando simultaneamente, ele não teria chance alguma de escapar. Aquele tronco era o seu único trunfo. Foi se afastando da árvore à medida que a serpente se achegava. Quando ela passou uns quatro metros do tronco, ele correu, contornando, pelo lado oposto, fazendo com que a serpente o perseguisse e se enrodilhasse. Depois de três voltas circundando a árvore, Jaime parou e laçou a cabeça dela com o cipó, puxando-a, com violência de encontro ao tronco. Quando encostou a serpente ao tronco, ele rodou a boleadeira ao redor da árvore, que foi dando voltas e mais voltas envolvendo e apertando a serpente. Nas derradeiras voltas, a serpente, já quase sufocada, abria a boca na tentativa de buscar o ar que lhe faltava. Tamanha foi a velocidade que a pedra atingiu que, ao se chocar com a fuça da serpente, emitiu um barulho oco, matando-a.
Jaime recomeçou mais uma vez a empreitada laboriosa. Amarrou uma pedra em outro cipó para alcançar a sua salvação. Tinha de dar alguma sorte. Caprichou na pontaria e acertou de primeira. Jaime principiou a puxar o cipó, Dinjara gritou mais desesperada ainda do outro penhasco:
– Jaime, a fêmea chegou!...
Não deu mais tempo para nada. Afobado, Jaime lançou-se contra o cipó, caso contrário a serpente fêmea o abocanharia. Partiu rumo à pirambeira sabendo que não chegaria ao outro lado e que logo estaria retornando. Enquanto voava sobre o precipício, Jaime maquinava uma escapadela urgente, pois a serpente asquerosa sibilava e prendia-se num galho rasteiro, esticando-se toda à sua espera.
Jaime começou a regressar e, pelos seus cálculos, direto para a presa da serpente. Dinjara gritava angustiada e avisava:
– Cuidado, Jaime, ela é venenosa.
Com aquela bocarra em sua frente, Dinjara nem precisava adverti-lo do veneno.
Jaime, para fugir, provisoriamente, do campo de ação da serpente, escalou o cipó. Quando chegou perto dela já se resguardava no alto. A serpente ambicionou segurar o cipó com a boca. Jaime sacudiu-o com os pés. Ela errou o bote e abocanhou o vento. Jaime voou de novo para o abismo. Não atinara ainda nenhuma manobra redentora. Não havia escapatória. Mas não podia ficar ali, pendurado eternamente, aguardando o cipó aprumar no meio do nada. Seria o seu fim.
Dinjara gritava desregrada. Jaime, atarefado com a serpente, não discernia o quê. Atribulado, não podia lhe dar atenção. Concentrado, tateava nos miolos revirados uma solução que o livrasse definitivamente deste apuro. E, como um raio, veio uma ousada e intuitiva: ele deveria consentir que aquele réptil caçador abocanhasse o cipó, e puxasse. Era a única maneira de conseguir o encaixe perfeito e receber a impulsão necessária para elevar-se até ao outro penhasco. Jaime subiu mais no cipó. Ajeitou para que a serpente o segurasse na altura correta. Notou a cara de safada da fêmea. Salientava um gracejo de crueldade ao vê-lo agitando-se no abismo. Não era só o alimento que ela queria, além do instinto animalesco, ela exalava um prazer visível na caçada. Jaime colocou o cipó bem perto da boca da serpente malvada e ela o abocanhou firme, como se fosse a sua suculenta perna.
– Agora puxe, boneca rabugenta – comandou Jaime com ironia medrosa, pois ali ele não tinha direito a cometer falhas.
Ela o atendeu. Enroscou-se nos arbustos esticando o cipó. O galho curvou feito uma vara de pesca.
– Mais um pouquinho... comprove sua eficácia, meninona.
Jaime teria que obter um alinhamento exato ao penhasco e o cipó manter-se todo esticado.
– Só mais uns centímetros e...
Jaime, intrépido, afrouxou suas mãos do cipó e seu corpo escorregou para baixo, indo com a sola dos sapatos diretamente sobre os chifrinhos da bruaca venenosa. A serpente não esperava pelo golpe. Pega de surpresa se assustou e soltou o cipó. Jaime firmou as mãos e saiu feito uma flecha torta conduzida ao espaço. Balançou desgovernado por quatro vezes. Convergiu suas forças aos braços para suportar aqueles solavancos. Só quando viu o chão sob seus pés é que acreditou ter escapado. Pousou com as pernas bambas, ainda amedrontado. Dinjara, frenética, festejava aos pulos. Abraçou-o tão forte, com tanta vitalidade, que quase o sufoca. Jaime percebeu que a tremedeira era mútua. Dinjara perspirava; com o sorriso ampliado no rosto, disse num alívio:
– Nunca senti tanta emoção em toda a minha vida. Você foi muito audacioso, Jaime, ao enfrentar as serpentes.
Jaime notou que a naturalidade e a alegria cândida de Dinjara, exibida numa representação teatral infantil, estouraram no ar rapidamente feito bolha de sabão. Dinjara suplica impaciente:
– Jaime, solte o cipó senão ela atravessa.
Era a faminta serpente que não desistia. Arrastava-se afoita pela árvore no intuito de atravessar pelo cipó que Jaime ainda segurava.
– Deixe aquela minhoquinha nojenta comigo, Dinjara – antipatizou entre os dentes Jaime.
Agora era a sua vez. Jaime, só para se vingar, espreitou até que ela saísse do galho da árvore e ficasse toda sobre o cipó. Quando ela chegou bem no meio do abismo, balançou com vigor por três vezes e largou. A bruxa perversa perdeu a feição maléfica, agora demonstrava pavor em seu semblante. Enrodilhando-se, trançava um equilíbrio desajeitado na verticalidade do cipó. A serpente não resistiu, sucumbiu, sumindo no abismo.
Pondo fim à peripécia, desceram cautelosos até o córrego. Pararam para se refazerem da proeza imprevista. Dinjara agacha-se. Passa água na face toda suada. Jaime esquadrinha em derredor. Remonta os trezentos quilômetros, córrego acima, que o separam de seu objetivo, e comenta:
– Dinjara, tomara que não defrontemos com nenhum monstrengo no trajeto até...
Subitamente, Jaime ouve o gemido sufocado de Dinjara. Uma árvore carnívora, com seus longos tentáculos, a laça pelo pescoço. Jaime vasculha nos arbustos algo que lhe sirva de arma e não localiza nada. Retira a caneta do bolso da camisa e crava no tronco leitoso, que se contorce jorrando uma gosma avermelhada. Apunhala todos os tentáculos da árvore que prendem Dinjara. Cada um que fura, sacode-se, e ele é alvejado por uma melecada na cara. Jaime pega Dinjara no colo e carrega-a para fora do alcance daquela árvore carniceira. Ela, lânguida, num soluço fragilizado e massageando onde fora atacada, reclama:
– Não alertei que era perigoso aventurar-se nesta floresta, seu... doido varrido? – ofendeu Dinjara exacerbada.
– Calma, Dinjara – relevou Jaime colocando-a no chão –, o pior já passou. Nós vamos sair daqui ilesos, você vai ver.
– Não sei, Jaime – disse relutante –, papai sempre conta que nessas redondezas, existe um pântano habitado por animais bravios e repleto de areias-engolideiras – e desatou num lamento choroso, sem empenho, arrependida de ter fugido para aquela floresta inóspita.
Jaime precisava voltar ao escopo propulsor de sua fuga e retomar o raciocínio de como chegar à cidade.
– Dinjara, as plantações também estão longe daqui? – investigou Jaime no tentame de motivá-la novamente e buscarem uma alternativa viável.
– Não. Bem, meio longe... uns dez ou doze quilômetros.
– Encontraremos algum carro lá... que nos leve ao Palácio?
– Sempre disponibilizam veículos nos estacionamentos. Mas creio que com todo esse tumulto, alguma ordem contrária foi expedida. – Dinjara relegou a preocupação de Jaime para segundo plano e agradecida confessou envergonhada. – Jaime... gostei de ser carregada no colo. Eu sinto, nesse gesto, um galanteio muito romântico. Pena que os homens daqui não fazem mais isso.
Dinjara exteriorizava tanta carência que Jaime, apiedado, pensou em cortejá-la para bajular o seu moral. Porém, repentinamente, uma rajada de vento forte sopra e o farfalhar das folhas impede a conversa. Um bando de pássaros, de gorjeio estridente, sai do meio das árvores que sacodem com o forte vento e parte em revoada. Jaime esquece a baixa estima de Dinjara e comunica:
– Sendo esta nossa única opção, a decisão é fácil. O córrego será a nossa trilha.
Dinjara ajeitou os cabelos que o vento impetuoso insistia em desarrumar e enunciou:
– Jaime, não se assuste com o que vai ver e ouvir agora. É o Planeta Ginare que vai passar, ele é o maior de todo o Sistema. Claus fica no escuro por alguns segundos. Isso ocorre de cem em cem anos.
Uma enorme bola eclode sobre suas cabeças. Um barulhão de engrenagens triturando barras de aço repercute em seus ouvidos. O estardalhaço e o vento aumentam de intensidade. Eles se agarram ao tronco de uma árvore para não serem levados para o espaço feito duas folhas secas. Uma bola vermelha se agigantou a flutuar. Escureceu rápido. No final do horizonte subiu uma poeira negra em remoinho.
– O que é aquilo, Dinjara? – gritou Jaime.
– É um ciclone que se forma nos desertos quando o Ginare faz essa órbita.
– Vocês têm desertos, também?
– Temos. Agora não são extensos. Aos poucos estão desaparecendo. Já que são improdutivos, nós os cobrimos e construímos casas.
Clareou instantaneamente e o Ginare perdeu-se no céu, tornando-se mais um entre os milhares de astros. Jaime e Dinjara retornaram para a marcha margeando o córrego. Nem bem percorreram quinhentos metros, surgiu uma grande área descampada, sem nenhuma árvore. Apenas o capim na altura do peito, que Jaime arbitrou fosse um campo cultivado para alimentação de animais. Mais na frente, devido uma parte já ter sido colhida e amarrada em fardos, formou-se um círculo, uma clareira de grama rasteira, induzindo a uma verdadeira arena. Apontou um cocuruto que vinha na direção deles. Saiu do capim alto e parou na arena. Dinjara ocultou-se dizendo:
– Abaixe-se, é um deles.
– Não adianta, Dinjara, ele já nos viu e é apenas um. Vou ter de pôr em prática os meus conhecimentos de caratê... que pratiquei quando adolescente.
Dinjara levantou-se concordando com Jaime.
– É, tem razão. É apenas um. Contudo tenho mau pressentimento... porque a sua adolescência já deve ir bem longe – mencionou, gozando-o com desdém.
Jaime não se prontificou a rebater, só olhou para ela e fez um sinal para que “aguardasse”. Afinal, seu argumento vinha temperado com uma generosa pitada de razão.
Jaime deu cinco passos e adentrou na arena. Avaliando bem a musculatura o sujeito não denotava ser muito forte. Porém suas mãos roçam o espaço como duas hélices. Infla o peito como se recebesse uma divindade harmoniosa. As mãos param. Jaime vê seus pés que levitam sobre a grama. Ele o reverencia e pousa mansamente. Seus olhos refulgem.
– "Caso ele adivinhe pensamento eu estou perdido" – pensou Jaime, que traçava um estratagema secreto e infalível. – "Não vou pensar no golpe. Só no último instante eu decido. Não, penso num golpe e alterno para outro, assim o confundo. Ei!... Eu não posso pensar!!"
O sujeito rondava Jaime e aproximava-se a cada passo. Retratava um ninja em seu ritual, preparando-se para um combate mortal. Jaime foi para o centro sustentando a memória em branco. Dinjara veio andando e parou ameaçadora, na orla do círculo, com as mãos cerradas. Jaime fez menção de atacar e evidenciou a destreza do inimigo, que, num salto, arremessou-se em sua direção na intenção de chutar-lhe o rosto. Jaime se agachou a tempo de ver o pé do agressor riscar o vento bem perto de seu nariz. O sujeito caiu de pé, já pronto para novo ataque, mas preferiu exibir-se em acrobacias laterais.
– Tática dois – resmungou Jaime. - Essa ele não sabe qual é.
Jaime pensou em ir ao ataque pela direita e mudou para a esquerda. Seu golpe pegou em cheio no queixo do inimigo, jogando-o ao chão, desacordado. Jaime chamou Dinjara para segui-lo e ela sinalizou que vinham mais alguns deles. Jaime voltou-se e três capacetes abaixavam o capim.
– Três! Será que me saí tão bem assim na peleja?!
Os três chegaram. Curvaram-se. Jaime imitou-os observando seus olhos luzentes. Sorriu, pois empregaria o mesmo recurso. Eles entreolharam-se patéticos, porque não decifraram nada no sorriso enigmático de Jaime. Mal se posicionaram para a luta, ligando as hélices de suas mãos, Jaime esculpiu a imagem de uma batalha mental. Aperfeiçoou o ataque burloso. No seu cérebro, insondável, se desdobrou em mais cinco, que, sob o seu comando, são impulsionados à frente com coragem e autoconfiança. Pela cara que seus oponentes fizeram e pela vontade de fugir de dois deles, Jaime teve certeza que deu certo. Presumiram que seriam derrotados. O terceiro soltou um berro repreensivo para os dois:
- Sosordem sues, metul e meuqif.
Jaime não compreendeu nada, no entanto eles regressaram e resolveram digladiar.
Para auferir vantagem, Jaime principiou um ataque mirabolante a cada um deles com diversos golpes imaginários e mudança rápida de tática improvisada. Os três ficaram perturbados e começaram a se defender. A cada desvio, Jaime desferia um novo golpe individualizado, estrategicamente conjeturado, obrigando-os a uma defesa estabanada em conjunto. Assim, para eles, a contenda era feroz. Cinco contra três. Jaime pensou golpes e mais golpes forjados. Fantásticos saltos no ar, giros e cambalhotas desconcertantes. Seu pensamento transformara-se em arma fatal.
Quando já cambaleavam das pernas e nem sequer procuravam ler mais suas intenções, Jaime resolveu alistar-se, participar arrojado na briga. Lógico que, por segurança, levou os cinco capangas ilusórios de encontro a eles, como não reagiram, deixou de pensar e com três golpes reais colocou-os para dormir. Dinjara bateu palmas e congratulou Jaime por sua performance:
– Bravo, Terráqueo! Você não me decepcionou. Pôs à prova seus treinamentos com êxito. Estou deveras analisando que escolheram um exemplar estupendo do Planeta Terra. Você venceu o inimigo utilizando a melhor arma dele e ainda saiu incólume.
Jaime jogou-se de costas na maciez do capim. Ergueu as mãos para o céu. Num desafogo, inquiriu diretamente a Deus, pois ele ainda não acreditava ser protagonista de tal façanha extravagante:
– Senhor, isto realmente está sucedendo comigo? Não estou delirando? Responda-me... por favor, Senhor?!
Dinjara, sem distinguir ninguém, apavorou-se e correu agachando-se junto a ele.
– Jaime, com quem você está falando? Não vejo nenhum inimigo.
Jaime esfregou as mãos no rosto e abriu os braços para Dinjara esperando receber outro abraço apertado, mas ela não leu seu pensamento escancarado... ou não quis ler. Ele dissimulou chateado:
– Com ninguém, Dinjara. É apenas uma mania de... relaxamento na Terra. Só espero que não tenha mais nenhum deles escondido neste capi...
Quando, de súbito, brotaram do capinzal, os algozes aliados de Lideucan numa correria e algazarra enlouquecida. Parecia que eles sabiam que passariam por ali e armaram uma emboscada. Momentaneamente, Jaime pensou que seriam aniquilados. Mas não, Lideucan necessitava de reféns vivos; sem reféns ele não teria poder de influência para exigir, coagir ou negociar. Jaime levantou-se de imediato empurrando Dinjara para que ela corresse, pois não ousaria confrontar-se com tantos.
– Fuja, Dinjara. Vá em linha reta, depois eu a alcanço. Só vou tentar enrolá-los.
– São muitos, Jaime. É perigoso.
– Vai logo, mulher. Não converse.
– Não, não vou abandoná-lo. Iremos lutar juntos.
– Tá bom, se é o que você pretende!
O batalhão parou indeciso em frente ao círculo. Pois Jaime acabara de conceber a visão de um exército, fantasiado de espantalhos, vindo por detrás deles. Quando viraram para conferir, Jaime fez os espantalhos abaixarem-se no capim. Dinjara tomou uma decisão e murmurou:
– Jaime, conheço um lugar. Siga-me!
Saíram em disparada mais uma vez. Os amigos de Lideucan não supunham que os dois iriam fugir, entreolharam-se interrogativos. Pela maneira como se comportaram não havia um chefe entre eles. Aguardavam uma permissão explícita. Até que alguém verteu um grito esquisito:
– Racata.
Só então precipitaram na perseguição. Dinjara estava disposta. Patenteava sua vontade de vencer correndo na frente de Jaime sem se importar com os galhos que impediam a sua passagem. Jaime não concatenava o que ela planejava, entretanto, o sensato era acompanhá-la.
– Venha por aqui, Jaime – avisou desviando o percurso.
Ela virou para a direita numa picada estreita. Passaram por uns arbustos entortados e iniciaram a subida em um novo morro. Jaime duvidou do plano repentino de Dinjara, só que não podia parar para discutir o roteiro. O morro era recoberto por uma trepadeira e um mato rasteiro, onde uma escadinha úmida os levava, sem muito esforço, para cima. Mesmo assim, Dinjara, na pressa, tropeçou no degrau escorregadio e quase caiu. Jaime a amparou perguntando:
– Para onde estamos indo, Dinjara?
– Para o depósito de água.
– Depósito de água?
– É de onde vem a água do córrego. É a mesma que usamos na cidade, que, depois de tratada, usamos nas plantações. Não é muita... mas espero que seja suficiente para nos livrar deles.
Lá em cima, outro morro com escadaria e, no alto, o paredão da represa. Jaime e Dinjara avistaram os cúmplices de Lideucan, alvoroçados, terminando de subir o primeiro morro.
– Vamos abrir isso, Dinjara? – perguntou Jaime apontando para a barragem.
– E por que não? Hoje eles vão tomar um bom banho.
Dinjara segura numa alavanca, instalada no paredão da eclusa, e puxa gritando para baixo:
- Etnof ad otrep arom meuq apmil augá ebeb ós!
Um jato de água se abre abaixo do dique, que vai ganhando volume pela própria correnteza. Os parceiros de Lideucan se desesperam ao ver a língua d'água descendo do açude. Retornam atabalhoados, gritando:
- Majuf!... majuf!...
A água inunda o morro levando os comparsas de Lideucan numa enxurrada. Alaga o pequeno córrego fazendo-o transbordar pelas margens.
– Gostei de ver, Dinjara. Meus parabéns!
– Não agradeça, vamos correr, porque essa água logo vai acabar, Jaime.
Desceram o morro pelo lado oposto. Atravessaram uma gigantesca caverna onde estalagmites formavam desenhos arquitetônicos desafiadores para a mais moderna engenharia estilista, e estalactites surpreendiam com esculturas suspensas numa estrutura extremamente frágil, de acabamento meticuloso, dosado em gotas de paciência milenar. Perfizeram meia-volta contornando uma montanha repartida ao meio e desembocaram numa imensa área de erva rasteira e espinhosa. Trilharam no sentido paralelo ao pequeno córrego entre enormes árvores, pois somente percorrendo suas águas é que alimentariam a esperança de voltarem ao Palácio.
Pelo tempo que calcorreavam leito acima, numa marcha enfastiosa, Jaime presumiu que haviam escapado de seus malfeitores. Dinjara identificou, num recanto, uma casa velha, de estilo redondo e antiquíssima. O mato apoderara-se de tudo. Suas paredes, repletas de rachaduras, eram revestidas pelas trepadeiras. Do seu telhado nada se via, porque a copa da árvore vizinha fundira-se a ele.
– Nossa! É a casa daquele cientista, Jaime... o Wirdan. Após a sua morte ninguém mais veio aqui. Vamos averiguar o que tem lá dentro. Talvez encontremos alguma coisa que possa nos ajudar.
Jaime aderiu à sugestão. Escoltou atento os passos de Dinjara, que empurrou a porta empenada. Uma corrente, presa a um ferrolho quebrado, raspou no assoalho fazendo um barulho estrondoso. Um animalzinho, que tirava seu cochilo, desprendeu um ganido, dando o maior susto nos dois. O bicho pulou adoidado até escapulir por uma greta da parede esburacada e sumiu na floresta.
Entraram na casa sinistra, pé ante pé. Dinjara, com receio de haver outro animal no recinto, valeu-se de um vasilhame sobre uma mesa, e o jogou no chão provocando um barulhão medonho. Depois do eco, a quietude total.
– Não tem mais bicho algum aqui, Jaime. A não ser que tenha o sono bem pesado.
– Ou então que seja bem surdo – zombou Jaime.
Na pequena sala, só uma mesa apodrecida e um esqueleto de cadeira, sem assento nem espaldar. Num canto, amontoados, muitos vidros vazios ao lado de pipetas quebradas.
– Aqui não tem nada que preste, Dinjara. Só esses bagulhos... uns cacarecos que não servem...
Alguém gritou de fora:
– Ei, vocês!... estão cercados... saiam daí de dentro. Agora!
Dinjara correu para a porta, espiou e a fechou cochichando:
– São muitos deles.
– Caramba! Não desistem nunca! E nos descobrem facilmente! – estranhou Jaime.
– Deve existir outra saída. Vamos fugir por trás, Jaime.
Passaram correndo por um corredor e mais outro cômodo. Pelo reflexo da luminosidade que vinha de fora, Jaime avistou uma porta.
– Tem uma saída aqui, Dinjara.
– Então vamos embora.
Abriram a porta e só deram dois passos. O mulambo ambulante do Jermaso e mais um contingente de guerrilheiros, os aguardavam de braços cruzados. Jermaso posicionou-se na vanguarda do bando. Com voz autoritária e correndo os olhos entre Jaime e Dinjara, decretou:
- Lideucan ordenou-me para levá-los de volta... sãos e salvos... se possível. Espero não ter mais entraves do que já tivemos.
Jaime ficou na expectativa de alguma reação de Dinjara, porém, ela, inexplicavelmente, permaneceu estática. Transpirava tanto que os pingos caíam em goteiras pelo seu queixo. Encurralado, Jaime não arquitetou mais nada. Eram muitos. Comparou a desvantagem e resolveu guardar as forças. Sepultou suas esperanças. Renderam-se e foram enlaçados, hipnoticamente, sem resistência.
Embora sem nenhuma perspectiva favorável, Jaime concluiu que tomara a decisão correta, pois surgiram vários carros, intercalados, escondidos nas folhagens, dentro da mata. Foram levados para o acampamento e colocados no mesmo lugar; pior ainda para Jaime, pois o amarraram, fisicamente, a uma árvore. Lideucan nem saiu da cabana. Continuou conversando com seus companheiros. Não manifestou estar preocupado, agiu como se eles nem tivessem tentado a fuga. Jaime sentiu-se culpado pelo empreendimento frustrado e se desculpou com Dinjara:
– Você tinha razão, Dinjara. Eu não devia tê-la estimulado a fugir. Desculpe pelo meu destemperamento.
– Não se culpe, Jaime; quem falhou fui eu – confidenciou Dinjara conformada, absolvendo Jaime de qualquer conduta imprudente. – Deparo com uma emergência e descubro a minha debilidade física.
– Dinjara, com que armas esse pessoal vai atacar?... Não vejo nenhum arsenal... petrechos de guerra capazes de...
– Suas armas são minúsculas, Jaime... carregam num pequeno compartimento do carro e não...
Dinjara vestiu a mesma fisionomia destruidora quando Lideucan e seus correligionários saíram da cabana. Levantou-se e deu uns dez passos na direção oposta, pateando e dando socos no ar. Lideucan determinou incisivo para um de seus comandados:
– Prepare o transporte. Previna o pessoal. Iremos direto para a base das naves interplanetárias. Promoveremos a rebelião – e inquiriu para Jaime: – Terráqueo, será que intenciona me contrariar e tentar nova fuga?
Jaime não retorquiu. Apenas deu de ombros. Lideucan desamarrou-o da árvore e o tocou de novo na altura do pescoço, imobilizando-o, hipnoticamente, da cintura para cima. Lideucan avizinhou-se de Dinjara e ironicamente propalou:
– Como vê, ninguém é perfeito. Até o Comandante do seu fajuto "Sistema Comunitário" comete errinhos. Ainda bem, senão eu estaria até agora naquele Planeta prisão, mofando às mínguas.
Dinjara, de costas, desabafou irritadiça:
– Você deve ter maltratado mais um pobre coitado para...
– Não, não Belezoca – cortou Lideucan –, desta vez foi um serviço honesto e sem truques. Seu Comandante, burramente, condenou um cientista que trabalhou no projeto da "atração intramolecular". Lembra de Samjir Soebo, o maníaco...
– O que ele tem a ver com isso? – interpelou Dinjara temendo a resposta.
– Pois é... tudo. Foi ele que nos ajudou. Só fizemos uma pequena concordata maquiavélica – soltou uma gargalhada jactanciosa e atestou. – Ele ainda fez várias armas, de última geração... como cortesia. Tudo por amor à ciência.
Dinjara, sem se virar, porém com a entonação nervosa, contrapôs revoltada:
– Imagino o que você deve ter feito para extrair isso dele, seu velhaco.
Lideucan aparentava, visivelmente, muita calma e bastante fingimento. Justificou-se mansamente:
– Não lance injúrias caluniosas ao vento, Belezoca... não fiz nada. O nosso pacto foi legítimo. A obsessão dele era ser Rei. Eu apenas realizei sua aspiração. Hoje ele é o Rei de Iur Senbur. Com direito a Palácio, Pirâmide e honrarias. Eu mesmo mandei edificar. Enquanto ele idealizava a nossa máquina e nossas armas, nós construímos seu Palácio. Vi quando ele sentou no trono. Delirava exuberante. Tinha o porte ostentoso de um autêntico Rei... um Rei louco, mas era um exímio Rei reacionário, impávido. Precisava ver a pompa e a pose esguia dele, na cerimônia de entrega da Pirâmide – Lideucan deu mais outra gargalhada intolerante. – Empertigava sublime naquele traje todo branco, com a capa negra esvoaçante. Eu o apresentei ao povo e fiz todos se curvarem aos seus pés. Ele discursou prometendo que recrutaria um exército invencível, que o rotularia de: falange do mal.
Dinjara abandonou sua posição de contestação e, como se conhecesse bem esse cientista, falou com voz piedosa:
– Injustiçado Samjir!... Então era loucura. - Dinjara saiu atônita e, consternada, divagava sozinha. – Um lapso calamitoso do Sistema Comunitário. Inconcebível. Condenaram o inocente paranoico. Um insano que se declarou culpado. Infelizmente não tem mais retrocesso – influiu apiedando-se enquanto escapavam-lhe alguns soluços afogados.
– Com licença, Belezoca – disse Lideucan –, vou pegar o meu sensor.
Enquanto Dinjara viajava em seus pensamentos impermeáveis, Lideucan arrancava por debaixo da gola da blusa dela uma pequena cabeça de alfinete. Agora Jaime soube como eram localizados tão facilmente: durante toda a fuga foram rastreados a distância. Lideucan tocou em Dinjara paralisando-a. Jaime não notou nenhuma diferença, já que ela permanecia inerte, contemplativa, num vazio abarrotado de barreiras sensoriais. Ao virar-se, Lideucan pisa em falso num ramo seco e suja suas botas de poeira. Jermaso vem correndo prestativo e, como um capacho, se agacha subserviente, limpando-as delicadamente. Lideucan fiscaliza o lustro e após nova inspeção, aprova. Empolgado, clama para seus seguidores:
– Companheiros! Marquem bem este momento memorável. Porque vamos partir para a liberdade! Seremos donos de nossas vontades. Livres de toda opressão.
Numa aclamação geral, os carros dos amotinados vieram como um revoar de besouros e se puseram em fila dupla. Jaime contou, em uma rápida sondagem, por alto, uns duzentos carros, com três a quatro revolucionários. Num breve comparativo, proporcional àquela multidão que lotara a Praça do Palácio, deduziu que este pequeno motim de anarquistas nômades era inexpressivo, alimentado por uma minoria temerária de insatisfeitos.
– Precisamos separar esses dois – antecipou Lideucan. – Saluc, leve Dinjara... o Terráqueo vem comigo.
Colocaram Jaime no carro de Lideucan. O cinto de segurança automático grudou-o ao assento. Lideucan se postou na vanguarda. Atrás se enfileiraram os outros carros aguardando suas ordens.
– Avante, companheiros! É chegada a ocasião da virada. Viva a liberdade! – bradou Lideucan.
Os carros saíram desabalados; desenvolviam uma velocidade muito superior ao carro de Peifil.
– "Dinjara tem razão, estão mesmo adulterados" – pensou Jaime com seus movimentos delimitados que já lhe originavam um torcicolo incomodante.
O silêncio cortado pelo zumbir do comboio fez o coração de Jaime descompassar. Veio um sentimento ruim. Uma sensação de impotência por estar sendo derrotado, sem, ao menos, ter o direito de se defender. Recordou a Terra, o serviço, a esposa...
– “Ela deve estar atordoada com o nosso atraso. E como reagirá ao saber do não regresso de Rodrigo? Como será angustiante a vida doravante...”
Sua meditação evaporou-se num sobressalto. Lideucan, num grito atroz, que até o último da fila deve ter ouvido, esganiçou:
– Companheiros! Meia-volta, vêm vindo intrusos.
Jaime bateu seus olhos aguçados no horizonte e não viu nada, entretanto no painel do carro disparou um alarme. Todos os carros, numa reação simultânea, como se tivessem ensaiado aquilo milhares de vezes, pararam e, numa só guinada, arremeteram-se num deslocamento sincrônico. Jaime viu Dinjara no carro de Saluc, ela mantinha um aspecto sereno no rosto. Jaime avaliou, embora não tivesse visto ninguém, que era o pai dela agindo.
Mal o batalhão acelerara para o retorno e outra vez o alarme dispara nos painéis. Lideucan berra novamente:
– Para a esquerda e espalhem-se.
Formou-se um revoar de carros abrindo-se em todas as direções e Lideucan desceu tão rápido que Jaime pensou que cairiam sem paraquedas. Lideucan liga um botão e esbraveja de novo, histérico:
– Saluc, traga Dinjara aqui.
Logo o carro de Saluc emparelhou com o de Lideucan que, possesso, com um brilho intenso nos olhos esgazeados, perguntou para Dinjara:
– Você está com algum sensor, sua traidora?
Dinjara, intrépida e fulgurante, fitou Lideucan e respondeu com insolência e audácia:
– Não, não estou. Você é que é um azarado, seu neurótico!
Lideucan se vira para Jaime com os olhos reluzindo faíscas e o acusa:
– Então é você, Terráqueo... que está com o sensor.
Sem saber do que se tratava, Jaime, apreensivo, protesta:
– Acho melhor você dirigir essa geringonça, seu maluco, está descendo veloz demais.
Os olhos de Lideucan apagaram-se repentinamente e furioso escarneceu desaforado:
– O Terráqueo está com medinho de cair?! – Lideucan tocou em Jaime libertando-o e abriu o cinto de segurança invisível. – Pula, vai – incitou Lideucan. – É mais seguro lá embaixo – e desferiu uma gargalhada fingida.
Dinjara, que os observava, advertiu enfurecida:
– Lideucan, se acontecer algum acidente com ele papai vai lhe matar.
– Nossa! Quanta dramaticidade!... Estou, deveras, me borrando de medo!! – ridicularizou Lideucan, que não deu conversa para Dinjara e deixou Jaime solto no carro.
Lideucan, após analisar com muita atenção as luzes que piscavam no painel, estancou sério e murmurou, irrequieto, para si:
– Maldição, eles estão chegando pelas montanhas também!
Pegou um fio com uma ponta metálica e encostou-o na testa. Jaime presumiu que ele devia estar enviando alguma mensagem, em conexão mental, para não ser captada pelos sensores dos carros do Rei. Logo todos os guerrilheiros formaram uma barricada voadora ao seu redor. Neste instante, desencadeia uma saraivada de raios cortando o céu que passam raspando as cabeças de todos. Jaime sente que Dinjara deseja lhe repassar algo. Pela mímica, era primordial que fizesse alguma coisa. Contudo, nessa celeuma toda, tornava-se difícil decifrar a mensagem codificada. Sua única preocupação, agora, era não despencar lá de cima.
Lideucan pega outra vez aquele fio e imprensa na sobrancelha. Os veículos se subdividem em pelotões de vinte a trinta cada, e saem a toda velocidade, contra-atacando os carros do Rei. O céu, em ribombos, reveste-se num vasto campo de batalha. Alguns carros são atingidos e explodem numa espessa nuvem negra de fumaça e cinzas. Estilhaços voam em piruetas pelo espaço. Outros veículos saem de dentro da nuvem disparando às cegas e em guinadas incríveis somem pelo céu. Sob as ordens de Lideucan todos avançam em novo contra-ataque. O próprio Lideucan retrocede e, por outro aparelho, designa autoritário:
- Saluc, Jermaso, sigam-me.
Mal Lideucan terminara de recolher o aparelho e os dois já se posicionavam paralelos a ele. Lideucan gira a carro para a esquerda e diz:
– Na cidade de Bisam Joreso eles não irão atirar a esmo e ainda poderemos abrir a proteção para os companheiros que estão de fora entrarem.
Mesmo estando em apuros ele não dispensa seu ar de superioridade e desata em sua gargalhada favorita.
– Companheiros de fora? – Intrometeu-se Jaime apenas para aporrinhá-lo. – Vocês estão pensando em tomar o Planeta Claus de verdade?
– Claro, Terráqueo. Quando você chegou, nós já estávamos aqui em uma nave local. Temos alguma tecnologia escondida desse Sistema Comunitário ditador. Por exemplo: ficarmos diá... – Lideucan, temeroso, para de se vangloriar.
– O que é isso? – indaga Jaime astutamente.
– É nosso segredo, que quase deixo escapulir – Lideucan esculpe mais uma gargalhada chocha e prossegue. – O plano lartnec fracassou, porque os que restaram em Iur Senbur não conseguiram prender a sua espaçonave. Acionamos o plano laicnegreme. Assim que vocês chegaram, a proteção de ondas do Planeta foi desligada. Aproveitamo-nos disso e descemos... com o nosso sigilo. Saímos do rastreamento e liberamos o protetor de quedas. Em seguida foi só furtar uns carros, providenciar algumas mudanças e estamos aqui lutando por nossa liberdade.
– Você fala em liberdade, Lideucan, mas está preso a um passado de erros e transgressões às leis de seu Planeta – atreveu-se Jaime a acusá-lo apoquentado.
– Desobedeço, Terráqueo, porque não simpatizo com elas. Não nasci pra ser um reles proletário submisso, adestrado à servidão... agora não importa. Fugiremos para seu Planeta e viveremos folgados... desfrutando a vida com mulheres de verdade.
Lideucan apregoava com tanto destemor e convicção de que seu ardil, presunçoso e nefasto, daria certo, que causava medo em Jaime. Pois nem mesmo seu tique nervoso ousou se manifestar nesse desafogo premente. Ao longe Jaime avistou as proteções da cidade de Bisam Joreso.
– “Rodrigo está lá” – pensou com o coração em disparada.
Mais uma vez Jaime investiga Dinjara ansiosa, querendo transmitir-lhe alguma coisa. Porém era impossível conceituar seu intento naquele correr de olhos espavoridos. Jaime pensou que ela abriria o pensamento para ele ler. Talvez, naquele Planeta biruta, isso também fosse possível. Jaime fitou-a, coagulado, num esforço sobre-humano para ultrapassar suas pupilas. Dinjara não entendeu e removeu seus olhos, envergonhada, cerrando-os. De imediato voltou a abri-los com uma feição tão sedutora que Jaime ainda não havia reparado nela. Agora foi ele que, encabulado, ruborizou até a alma.
– "Será que no meio de toda essa confusão ela está pensando em um namorico inoportuno?!"
Num relance, Jaime ateve-se à bolinha de gude.
– "Caramba! Deve ser isso! E eu imaginando besteira!"
Jaime sondou Lideucan. Ele estava novamente com aquele fio colado na testa. Aproveitou a distração e retirou a bolinha do bolso. Disfarçou ajeitando-se no banco e tentou mostrá-la para Dinjara. Mas, subitamente, Lideucan desce com o carro num lugar horripilante e de mau agouro. Era um castelo em ruínas que, pelo estado de conservação, aparentava estar abandonado há séculos. Seus dois parceiros se recusaram a entrar. Até Jermaso murchou as orelhas, perdeu seu ar garboso de bajulador.
– Leia a placa Lideucan... é proibido ingressar. Você disse que íamos direto para Bisam Joreso. Você arrisca a vi...
– Eu disse que sim – cortou Lideucan –, seu pelego idiota e amador, justamente para que aqueles patetas pensassem isso... nós não. Vamos, automatizem os carros, não precisaremos mais deles.
Os três veículos subiram em linha reta e desapareceram para a esquerda.
– Isso não é lugar de se abrigar, Lideucan! – reforçou Saluc precavido.
– Vocês são uns subversivos medrosos e supersticiosos... isso é lenda fabricada para aterrorizar criancinhas desobedientes... seus frangotes palermas – esculhambou Lideucan.
– Você está confundindo coragem com imprudência – afrontou Saluc e acrescentou. – Quem desacatou a ordem e entrou, não saiu vivo para contar.
– Eu sou imune a qualquer feitiçaria – replicou Lideucan inexorável. – Vamos para dentro, seus maricas, antes que algum espião puxa-saco do Rei nos veja. Alguma objeção?
Ninguém mais ousou contradizer o prepotente. Lideucan arrasta Dinjara pelo braço. Saluc acompanhou-o meio receoso. Jermaso, perante a autoridade de Lideucan, foi para o lado de Jaime sacudindo a cabeça negativamente, proferindo desconsolado:
– Terráqueo, o chefe está tomado pela teimosia.
Lideucan chuta a porta do castelo com a sola da bota, abrindo-a violentamente até o final. Todos ficam parados, esperando algum acontecimento macabro. Adentram lentamente, sisudos, acautelados com tudo. Jermaso fechou a porta sem emitir barulho algum. Por um bom tempo todos espreitaram o silêncio solitário.
Pelo jeito como foi conduzido para dentro, Jaime reparou que Jermaso pensava que ele ainda continuava paralisado; prudentemente manteve-se na mesma posição em que fora colocado. Jaime persistia com a bolinha escondida na mão. Dinjara fora despejada do outro lado da sala. Não havia meio de se comunicarem e ele não sabia o que fazer com aquilo.
O local era um salão velho e sujo, com teias de aranhas milenares, que cruzavam linhas uniformes, tecendo rendas delicadas entre um lustre e diversos candelabros afixados na parede lateral. Muitos móveis rústicos, uma estante com livros grossos empilhados, cadeiras, mesas e um emaranhado de caixotes empoeirados, desordenados pelo chão. A poeira flutuava pelas frestas de uma janela, por onde a pouca claridade penetrava em feixes. Uma escada, em caracol, levava ao andar superior. As grossas teias de aranha só permitiam ver até ao meio dela. Eles bisbilhotavam em todas as direções. Farejavam. Tentavam escutar alguma coisa imprevista vindo de algum aposento. Embora Saluc fosse o mais assombrado, com seus enormes olhos arregalados, Jermaso foi o primeiro a expor sua opinião com ar tranquilizador:
– Não estou sentindo nada!
– E você queria sentir o quê?... Seu imbecil... – gozou Lideucan com mais uma de suas gargalhadas típicas.
Saluc, ainda absorto, com o medo latente, reclama aborrecido:
– Não avacalhe, Lideucan. Papai ouviu as histórias que sucederam aqui. Contavam que os achegados da família morreram todos infectados pela mesma doença. Não escapou ninguém. Como não foi descoberta a cura, o Castelo dos Socitédia foi lacrado pelo Sistema Comunitário, ninguém entrava nem saía. Foi o primeiro ato que o Sistema Comunitário proclamou em defesa da comunidade.
– Sistema Comunitário... maldito Sistema Comunitário! Quer bedelhar em tudo – gritou Lideucan com toda a sua raiva e deflagrou. – Temos que pensar em um modo de desativarmos a proteção de ondas e enviarmos o sinal para os nossos companheiros.
– Precisamos encontrar uma brecha na vigilância e atacar sem piedade – sugeriu Jermaso.
– A essa altura não há um ponto vulnerável, o Rei já está com toda a cúpula da segurança de Bisam Joreso em seu Palácio e com todos os controles ao alcance das mãos. O Palácio está inviolável... inatingível... inatacável... Nestas circunstâncias temos que... - Lideucan parou a explanação. Raciocinou sozinho. Agitando os braços para impedir mais um tique nervoso, completou desvendando a saída: – A não ser... um disfarce fantástico, que vai exigir muita pertinácia e criatividade. Uma conduta inesperada que os bocós cagarolas nem cismam. Cavucaremos, individualmente, por baixo, e não coletivamente, por cima, onde eles mais temem e fiscalizam.
Lideucan aproximou-se de Dinjara. Tocou-lhe no ombro e a libertou vulgarizando:
– Tire a roupa, Belezoca. Toda.
Dinjara fez um gesto retraído de repúdio para proteger suas vestes daquele escândalo impensado.
– Menina pudorosa!... Ninguém vai olhar... e você irá receber os farrapos de Jermaso – falou Lideucan dando outra gargalhada.
– Minhas vestiduras? – perscrutou Jermaso ressabiado. – Malucou, Lideucan?
– Às vezes é necessário que manejemos algumas rédeas alheias, Jermaso. Você tem o mesmo tamanho dela e, além disso, é a única maneira de sairmos daqui... transpormos a segurança do Palácio e aprisionarmos o Rei. Exigiremos que abram a proteção. Os nossos companheiros se assenhorearão do poder e nós saímos de fininho para o Planeta Terra – alegou Lideucan num fulgor de palavras vigorosas, sem sequer expedir um leve tique nervoso.
Dinjara encheu-se de coragem e refutou também:
– Arranje outro artifício, Lideucan, sem me envolver nele. Não vou participar dessa tramoia contra o Sistema Comunitário. Prefiro morrer.
Jermaso e Saluc se entreolharam estranhando a petulância de Dinjara. Jaime temeu pela sorte de sua amiga, pois não conhecia o temperamento de Lideucan quando desafiado abertamente.
– Não me force a fazer o que não desejo, Belezoca. Tire essa roupa sem frescura. Antes que eu mude de ideia – gritou nervoso.
Lideucan, para não perder a sua reputação de mau, acercou-se de Dinjara e ameaçou-a, sadicamente:
– Se você não quiser tirar... sozinha... eu terei imenso prazer em auxiliá-la nessa tarefa tão delicio...
Dinjara nem esperou Lideucan terminar a frase. Afastou-se para um canto e começou a se despir. Jermaso, constrangido, também obedeceu. Foram trocando as peças. Saluc, boquiaberto, mantinha uma vigília silenciosa, com os olhos cobiçosos e atrevidos.
A boa educação obrigou Jaime a desviar o rosto para a parede, mas a curiosidade o instigou a olhar. Cônscio e recatado, absteve-se; virou-se para a parede, porém deu de cara com um quadro que, pelo ângulo que se encontrava, refletia a imagem nítida de Dinjara. Jaime, respeitoso, baixou os olhos, mas não resistiu, a boa educação o liberou para saciar a curiosidade. Quando Jaime suplantou a indecisão e encarou o quadro, divisou Dinjara já despida, sem a parte de baixo. Jaime não compreendeu o porquê de tanto acanhamento antecipado pela seminudez. Pois uma enormidade de pelos longos, espalhados por todo o corpo, formavam uma cortina espessa, encobrindo completamente o sexo sob aquela cabelama.
– “Deve ser algum efeito colateral... devido aos longos milênios que eles vivem” – inferiu Jaime. – “Será quantos anos ela tem?... Nossa! Aqui deve ser sacrilégio perguntar a idade a uma mulher!”
Quando Dinjara retirou a parte superior, foi que Jaime concluiu o motivo de tanta retração: ela tinha seios. “Pequenos atributos” para Jaime, mas deveriam ser “monumentais” para aqueles olhos estatelados de Saluc, que se petrificou filmando a cena em sua mente, para não esquecê-la nunca mais em toda a sua longa vida. Jermaso, que era alvo de humilhação e chacota, não se conteve. Exclamou despudorado e recompensado:
– Que ótima ideia, Lideucan!... Estratégia... empolgante...!
Terminaram a substituição das vestimentas. Até os sapatos, que para Jaime eram idênticos, foram trocados. Lideucan sacou do bolso um tubo com uns botões coloridos, averiguou se estava tudo em ordem e guardou-o. Abeirou-se de Saluc e passou-lhe alguma ordem. Depois suspirou e enunciou:
– Agora você tira sentinela, Saluc. Eu e Jermaso nos dirigiremos para o Palácio. Caso nosso plano fracasse, você entrará em ação.
Saluc franziu a testa plissada e, abobado, indagou:
– Como assim, Lideucan?
– Seu... cabeça-dura – insultou, impaciente Lideucan –, eu projeto minhas decisões com dois planos esquematizados. Supondo que eu seja preso, o que não é provável, você vai ser avisado.
– Vou?!
– Vai. Porque o Rei saberá que você está de posse do Terráqueo e de Dinjara como reféns. Se eu não contactar com você em uma hora, os dois serão mortos. O Rei não vai consentir que isso aconteça, é claro.
– Claro que não – secundou Saluc.
– Então você os neutraliza e vai para o Palácio. De lá fugimos para a Terra. Assim nós teremos duas chances.
– Ah, bem. Agora entendi. Mas... e eu? Quando vocês se apoderarem do Rei, o que faço? Vou para o Palácio a pé?
Lideucan desentoou nervoso:
– Saluc, apague o que eu disse. Não faça mais nada.
– O que você disse?
Lideucan fez de conta que não ouviu e recapitulou a seu bel-prazer.
– Quando nós estivermos de posse do Rei Ojes, eu ordenarei que abram a proteção. O Planeta Claus será invadido e dominado pelos nossos guerrilheiros aliados. Todavia, nada disso me interessa. Nós passamos aqui e pegamos vocês... partiremos direto para o Sistema do Terráqueo e fim.
– Ah, bom!... Pode se ausentar... que eu me garanto – reafirmou Saluc sorridente.
Lideucan lançou para Dinjara um olhar misturado de carinho e ódio:
– Espere por mim... Rainha. - Saiu com Jermaso pelo braço, soltando de novo sua gargalhada peculiar.
A artimanha engenhosa de Lideucan era perfeita. Jaime temia cada vez mais pelo seu destino:
– “Agora estou mesmo encrencado...”
– Você!... - Convocou Saluc apontando para Jaime, afugentando seus pensamentos. – Fique naquele canto com Dinjara. Os dois juntos eu vejo mais fácil. E não tentem nada!
Jaime levantou-se e caminhou para perto de Dinjara concentrado em Saluc. Aproveitou quando ele, por um buraco da janela, atentava Lideucan e Jermaso partirem e mostrou a bolinha para Dinjara. Num gesto rápido ela sinalizou para ele guardá-la novamente no bolso. Saluc conversava consigo mesmo:
– Aqueles dois... vão a pé fingindo ser um casal... um casal de babacas – voltou-se para dentro. – Bem, o jeito é esperar o tempo passar.
Isso fez Jaime lembrar-se do relógio.
– "Que horas são?" - Teve receio de conferir no cronômetro. – "Não pode ser!" - O relógio agora marcava treze horas e continuava andando para trás. – "Meu Deus! O tempo está caduco!... Mas suponho que seja só aqui... na Terra deve ser noite alta! Todos já sentiram a nossa demora, devem estar desesperados telefonando para o colégio de Rodrigo, para o meu trabalho, para os conhecidos. Procurando pelos hospitais, delegacias... necrotérios. Não adianta, não posso fazer nada. Estou bem distante dos problemas terrenos.”

VI - O SEQUESTRO DO REI


Jaime sentou-se perto de Dinjara. Ela achegou-se mais ainda a ele e repousou a cabeça no seu ombro e apoiou a mão em seu peito. Saluc, desmazelado, pegou um livro na estante do castelo e abriu. O livro, de tão velho, desfolhou-se ao chão. Saluc notou, de soslaio, o relacionamento dos dois, no entanto permaneceu em silêncio. Dinjara discorreu em tom confidencial, porém informativo para Jaime.
– Sabe, Jaime Brosso, o tataravô de Saluc, Dom Seletótsira, foi uma personalidade famosa aqui em Claus. Na verdade, Saluc é do Planeta Acimoré, que tem a maior população, em relação ao seu tamanho, porque é o menor de todos.
– O que foi o tataravô dele? – cogitou Jaime para dar corda ao assunto, pois pressupôs que Dinjara tencionava assediar, moralmente, Saluc.
– Um pensador e célebre filósofo – enfatizou Dinjara. – Ele viveu às portas da grande revolução. E já dizia: não queira ser melhor do que ninguém, assim não sentirá diferença no dia em que formos todos iguais. Pois naquela época o Planeta mais evoluído, à custa dos mais fracos, era Sodinu Sogima. Um Planeta riquíssimo, o maior fabricante de armas de ataque, que influenciava na economia, na tecnologia e até em tomadas de decisões internas dos demais Planetas.
– Ninguém reagia? Aceitavam passivamente esse domínio tirano? – indagou Jaime para Dinjara correndo os olhos na direção de Saluc.
– Numa sociedade assim... acaba prevalecendo a lei do mais forte – respondeu Dinjara observando que Saluc acomodava-se em dois caixotes para apreciar o comentário. Ela, despretensiosa, apregoou: – Bem, Jaime, uma pequena parte dos lucros os governantes de Sodinu Sogima doavam em forma de vestuários e alimentos para os Planetas mais pobres. Muitos se vendiam por ninharia. O Planeta Sodinu Sogima descendia de uma comunidade beligerante. Malevolente, insuflava conflito entre os Planetas. Assim, vendia, livremente, armas e munições, tanto para um lado como para o outro. Enviava suas tropas para a guerra, propagando-se: o defensor dos mais fracos.
Saluc balançava a cabeça corroborando com a crítica de Dinjara.
– Muitos de seus guerreiros foram mortos por armas oriundas de seu próprio Planeta. O poder econômico gerenciava o destino das pessoas. Os líderes do Planeta Sodinu Sogima sacrificavam o seu povo para continuarem soberanos. Uma vez, dispararam um raio, sem testarem a potência e destruíram quase a metade do Planeta Aiaboc. Muitas criaturas morreram. Disseram que foi para gerar a paz.
Jaime, indignado, interpelou para Saluc:
– Qual morte se justifica pela paz... a não ser a do ditador?
Entrementes, Saluc, irrefletido, não lhe deu ouvidos. Dinjara revelou astuciosa:
– Pois é, Jaime. Foi nessa época que um dos episódios narrados pelo tataravô de Saluc consagrou-se numa fábula divulgada em todos os Planetas. Intitulada: O criador de nigalhas, que narrava...
– Criador do quê? – interrompeu Jaime por não ter entendido o nome.
– Ah!... desculpe, Terráqueo – falou Dinjara, visivelmente caçoando dele. – Nigalhas é uma espécie de ave que nós criamos para comer. Elas botam ovos, que chocamos para termos mais nigalhas.
– Lá nós temos... galinhas de granja – explicou Jaime em tom de galhofa, mas Dinjara não lhe deu trela.
– Pois bem, contava ele que um criador de nigalhas, muito zeloso, selecionou dezenove ovos e colocou para uma formosa nigalha chocá-los. Quando os nigalhinhos nasceram, todos ensaiaram o seu canto natural, que é um: triu... triu... triu. Quase todos, exceto um que ensaiou um canto saliente e dissonante. O criador quis saber qual era o mistério que desvirtuava o nigalhinho dos demais. Por ser pouco instruído, ele levou o nigalhinho, de canto espevitado, para um renomado sábio analisar. O sábio estudou o nigalhinho do bico ao rabo e, no primeiro som que ouviu, desatou a rir e decompôs para o criador: "Meu compatriota, o seu nigalhinho é primoroso. Ele apenas está cantando na língua do Planeta Sodinu Sogima". O criador tirou o chapéu, abraçou-se ao sábio e desabafou: "Bem que me preveniram que esse Planeta tem influência em tudo!"
Saluc ouvia a estória de Dinjara com um sorriso prazeroso nos lábios. Feliz da vida extravasou:
– Sou obrigado a lhe agradecer Dinjara, por enaltecer o meu tataravô – predispôs Saluc numa constante inquietação escrupulosa. – Ele sempre dizia: quando a chuva estiver caindo... não se esqueçam dos dias ensolarados. São argumentos assim que me convencem de que ele não morreu em vão. Foi condenado à execução... como um bandido... numa guilhotina enferrujada. Suas últimas palavras foram: Quando se dá poder a um louco... o mundo inteiro corre perigo. Posteriormente transformaram-no num herói. Hoje é idolatrado como filósofo. Ele pregava que: é mais gratificante dar uma informação a quem está perdido, do que encontrar o próprio caminho. Eu vibrei quando o Planeta Sodinu Sogima foi invadido por todos os seus adversários e, impiedosamente, exterminado. Bem feito!
Dinjara afastou-se do ombro de Jaime e lançou-lhe um olhar de cumplicidade. Notou que eles poderiam persuadir Saluc a libertá-los.
– Saluc, eu sei que você não é má pessoa – conspirou ela. – Quem lhe estraga são as suas companhias. Você não acha que este é um ótimo ensejo para resgatar seus princípios, seguir suas convicções, em vez de permitir que outros o conduzam?
Jaime sentiu que Saluc hesitou e quase aquiesceu com Dinjara, que agora apelava para o seu lado sentimental:
– Você não pode ser um fantoche nas mãos de Lideucan. Seu tataravô reprovaria sua atitude, pois ele sempre disseminava... Dê o amor que nunca recebeu. Faça o bem que nunca lhe fizeram. Estenda a mão, humildemente, para o seu inimigo, e perceberá o que é ser superior.
Jaime reforçou, opinando mansamente, como um bom conselheiro imparcial:
– Dinjara tem razão, Saluc. O homem deve fazer o que dita a sua consciência. Só assim ele desfruta da verdadeira paz e desvenda a razão de viver.
Mas Saluc, num rompante de fúria, levantou-se obcecado:
– Não queiram me corromper. Não venham me propor cumplicidade. Não sou um traidor. Lideucan me deu ordens para vigiá-los, porém... posso matá-los também. Eu não necessito de trunfos. O que vocês pretendem é fomentar a inimizade – retirou do bolso um tubo com botões coloridos igual ao de Lideucan e ameaçou. – Não me obriguem a usar isso.
– Está bem, Saluc – relaxou temerosa Dinjara. – Vou descansar – e, descompromissada, recostou-se mais no ombro de Jaime.
Jaime não sabia se Dinjara tinha algum propósito em mente ou se permaneceria entuchada em seu colo, sem se importar com o dilema em que se envolveram. Porque se Lideucan concretizasse o seu plano, não só o Rei e o Sistema Comunitário estariam em perigo, mas também o Planeta Terra. No entanto, em seguida, Dinjara falou como se Saluc não estivesse mais ali:
– Jaime, quando nós sintonizamos as transmissões do Planeta Terra, eu ouvi alguém declamando uma poesia. O título era... Enigma. Eu não traduzia muito bem a sua língua. Depois decorei porque achei... bonita.
Com os olhos impregnados de ternura e sedução, Dinjara declamou:
Os sonhos... eu escrevo em versos,
Mas a realidade... não consigo.
Pois nos sonhos... estás bem perto,
Na realidade... não estás comigo.
No sonho... te tenho ao meu lado
E num encanto... me abraças sorrindo.
Quando sonho... quero estar acordado,
Quando acordo... quero estar dormindo.

O meu desejo ardente é nunca deixar,
De toda noite sonhar e te ver.
Pois, morrer, para mim, é acordar.
Dormir... para mim... é viver.

Dinjara terminou com atitude de quem não compreendia tudo o que recitara e perguntou curiosa:
– Jaime, como você descreveria um sonho?
– Como assim?
– Eu gostaria que você me contasse. Porque nós só dormimos.
– Vocês não sonham?
– Não.
– Bem, sonhar... é viver uma situação irreal. Alguns suspeitam que sejam reflexões de vidas passadas, outros presságios do futuro. Mas eu considero que é apenas o subconsciente funcionando livre de censura... e aí ele aproveita.. exagera na dose - gracejou Jaime.
– Conta um sonho que você já teve.
Mal sabia ela que, para Jaime, até agora tudo o que enfrentara não passava de um sonho daqueles bem excêntricos.
– Bom, Dinjara... nos sonhos vamos a lugares fantasiosos... nos vemos mais jovens ou mais velhos... Quando o sonho vira pesadelo é um sufoco, alguns gritam, outros falam... Ah, lembrei de um...
– Conta... vai! – pediu Dinjara com ansiedade.
– Uma noite, sonhei que eu vinha da praia. O sol brilhava forte. Havia uma rampa íngreme em minha frente. No meu pensamento martelava uma frase: "Você almejando... consegue tudo". Então pensei: "Vou subir aquela rampa correndo e quando chegar no topo... eu vou voar". Comecei a correr. A cada passo, a certeza se firmava. Do topo me lancei de braços abertos para o voo e... voei... voei tal qual passarinho planando no ar. Sem explicação o dia tornou-se noite. A cidade se iluminou. As luzes lhe davam um colorido forte. Eu, lá do alto, avistava longe... muito longe. Via quase toda a cidade. O vento frio batia em meu rosto. Continuei dormindo. Despertei normalmente e só fui recordar desse sonho depois de duas semanas.
Dinjara deu um leve sorriso de agradecimento e acomodou-se no ombro de Jaime. Aproximou-se mais e sussurrou:
– “Feche os olhos e encoste a cabeça na parede” – ela resvalou sua mão para o bolso da calça de Jaime onde ele guardara a meia bolinha de gude.
Jaime, naquele ínterim, quase esquece o que ela recomendara. Cerrou os olhos e apressado recostou a nuca na parede.
– Sabe, Jaime – reatou Dinjara no diálogo cego –, tem mais uma palavra que eu não sei o que significa.
– Qual?
– Saudade. O que é isso?
– Saudade é um sentimento... suave... que sentimos por alguém, ou por uma fase de nossa existência... que está distante ou que nunca mais regressará.
De repente, Jaime foi surpreendido por um clarão e um estrondo concomitante. No susto, abriu os olhos instintivamente e viu Saluc caído no chão, inerte, coberto de fumaça. Divisou um buraco enorme na parede toda estraçalhada. Olhou para Dinjara e ela, com ar de quem sabia todo o enredo da história, desafogou num suspiro:
– Hoje, por várias vezes, pensei que a sorte me ludibriara, mas agora descubro que ela residia ao meu lado... minha sorte foi seguir você. Confesso que seu ombro é aconchegante e com um... um cheiro gostoso. – Jaime não procurou entender o porquê daquela cantada maliciosa, fora de hora e sem objetivo. Sensato, interrogou:
– Pode, por gentileza, me esclarecer o que está acontecendo?
Dinjara só respondeu quando apareceu um vulto, empunhando uma arma, e parou no buraco que o disparo fizera na parede do velho castelo.
– Foi papai que chegou. Graças a você que manipulou o sensor.
– Sensor?
– Sim, sensor.
– Essa coisinha?... Metade de uma bolinha? – Jaime retirou o sensor do bolso.
– Sim, Jaime – gritou Peifil lá do buraco –, rastreei o sensor direcional para localizá-los. Saluc tem um também.
– Era isto que você pretendia com todas aquelas caretas espalhafatosas e trejeitos suplicantes? – indagou Jaime entregando o sensor para Dinjara.
– Não, Jaime, era para você colocar a mão nele. Assim os sensores dos carros de papai saberiam em qual carro você estava e não o atingiria. No entanto eles obtiveram êxito assim mesmo, porque os raios passaram ao longe.
– Ao longe? Chama aquele “triz” de "ao longe"? Quase nos derrubaram! – Jaime olhou para Peifil e arguiu apressado. – E Rodrigo? Reclamou minha ausência? Você falou com ele?
– Calma, Jaime, seu filho está bem. Fomos buscar uns meninos para brincarem com ele. Suponho que nem está sentindo a sua falta.
Jaime levantou-se e foi na direção de Saluc. Ajoelhou diante de seu corpo que expelia centelhas azuis e verdes para o ar.
– Não toque nele, Jaime – gritou Dinjara. – Você é um Terráqueo e essa descarga paralisante pode ser mais perigosa para você do que para um de nós.
– Ela tem razão, Jaime, não se pode avaliar o efeito em outros seres. Estão em desuso há milênios e a potência é bem maior que a manual – admitiu Peifil.
– Quer dizer que ele não está morto? – inquiriu Jaime inspecionando a face de Saluc que parecia estar acesa, pois agora emitia uma branda luz rosada nas bochechas.
– Não, Jaime, ele está paralisado – afiançou Peifil. – Os revolucionários já foram abatidos. O Rei conseguiu a liberação para o uso dessas armas e quando eles se esconderam dentro das casas, todos aguardavam por eles. Os outros que vagueavam por fora, com a ajuda dos nossos amigos do Planeta Aradicape, foram presos também. Agora encontrei vocês dois. Retornaremos ao Palácio com tudo resolvido e...
– Mas, pai – interrompeu Dinjara –, Saluc não planejou isso sozinho...
– O quê!!?... Nós detectamos só um sensor neste castelo além do seu... e está com Saluc!
– Lideucan deve ter instalado nele de propósito pai, só para desviar a sua atenção; enquanto isso, ele e Jermaso ganhavam mais tempo.
– Lideucan e Jermaso estão nisso também?!... Onde eles estão agora? – afobou-se Peifil impressionado e, pela primeira vez, com a fisionomia denotando temor. Jaime julgou que ele conhecia bem o inimigo que confrontaria.
– Foram para o Palácio a pé, com a sutil aparência de um casal. Planejam aprisionar o Rei – elucidou Dinjara que, incomodada com as vestimentas do lambuzão Jermaso, se coçava toda. – Pai, Jermaso está com a minha roupa – explicou Dinjara com ar de riso.
Enquanto os dois conversavam, Jaime viu a arma de Saluc no chão. Num impulso natural, pegou-a deliberadamente e guardou-a no bolso da calça.
– O pior, pai, é que Lideucan tem uma arma de morte e Saluc também.
– Esses antipacifistas, vagabundos, burlam tudo – recriminou Peifil chegando perto de Saluc. Revistou-o e sintetizou:
– Saluc não carrega nenhuma arma, Dinjara!
– Ele tem uma, sim – asseverou Dinjara categórica. – Eu vi a arma com ele – e foi auxiliar o pai na busca inútil.
Disfarçadamente Jaime se afastou de Saluc, enquanto os dois o reviravam pelo avesso.
– Ele devia estar com ela na mão no momento da explosão. Pode ter se perdido no meio desses entulhos, depois mando vasculhar. Vamos embora, avisarei a Dailen para reforçar a vigilância no Rei.
Peifil retirou-se arrebatado dando ordens aos seus comandados para cuidarem de Saluc. Dinjara amparou Jaime pelo braço como se ele não soubesse mais andar sozinho. Entraram no carro e Peifil começou a transmitir mensagens em sua língua de vocábulos curtos e quebrados.
– Procuraremos os dois, primeiramente pelos vilarejos dos conjuntos experimentais, talvez tenham ocultado alguma estratégia do plano, e, se assim for, eles não estão muito longe.
Dinjara abriu uma gaveta sob a sua cadeira do carro e apanhou uma arma. Peifil roçava o chão com o carro. Entrava e saía nas intermináveis passagens estreitas entre os edifícios alinhados nas cores cinza claro e azul-marinho. Não havia muros divisórios nem árvores. O calçamento e as edificações eram feitos de plástico, em peças montáveis com encaixes aparentes. Peifil reclamou, expondo seu desagrado:
– Vou sugerir ao Rei que recomende ao Sistema Comunitário uma proposta de esterilização para todos que forem condenados, independente do delito. – De imediato decidiu resoluto. – Vamos direto para o Palácio. Eles fizeram o percurso habitual e já devem estar chegando lá.
– Você tem razão, pai – concordou Dinjara e emendou. – Acho que devemos dar uma arma para Jaime.
Mesmo distraído, Jaime antecipou-se à resposta de Peifil e rebateu evasivo:
– Não, eu não quero.
– É apenas paralisante – avisou Dinjara risonha, presumindo que Jaime estivesse com medo de manusear uma arma de verdade.
– Não, eu não vou precisar de arma. Assim espero – finalizou cabisbaixo.
– Dinjara – aconselhou Peifil –, se ele não se sente bem com uma arma, não insista.
Jaime não olhou para eles, poderia cometer um deslize e descobrirem seu único segredo. Não sabia bem o que faria com aquele tubo, porém sempre acreditou que tudo acontece no instante oportuno.
– Pai, o Sistema Comunitário praticou um deplorável lapso – disse Dinjara lamentosa.
– Equívoco do Sistema Comunitário, filha?
– Lembra de Samjir Soebo?
– Claro!... O cientista que foi condenado por desrespeitar o código de ética.
– Lideucan contou que ele é um louco.
– Como assim?
– Insanidade mesmo, pai. Ele é o culpado por esse motim e inocente no seu primeiro crime.
– Pensei que essa doença estivesse erradicada. Vou comunicar ao Rei assim que tudo isso acabar, e propor também que se coloque um sensor interno em cada indivíduo que for condenado. Só assim saberemos se os contraventores estão onde deveriam estar – desfechou Peifil preparando o carro para descer.
Peifil, após uma senha enviada pelo painel do carro, adentrou por uma fenda que se abriu num paredão. Quando ultrapassaram a abertura, Jaime reviu o Palácio. Seu coração abrandou num alívio. Rodrigo, com certeza, estaria lá dentro. A Praça de Bisam Joreso, as escadarias e o patamar do Palácio estavam superlotados, afigurava-se num Shopping Center em dia de domingo. Nada indicava que a situação era de alerta. A não ser que todos trabalhassem para a proteção do Rei e montaram um exército de guardiões camuflados de pessoas normais. Porque uns pulavam e se divertiam. Outros, descontraídos, conversavam alegremente.
Os três desceram com o carro e se postaram de sentinelas. Jaime vistoriou vagarosamente toda a praça. Tinha a esperança de ver alguém com um par de botas bem luzidio. Porque da maneira com que ele as cuidava, Jaime asseguraria que Lideucan não se desfaria delas nem para salvar a própria pele.
Dinjara comentou desanimada:
– Não vejo ninguém com as minhas vestes. Acho melhor subirmos, pai.
Peifil partiu rápido na vanguarda. A multidão abria passagem movimentando-se para a escadaria fixa. Ele galgava os degraus da escada rolante para adiantar o passo. Jaime e Dinjara, com muito esforço, permaneceram colados em seus calcanhares. Chegaram ao salão. Pessoas, aglomeradas em grupos, conversavam como um enxame de abelhas. O Rei, na frente do palco, passava instruções para vários subalternos, que ouviam, confirmavam com a cabeça e saíam ligeiros. Jaime olhou para o alto. As colunas incontáveis do Palácio eram um esconderijo propício para Lideucan. Conjeturou que viria dali o ataque.
– Primeiro vou procurar Rodrigo, só então... – Peifil e Dinjara, enquanto Jaime olhara para cima, desapareceram. Ele confabulava sozinho.
Jaime resolveu certificar-se de que não havia ninguém lá em cima. Quando pisou os primeiros degraus, tomou um susto. Vinha descendo alguém. Uma sombra na parede evidenciava isso. Não teria tempo de sair dali. O jeito era espreitar no suspense. Para seu suspiro profundo, Dailen o saudou pândego:
– Oi, meu amigo Jaime!... Nossa!... Como você está sujo... imundo!
Realmente, a roupa de Jaime não estava nada apresentável para frequentar um Palácio. Dailen ajuizou:
– Não está pensando em invadir o recinto, está? É expressamente proibida a entrada de personalidades não autorizadas. Veja a advertência na plaqueta – apontou astucioso e prosseguiu. - Estou aqui desde que chegamos de seu Planeta, garanto que não ingressou ninguém indesejável.
Inesperadamente deu um estalo na cachimônia suscetível de Jaime, que balbuciou para as gosmas de sua camisa:
– “Lideucan não contou o seu autêntico estratagema. Faltou um pormenor: o "segredo". Aquele disfarce, em conchavo com Jermaso, foi mais uma de suas criativas falsetas.”
Dailen, estranhando a absorção do Terráqueo, insistiu:
– Oi, Jaime! Está falando com alguma dessas colunas? Aviso de antemão que todas elas são surdas.
– Oi, Dailen – cumprimentou Jaime com o pensamento em parafuso e perguntou pretensioso. – Diga-me uma coisa, Dailen. O que é ficar... "diá"?
– "Diá"? - redarguiu Dailen.
– Sim, "diá", deve ser a primeira sílaba de uma...
– Quem disse isso, Jaime? - investigou Dailen retesado.
– Lideucan...
– Lideucan?! – atemorizou-se Dailen.
– Ele mesmo – respondeu Jaime explicando. – Ele quase deixou escapar, mas quando pronunciou "diá"... silenciou.
Dailen pensou sôfrego. Folheava páginas de um livro imaginário e desafogou ávido:
– Diáfanos. Os intrusos já estão aqui no Palácio... translúcidos, invisíveis. Os nossos sensores não os detectarão e o quinto plano não surtirá efeito. Peifil carece saber disso.
Dailen saiu conversando com alguém por um transmissor instalado em seu septo nasal. Jaime o seguiu. Esbarraram com Peifil que vinha acompanhado de alguns elementos uniformizados. Dailen o interrompeu sem cerimônias:
– Peifil, aplicaremos o sexto plano.
– Já estou dando as ordens – retrucou Peifil. – Algo saiu errado com os sensores de segurança - e alertou para Jaime bem baixinho. – Jaime, quando eu gritar: "raxiaba", você se ajoelha no chão – e determinou para Dailen. – Vá para perto do Rei e aguarde.
Dailen saiu e Dinjara chegou de roupa nova:
– Sexto plano, filha – repassou sério Peifil.
– Você viu Rodrigo, Dinjara? – perquiriu Jaime conturbado.
– Ele está bem. Fique tranquilo.
Peifil sinalizou para Dailen que conversava com o Rei. Um sinal sonoro, alto e curto ecoou no salão. Instantaneamente fez-se uma quietude de se ouvir respiração. Peifil gritou:
– Raxiaba!
Numa fração de relâmpago, todos se prostraram ao chão. Ao mesmo tempo em que Peifil gritara a "palavra mágica", um holofote, de cintilação esverdeada, acendeu no alto do Palácio. Dois vultos, envoltos numa capa metálica fosforescente, surgiram no meio do salão. Espavoridos, por terem sidos denunciados pela luz, assustaram-se quando a proteção metálica, que os conservava invisíveis, se estraçalhou em pedaços. Eram Lideucan e Jermaso que, desajeitados, retomavam o gestual corriqueiro.
Mas o sexto plano fracassou também, pois Lideucan, nas imediações do Rei, gritou, apontando o tubo de botões coloridos na direção do Monarca:
– Quietos, não tentem nada... estou com uma arma de morte na mão – ameaçou. – Afaste-se, Dailen, senão eu mato o Rei.
Peifil e Dailen ficaram de pé e não reagiram ao prenúncio nocivo de Lideucan, ao contrário, Dailen afastou-se e Peifil, em tom calmo e com a voz pacificadora, exprimiu prudente ante seu arqui-inimigo:
– Quantos séculos, Lideucan!... veterano Jermaso!... que não nos vemos. E nos defrontamos justamente agora, num... litígio tão... tão delicado.
– Fique onde está, Peifil – gritou Lideucan contraindo a musculatura do pescoço múltiplas vezes. – Desta vez vai ser diferente. Não vou me render – e avisou exaltado. – Mais para trás, Dailen – e foi caminhando para perto do Rei, com Jermaso, ainda com os trajes de Dinjara, dando cobertura, colado nele como uma pequena sombra, andando de ré.
Peifil reproduziu no mesmo tom informativo.
– Seus aliados, Lideucan, que perambulavam além da proteção de ondas, já foram eliminados em combate. Seu cúmplice, Saluc, está morto... não queira ser o próximo.
Lideucan, sem tirar a arma da direção do Rei, bazofiador, revelou sua ardileza secreta:
– Não é você que me rotula de estrategista do mal? Eu já sabia que isso tudo iria se desencadear. Então abandonei o decadente Saluc de chamariz, com o meu sensor, no velho castelo... e o ingênuo, imaturo, engoliu que era para termos dois planos. Eu sim, tinha inúmeros mancomunados com Jermaso, ele... coitado, nenhum. Mas para que o esquema vigore, às vezes é necessário sacrificarmos correligionários – e intimidou. – Vocês não banquem os espertinhos, pois desta vez ninguém vai me impedir.
Jermaso, colado em Lideucan, sussurrou com a cara deslavada:
– Lideucan, não vai dizer para eles que nós aproveitamos a invisibilidade e entramos no banheiro feminino do Palácio?
– Cala essa boca, imbecil... esqueceu que só vimos barangas pelancudas. E é por sua causa que ainda estamos aqui.
Jaime, de joelhos ao lado de Dinjara, notou um isolamento preocupante naqueles olhos condoídos que tantas vezes vira refulgir; patenteavam um vazio, uma depressão, um vínculo de dependência e solidariedade. Dinjara rendera-se ao desígnio do desenlace que, provavelmente, seria degradante. O silêncio insípido era indício de um velório. Jaime murmurou em seu ouvido com receio de que alguém escutasse:
– Vocês disseram que Saluc estava paralisado. Peifil agora diz que ele está morto!
Ela, cabisbaixa, concatenou sem ânimo:
– Deve ser uma estratégia paliativa de papai para amedrontar Lideucan.
Jaime não arriscou requestar mais nada.
Lideucan especulou alto:
– Onde está o Terráqueo?... Dinjara também. Mudei de plano. Quero os dois aqui. Preparem um carro. Eles irão comigo. O Terráqueo vai me mostrar os pontos turísticos de seu Planeta e Dinjara será a...
– Deixe Dinjara fora disso, Lideucan – contestou Dailen se metendo no assunto.
– Fique quieto aí, Dailen – e cantarolou. – Desta vez você vai perder a sua garota – e soltou uma das suas gargalhadas costumeiras.
– Lideucan – retornou Dailen –, se é refém que você ambiciona... me leve no lugar dela.
Lideucan fez uma cara hipócrita e cinicamente verberou:
– Camarada Dailen, você não serve para o que eu aspiro...
– Refém por refém vou eu – persistiu Dailen.
– Não seja ridículo, camarada Dailen. Sem negociações – recusa, irredutível, o corpulento Lideucan.
Jaime sussurrou novamente para Dinjara:
– Você e Dailen... são namorados?
– Noivos.
– Ah!... Gostei de saber.
Dinjara lhe sorriu num misto de tristeza e carinho. Jaime considerou que ela temia mesmo por um epílogo trágico nesse episódio. Jaime olhou para Peifil e, no olhar, interrogou o que fazer. Em resposta, uma simples afirmação facial, sutil, o induziu a obedecer. Jaime e Dinjara se levantaram. Lideucan não se conteve:
– Belezoca!!... Correu para o colinho do papai, hein? Tão crescidinha e tão carente!... Quando estivermos refugiados na Terra eu vou resolver seu problema afetivo. Prometo.
O pensamento de Jaime, em rotação anormal, vasculhava uma ideia salvadora que não colocasse a vida do Rei em perigo. Jaime precisava agir. Deu dois passos para a frente e voltou-se. Acenou para Peifil simulando uma despedida e, mesmo sem calcular sua reação, cochichou:
– “Estou com a arma de Saluc.”
Peifil estremeceu. Jaime saiu rápido de perto para deixá-lo sem ação, porém ele o chamou:
– Terráqueo! – Jaime virou-se e Peifil, com o rosto todo suado, acenou-lhe dando um adeus trêmulo e avisando em tom baixo:
– “Vermelho, verde e o pensamento.”
Jaime não compreendeu muito bem o que Peifil quis lhe transmitir naquela encenação. Foi caminhando lentamente para perto de Lideucan como um animal que vai para o abate. Dinjara, com os olhos em fogo, quase emitindo faíscas, vinha ao seu lado. Jaime esquadrinhava os clausestres disformes, ajoelhados, todos apáticos, com as faces molhadas de suor. Em nenhuma delas se manifestava uma tênue esperança de que poderiam ainda reverter aquele estorvamento. Jaime deduziu que o suor era a forma de demonstrarem medo ou sofrimento. Umas olhavam-no resignadas, outras baixavam a cabeça enquanto ele passava. Lideucan vocifera exasperado:
– Vamos logo, Terráqueo, não temos muito tempo. Quanto antes sairmos daqui melhor é. Ficaremos livres mais cedo – e berregou bem alto. – Podem abrir a proteção. Mandem vir um carro preferencial e equipado com todas as armas de defesa – salientou. – Não ensaiem nenhum truque infantil.
Jaime gelou. Lideucan executava, a contento, as suas temerárias previsões. Naquela hora terminante, gostaria que baixasse nele o espírito de um mascarado vingador – vestido de negro, que, num peteleco, bota para dormir três a quatro oponentes malfeitores, reprisando o que sucede nos filmes espetaculosos, nos quais apenas um fracote derrota centenas de inimigos, só assim resolveria esse impasse deprimente. Porém, vendo a arma junto ao pescoço do Rei, não acatou seu juízo de ousadia cinematográfica.
A proteção do Palácio começou a descer desvendando o céu avermelhado de Claus. Lideucan sabia que, dispondo do Rei como refém, ninguém ousaria desafiá-lo. Portanto, a Jaime, só restava esquecer o fictício justiceiro. De repente, inocentemente, Rodrigo aparece na porta e adentra gritando:
– Pai!... Pai!...
Sua voz ecoa no silêncio do salão. Jaime fechou os olhos quando percebeu a cara espantada de Lideucan. Poderia disparar pensando ser uma armadilha. Felizmente o facínora esquizofrênico só contemplou Rodrigo vir correndo de braços abertos ao encontro de Jaime, que se abaixou e abraçou o filho como se fosse uma eternidade que não o via. Lideucan não sabia de Rodrigo, pois, surpreendido, perguntou:
– Filho? Outro Terráqueo aqui? – E lacônico decretou. – Ele fica.
Mesmo sem saber o que aconteceria, Jaime impugnou de imediato:
– Não. Ele vai conosco.
Lideucan não retrocedeu:
– Não tem lugar. E depois só vai atrapalhar.
Rodrigo desconfiou de uma artimanha.
– Pai, quem são eles? Por que aprisionaram o Rei?
– Filho, eu... eu... – Jaime não peneirou justificativa.
– Pai, você tá todo sujo...! – reparou Rodrigo.
Dilema dilacerante o de Jaime. Encravara-se numa encruzilhada espinhosa. Precisava dissimular o agravo para o filho, pois a verdade poderia acarretar sequelas instantâneas. Peifil lera o pensamento de Jaime e com um gesto típico, insinuativo, aconselhou: "a cautela sugere a mentira".
– Filho, eu tenho que ir... em um lugar aqui perto, com esses... senhores e eu volto para lhe buscar – pretextou Jaime, postiço e inconsistente.
– Não vou ficar aqui sozinho, pai. Eu quero ir. Você saiu sem me avisar e... eu não gostei. Cansei de brincar com os meninos...
– Eu volto logo, filho. Confie em mim.
Veio o carro que Lideucan solicitara. Penetrou por uma abertura no alto da cúpula e pousou, mansamente, no meio do salão. Peifil chamou Rodrigo com voz insegura:
– Venha comigo, Rodrigo. Vamos aguardar seu pai regressar.
– Não. Eu quero ir com papai – respondeu Rodrigo agarrando-se nas pernas de Jaime.
– Filho, eu volto... acredite! – tentou convencê-lo Jaime.
– Pai, e o aniversário de Maria Lúcia? – Aventou Rodrigo, pensando ser uma boa alegação para Jaime não abandoná-lo ali sozinho.
– A gente vai, filho. A gente vai.
Lideucan, impacientado, ordenou inconsequente:
– Peguem esse pirralho e o retenham aqui, imbecis – e com maldade na voz adestrou Jermaso. – Confira se todas as armas estão no carro. Porque se não estiverem eles pagarão bem caro agora mesmo.
Jermaso consultou uns marcadores, puxou uma alavanca, bateu em três botões e concluiu esfregando as mãos, bajulador:
– Tudo em ordem, Chefão. Completinho e ativado.
Aos berros Lideucan comandou:
– Abram espaço!
Rodrigo, num choro aflitivo, grudou mais forte ainda no pai. Peifil enunciou com voz forte e segura, pois vira que não restava alternativa:
– Venha comigo, Rodrigo.
– Vá filho, me espere, eu volto logo – articulou o mais natural possível Jaime.
Alguma coisa fez Rodrigo, anômalo, o soltar e acompanhar Peifil. Jaime, abatido, se dirige para perto de Lideucan. De repente Rodrigo clamou alarmante:
– Pai, me leva... me leva, pai, me leva...
Jaime continuou seu caminhar trôpego, carregando um distúrbio no peito logrado. A consciência dispersa num redemoinho de languidez depressiva, esperneia prisioneira, esbraveja esmagada, incriminando-o. Foram os passos mais indecisos e cruciais que dera em toda a sua vida. Seu coração angustiado descompassou ao flagelo quando Lideucan, peremptório, procedeu a divisão:
– Jermaso, você guia. Dinjara e Terráqueo, sentem-se no banco do meio, assim posso vê-los de frente. Eu vou na traseira... protegendo o Rei.
Repentinamente, num tique de arrependimento, Jaime resolveu revogar a sua decisão. Rodrigo teria que ir com ele. Mas, misteriosamente, foi aquietado e impedido por mãos invisíveis que o direcionaram para a frente numa compulsão irresistível. Não teve mais vontade própria, nem coragem de olhar para Rodrigo, que insistia, em berros comoventes, chorando e suplicando para que não fosse largado ali sozinho. Partiram diante da perplexidade de todos. Entraram velozes no espaço em que, há bem poucos minutos, havia aquele trânsito louco. Agora se ostentava desértico e silencioso. Nenhum carro. Nem ao longe. Somente o arco-íris vazio. Jaime presumiu que, num instante, todos obedeceram a um toque de recolher no Planeta.


VII - O RESGATE FINAL

Um sossego tedioso reinou entre eles até saírem da cidade de Bisam Joreso. Jaime, taciturno, tinha a nítida impressão de que o Rei e Dinjara vinham batendo o maior papo por telepatia, como se transportassem um mantra embutido na cuca, tal era a despreocupação que os dois evidenciavam. Passavam agora pela área agrícola. Jaime fazia o percurso de volta mais amofinado do que quando chegara. Absorvido num conluio de revolta e impotência, praguejava numa percepção indutiva, sentindo-se duas vezes prisioneiro, e ainda por cima apartava-se de Rodrigo. Isso causava um descarne na alma que lhe provocava falta de ar.
– Companheiros!... Será que todos engoliram a língua? – indagou Lideucan. – Relaxem, tudo vai acabar bem... – fez uma pausa e acrescentou – para mim é claro – desprendeu mais outra gargalhada insolente.
Ninguém se atreveu a debater. Assim como Jaime, todos esmiuçavam um atalho para a solução. Jaime já radiografava a sua chegada na Terra com esses dois fanfarrões, e Dinjara de quebra. Qual o poder catastrófico daquelas armas de morte? Como medir a extensão de uma tragédia sem precedentes? Talvez conseguisse enganá-los. Faria com que pousassem no deserto de Saara. Ou no polo norte. Um local bem frio e diria que a Terra toda é assim: gelo puro. Eles, acostumados ao calor intenso não gostariam da baixa temperatura. Logo Jaime admitiu ser bobagem. Eles podiam pesquisar tudo pelos instrumentos da nave. É lógico que Peifil e Dailen viriam no encalço, armados e trazendo Rodrigo; mas de qualquer jeito a guerra se travaria na Terra; destruiriam e assolariam um povo que nada tinha a ver com essa desavença. Jaime aventurou-se numa espiadela meio de soslaio. Dinjara sustentava a mesma fisionomia. O Rei, na sua postura singela, simbolizava a tranquilidade em férias. Lideucan, com a arma apontada para o Rei, notou o movimento de Jaime e alardeou:
– Brevemente estaremos aterrissando em seu Planeta, Terráqueo... e você será nosso cicerone. Queremos ser recebidos com pompas e regalias...
O Rei, num leve sorriso irônico, elucidou calmamente:
– Lideucan, sua ambição o cega, você não sabe de muitos detalhes. Essas armas não funcionarão no Planeta Terra. Eles usam a energia gerada por hidroelétricas e nós nem rios temos mais. Devido ao lixo radioativo eles têm conflitantes problemas com a energia nuclear. Estão engatinhando na solar e na eólica. Eles ainda não...
– Não seja estúpido, Reizinho – cortou Lideucan recalcitrante, apertando o pescoço do Rei. – Nós não estamos interessados em tecnologia; nós almejamos é conhecer a liberdade, as mulheres, viver sem opressão, sem regras... com muita "paz e amor"... esse é um magnífico chavão dos Terráqueos.
Jaime não atinou se o Rei cobiçava contraprovar a insignificante pretensão de Lideucan ou se ele distorcera alguma verdade para dissuadi-lo de tal caduquice. O Rei filosofou num tom lastimoso:
– O fingimento é um argumento sem futuro, Lideucan. Não busque encontrar nos outros o que não carrega consigo.
Lideucan, agastado, discursou afogueado:
– Agora eu não faço mais apologia ao crime... realizo-o.
Jaime estranhou porque Lideucan não dera sua gargalhada oficial, pelo contrário, comportara-se sisudo. Quando se virou, viu o motivo: chegavam à base das aeronaves. A nave interplanetária permanecia no mesmo local onde desembarcaram. O Rei, numa expressão de vidente, alertou:
– Lembre-se Lideucan: quando a liberdade é muito grande... tornamo-nos escravo dela.
Lideucan não deu ouvidos ao Rei. Comandou absoluto:
– Jermaso, ao plano de ataque.
Jermaso iniciou um bombardeio nas naves locais estacionadas perto da aeronave interplanetária. Jaime pressentiu a potência da arma localizada embaixo do carro. Eram lançados dois focos de luzes quase paralelos, quando atingiam o alvo, explodiam num clarão de fogo. O clarão se dissipava e não se via mais nada no lugar; só o solo chamuscado. As naves desapareciam, desintegravam-se sem deixar vestígio. Jaime deduziu que Lideucan não se importava mesmo com ninguém. Intencionava apenas sair dali e aperrear toda a população terrestre. O Rei não se conteve e repugnou irritado:
– Para que isso, Lideucan? Só para satisfazer o prazer de destruição que germina dentro de você?
Lideucan satirizou com volúpia e rebeldia:
– Não é Vossa Majestade que sempre diz que somos eternos aprendizes?... Pode ser uma cilada, camarada Ojes. Assim eu ensino para quem teve essa ideia bestial que a minha foi muito mais criativa.
– Em algumas fases da vida, a consciência pesa mais que o corpo inteiro, Lideucan – proclama o Rei.
– De mais a mais, Reizinho, não posso permitir que nenhuma nave me persiga em órbita dos Planetas, tampouco pela vastidão do Grande Vazio – discorreu Lideucan de aspecto triunfante.
O Rei sobressaltou-se. Lideucan, depravado como sempre, cientificou:
– É, Reizinho, já tomei conhecimento da existência desse intervalo oco no Universo! Vou investigá-lo sem nenhum empecilho.
Pousaram a cinquenta metros da nave. Lideucan correu os olhos em círculo e ministrou as ordens novamente:
– Jermaso, você desce e fiscaliza a nave. Verifique se está tudo em ordem. Enquanto eu estiver com o Rei, eles não tentarão nada.
Jermaso desceu e foi caminhando para a nave. Dinjara encostou a mão no ombro de Jaime. Ele sentiu uma energia fora do comum na mão de Dinjara. Automatizado se levantou e desceu do carro. Lideucan levantou-se também emitindo dois tiques nervosos, provocados pela impaciência. O Rei manteve-se sentado. Lideucan, com a mão que segurava a arma, fez um gesto para Jaime parar.
Neste exato momento Jaime viu o braço de Lideucan erguer e virar sozinho para trás. Ele verteu um grito lancinante de dor. Rangendo os dentes, fazia uma força enorme para se livrar do agressor invisível que o estrangulava. Jermaso também tropeçava no vento e caía no chão sem motivo. Suspendia-se desconcertado, defendendo-se estabanado, dando socos aleatórios em todas as direções. Ele recebia vários golpes vindos do nada e caía batendo as ventas contra o solo por muitas vezes, até perder os sentidos e largar-se estonteado. Lideucan, agitando os braços com dificuldade, gritava exacerbado:
– Traidores! Velhacos! – e deu três solavancos fortes no ar, na tentativa de desvencilhar-se de seu inimigo oculto.
Alguma coisa imprevista por todos, ou pelo menos para Jaime, estava em andamento. Pois um vulto, segurando o braço de Lideucan, sobreveio do nada e foi clareando. Era Peifil!...
– "Usaram a mesma arma de Lideucan! Invisibilidade!" - fantasiou Jaime esperançoso.
Peifil se materializava. Mas Lideucan, escabreado, como se tivesse instalado molas sob aquelas botas de estimação, num salto elástico, arremessou-se do carro e voou para o alto. Mais na frente desponta Dailen, arrastando Jermaso pelos cabelos. Lideucan vai descendo do voo acrobático já com a arma apontada para Peifil. Jaime, apressado, pega o tubo no seu bolso e aponta para Lideucan.
Tarde demais.
Lideucan disparou contra Peifil uns raios finos e multicoloridos que, com o choque, o jogaram distante, envolvendo em fumaça seu corpo carbonizado. Quase ao mesmo tempo, o brutamontes acertou Dailen, que imobilizava Jermaso desmaiado. Lideucan cantou de vitorioso pelo descalabro cometido. Ufano, arrebatado, erguendo os braços, bradava num chilique incontrolável:
– Eu venci!... Eu sou invencível!... Indestrutível!... Desta vez a vitória foi minha! Vocês são uns palermas!
Jaime, mortificado pelo incidente com seus amigos, na indecisão, ao ver os botões coloridos, reportou-se à face suada de Peifil no Palácio: "vermelho, verde e o pensamento". - Jaime apertou na sequência e apontou para Lideucan, tencionando que a arma disparasse. Seu braço trepidou como se estivesse manejando uma possante furadeira de impacto. A arma desferiu um raio roxo, sem muita pontaria, mas acertou em cheio a arma de Lideucan, derretendo-a.
– Opa! – assustou-se Lideucan. – Ora, o Terráqueo ficou valente!... Essa arma era de Saluc!... Como a usurpou? – interpelou inconformado.
Jaime mirou no peito dele para alvejá-lo novamente. Apertou o botão vermelho, depois o verde e pensou. Neste ínterim, nada aconteceu. Lideucan desprendeu sua famosa gargalhada, desta vez com muito mais gosto e sarcasmo.
– Terráqueo, você agiu precipitado, descarregou a arma num só disparo. Não soube dosar e desperdiçou munição. Agora estamos desarmados. Só temos os punhos.
Lideucan foi andando, sobranceiro, para o lado de Jaime. Esfregava uma mão na outra para amolecer as juntas. Pretendia devorá-lo vivo. Jaime, inexplicavelmente, começou a suar. Não sabia se fazia calor ou se já assimilara a mania daquela civilização. Lideucan andava e resmungava:
– Eu sempre quis combater com um desconhecido. E para você não lutar em desvantagem, Terráqueo, nem vou decifrar suas intenções.
Jaime não gostou.
Dinjara tentava, desesperadamente, acionar o carro. E gritou apavorada:
– Não consigo... já está travado.
Lideucan vinha intrépido, hostil, a passos firmes. Disposto a liquidar Jaime sem muita delonga. Jaime, sentindo-se contaminado pelo suor, preocupado mais em se guarnecer que atacar, recua no intuito de aplacar a cólera do inimigo. Lideucan, ambicionando apanhá-lo de surpresa, arremete-se sobre ele. Jaime esquiva-se e chuta-lhe as costelas. Lideucan rola pelo chão e levanta-se ligeiro, sacudindo a poeira. Parece que não gostou do fracasso. Sua fisionomia risonha e libertina, após mais um espasmo, tornou-se severa.
– Terráqueo esperto, hein!
Lideucan, a fim de dominá-lo num único golpe, acomete de novo com o mesmo ímpeto. Jaime vai recuando até a nave. Quando sente ter tocado nos degraus invisíveis da escada, espera Lideucan chegar na distância exata. Jaime sobe três degraus e salta, acertando-lhe um golpe no supercílio esquerdo, que sangra de imediato. O Rei gostou e se manifestou.
– Boa, Terráqueo!
Lideucan, sem tirar os olhos de Jaime, berrou para o Rei, atrapalhado por seu tique nervoso.
– Fique quieto aí, Reizinho, não pense que ele ganhou a guerra... porque ela ainda não terminou.
Jaime já aguardava algum artifício escabroso por parte de Lideucan, pois, de um bandido, não se deve esperar lisura durante um duelo. E não demorou. Ele, com sua mão pequena, retirou da bota esquerda um tubo fininho. O alentado revolucionário, impertinente, olhou para Jaime com a cara de sempre e ironizou:
– A morte é o último pesadelo. O povo daqui não sonha, porém saiba você que eu sonho. Sonho um sonho acordado que vou converter em realidade ainda hoje.
Lideucan apertou o tubo. Uma lâmina fulgente saltou. Dirigiu-se para Jaime querendo esfolá-lo, falando com uma voz fina, falsificada de robô:
– Às vezes, a tecnologia é superada pelo sabor de sangue, Terráqueo.
Aquele punhal luminoso mexeu com os nervos de Jaime. Lideucan troca o punhal de mão em mão e ameaça investir a todo instante. Jaime vai recuando e de soslaio procura alguma coisa para que possa se defender. Lideucan aproveita esse descuido e salta sobre ele. Jaime desvia o mais rápido que pode, contudo, Lideucan consegue acertá-lo no braço direito, perto do ombro, cortando também a camisa.
– Sangue de Terráqueo é igual ao meu? Isso é incrível! – brada Lideucan numa gargalhada desalmada e cheia de arrogância.
O sangue escorre pelo braço. Jaime sente que o corte é profundo, mas não é hora de pleitear arrego.
– Assim você está sendo desleal, Lideucan – refutou o Rei com austeridade em defesa de Jaime.
– Já disse para ficar quieto, Reizinho – respondeu Lideucan prendendo um sorriso vingativo entre os lábios.
Dinjara levanta-se do carro com ferocidade e avança audaz, desabalada para cima de Lideucan. Ele apenas estica o braço. Ela acaba chocando-se com a mão espalmada dele que, numa bofetada, sem muito esforço, a faz cair ao chão. Lideucan debochou:
– Desculpe o mau jeito, Belezoca. Agora não estou disponível para você.
Jaime aproveitou a distração de Lideucan e num golpe certeiro chutou o seu pulso. O punhal voou no ar, para bem longe. O Rei comprovou confiar tanto em Jaime que bateu palmas e se ajeitou no camarote improvisado para assistir à briga. Dinjara, no chão, demonstrava preocupação e medo. Jaime, de olho em Lideucan, levantou sua benfeitora e a colocou no carro.
– Obrigado pela ajuda, Dinjara... agora deixe esse pilantra comigo.
Jaime saiu para o largo disposto a afrontá-lo. Lideucan encarou-o como uma fera. Irascível, após sua costumeira contração muscular, zombou jactancioso e encolerizado:
– Não se azucrine com o que vai presenciar agora, Terráqueo. Não posso prolongar muito essa luta. Estou com pressa... para me apossar de seu Planeta.
Seus olhos, num estalo, brilharam fulminantes em furor súbito.
– "Agora sim – pensou Jaime. – Chegou a minha vez. A peleja vai começar de verdade.”
Em autodomínio apagou seu pensamento. Empenhou-se em esboçar um sorriso simpático, exclusivo para Lideucan, mas presumiu não ter agradado. Jaime pensou voar em seu pescoço que se contraía e chutou por baixo. Lideucan se abaixou. Jaime acertou-lhe em cheio e descobriu que eles também sentem dor no meio das pernas. Jaime menosprezou o adversário. O volumoso Lideucan se recuperou instantaneamente e desfechou um violento soco em seu rosto, que nem deu tempo de Jaime "pensar" em esquivar. Jaime procurou chutar suas pernas, mas antes mesmo de atingi-lo Lideucan já desviava e o acertava no abdome. Jaime afastou-se em passos laterais e recomeçou o ataque com um acervo sortido de golpes imaginários. Lideucan, todo desengonçado, não sabia como se resguardar, muito menos para onde ir.
Quando percebeu que tudo era falso, cruzou os braços, satiricamente trocista, como quem vulgariza: "Já desvendei seu truque, idiota". - E emitiu uma contração muscular diminuta e tranquila.
Jaime concubinou-se com seus pensamentos simulados partindo de pés juntos no rosto do cafajeste, acertando-o em cheio. Subsequentemente lhe passava uma rasteira. Retomou o pensamento anterior e executou-o. Quando Lideucan atinou que não se tratava de mais uma intenção, mas sim de um golpe real, já era tarde. Jaime chegava de pés juntos no seu rosto, com um rabo de arraia composto, fazendo-o desmaiar.
O Rei, descontraído, testificou:
– Nossa! Eu não conhecia o poder dos Terráqueos. Que disputa! Foi uma preciosa aula de técnica e autocontrole emocional. O último golpe enganou até a mim!... Só os sábios usam a inteligência como arma de combate à falsidade... isso é uma grande virtude.
Jaime estranhou a admiração do Rei, porque, ao invés de se incomodar com Peifil e Dailen, o elogiava. Não procedia como um Rei. Não se abalara com a catástrofe. Dinjara também não, conservava-se sentada no carro com um semblante que não se enquadrava no cenário sinistro; esbanjava felicidade; nem se atreveu a socorrer o pai e o noivo. Jaime não ficou lisonjeado com as palavras destoantes do Rei, nem formulava conceito indulgente pelo desafeto e frieza com que se comportavam perante a tétrica situação.
– "Será que o homem que age como máquina, pensa como tal?" – pensou enojado.
Jaime sentia-se mal vendo os dois, impassíveis, diante da morte. Enquanto os corpos de Peifil e Dailen, estendidos no chão, fumegavam, eles batiam palmas. Talvez enfrentassem a morte assim: sem condolências, nem lágrimas – simplesmente: irrelevante. Ou o impacto foi tão terrificante que eles permaneciam abobados até agora? – inferia o confuso Jaime, que se preocupou com o ferimento no braço, pois continuava sangrando e doendo. Quando levantou a manga da camisa viu que era mais sério do que pensava. O corte aberto estava arroxeado. O Rei, folgazão, vem ao seu encontro. Jaime, com o outro braço, apontou para os seus amigos. O Rei interpôs:
– Calma, Jaime Brosso, primeiro vamos restabelecer o seu braço.
Pegou um pequeno objeto em sua túnica e esguichou um líquido amarelado, inodoro, sobre o ferimento. A região medicada tornou-se luzente, quase acesa. Iniciou-se um processo de descoagulação. Jaime sente uma pequena ardência. Emergem reflexos ondulares numa transfusão de centelhas fosforescentes que encetaram uma costura pirótica, fechando o corte de dentro para fora. O Rei aplicou mais outro líquido esbranquiçado e prognosticou:
– Pronto, Jaime, está curado... conte até dez.
O ferimento foi sumindo, devolvendo à pele sua cor habitual. Jaime, incréu, passa a mão, cuidadosamente, no local e não sente nada. Está perfeito. Sem marca, nem dor. O Rei o investiga com ares de psicólogo. Parece penetrar no espanto de Jaime. Garboso declara:
– Somente quando somos exigidos é que conhecemos as nossas reais habilidades. O deserto assombroso é formado por pequeninos grãos inofensivos. – E sentenciou coerentemente: – Samjir Soebo será resgatado e submetido a um tratamento rigoroso. Iur Senbur deverá ser sumariamente destruído. Lideucan, Jermaso e Saluc irão à corte marcial e serão condenados à morte. Não podemos mais tolerar que a complacência de alguns coloque em perigo a segurança de todos.
O Rei aponta para o alto do céu. Num estalar de dedos, três bolas incandescentes surgem. Circulam a espaçonave. Desenvolvem movimentos sincronizados. Apenas uma ingressa na nave e sem muita demora sai. As outras duas a acompanham. Dinjara contempla Jaime boquiaberto.
– "Incrível, elas têm vontade própria?!" – pensa ele acanhado.
As bolas se congregam e param a um metro do chão. Vão dando aparência maior à luz. Gradativamente transmutam para estiletes e tremulam uma imagem repleta de ondulações. Flutuam numa chapa pequena, de um vidro límpido, que aumenta de tamanho e explode fracionando-se no ar. Três vultos luminosos, idênticos a pessoas, alinham-se, lentamente, por detrás dos fragmentos. Numa transfiguração relâmpago, eclode a trindade apaziguadora da alma de Jaime: Peifil, Dailen e Rodrigo, que, transbordando de alegria, salta correndo, sorrindo e chorando joga-se nos braços do pai com veemência.
– Pai... pai, que bom te ver!
Jaime aperta-o num abraço ardoroso. Os olhos de Rodrigo reluzem a felicidade saindo no meio das lágrimas. O coração de Jaime volta a bater sem aquele aperto de instantes atrás. Não se conteve e, com a alma expurgada num acalanto, consentiu que sua emoção também se expressasse em pranto. Depois de muitos beijos molhados e abraços apertados, Rodrigo pergunta, radiante, ainda soluçando:
– Viu... pai, como... eu vim?
– Vi e me... embasbaquei com vocês.
– É legal pra caramba, pai! A gente voa e vê tudo lá do alto.
– Que bom presenciar um desenlace assim! – emociona-se Dinjara enxugando algumas lágrimas também.
Jaime ainda olhava para os supostos cadáveres de Dailen e Peifil carbonizados no chão. Resolveu silenciar, apenas desenhou um riso brando nos lábios, aguardando que alguém explicasse a aparição dos ressuscitados. Peifil observou que tudo estava em ordem e agradeceu franco e escrupuloso:
– Obrigado, Terráqueo Jaime Brosso, você fez muito mais que a sua parte – olhou para o tubo caído no chão e completou. – O vermelho, o verde...
– É!... E graças a você – arrematou Jaime aliviado.
O Rei, inteligível, elucidou confiante:
– Lideucan tinha dois planos... nós tínhamos vinte. Caso você falhasse, eles não desceriam aqui, mas sim dentro da nave. – O Rei notava a incredulidade de Jaime. – Você está se interrogando como tudo isso foi possível. Viu Peifil e Dailen serem mortos e em seguida aparecerem vivos.
– Estava. – Confirmou Jaime. – Não estou mais – fez até uma fisionomia de sabido. Julgou que, por não pressuporem a existência da alma, recorriam a dublês de corpos quando havia uma ameaça iminente de morte e arriscou em sofisma. – Essas cobaias que morreram... devem ser... ou eram... simples clones.
– Quase que você acertou, meu preclaro Jaime Brosso – gracejou o Rei pela feição cômica de Jaime. – Aqui a clonagem é proibida há milênios. A semelhança com Peifil e Dailen foi proposital, só para ludibriar Lideucan. Essas duplicações só podem ser feitas com autorização do Sistema Comunitário.
– Duplicações?! Assim como nós tiramos cópias em papel... vocês fabricam... réplicas humanas?! – inquiriu Jaime intrigado.
– Nem tanto, Jaime. Quase isso – retrucou o Rei. – Grande parte é robotizada. A concepção de autonomia do robô ainda é um... metódico controle remoto programável. Não desvendamos a complexidade do raciocínio sentimental de nosso cérebro.
Jaime interveio. Afinal ele começava a se avaliar, de fato, importante dentro daquele "Sistema Comunitário". E foi petulante:
– Acho que o que vocês almejam identificar na "autonomia" nós batizamos de "alma". Isso é algo Divino... Não compreendo vocês. O robô só faz o que é programado. Por que anseiam que ocorra um milagre?... Isso também requer intervenção Divina.
O Rei olhou para os lados precavendo-se. Colocou as mãos sobre os ombros de Jaime e desviou o assunto:
– Jaime, tudo o que você viu aqui é sigilo da segurança do Sistema Comunitário. Poucos sabem que possuímos o domínio dessa tecnologia.
– Por mim continuará em segredo – mencionou Jaime sem ter dúvidas.
– Disso eu tenho certeza – afirmou o Rei e lembrou. – Ah, foram eles que elevaram vocês, invisíveis, até a nave... lá na Terra.
– Eles estavam lá?
– Sim. São quase humanos... só não sangram.
Carros e mais carros ancoram no céu. Depois pousam em sequência e os clausestres vão formando filas gigantescas. A notícia se alastrou mais veloz que o pensamento. E como se cada um já tivesse o seu lugar previamente definido, rapidamente, um cortejo pomposo organizou-se para a partida dos Terráqueos.
Dinjara desceu do carro, acenou para Dailen e veio ao encontro de Jaime reconhecendo com certa inibição:
– Posso propagar que... num ato heroico de bravura e destemor, você salvou meu pai, meu noivo e restituiu a Pirâmide ao Rei Ojes. Portanto, se o Rei permitir, desejo homenageá-lo com uma condecoração, como era o costume antigo em nosso Planeta... com o Colar de Claus.
O Rei fez um gesto de concordância com os termos enfáticos de Dinjara. Ela removeu um colar de seu pescoço, contendo alguns objetos pendurados e colocou em Jaime. Segurou suas mãos e falou baixinho:
– Este colar foi feito por mim, use-o Jaime, assim não me esquecerá, porque eu nunca o esquecerei. Será a sua proteção, o seu talismã e o nosso segredo, pois toda essa história não poderá ser revelada a ninguém – e deu um leve beijo na boca de Jaime divulgando para todos ouvirem. – O nome do meu primeiro filho será: Jaime, o segundo: Rodrigo.
Jaime precisava retribuir tanta gentileza. Pegou o vidro de perfume que comprara para Maria Lúcia e ofereceu para Dinjara.
– Gostaria que você aceitasse isso.
Dinjara recusou-o de imediato, pois sabia que não fora adquirido para ela. Jaime insistiu e acrescentou:
– É o "cheiro gostoso". Fique com ele. Minha sobrinha entenderá. Aliás, nem vou contar para ela... mesmo porque não posso e... também não iria acreditar.
– Obrigada – manifestou Dinjara com gratidão –, só vou usar em ocasiões especiais.
Rodrigo não se conteve.
– E Maria Lúcia, pai?
– A gente compra outro... lá na Terra.
Jaime recordou que Dinjara recitara uma poesia, e ele escrevera algumas estrofes pela manhã durante o expediente. Embora a inspiração lhe visitara num desafogo, hipotético, de um descerramento fatídico, Jaime julgou que talvez ela gostasse deste estilo.
– Dinjara, aceite mais uma coisa – esticou-lhe a folha dobrada.
Ela abriu e saltitou contente:
– Uma poesia!... Exclusiva para mim?! Vou ler agora mesmo...
– Não, Dinjara. Leia quando estiver sozin...
– Quero compartilhar este momento com todos, Jaime. Afinal... é uma poesia interplanetária.
Dinjara, como se algo preenchesse seu coração, desabafou olhando fixo em Jaime:
– Agora começo a experimentar, na amplitude, o que significa... saudade.
Dinjara, sensibilizada, limpou a garganta e leu com ênfase:

ORAÇÃO DA DESPEDIDA

A ti que vieste e me encheste de ilusão,
Ilusão em promessas do derradeiro ardor,
Ardor que me tornou um ser sem compaixão,
Compaixão de um mísero escravo do amor.

Amor que maltrata um apaixonado coração,
Coração que bate apressado em amargor,
Amargor que transborda em pura emoção,
Emoção que alimenta um pobre sofredor.

Sofredor que no peito difunde lágrimas,
Lágrimas que infiltram no ressequido chão,
Chão Divino que recebe a bendita semente,
Semente que germina o Abençoado Pão.

Pão que dá forças ao pecador descrente,
Descrente que agradece em curta oração,
Oração que chega aos ouvidos de Deus,
Deus benevolente que concede o perdão.

Perdão que de joelhos te rogo em súplica,
Súplica de fé para que me estendas a mão,
Mão gélida que pede vida à Santa do altar,
Altar em que morta estás... imploro em vão.
– Adorei, Jaime! – vibrou Dinjara. – É bem melancólica. Eu gosto assim.
O Rei suspirou aprobativo e abriu os braços enaltecendo Jaime:
– Você foi o herói de hoje, Jaime Brosso. Eu desconhecia esse seu dote poético. Gostaríamos de promover uma festa, mas dado a tantos transtornos turbulentos, é melhor marcarmos este dia com uma diretriz abrangente. Vou propor ao SETI - Setor Especializado em Tecnologia Interplanetária - o cancelamento de toda e qualquer pesquisa após o Grande Vazio. Hoje poderíamos ter originado um acidente de proporções e consequências incalculáveis. Embora a maioria das descobertas benignas foi antecedida por algum fracasso, não devemos nos envolver no seguimento evolutivo dos Planetas fora do Sistema Comunitário.
Dailen, meio envergonhado, o que não lhe era peculiar, se avizinhou de Jaime e falou cabisbaixo:
– Eu quero agradecer também, Jaime. Você salvou a nós todos e, essencialmente, a honra do Planeta Claus. Saiba que eu aprovo o que Dinjara prometeu... é motivo de orgulho para mim. E lhe digo mais: a verdadeira amizade não requer a presença constante para que se eternize.
Jaime imaginou que Dailen se comportava assim devido ao fato de sua noiva tê-lo beijado em público, por isso abraçou-se a ele, precisava contar um segredo ignorado pelo insensível "Sistema Comunitário". E no abraço aconselhou bem soletrado, ao seu ouvido:
– Dailen, na primeira oportunidade que tiver... carregue Dinjara no colo.
Dailen dissimulou encalistrado. Após olhar para Jaime e ler-lhe o pensamento, desencabulou. Confirmou com a cabeça. Voltou a ser o mesmo Dailen desinibido e de humor salutar. Bradou estimulante:
– Um "viva" aos nossos amigos Terráqueos!!
O que foi, espontaneamente, acatado por todos.
O Rei, com o braço sobre os ombros de Dinjara e numa desconcentração total, ordenou calmamente:
– Peifil e Dailen, levem os nossos ilustres visitantes de retorno ao seu Planeta e o façam como se nada tivesse acontecido – pensou e complementou. – Afinal de contas... nada de visível ou palpável sobreviveu.
O Rei dirigiu-se para Jaime. Depois para Rodrigo. Estendeu a sua mão pequena para ambos e se despediu:
– Adeus. Lamento por vocês não poderem desfrutar do nosso amanhecer... Temos treze sóis.
– Treze sóis!! – exclamou Jaime.
– Isso para vocês seria um espetáculo. Porém o traço do destino não deve ser forçado, ele nos ensina muito, temos que aprender com ele ou nos lastimaremos no futuro – e cogitou num tom reparador. – Quem sabe um dia? O avanço tecnológico é rápido... e de progressão imprevisível.
Peifil e Dailen encaminham-se para a nave. Jaime, segurando Rodrigo pela mão, passo a passo, lento, vai andando de costas, olhando para a multidão. Rodrigo dá um cutucão no pai e comenta sorridente:
– Pai, joguei um game supimpa lá no Palácio. A gente interage de verdade. Parece que estamos dentro do jogo. Tinha dois meninos jogando comigo. Cara!... dá medo! Matei um montão de bichos esquisitos. Tinha até uma hidra com dentes afiados e...
– Hidra? – redarguiu Jaime interrompendo. – E se eu lhe disser que lutei com duas agorinha?
– Ah! sim... corajoso. Pai, a hidra era...
– Tá bom, filho, em casa você me conta. Agora temos que embarcar – Jaime ajeitou o topete desalinhado do filho e não resistiu; troçou:
– Porque se você demorar, por aqui mesmo vou lhe deixar e quando sua mãe questionar...
– “Hiii!... pai, aqui não, por favor” – resmungou Rodrigo.
- É filho, sou obrigado... a concordar, serei antiquado... se perseverar.
Rodrigo ficou calado com receio de que Jaime prosseguisse na brincadeira.
Chegaram aos degraus invisíveis da nave e subiram. Jaime experimentou até um pouquinho de desalento por estar indo embora. Do alto, acenaram para todos, que, numa voz uníssona, responderam:
– Adeus, amigos Terráqueos – e continuaram acenando.
Aquilo arrepiou Jaime. Considerou que era o derradeiro arrepio de uma alucinação que chegava ao fim. A porta da nave se fecha por completo. Peifil ofereceu para Jaime uma vestimenta limpa, para que ele a usasse, enquanto a dele, imunda, era lavada. Ao enfronhar-se na camisa apertada e na calça colante de bailarino, Jaime se sentiu desconfortável. Principalmente pela trouxa que se amontoou a um palmo abaixo do umbigo. Certamente, se lhe fosse oferecida antes, ele a recusaria, pois iria morrer de vergonha frente à Dinjara e ao Rei. Rodrigo aproveitou-se da nova indumentária do pai.
– Ainda bem que mamãe não está vendo, pai. Ela ia se pocar de tanto rir. Que coisa mais ridícula! – Rodrigo, chacoteador, tampava a boca e ria descaradamente.
Jaime não contestou; porque aquele traje, vexatório, realmente não combinava com ele.
Peifil e Dailen conversaram em sua língua por um bom período. Peifil, com um sorriso largo na face benfazeja, informa:
– Jaime, lhe daremos uma pequena retribuição pelo que você fez por nós. O Rei nos autorizou...
– Nós... andaremos no tempo e lhe... ensejaremos o amanhecer em Claus – propalou Dailen. – E sem restrições.
Jaime despeja-se no primeiro tamborete que vê. Seus neurônios descarrilam.
– Vocês andam... no tempo... nessa nave?! – perscrutou céptico e balbuciou paradoxal. – Como alguém pode ler o que ainda não foi escrito?!
Rodrigo cutucou o pai como se ele não devesse agir daquela maneira tão boba.
– Sim, senhor Jaime Brosso. Só não pense que aqui é a fonte da juventude eterna – escarneceu Dailen.
Jaime, no apogeu da realização impossível, persiste sem se importar com a redundância:
– Vocês voltam para trás e caminham para a frente?
– Bem, também não é simples assim... – salientou Peifil com ar reticencioso. – Existem inúmeros mistérios... regras... condicionantes. Não podemos ir muito longe... mergulhamos num abismo inexistente. A máquina tem limites.
– Conseguem interferir nos acontecimentos?!
– Não, Jaime, somos meros telespectadores diante de um televisor que exibe um vídeo velho ou ainda não filmado.
– Como assim?! – perquiriu Jaime na esperança de ter esclarecida a sua decepção.
Peifil e Dailen se entreolharam em cumplicidade. Sobrevoava entre eles uma encenação expectante. Dailen, simpático e benévolo, assentiu:
– Pode explanar tudo para ele, Peifil. O Rei referendou que... nada sucedeu – e deu de ombros.
– Jaime, sair do presente é como contemplar a vida por uma janela fechada. Não podemos abri-la. Porque, se a abrirmos, ultrapassaremos as fronteiras da lógica transcendental... isto é, nós não entraremos no circuito... ele é que entrará em nós. Por não pertencermos a ele... simplesmente desintegraremos.
A curiosidade de Jaime aguçou:
– Qual a velocidade que vocês desenvolvem...?
– Ora, Jaime, não estamos nos referindo a “andar no tempo”?
Jaime sacudiu a cabeça, asseverando ansioso, na espera de uma revelação inverossímil.
– Basta você ter uma máquina que viaje a uma velocidade acima da dele!
As teorias de Jaime rodaram como um pião perereca. Não sabia qual era a sua expressão ante o disparate. Mas Rodrigo o cutucou novamente. Jaime não aportou numa conclusão óbvia e, com astúcia, disfarçou:
– Faz sentido... – seus miolos, bestificados, divagaram desarmônicos. Por fim rendeu-se. – É muito louco... a massa cefálica não equaciona... o princípio, a extremidade, o enredamento é... inalcançável.
– Sim, Jaime, é muito louco mesmo – intrometeu-se Dailen acabando com a festa e decretando para Peifil: – Chega de conversa mole e vamos trabalhar, senão nossos cálculos estouram.
Dailen e Peifil concentraram-se na cerimônia das digitações e a nave alça voo.
– Tudo preparado para partir – comunica Peifil.
Os quatro sentaram-se nas poltronas e aguardaram a contagem regressiva executada num painel. Jaime digladia para pôr a cachola em ordem racional. Ouve um ruído alto de turbina. O ambiente é envolto numa trepidação suave. O corpo vai ficando dormente e aos poucos apaga tudo na mente. Num estalo ensurdecedor, um raio cai dentro da nave. Jaime e Rodrigo se assustam ao dar de frente com os treze sóis, numa aproximação gradual.
– Com mil caracóis!!... Isso é fugir do presente!? – balbuciou Jaime, pasmado, para o seu traje apertado. No entanto, Peifil ouviu.
– É, Jaime. Estamos vendo o que ainda vai ser. Poderia ser o último minuto de um jogo de futebol que ainda nem teve a data marcada.
– Nossa!... Para mim isso é incoerente – assegurou Jaime atoleimado.
– Às vezes, para mim também, Jaime – declarou Peifil num sorriso amistoso.
Rodrigo não só contava os astros, como prestava atenção à conversa, pois indagou ávido, com ar detetivesco:
– Quer dizer que se alguém encontrar um elemento morto... pode ver o assassino?
– Acertando o exato momento, sim – respondeu Peifil boquiaberto com a sagacidade dele.
Rodrigo, esfuziante, recomeçou a contagem, conferindo se eram treze.
– Treze... tá certo!
Eram treze bolas abrasantes. Redondas, alinhadas no horizonte. As luzes dos sóis ainda não ofuscavam os olhos, assim, dava para encará-los. O menor deles se assemelhava ao da Terra. O maior equivalia a sete vezes mais, em uma distância bem menor. Tão perto que dava para ver, no seu núcleo, uma espiral em lavas se mexendo.
Peifil e Dailen, em vez de admirarem os sóis, olhavam os Terráqueos que se embriagavam, num deslumbramento notório, diante da paisagem nunca vislumbrada. Realizavam-se em êxtase. Rodrigo extrapolava eufórico, não tinha mais casa nem mãe, apenas participava de uma viagem turística interplanetária.
– Vocês tiveram a primazia de deleitarem-se com os vinte e três segundos mais bonitos do alvorecer de Claus – mencionou Peifil satisfeito. – Agora temos de partir, porque a temperatura vai esquentar.
Aquela paisagem inebriante foi ficando para trás até desaparecer do alcance das vistas de todos. Dailen pediu que colocassem os óculos e o capacete, pois o processo de retorno iria iniciar. Jaime sentia-se leve com a lembrança dos sóis que despontavam no horizonte. Após um brilho intenso, tudo escureceu. Coçou o couro cabeludo. Passou a mão pelo rosto. Um zumbido incômodo atormentava seus ouvidos.
– Turbina danada – resmungou de olhos fechados.
Virou-se e bateu na cabeça de Rodrigo, devido à mochila, nas costas, ter lhe desequilibrado. Abriu os olhos passivamente. Torceu o pescoço em articulações e deslocamentos relaxantes. Assombrou-se:
– "Estou dormindo!... De dia!.. Dentro de um ônibus? E Rodrigo também?"
Esquadrinhou enigmático ao redor. Estava vendo meio embaçado. Alguns passageiros conversavam, espantados, apontando para eles sem ao menos despistarem. Jaime, entre mil reminiscências retesadas, num anacronismo cerebral avivado, tentava se situar no recinto.
– "Meu Deus! O que é isso? O que faço nesse ônibus?!... Não acordei em minha cama?... Nunca dormi à tarde! Será que agora é que eu estou sonhando?"
Veio-lhe na memória um ponteiro que retrocedia. Procurou ligeiro o relógio no pulso.
– "Quatorze horas e vinte minutos.”
Jaime passou os olhos para o calendário sem sobressalto, já que o horário estava correto.
– "Confere... É hoje mesmo. Fui ao banco. Acertei o financiamento... e saí com Rodrigo... Perfumaria. Como dormi? Por que estou cismado?... A nuvem branca!... Que nuvem?"
Jaime ergueu a perna direita em cãibras. Passou a mão no vidro empoeirado para ver lá fora. A paisagem permaneceu embaçada. Ajeitou os óculos, porém, não adiantou.
– “Devo ter sujado meus óculos” - retirou-os para limpá-los e o céu se revelou azul e límpido. – "Meu Deus!... Vejo longe... nitidamente... sem os óculos?! Estou sonhando mesmo!" - Automatizado colocou os óculos no bolso. – "Só encontro essa justificativa... é tanta besteira que... Fui sequestrado com Rodrigo?!... Opa!!... Este lugar é estranho. Este ônibus também.”
Jaime notou que as ruas eram desconhecidas. Veio uma nova inquietação seguida de um calafrio percorrendo o corpo inteiro.
– "Oh, não, vai desencadear tudo de novo? Não, por favor, não. Não posso permitir... já padeci demais no pesadelo anterior.”
– Motorista – falou com a garganta meio seca –, que ônibus é esse?
O motorista inclinou-se focalizando o retrovisor interno a fim de identificar o autor da pergunta e, mesmo sem conseguir, retorquiu com a educação que conhecia:
– Pô, meu... você não leu a bandeira?
Como Jaime poderia culpar alguém por algo que nem ele mesmo explicava? O motorista tinha razão. Ele estava dentro de um ônibus. Devia ter embarcado em algum ponto da Avenida Beira-Mar.
– "Só que não me lembro disso" – amargou Jaime impotente.
Também não podia ficar sentado ali parado. Agitou Rodrigo pelos ombros.
– Rodrigo... – nada. – Rodrigo, acorda!
Rodrigo espreguiçou-se, contorceu-se como se estivesse em sua cama e resmungou:
– Ainda é cedo. Só mais um pouquinho.
– Vamos saltar. Pegamos o ônibus errado, filho.
Jaime puxou o sinal. Arrastou Rodrigo pelo braço que, sonolento, veio cambaleando.
– Pai, que foi?!
Saltaram do ônibus e Jaime, com o olhar atento, rebuscava no espaço físico e psíquico de sua memória entorpecida se já haviam atravessado a ponte. Rodrigo, com o cabelo todo desgrenhado, esfregava os olhos se dando conta que estava numa calçada.
– Como vim parar aqui, pai?
Jaime investigou cauteloso e indeciso:
– Rodrigo, você dormiu?... Sonhou alguma maluquice?
– Acho que dormi, só não sonhei. Não embarcamos no ponto do Porto?... Pai, eu não entrei nesse ônibus...!
Jaime pensou em admitir que ele também não, mas isso só iria complicar a situação. Resolveu assumir a ampla culpa.
– É filho, presumo que dei bobeira. Cochilei duas vezes.
Jaime empenhou-se em se localizar. Ao avistar o Convento da Penha viu que não estava perdido. Porém sua casa ficava do lado oposto, distante uns dois quilômetros. Poderia ir a pé, mas o joelho, com certeza, não resistiria.
– "Preciso tomar coragem e operar essa porcaria de menisco.” - Jaime sacudiu a perna. Sentiu o membro diferente. Ajeitou a mochila de Rodrigo nas costas e resolveu arriscar. – Rodrigo, você topa ir para casa andando? Estamos perto.
Saíram caminhando e os pensamentos incorporaram em Jaime.
– "Será que foi só um delírio febril extravagante?... Rodrigo estava comigo. Caramba!... Estou vendo tudo muito bem sem meus óculos!... Será que continuo sonhando?”
Procurou debulhar as minúcias, contudo elas vinham enevoadas e apagavam. Um termo veio-lhe à cabeça e escapou pela boca:
– Dinjara!...
– O que foi, pai? – interrogou Rodrigo distraído.
– Nada, filho. Estou... estou... Coisa minha. "Dinjara... nome escalafobético. Ela prometeu que eu não iria esquecê-la. Só me recordo desse detalhe... vagamente... e o aniversário de..." - estabanado, bateu a mão no bolso. – Droga!... Perdi o presente de Maria Lúcia... e a minha caneta também! – Jaime notou o corte na manga. – Ainda por cima rasguei a camisa naquele ônibus!
– Hi! pai... e agora?
– Rodrigo, você tem certeza que não sonhou com nada?
– De novo, pai?!... Já disse que não.
– Nem jogou videogame?... Serpentes? Raios? Perfume? Cipós?! Armas! Punhal! Sóis! – Jaime reproduzia as imagens que piscavam em sua cabeça, mas não sintonizavam nem por um segundo.
– Tá maluco?!... Afinal o que aconteceu, pai?
Jaime não respondeu, já que, novamente, não tinha explicações nem para si.
– Sem presente não podemos ir ao aniversário, Rodrigo.
– Caramba! Mais essa agora?... Eu quero ir.
Rodrigo manifestou-se deveras agastado. Saiu andando na frente, emburrado, batendo os pés em pirraça. Jaime permaneceu absorto, remoendo, concatenando os pedaços de um quadro que se reproduzia e espatifava de imediato.
– "Foi muito real. Muito vivo. Só uma... alcunha... incomum... Dinjara... não é o bastante.” – inconformava-se Jaime. – "Era um lugar longínquo... Não adianta, só vejo fragmentos sem forma... há um bloqueio no cérebro. Espere!... Ela me agraciou com... um... um cordão!!"
Quando Jaime bateu a mão no peito e sentiu aquele cordão sob a camisa, com alguns objetos pendurados, ele não teve mais dúvida.
– "Não estamos sozinhos!... Há muitos enigmas ainda para serem elucidados entre o céu e a Terra.”
Jaime, com a mão trêmula, olhos arregalados, pegou o cordão. Observou os três penduricalhos que estavam argolados. O primeiro era o desenho de um palácio; o segundo, uma pirâmide, e o terceiro mais parecia metade de uma bolinha de gude. Tocou na bolinha e teve a sensação de que alguém respirava no seu cangote. Num lampejo de memória, ele rompeu o invólucro mental em clareza contundente:
– “Peifil, Dailen, Dinjara, o Rei Ojes!... Meu Deus!... E eles não creem em Vós” – todas as vicissitudes decorridas naquele panorama pedregoso tornaram-se reais. – "Monarquia Igualitária... Fui condecorado com o Colar de Claus! Dinjara me deu este... sensor?!... Estou sendo monitorado?!... Que peripécia descabida! Que despautério!... Ufologia!... OVNI... Alienígenas... que julguei crendices. Universos vizinhos! Onde já se viu?... Meu Deus!... Viajei no tempo!... Ninguém vai me dar trela. Vão caçoar de mim... charlando que acredito em duende, Papai Noel, mula sem cabeça... Espere!... Dinjara recomendou que eu não contasse pra ninguém. Recebi isso como uma medalha de honra. Não posso desapontá-los. Essa será mais uma de minhas aventuras sem testemunha. Caramba!... Li, que levaríamos em torno de 60 mil anos para chegarmos a um Planeta da estrela mais próxima da Terra. Como regressei em apenas vinte minutos... se fui... além do desconhecido?!... Ah!... O Grande Vazio... é mesmo um Divisor do Tempo?!... Retorna ao exato momento em que se penetrou nele?!...
Jaime não dimensionava o que isso representava e matutou:
– “Pelo visto apagaram tudo da cabeça de Rodrigo. Eles me operaram!... Estou enxergando normalmente e meu joelho está recuperado. Nem vou aparecer no ortopedista... e trocarei de oftalmologista.”
Jaime guardou o cordão e saiu correndo para alcançar Rodrigo, pois desconfiou que não receberia réplica alguma para o seu desassossego premente e que jamais entenderia o que realmente lhe sucedera nessa tarde.
– Espere por mim, Campeão – grita para o filho.
Rodrigo nem lhe dá atenção.
– Espere aí... medalha de ouro.
Rodrigo parou e voltou num andar compassado, apático, se desculpando encabulado:
– Foi mal, pai. Desculpa aí, vai?
– Sem ressentimentos, filhão.
Jaime curvou-se para abraçá-lo.
– Pai, você comprou artesanato? – inquiriu Rodrigo ao avistar o cordão no pescoço de Jaime.
– Ãh... Sim... um artesão... vendia isso...
Rodrigo pegou no cordão. Jaime expectou-se temeroso.
– Parece bem feitinho, pai – e comentou. - Mas são só três bugigangas sem valor.
Jaime respirou.
– É, filho. Comprei para... ajudar o rapaz. Você sabe que muitos vivem de...
– Ah, pai – atalhou Rodrigo abaixando a mochila do ombro de Jaime –, me deixa apanhar a minha caderneta de anotações. A professora Lucíola escreveu umas frases interessantes no quadro... do feitio que você gosta. Ela disse que é para cativar o espírito... e eu copiei.
Rodrigo, animado, abriu o zíper da mochila e pegou sua caderneta.
– Escuta essa, pai: os sonhos não envelhecem porque a cada dia que passa nós os aperfeiçoamos.
– Bonito isso, filho! É de quem?
– Ela disse que é dela. Tem outra melhor: a felicidade sempre vem ao nosso encontro, nós é que, na maioria das vezes, desviamos dela.
– Também é muito boa, mas para o meu gosto ainda ganha a primeira.
– Espera, pai, ainda tem mais uma. Nessa eu me amarrei de montão... escuta: quando o amor está presente... a alma levita.
– Já descobri tudo, Campeão... você está de rabicho preso... apaixonado por alguma menininha daquele colégio...!
– Ô pai, eu não tenho namorada – reclamou Rodrigo, acabrunhado, guardando a caderneta.
Porém, num piscar de olhos, ele mudou de ares. Estufou o peito e se mostrou entusiasmado. Jaime esperou mais uma de suas proezas, mirabolantes, da hora do recreio.
– Pai, fiz um golaço incrível na pelada de hoje. Chutei assim, ó... de trivela. A bola pegou um efeito anormal... enganou o goleiro, bateu na trave e entrou. A turma ficou de água na boca.
– Muito bom "Ronaldinho"... sempre contando suas vantagens, né?... Seu perna de pau!
– Não tá acreditando em mim? Pergunta pro xará quando ele for lá em casa... ele viu – defendeu-se Rodrigo com vivacidade.
Jaime teve certeza que seus amigos do espaço varreram as lembranças do cérebro de seu filho e brincou:
– Eu vou averiguar... e se ele negar... será o seu fim... um castigo vou lhe aplicar... para você nunca mais inventar... estórias falsas assim.
– Oh! pai... para com isso, vai? – retraiu-se com um sorriso contido. – Sabe pai, vou ser arqueólogo. Fazer escavações nas pirâmides do Egito e casarões abandonados...
– Por que você não estuda astronomia?
Jaime fingiu dar-lhe um beliscão na barriga. Rodrigo esquivou-se sorrindo, e abreviou:
– Muito chato. Não tem nada além do céu!...
Jaime abraçou-se a ele, colocou a mão sobre seu ombro e foram andando para casa, despreocupados.
Jaime Brosso, renovado, disfarçadamente procurava no céu... uma nuvem branca.


                                                             fim


POSFÁCIO:

UM ALERTA.

Estamos "acostumados" a assistir nas salas dos cinemas refrigerados, mescladas aos sons estridentes, cenas em que criaturas de outros Planetas invadem a Terra com armas poderosíssimas; ou, então, com raquíticos raios de uma luz opaca, porém que nos aniquilam facilmente.
“Habitualmente” eles chegam de três maneiras: a primeira – vagarosamente, com estratégias de ataque para serem decifradas como um complicado quebra-cabeça. A segunda – deixam indícios, obscuros e indubitáveis, de uma presença sobrenatural bem perto de nós; e a terceira – bem, a terceira é assim: aparecem, repentinamente, do nada, com milhares de OVICI - Objetos Voadores Identificados Como Inimigos – matando, saqueando e destruindo tudo o que encontram pela frente.
Após assistirmos à destruição de mais da metade das sete maravilhas modernas de nosso querido Planeta Terra e constatarmos que tudo está perdido, que seremos massacrados como cordeirinhos... que só nos resta rezar... Eis que surge alguém que, geralmente sem querer, descobre que xixi de recém-nascido e a nota musical sol, acompanhada por uma determinada batida num vergalhão enferrujado, transformam-se num veneno mortal para os invasores horripilantes.
Destemido, nosso pacato cidadão sai para as ruas vaporizando xixi de recém-nascido ao vento, batendo num ferro qualquer – seguido por outros bravos Terráqueos que executam, num pequeno instrumento de sopro, a salvadora nota musical.
Torcemos, sem pestanejar, por esses valentes atores, herói-cômicos, que, audazes, salvam o Planeta Terra de mais uma invasão de alienígenas perversos, e nos fazem vibrar, ao presenciarmos o desenlace, quando suas cabeçorras horríveis explodem, lançando nos para-brisas dos carros, nas vidraças das casas e sobre as calçadas, uma meleca rosa-maravilha – que deu muito trabalho aos contrarregras para equacionarem a receita certa – numa mistura gosmenta de corantes e centenas de tintas coloridas antitóxica, associadas a vegetais triturados no liquidificador.
Talvez um dia a Terra venha, sim, a ser atacada por seres quiméricos evoluidíssimos. Entretanto, quando isto ocorrer, é porque necessitam de cobaias para experimentos científicos ou escravos para serviços pesados. Quiçá se não forem antropófagos em busca de alimento pelo espaço sideral.
Felizes os que aqui não estiverem.

